CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C 2013 Lc 10, l-12.17-20
A vocação, dom mais precioso que o poder
Os Atos dos Apóstolos
apresentam um fato ilustrativo da efetividade de tal poder ao narrar o ocorrido
com São Paulo durante uma de suas incursões na bacia do Mediterrâneo, para
difundir o Evangelho: picado por uma víbora, não sofreu nenhum mal, deixando
estupefatos os nativos da região (cf. At 28, 3-6).
No entanto, muito mais amplo é
o significado da promessa feita pelo Mestre. Segundo um conceituado exegeta
moderno, as mordidas e veneno desses animais peçonhentos “sintetizavam, no
mundo antigo, os perigos da morte, e são símbolo do ‘poder do inimigo”,20 ao
qual Cristo Se refere. Nosso Senhor confirma, portanto, estarem os discípulos imbuídos
de força sobrenatural para enfrentar os assaltos do demônio. Essa proteção divina
nunca falta aos que se encontram no exercício das atividades próprias à sua
vocação específica, e havia sido especialmente comprovada pelos 72 durante o
período da missão.
20 “Contudo, no vos alegreis porque
os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão
escritos no céu”.
Os excelentes resultados da
evangelização, na qual os discípulos haviam manifestado em abundância os dons
recebidos da Providência para o benefício das almas, atraíam os aplausos da
opinião pública, como sói acontecer. Se tais homenagens não fossem restituídas
a Deus, convencendo-se eles de que eram mero instrumento para a ação da graça,
o bom êxito do aposto lado poderia constituir perigoso obstáculo para a vida
espiritual de cada um. Pouco a pouco, de modo quase imperceptível para eles, o
desejo inicial de glorificar a Deus seria substituído pelo egoísmo pretensioso,
ávido de receber honras pessoais. Por isso, o Salvador afasta a primeira
jactância e a corta pela raiz, pois dela nasce o desejo de vanglória; corta-a
com rapidez, imitando os melhores agricultores que, no mesmo momento em que
veem brotar uma praga no jardim ou entre as hortaliças, arrancam-na pela
raiz”.21 Em seguida, com grandeza e simplicidade infinitas, Jesus lhes revela a
mais sublime dádiva por Ele concedida, muito superior ao domínio sobre a natureza
e as potências infernais, e pela qual realmente deveriam exultar de
contentamento. Por cumprirem com perfeição sua finalidade nesta Terra, devotam a
Deus a glória que Lhe era devida, a cada um deles estava garantida a verdadeira
e eterna felicidade: seus nomes estavam escritos no Céu”.
O conjunto dos ensinamentos
contidos no Evangelho deste 14º Domingo do Tempo Comum nos leva a uma importante
conclusão. A ilusão óptica é uma das numerosas impressões enganosas captadas
por nossos sentidos, os quais, por esse motivo, devem ser submetidos aos
sensatos juízos da razão. Entretanto, se muitas das percepções transmitidas pela
sensibilidade podem ser falsas, nada é causa de tantas ilusões — desde os
primórdios da História, a começar por Adão e Eva, no Paraíso — como o modo de
se obter a felicidade. Esse é o primordial desejo do homem, procurado com ardor
insaciável durante toda a vida. No mundo atual, muitos a confundirão com as
inovações da técnica ou da ciência; outros, com os ditames da moda e do culto à
saúde; outros ainda, com os lucros financeiros, o bom êxito nos negócios, o
relacionamento social, a realização profissional, os sonhos românticos, etc.
Além de não saciarem a sede de felicidade natural, essas ilusões do mundo não poucas
vezes colocam em risco também a felicidade eterna, por conduzirem ao pecado, o
qual, sendo uma desordem do homem em relação a seu fim, que é Deus, traz como
consequência inevitável, após uma satisfação passageira, a frustração e a
tristeza.
À missão dos setenta e dois
discípulos escolhidos por Jesus bem caberia o título de evangelização cia
felicidade, sob dois aspectos. Primeiro quanto aos discípulos, porque se davam
por inteiro em benefício do próximo, movidos pelo amor a Deus, experimentando
em si mesmos como “há mais alegria em dar do que em receber” (At 20, 35). Depois
quanto às almas favorecidas pela pregação, porque lhes era oferecida a
possibilidade de cumprirem os desígnios de Deus, transformando a vida terrena em
preparação para o Céu.
Também a todos nós, batizados,
o Mestre chama à verdadeira felicidade, fruto da boa consciência e da
fidelidade à vocação individual outorgada por Ele próprio, quer se desenvolva
esta no estado sacerdotal, quer no religioso ou no leigo. Tal felicidade terá
como essência a evangelização, ou seja, fazer o bem às almas, apresentando-lhes
as belezas do sobrenatural e instruindo-as na verdade trazida por Cristo ao
mundo. Em suma, hoje o Salvador nos convoca a transmitir a todos os homens a
alegria de glorificar a Deus, trabalhando para que a vontade d’Ele seja efetiva
na Terra assim como o é no Céu.
1) SÃO
BOAVENTURA. In I Sent. d.44, a.1, q.3. In: Opera Omnia. Florença: Ad Claras Aquas (Quaracchi), 1883, tI, p.786.
2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma
Teológica. I, q.44, a.4.
3) ROYO
MARIN, OP, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1996, v.1, p.29.
4) Idem, p.3 8.
5) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os
gentios. L.1II, c.24.
6) A esse respeito, ver FILLION,
Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo Vida pública. Madrid: Rialp,
2000, v.11; LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. L ‘Evangile de Jésus-Christ avec la
synopse évangélique. Paris: Lecoffre — J. Gabalda, 1954.
7) PEIRÓ, SJ, Francisco Xavier. Evangelio
comentado. Madrid: Sapientia, 1954, v.1, p.807.
8) Já no século g Santo Agostinho
recomendava em sua regra: “Quando sairdes de casa, ide juntos; quando chegardes
aonde fordes, permanecei também juntos” (SANTO AGOSTINHO. Regula ad Servos Dei,
IV, 2. In: Obras. Madrid: BAC, 1995, v.XL, p.570).
9) SANTO
AMBRÓSIO. Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. LVII, n.46. In: Obras. Madrid:
BAC, 1966, v.1, p.367.
10) SAO CIRILO DE ALEXANDRIA. Comentario
al Evangelio de Lucas, 61, apud ODEN, Thomas C.; JUST, Arthur A. La Biblia
comentada por los Padres de Ia Iglesia. Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva,
2006, v.111, p.246. 199
11) Cf.
LAGRANGE, op. cit., p.213.
12) SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in
Evangelia. LI, horn. 17, n.5. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p.602.
13) Cf.
CARRILLO ALDAY, Salvador. El Evangelio según San Lucas. Estella: Verbo Divino,
2009, p.217.
14) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei.
LXIX,
c.13, n.1. In: Obras. Madrid:BAC, 1958,
v.X VI-X VII, p.13 98.
15) SÃO GREGÓRIO NAZL’NZENO, apud SÃO
TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.X, v.3-4.
16) TEOFILATO, apud SAO TOMÁS DE AQUINO,
Catena Aurea, op. cit., v.5-12.
17) PEIRO, op. cit., p.810.
18) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud SÃO TOMÁS
DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit., v.3-4.
19) LAGRANGE, op. cit., p.158.
20) CARRILLO
ALDAY, op. cit., p.219.
21) SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Comentario
al Evangelio de Lucas, 64, apud ODEN; JUS1 op. cit., p.251.
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