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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Evangelho XXXIII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 13, 24-32

Continuação dos comentários ao Evangelho XXXIII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 13, 24-32 

AINDA É TEMPO DE ARREPENDIMENTO E CONVERSÃO
Este mundo, manchado pelos pecados da humanidade, terá de ser purificado pelo fogo antes mesmo do Juízo Final. Que magnífico espetáculo nos oferece a Liturgia desses três domingos consecutivos! Excelente ocasião para meditarmos em nossos novíssimos, conforme nos aconselha o Eclesiástico: “Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis” — “Lembra-te, homem, dos teus novíssimos, e não pecarás jamais.” (7, 40). Ótima oportunidade para analisarmos nosso comportamento diante das graças recebidas, desde o nosso Batismo até agora. Fomos fiéis a todos os convites feitos pelo Espírito Santo no interior de nossas almas? Se nós, hoje, devêssemos nos apresentar diante do Juízo de Deus, certamente tremeríamos por tantos caprichos e desordens que emperram nosso progresso na vida espiritual.
Felizmente, ainda há oportunidade para bons propósitos e mudança de vida. Este é um dos objetivos da Liturgia de hoje. Não sabemos qual será o dia de nosso Juízo Particular, nem do Juízo Final (10). A morte se avizinha de nós a cada segundo, o pecado ganha terreno em nossos hábitos, nosso coração vai se endurecendo passo a passo e o livro diário de nossa vida vai sendo escrito por Deus sem que um só mínimo ato, pensamento ou desejo seja por Ele negligenciado.
Esse diário minucioso e implacável será objeto do julgamento de cada homem na hora de sua morte, e proclamado para conhecimento de toda a humanidade e dos Anjos no dia do Juízo Final. Resta-nos ainda tempo de misericórdia e de perdão, saibamos humilhar-nos e rogar especiais graças de conversão, para assim apagarmos, pelo arrependimento, os horrores que nos encherão de vergonha naquele dia de ira, calamidade e miséria.
“Bem-aventurado o homem que recebeu o dom do temor de Deus”, diz a Sagrada Escritura (Eclo 25, 15). Mais adiante, acrescenta o Eclesiástico: “Se não te atas fortemente ao temor de Deus, pronto será derrubada tua casa” (27, 4). O ano litúrgico é pleno da suavidade, doçura e mansidão de Cristo, mas não devemos menosprezar o temor, especialmente nestes domingos em que são focalizados os fenômenos escatológicos.
Conforme nos ensina o Cardeal J. H. Newman, “o temor e o amor devem ir juntos; continuai temendo, continuai amando até o último dia de vossa vida (...) deveis saber o que significa semear aqui embaixo com lágrimas, se quereis colher com alegria no além” (11).
E Santo Agostinho, em seu sermão sobre a humildade e o temor de Deus, comenta: “Bem-aventurada a alma que teme a Deus, está forte contra as tentações do diabo. Bem-aventurado o homem que persevera no temor (Prov. 28, 14) e a quem foi dado ter sempre diante dos olhos o temor de Deus. Quem teme o Senhor se aparta do mau caminho e dirige seus passos pela senda da virtude. O temor de Deus torna o homem precavido e vigilante para não pecar. Onde não há temor de Deus, reina a vida dissoluta.”
 1) Suma Teológica, III, qq. 7 e 59. 2) Suma Teológica, III, qq. 48-49. 3) Ernesto Mura, Il Corpo Mistico di Cristo, Ed. Paoline, Alba, 1949, p. 327. 4) Idem, p. 343. 5) Opúsculo 13, 241. 6) Suma Teológica - Suplemento, q. 73, a.1. 7) Opúsculo 13, 241. 8) Suma Teológica - Suplemento, q. 80, a. 1 9) Opúsculo 13, 157. 10) Cf. Mc 13, 28-33. 11) Sermões Paroquiais, Sermão 24.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Evangelho XXXIII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 13, 24-32

Continuação do post anterior
Cristo, Juiz dos mortos e dos vivos
Logo a seguir, no versículo 26, Marcos procura dar ênfase ao “grande poder e glória” do “Filho do homem (ao) voltar sobre as nuvens”. Jesus possui duas naturezas: a humana e a divina. Pela divina, é Juiz desde toda eternidade. Mas como se poderá compreender a origem de seu humano poder de julgar?
Consideremos inicialmente que Jesus, por sua Paixão e Morte, tornou-Se nosso Salvador. Ensina São Tomás que seu poder de juiz universal decorre justamente dessa nossa libertação da morte e do pecado, operada por Ele através de sua natureza humana: “Por isso há de se dizer que, segundo a natureza humana, (Cristo) nos libertou tanto dos males espirituais como dos temporais, e nos obteve os bens espirituais e eternos. É natural que quem adquiriu os bens, os distribua. Esta distribuição exige um juízo para que cada um os receba conforme seu grau. Portanto, Cristo, segundo sua humana natureza, foi constituído por Deus juiz sobre os homens que salvou. (...) Cristo se humilhou até o extremo ao submeter-se a um juiz humano que O julgou injustamente. Como prêmio disto, Deus O constituiu juiz dos mortos e dos vivos” (5).
Foi o próprio Jesus Quem nos disse: “Aquele que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado” (Mt 23, 12).
O glorioso Juiz: gáudio para os bons, tristeza para os maus
Poder-se-ia perguntar se não seria melhor, para castigo dos maus, o Salvador aparecer no dia do Juízo sem exteriorizar todo seu “grande poder e glória” (v. 26). São Tomás de Aquino, com sua insuperável clareza, discorre sobre o assunto, inicialmente provando a necessidade de ser o Juiz Eterno anunciado por acontecimentos grandiosos: “Cristo aparecerá para julgar os homens, revestido de glória, em virtude da autoridade própria de juiz. Ora, a dignidade do poder judiciário deve ser precedida de certos sinais que despertem reverência e sujeição. Por isso, o advento de Cristo, como juiz, será precedido de muitos sinais, que advertirão os homens a terem os corações dispostos a submeter-se à sentença do juiz prestes a chegar e a se prepararem para o juízo” (6). Em face dessa perspectiva, colocar-se-ia uma questão: se assim for, terão os maus, pelo menos durante o Juízo, a possibilidade de ver a Deus face a face? Responde-nos São Tomás: “Se os maus vissem a Deus em sua própria natureza, ou seja, na sua divindade, teriam já com isto um prêmio, do qual se tornaram indignos pelo pecado. É, portanto, muito conveniente que Deus julgue, não segundo sua natureza própria, mas segundo sua natureza humana assumida. Assim poderá julgar os bons e os maus, sem que estes últimos recebam prêmio algum.
“Pertencendo o poder judicial de Cristo ao seu triunfo e exaltação, assim como a glória da ressurreição, aparecerá no Juízo não de forma humilde, a qual pertence ao mérito, mas gloriosa, que é própria do prêmio. Por isso se diz no Evangelho (Mt 24, 30) que se verá vir o Filho do homem sobre as nuvens com grande poder e majestade” (7).
Não nos esqueçamos de que esse glorioso Juiz é aquele mesmo Menino apresentado por Maria ao velho Simeão, o qual fez a profecia: “Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34). Ou seja, será o próprio Jesus, em sua glória, motivo de júbilo para os bons e de tristeza e pavor para os maus.
A ressurreição dos corpos
São Marcos recolhe, além do mais, a afirmação do Mestre: Ele “enviará logo os seus Anjos e juntará os seus escolhidos” (v. 27), numa patente referência à ressurreição dos corpos. Outro fato grandioso. Nesse dia, cada um retomará o próprio corpo na sua integridade, conforme nos ensina São Tomás na Suma Teológica: “O homem há de ressurgir perfeito, pois se reconstituirá para receber a sua última perfeição. Portanto, todos os membros que o corpo humano tiver nesta vida hão de reconstituir-se na ressurreição” (8).
Ademais, em outra obra São Tomás afirma: “Como o homem há de receber pena ou prêmio, segundo os atos executados durante a vida, é conveniente que os homens conservem os mesmos membros com os quais serviram ou ao pecado ou à santidade, para que assim sejam castigados ou premiados os mesmos que pecaram ou mereceram” (9).

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Evangelho XXXIII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 13, 24-32

Comentários ao Evangelho XXXIII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 13, 24-32
24 Naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol escurecer-se-á e a lua não dará sua claridade, 25 e as estrelas cairão do céu e as potestades que estão nos céus serão abaladas. 26 Então verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória. 27 E enviará logo os seus Anjos e juntará os seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da terra até a extremidade do céu. 28 Ouvi uma comparação tirada da figueira: Quando os seus ramos estão já tenros e as folhas brotam, sabeis que está perto o verão; 29 assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do Homem está perto, às portas. 30 Na verdade vos digo que não passará esta geração sem que se cumpram todas estas coisas. 31 Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar. 32 A respeito, porém, desse dia ou dessa hora, ninguém sabe, nem os anjos do Céu, nem o Filho, mas só o Pai (Mc 13, 24-32).

Liturgia da contrição ou da glória?
O Ano Litúrgico, síntese perfeita da existência terrena de Cristo, transmite-nos refrigério, luz e paz a cada passo, fazendo-nos participar das mais variadas graças. Nas leituras dos três últimos domingos deste mês, a Igreja coloca ao nosso alcance dádivas sobrenaturais especiais, propondo à nossa consideração a grandeza e a terribilidade do Juízo Final.

INÍCIO E FIM DO CICLO LITÚRGICO
Com sabedoria divina e usando de insuperável arte, neste mês de novembro, a Igreja termina um ciclo litúrgico e dá início a outro. A abertura do novo ano será muito semelhante ao fecho do anterior: o primeiro domingo do Advento tomará o trecho do Evangelho de São Lucas (21, 25-36) a propósito da segunda vinda de Cristo e o XXXIII do Tempo Comum focalizará a mesma temática segundo São Marcos (13, 24-32).
Por que usa a Igreja de um método, à primeira vista, repetitivo, sendo seu tesouro insuperavelmente amplo e variado? Qualquer um a quem ocorrer esta pergunta logo perceberá provir ela de uma impressão superficial e errônea. Em realidade, a Encarnação e o Nascimento do Salvador tomam cores mais ricas ao serem focalizados na perspectiva do retorno de Cristo no fim do mundo, pois todos esses acontecimentos referem-se a um mesmo Ser e têm, portanto, profundas analogias entre si. O Natal e o Juízo Final constituem os extremos opostos de um só e imenso arco. Na Manjedoura, encontramos o Menino “que há de vir julgar os vivos e os mortos” (2 Tm 4, 1). No Vale de Josafá, veremos o próprio Inocente nascido na Gruta de Belém “voltar sobre as nuvens com grande poder e glória” (Mc 13, 26). Ao surgir, Jesus dividiu a História em duas eras e, em seu retorno, finalizará o tempo e abrirá as portas da eternidade: “A Ele foram dados império, glória e realeza, e todos os povos, todas as nações e os povos de todas as línguas serviram-no. Seu domínio será eterno; nunca cessará e seu reino jamais será destruído” (Dn 7, 14). “O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder” (Sl 92, 1). Este é, aliás, um trecho da primeira leitura da festa de Cristo Rei do Universo, que fará a ligação entre o Tempo Comum e o Advento.
A Realeza de Cristo
Esta festa foi estabelecida por Pio XI há menos de um século (1925). Entretanto, a consideração dessa divina realeza é tão antiga na piedade dos fiéis quanto a própria Liturgia. Referências a ela transbordam desde o Advento ao Tempo Pascoal, passando pela Natividade, Epifania e Paixão. A Teologia é rica em reflexões sobre essa temática, debaixo dos mais variados aspectos. Por exemplo, São Tomás, ao discorrer sobre a origem do poder real de Cristo, demonstranos que Jesus é Rei por direito de natureza, por sua dignidade de Cabeça de todos os que estão unidos a Ele, pela plenitude da graça habitual, títulos estes gratuitos, ou seja, independentes dos merecimentos alcançados pelo Homem-Deus (1). Porém, a Liturgia deste domingo focalizará sobretudo os méritos infinitos do Redentor enquanto fundamento de sua realeza sagrada, por direito de conquista (2). A própria antífona de entrada assim afirmará: “O cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele glória e poder através dos séculos” (Ap 5, 12).
O Evangelho cantará: “Pilatos disse-Lhe então: ‘Portanto, Tu és rei?’. Jesus respondeu: ‘Tu o dizes, sou rei’” (Jo 18, 37).
E o Prefácio dará uma nota toda especial a essa realeza: “Submetendo ao seu poder toda criatura, entregará à vossa infinita majestade um reino eterno e universal: o reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz.”
Neste mês participaremos, portanto, de três domingos de grande importância para nossa vida espiritual. Antes de contemplarmos o belíssimo panorama que eles nos trazem, será de toda conveniência fazermos uma incursão pelos caminhos da Liturgia para, dessa forma, nos beneficiarmos ainda mais das graças a eles inerentes.
A Liturgia e o avanço na vida espiritual
“A vida litúrgica — com suas cerimônias, que falam aos sentidos, com seus ritos pervadidos de gravidade e de profunda religião — é a educadora dos povos” (3).
A Igreja estabeleceu um ciclo litúrgico que abarca toda a vida de Nosso Senhor e se repete ao longo dos tempos.
Assim, a Liturgia acaba sendo uma reprodução da vida mortal de Jesus, a qual, em seus vários episódios, constitui um verdadeiro céu de maravilhosos mistérios e exemplos, uma prodigiosa fonte de graça.
“O ano litúrgico, expansão da vida sobrenatural para o Corpo Místico em seu conjunto, sustenta, ademais, a vida espiritual de cada um de seus membros” (4). Por isso é indispensável, a cada dia e, mais ainda, aos domingos, concentrarmos nosso espírito na contemplação das leituras e perspectivas que são propostas pela Liturgia, tal qual nos ensina o Catecismo:
“A mãe Igreja deseja ardentemente que todos os fiéis sejam levados àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da liturgia exige e à qual, por força do batismo, o povo cristão, ‘geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista’ (1 Pd 2, 9), tem direito e obrigação” (CIC — 1141).
O JUÍZO FINAL, ÚLTIMO ATO DA OBRA REDENTORA DE CRISTO
O Fim do Mundo: júbilo ou pavor?
Focalizemos alguns aspectos essenciais e mais salientes do XXXIII Domingo do Tempo Comum, no qual a Igreja visa que participemos dos benefícios sobrenaturais que os últimos fiéis da História receberão.
A cena que o Evangelho nos propõe é a da catástrofe escatológica seguida da vinda triunfal do Senhor, e tanto poderá ela ser meditada sob um prisma de júbilo e esperança, como de pavor e horror.
Na Igreja nascente, muito vincada em sua formação pela doutrina de São Paulo, os fiéis foram conduzidos a se extasiar com os aspectos triunfais daqueles dias vindouros, conforme podemos comprovar por este trecho da Epístola aos Tessalonicenses: “O mesmo Senhor, ao mando (de Deus), à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, descerá do céu; os que morreram em Cristo, ressuscitarão primeiro; depois nós os que vivermos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens ao encontro de Cristo, nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1 Tes 4, 16 e 17). Era a divina didática do Espírito Santo, muito adequada àqueles tempos de perseguição e martírio, durante os quais os fiéis necessitavam de gloriosas e animadoras esperanças.
Bem mais tarde, à medida que a Cristandade assistia erguerem-se as muralhas de seus castelos e brilharem os vitrais de suas catedrais, o homem medieval, em função da contingência de um equilíbrio de virtudes, precisava apaixonar-se pela Cruz de Cristo e sentir dor pelos seus pecados, que causaram os tormentos da Paixão do Senhor. O Preciosíssimo Sangue de Cristo, com força e dinamismo divinos, frutificava dia após dia em novas realizações, abrindo os caminhos para um futuro promissor. Daí o fato de o Espírito Paráclito inspirar aquela era histórica a tremer, chorar e gemer diante das perspectivas postas por São Marcos no Evangelho em questão.
Qualquer que seja o mirante — terrível ou maravilhoso — no qual nos coloquemos para analisar a Liturgia do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o certo é que a obra redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo não atingirá sua plenitude enquanto não se realizar o Juízo Final. Ela se iniciou com a vida, paixão e morte de Cristo, perpetua-se pela distribuição das graças conquistadas através dos sacramentos e desfechará no julgamento da humanidade, em função da correspondência aos benefícios recebidos.
Eis aí, em rápidas palavras, o panorama litúrgico-histórico para melhor se acompanhar a seqüência desses três importantes domingos, a começar pelos dois primeiros versículos de Marcos:
“Naqueles dias, depois daquela tribulação, o sol escurecer-se-á e a lua não dará sua claridade, e as estrelas cairão do céu e as potestades que estão nos céus serão abaladas” (vv. 24 e 25).

Continua no próximo post

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 12, 38-44

Continuação dos comentários ao Evangelho  Mc 12, 38-44

Os dois polos
Também nós devemos ser generosos para com Deus, tanto quanto Ele é generoso para conosco. Temos de entregar-Lhe tudo! Entretanto, isto não pode ser interpretado como uma obrigação de nos desfazermos de tudo quanto nos pertence e passarmos a viver de esmolas. Algumas poucas pessoas recebem essa sublime vocação. Trata-se, isto sim, de compreender que todos os nossos bens — e inclusive nós mesmos — são propriedade de Deus.
A Liturgia de hoje nos apresenta uma opção entre dois polos: o da generosidade total ou o do egoísmo total. Ou escolhemos um e odiamos o outro, ou vice-versa. Ou somos de Deus inteiramente, ou somos inteiramente de nós mesmos. No meio termo ninguém fica.
Se temos uma vocação de vida consagrada, precisamos estar a cada momento dispostos a dar tudo, não apenas por causa de um compromisso assumido numa cerimônia, mas pela convicção de que nossa vida está confiscada por Deus.
No entanto, como aplicar esse princípio à vida de quem é chamado a constituir família e tem, portanto, o dever de estado de prover da melhor maneira possível os seus? A resposta é simples. Esse “dar tudo” não significa desfazer-se literalmente das próprias posses, mas sim ter em relação a elas uma atitude de tal desprendimento que elas não se constituam em amarras que impeçam a elevação de nossas almas até as coisas celestes. Se não for assim, acaba-se por cair no desvio dos doutores da Lei, denunciado por Nosso Senhor neste trecho do Evangelho de São Marcos.
Na generosidade, a perfeita alegria
O exemplo supremo do dar, dar de si e dar-se por inteiro, nós o encontramos na segunda leitura deste domingo, tirada da epístola de São Paulo aos Hebreus (Hb 9, 24-28). O Pai tinha um Filho unigênito, gerado desde toda eternidade, e não criado. O amor d’Ele ao Filho e do Filho a Ele é tão intenso que d’Eles procede uma Terceira Pessoa, que é o Espírito Santo.
Apesar desse amor entranhado, o Pai resolveu entregar seu Filho para resgatar a natureza humana, extraviada pelo pecado. E o Filho, que deveria encarnar-Se na glória, uma vez que sua alma está na visão beatífica, suspendeu essa lei para assumir uma natureza mortal.5 Ele queria dar, dar de Si e dar-Se por inteiro, e, por amor a nós, assumiu um corpo padecente, sujeito a todas as dificuldades da vida nesta Terra. “Uma vez por todas, Ele Se manifestou para destruir o pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (Hb 9, 24-26).
Eis o exemplo divino, convidando cada um de nós a, segundo nossos deveres e possibilidades, dar não só daquilo que nos sobra, mas dar tudo. Foi Deus quem nos criou e redimiu, e por isso a Ele pertencemos. Tudo é d’Ele e deve voltar para Ele.
E assim como o Sol, a água ou as árvores, se fossem passíveis de felicidade, estariam completamente felizes pelo dom generoso de si, também nós encontraremos nossa perfeita alegria no dar, dar de nós e dar-nos por inteiro.
Remédio para nossas misérias e amparo contra as tentações
Quando alguém dá de si, seu egoísmo acaba sendo sufocado em benefício do serviço aos outros. Servir — quer seja dando um bom exemplo, um bom conselho, ou prestando algum auxílio — repara as nossas faltas e ao mesmo tempo nos afasta do pecado. Assim, um modo de adquirirmos forças para enfrentar as tentações é fazer o dom de nós mesmos.
Pelo contrário, quem se fecha em seu egoísmo, desprepara-se para o momento sempre presente da tentação, pois basta-nos existir para sermos um foco de solicitações para o pecado, como diz São Pedro: “Sede sóbrios e vigiai. O vosso adversário, o diabo, ronda como leão a rugir, procurando a quem devorar” (I Pd, 5, 8).
Procuremos a felicidade onde ela se encontra
Nada traz mais felicidade a uma alma do que devolver a Deus aquilo que Lhe pertence. A justiça consiste em “dar a cada um o seu direito”.6 Ora, se vêm de Deus todas as coisas que foram criadas e estão à disposição do homem, este é devedor de tudo quanto d’Ele recebeu. O empréstimo faz parte dos acordos entre os homens. Quem empresta fica à espera da devolução do bem emprestado; e quem o tomou de empréstimo tem obrigação de devolvê-lo ao dono. Ora, se isto é assim no relacionamento humano, não podemos nos esquecer: tudo o que temos não é senão um empréstimo de Deus! Desde nossa vida, até nossas capacidades e qualidades, passando por todos os nossos bens.
Assim seremos livres, pois só é realmente livre quem é justo, e põe nas mãos de Deus tudo o que d’Ele recebeu.
Daria indícios de loucura quem, tendo perdido alguma coisa dentro de um teatro, fosse procurá-la do lado de fora, alegando que a rua está mais iluminada. E o que faz o mundo hodierno? Por ter-se afundado no egoísmo, corre atrás da felicidade onde ela não se encontra. Proclamando que a liberdade consiste em entregar-se à sanha das paixões e das más inclinações, vai à procura da felicidade no vício, no pecado e em quantas loucuras, onde encontra, não a felicidade, mas a frustração, a depressão e, por vezes, as doenças. Dessa maneira, o egoísmo, fustigado por Nosso Senhor no Evangelho de hoje, já é castigado aqui na Terra, sendo ainda merecedor da pena eterna.
A verdadeira alegria está na generosidade virtuosa, pois é nela que o homem cumpre inteiramente sua finalidade de “conhecer, servir e amar a Deus” neste mundo, de modo a “ser elevado à vida com Deus no Céu”.7
1Cf. LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Marc. 5.ed. Paris: J. Gabalda et Fils, 1929, p.328.
2TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.499-500.
3Idem, p.710.
4Idem, p.710-711.
5Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.14, a.1, ad 2.
6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.58, a.1.
7Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, n.67.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 12, 38-44

A verdadeira generosidade
43 “Jesus chamou os discípulos e disse: ‘Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44 Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver’”.
Grande deve ter sido a impressão produzida por essas primeiras palavras do Mestre. Como podia a pobre viúva ter dado “mais do que todos os outros”, se estes despejaram grande quantidade de moedas de ouro, enquanto ela depositou apenas duas moedinhas de valor insignificante?
Para esclarecer seu ensinamento, Jesus explica: a viúva jogou no cofre tudo quanto “possuía para viver”, enquanto os ricos deram do que lhes sobrava. Ao fazer essa comparação, Cristo não visava condenar os ricos, mas elogiar aquela mulher pelo fato de nada ter guardado para si. Com efeito, quando um rico entrega a integridade de seus bens, ele dá mais do que quem faz o mesmo, mas dispõe de pouco. Era o caso, por exemplo, de Lázaro, Marta e Maria, membros de uma abastada família de Israel, os quais se entregaram por inteiro a Nosso Senhor.
Aquela viúva dera tudo, pondo-se nas mãos de Deus. É muito de se crer que o próprio Jesus lhe outorgara a graça de assim proceder, propondo-Se ampará-la. Sem esta o saber, Ele oferecia à pobre mulher um bem superior a qualquer outro: a glória de ser elogiada pelo Verbo Encarnado. Nessa complacência de Nosso Senhor para com ela, entrava uma predestinação para a glória eterna.
No extremo oposto estavam os mestres da Lei: estes “devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações”, motivo pelo qual “receberão a pior condenação” (Mc 12, 40).
Deus conhece as intenções do coração
Nestes versículos, Nosso Senhor contrapõe o episódio das esmolas à denúncia antes feita contra os doutores da Lei. Em ambos os casos, vemos nas atitudes dos personagens a exterioridade, mas não o íntimo. No entanto, “o olhar de Deus não é como o do homem, pois o homem olha para a aparência, enquanto Deus olha para o coração” (I Sm 16, 7). Esse divino olhar sempre nos acompanha, nada lhe escapa. Nossa vida, nossos atos, nosso comportamento, são julgados com uma precisão absoluta pelo olhar de Deus, o qual penetra no interior de todos e analisa o fundo das almas, sabendo perfeitamente o que se passa em cada uma.
Comparando a disposição de espírito dos mestres da Lei com a da viúva, Jesus queria deixar patente a existência de dois extremos: o da generosidade, em contraste com o do egoísmo e do amor desordenado a si mesmo.
O apego, que num rico se distribui entre suas milhares de moedas, no caso do pobre se concentra em umas poucas. Renunciar a elas exige um sacrifício não pequeno, ainda mais se forem só duas. Mas aquela senhora as ofertou generosamente, depositando sua inteira confiança em Deus. É a mesma atitude assumida por outra viúva, esta da cidade de Sarepta na Sidônia, contemplada na primeira leitura deste domingo (I Rs 17, 10-16). Quando recebeu o Profeta Elias em sua casa, tinha ela apenas um punhado de farinha e um pouco de azeite para fazer um último pão para si e seu filho. No entanto, solicitada pelo homem de Deus, concordou em dar-lhe esse único alimento. Por ter agido assim, o azeite e a farinha se multiplicaram indefinidamente em sua despensa, até voltar a cair a chuva sobre a terra. Assim é a recompensa de Deus para todo aquele que dá com agrado e generosidade.
Continua no próximo post.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 12, 38-44

Fazer o bem por ostentação
41 “Jesus estava sentado no Templo, diante d0 cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias”.
Ao exemplo dado sobre o comportamento dos legistas, Nosso Senhor vai contrapor a cena que se segue. Existiam no Templo treze cofres para o depósito de esmolas. “O gazofilácio, ou tesouro do Templo”, informa-nos o padre Tuya, “estava situado no átrio das mulheres. Provavelmente havia várias câmaras para a conservação desses tesouros. Na parte anterior, segundo a Mishna, havia treze alçapões em forma de trombeta, de abertura muito grande no exterior, por onde se atiravam as oferendas”.3
Naquela pequena sociedade — ao contrário dos aglomerados de pessoas anônimas das grandes cidades modernas — todos se conheciam e, portanto, quem dava esmolas muito atraía a atenção.
Lembremos também que naquele tempo não existia o papel-moeda, mas apenas as peças cunhadas em metal nobre como o ouro e a prata, ou em metais de menor valor. Assim, esses cofres favoreciam muito o desejo de ostentação. Quem possuía grande fortuna podia com facilidade despejar neles enormes quantidades de moedas, de maneira aparatosa e barulhenta, alardeando perante os circundantes sua suposta generosidade. Como Nosso Senhor denunciara em outra ocasião (cf. Mt 6, 2), com frequência a ação desses hipócritas era precedida por toques de trombeta que anunciavam a esmola a ser dada. Feito isto, um novo toque indicava a saída do doador. Este se retirava coberto de glória, alvo da admiração das pessoas presentes, que cochichavam elogios.., calculando, sem dúvida, qual o montante depositado no cofre.
Sentado no Templo “diante do cofre das esmolas”, o Divino Mestre observava em silêncio essa cena tão comum para os conhecedores do local.
Um desmedido contraste
42 “Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada .
É importante ressaltar o contraste das duas atitudes. Podemos imaginar a viúva, já de certa idade, arrastando os pés, meio curvada pelos achaques do tempo. Segundo o padre Tuya, ela atirou dois “leptos”, o equivalente a dezesseis avos de um denário, ou seja, uma insignificância, pois “o denário era considerado como o salário diário de um trabalhador”.4
Comparado com o espalhafatoso barulho das moedas lançadas pelos ricos, reduzia-se a quase nada o leve ruído produzido pelas duas moedinhas da pobre mulher. Sem dúvida, pouca impressão causou nos circunstantes, muito preocupados em calcular o valor aproximado das esmolas que iam sendo depositadas. Como veremos depois, nada mais tinha ela para ofertar, talvez pelo fato de sua antiga fortuna ter sido dilapidada por algum rapinador, segundo a denúncia feita por Jesus pouco antes.
Perante essa cena, Nosso Senhor rompe o silêncio para dela tirar um salutar ensinamento. No próximo post.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 12, 38-44

Alertando as multidões contra a hipocrisia
“Naquele tempo, 38 Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: ‘Tomai cuidado com os doutores da Lei! eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas;  gostam das primeiras cadeiras nas Sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes.
É importante destacar o detalhe apontado pelo evangelista: Jesus falava a “uma grande multidão”. Portanto, foi um ensinamento destinado a todos e dado sem rodeios, alertando o povo contra os doutores da Lei, pelas razões expostas a seguir.
Segundo os costumes da época, era natural que todo mundo fizesse vênias especiais quando passava um doutor da Lei, aos quais estavam reservados os lugares de preeminência nos atos públicos. Conforme faz notar o padre Tuya, a praça pública, ou ágora, era o centro comercial e social da .cidade. Por isso, os escribas e fariseus gostavam de, com seus vistosos trajes, passear lenta e gravemente nesse local, para receber os cumprimentos do povo. Cobiçavam de modo especial o título de Rabi (meu Mestre). “Nas assembleias, os lugares eram determinados não só em razão da idade, mas também da dignidade do personagem, por exemplo, de sua sabedoria. Como os lugares designados em razão da dignidade eram muito menos numerosos que os destinados a pessoas por motivo da idade, queriam os fariseus, por ostentação e vaidade, que nos banquetes lhes fossem dados esses primeiros lugares, para destacar assim sua dignidade. [...J Era uma ânsia desmedida, infantil e quase patológica de vaidade e soberba” 2
Uma leitura superficial dos dois versículos acima transcritos poderia levar a crer que não se deve usar roupas belas, cumprimentar com cortesia ou favorecer a hierarquia no relacionamento social. Aliás, as roupas nobres e decorosas estão sendo abandonadas, em razão da mentalidade dos dias nos quais vivemos. Predomina o feio pelo feio, e o igualitário pelo igualitário. Vai se generalizando o gosto de vestir-se o mais negligentemente possível, de modo a poder sentar-se no chão; entram na moda o feio, o velho, o rasgado e o imoral, enquanto se simplificam ao máximo os costumes, tal como nem seres irracionais o fariam. Não é isso o que Nosso Senhor queria para seus seguidores.
O problema não está na roupa vistosa ou na honraria, mas em querer chamar a atenção sobre si, isto é, em ter a intenção, não de louvar a Deus, mas de louvar-se a si mesmo. Os costumes enumerados por Nosso Senhor, de si legítimos em algumas circunstâncias, eram do gosto dos doutores, mais por soberba do que por admiração pelas coisas belas, pelo desejo de glorificar a Deus ou pelo intuito de fazer bem ao próximo. Seu objetivo era vangloriar-se, ostentar superioridade, no fundo, serem “adorados”, incensados pelos outros. Usurpavam, pois, o lugar central pertencente a Deus. Aquele aparato de dignidade, aquela aparência de honra, respeito e sabedoria deveria corresponder à realidade; ou seja, a vida de tais doutores é que deveria torná-los credores dessas homenagens.
Entretanto, a realidade era bem diferente, e Nosso Senhor vai denunciá-la.
A aparência, manto de uma realidade pecaminosa
40 “Eles devoram as casas das viuvas, tingindo fazer longas orações. Por isso eles receberão a pior condenação”.
No Antigo Testamento, a viúva tinha muito pouca proteção, e, assim sendo, homens inescrupulosos procuravam arrancar delas o quanto podiam. Comum era o caso de viúvas sem filhos adultos, às quais tocava a responsabilidade de administrar a fortuna da familia. Nessa situação de desamparo, conforme aponta Nosso Senhor, introduzia-se um mestre da Lei que, sob a escusa de rezar, terminava por rapinar seus haveres.
Ao denunciar esse tipo de ações, o Divino Mestre deixava patente aos seus ouvintes o quanto os doutores da Lei representavam exteriormente aquilo que de fato não eram. Conheciam todos os meandros da Lei, sem praticá-la... Na realidade, portavam-se como vorazes devoradores de fortunas alheias. Ainda mais, sendo legistas, sabiam bem conduzir os processos jurídicos que rodeavam cada pleito de sucessão e, com isso, tinham maior facilidade em terminar apossando-se do dinheiro.
Portanto, sob aparência de virtude ocultava-se uma mentalidade de vampiro, cujo fim era arrancar dos outros, de forma injusta e inescrupulosa, tudo quanto fosse possível.
As funestas consequências do orgulho
Sirva-nos isto de alerta contra os perigos do orgulho. Toda vaidade — quando aceita com indulgência, como acontecia com esses doutores — acaba levando à desobediência aos Mandamentos de Deus. Condição essencial para manter-se fiel à Lei é a humildade; a chave da prática duradoura de todos os preceitos divinos é esta virtude.
No caso dos doutores da Lei, o egoísmo orgulhoso, agravado pela duplicidade de espírito, a hipocrisia de representar de maneira aparatosa aquilo que não se é, torna-os merecedores da “pior condenação”, segundo a enérgica expressão do próprio Homem-Deus: a danação eterna, no inferno, castigo adequado para quem, tomando as vias do orgulho, embrenha-se na desonestidade e em outros pecados. Fujamos, pois, de toda e qualquer vanglória, para não terminarmos por romper com os demais Mandamentos da Lei de Deus. E tenhamos a certeza desta verdade: na raiz de todo pecado grave está sempre o orgulho.

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