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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Evangelho 9º Domingo do Tempo Comum — Lc 7, 1-10 — Ano C 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho  9º Domingo do Tempo Comum — Lc 7, 1-10 — Ano C 2013
Uma oração simples, mas cheia de fé
7b “Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado. Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens. Se ordeno a um: ‘Vai!’, ele vai; e a outro: Vem!’, ele vem; e ao meu empregado ‘Faze isto!’, e ele o faz”.
Por sua formação militar, o centurião apreciava muito a hierarquia. Por isso, “primeiro recorda que está subordinado e depois que tem outros abaixo de si”,’° pondera Santo Agostinho. Novamente o oficial mostra ter uma clara noção de seu pouco valor pessoal, como também do valor dos outros, consciente de que diante de autoridades superiores qualquer poder de mando se converte em obrigação de obedecer.
São Lucas registra com precisão o modo peculiar de fazer a súplica, usando o termo “ordena”. Acostumado à disciplina, o centurião conhecia o poder de uma ordem, sobretudo no exército romano, cujo rigor prescrevia a pena capital aos insubordinados. Tal intransigência disciplinar havia criado um reflexo em sua alma, levando-o a reagir no campo sobrenatural, ao lhe ser infundida a fé, de acordo com o treinamento militar. Pois, do mesmo modo que uma única ordem era suficiente para mobilizar seus soldados sem a necessidade da presença física do comandante, ele cria bastar uma só palavra do Mestre para tudo se resolver. Comentando essa característica singular do pedido, afirma Fillion: “Sob esta linguagem direta, totalmente militar, havia uma fé e uma humildade admiráveis. O centurião supunha com acerto que Nosso Senhor era o dono de todas as forças da natureza, e podia lhes dar ordens quando quisesse”.’1
A certeza da eficácia da palavra de Jesus é prova de uma vigorosa fé na divindade d’Ele, segundo a interpretação dada por Santo Agostinho ao pedido: “Se eu, que estou subordinado, mando nos que estão debaixo de mim, tu, que não estás subordinado a ninguém, não poderás mandar em tua criatura, uma vez que todas as coisas foram feitas por ti e sem ti nada foi feito?”.’2 Também a simplicidade do oficial ao apresentar o problema a Nosso Senhor é reveladora de uma fé “desinteressada, genuína, absoluta e humilde”.’3 Acreditava depender tudo da vontade do Salvador, bastando transmitir-Lhe seu pedido para obter a realização. Esse insigne ato de fé não ficaria sem prêmio.
A fé de um pagão causa admiração ao Homem-Deus
9 Ouvindo isso, Jesus ficou admirado. Virou-se para a multidão que o seguia. e disse: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”.
A fé, virtude infundida por Deus na alma, é um dom gratuito que não depende do esforço humano para ser adquirida. Ora, neste versículo Jesus se encanta ao constatar, enquanto homem, a fé que Ele próprio, enquanto Deus, dera àquele pagão. Como explica o Cardeal Gomá y Tomás, “a fé do centurião não foi uma novidade para Ele, que penetra os corações, mas o conhecimento experimental que Lhe trouxe, ‘assim como o astrônomo fica admirado ao ver o eclipse, que já conhecia em teoria’; [tal fato se nota] pela expressão e gesto com que recebeu a confissão do gentio, porque era algo digno de admiração”.’14 Portanto, Ele fica admirado para dar-nos “a entender que nós é que nos devemos admirar”,15 esclarece São Beda.

E, virando-se para a multidão, o Mestre faz uma declaração que certamente deixou a muitos desconcertados: um pagão superara os judeus... por causa de sua fé! De fato, numerosos israelitas haviam presenciado os milagres operados pelo Salvador e ouvido diretamente dos lábios d’Ele um ensinamento novo dotado de potência (cf. Mc 1, 27). Contudo, não houve entre esses quem tivesse fé tão excelente quanto aquele gentio. “O centurião havia entendido por divina inspiração o que Jesus se esforçava, em vão, por fazer entender a seus contemporâneos: que n’Ele estava o próprio Pai, que se manifestava e atuava”,’6 comenta o padre Cantalamessa. Por isso, a afirmação de Cristo nessa passagem anuncia que, por desígnio da Providência, a verdadeira religião havia ultrapassado os limites aos quais estivera restrita, no Antigo Testamento, e que, no novo regime da graça, inaugurado com a Encarnação, ela se estenderia a todos os povos da Terra.

Evangelho Lc 9, 11b - 17 Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo ( Corpus Christi) Ano C 2013

Comentários ao Evangelho Lc 9, 11b - 17 Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo ( Corpus Christi)


Naquele tempo, 11b Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam.
12 A tarde vinha chegando. Os doze Apóstolos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Despede a multidão, para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto”. Mas Jesus disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles responderam: “Só temos cinco pães e dois peixes. A não ser que fôssemos comprar comida para toda essa gente”.
14 Estavam ali mais ou menos cinco mil homens. Mas Jesus disse aos discípulos: “Mandai o povo sentar-se em grupos de cinquenta”.15 Os discípulos assim fizeram, e todos se sentaram. 16 Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão.
17 Todos comeram e ficaram satisfeitos. E ainda foram recolhidos doze cestos dos pedaços que sobraram (Lc 9, I lb- I 7).
Ao criar o homem com necessidade de se alimentar, quis Deus estabelecer na nutriçõo o sustento da vida natural. Esta situação é imagem da vida da graça, cuja base também é um alimento celeste: a Eucaristia.
A ALIMENTAÇÃO É CONATURAL AO HOMEM
A vida no Paraíso proporcionava ao homem inúmeros gozos e alegrias, pois a harmoniosa disposição de todas as coisas o cumulava de bem-estar. Nossos primeiros pais encontravam-se cercados de muitos privilégios concedidos por Deus, com vistas a que a felicidade da existência terrena os levasse a amá-Lo de maneira mais perfeita. Um desses deleites, quiçá pouco considerado, porém valioso, era a facilidade com que podiam servir-se dos melhores alimentos. Ensina São Tomás de Aquino que, sendo a alimentação parte do mandato divino (cf. Gn 2, 16), o homem pecaria caso não comesse.’ Não era necessário, entretanto, trabalhar para preparar o alimento, pois a própria natureza oferecia as mais deliciosas iguanas, prontas para serem degustadas. Prova disso é que Adão, quando foi posto fora do Éden, escutou de Deus estas duras palavras: “Ganharás o pão com o suor de teu rosto” (Gn 3, 19). 0 castigo revela que antes ele o recebia sem fadiga, embora não saibamos exatamente como isso se passava.
Com o pecado original, o homem perdeu este e tantos outros benefícios, conforme recorda São João Crisóstomo: “Foi como se Deus lhe dissesse: Eu te preparei, ao criar-te, uma existência isenta de dores, de trabalho, de fadigas e inquietudes. Tu gozaste de uma felicidade perfeita e, sem conhecer nenhuma das tristes sujeições do corpo, gozaste em plenitude de todas as delícias da vida. Mas tu não soubeste apreciar este feliz estado, e eis que Eu amaldiçoo a terra. Daqui em diante, se não a trabalhares e não a cultivares, ela já não te dará como antes seus, diversos produtos; Eu inclusive acrescentarei, aos trabalhos e penosos labores, as doenças e contínuas fadigas, de sorte que tu não possuirás coisa alguma senão ao preço de teus suores, e esta tão dura existência será uma contínua lição de humildade e uma lembrança de teu nada”.2
Apesar da severidade da repreensão, Deus agiu com misericórdia e uniu a demência ao rigor, não submetendo a humanidade a uma alimentação mesquinha. Vemos que, ao longo dos séculos, levando em conta essa necessidade do homem, foi Ele unindo as bênçãos concedidas a um povo, a um grupo ou a uma família, à fácil e abundante produção dos alimentos. Por exemplo, ao prometer aos judeus uma terra em sinal de Aliança, ressaltou que nela correria “leite e mel” (cf. Ex 3, 8.17; Dt 6, 3; Nm 13, 27).
O alimento, alegria para o homem
A comida de boa qualidade e farta proporciona alegria ao homem. Isso se verifica quando temos, por exemplo, a possibilidade de ir a um bom restaurante e provar algum prato especialmente saboroso: saímos dali satisfeitos e até generosos. Pitoresca é a atitude de Santo Inácio de Loyola, que costumava convidar comprazido o jovem Benedetto Palmio para participar de suas refeições pelo gosto de vê-lo comer bem, estimulando-o a que o fizesse à vontade e sem se ruborizar.3 Além disso, em qualquer cultura, quando alguém deseja comemorar um acontecimento social importante, como uma formatura ou um casamento, costuma oferecer um banquete, convidando familiares e amigos para festejar em torno da boa mesa. O alimento possui a indispensável função de sustentar a vida e a saúde, é verdade, mas não é este seu papel mais elevado, uma vez que tem a utilidade social de favorecer o convívio dos que participam da mesma refeição. Ele torna possível um particular entendimento entre as pessoas.
O Príncipe de Talleyrand, grande diplomata francês, quando tinha casos importantes a tratar com representantes de outras nações mandava pedir ao rei que lhe cedesse seu cozinheiro pessoal e se munia das melhores especialidades culinárias nacionais, tais como vinhos, champanhes e queijos. E era durante uma festa, ao redor da mesa repleta de iguanas, que resolvia os assuntos mais intrincados da alta diplomacia. Uma espirituosa afirmação feita por ele a Luís XVIII, antes do crucial Congresso de Viena, deixou consignada sua convicção da eficácia desse método: “Sire, eu preciso mais de panelas do que de instruções escritas”.4 A mesa é um meio de facilitar o convívio e amenizar os ânimos, coisa que nem sempre se obtém com meras palavras.
A Santa Igreja, portanto, com muita propriedade, escolheu para a Solenidade de Corpus Christi a narração evangélica na qual o próprio Criador do Céu e da Terra oferece àqueles que O seguiam uma incomparável refeição. E prenunciadora do banquete espiritual de seu Corpo e Sangue, no qual Ele é o Divino Anfitrião e ao mesmo tempo o Alimento. Poderá haver em torno de uma mesa convívio mais íntimo e sublime?
UM  MILAGRE PORTENTOSO PREPARA A EUCARISTIA
O milagre da multiplicação dos pães é o único que está relatado nos quatro Evangelhos, pormenor bastante expressivo para indicar sua importância. O fato se situa no período áureo da vida pública de Nosso Senhor e concorreu, em grande medida, para consagrar em Israel sua fama de Profeta e Taumaturgo. Nessa ocasião Ele partira acompanhado apenas pelos Apóstolos e Se encontrava na retirada região de Betsaida Júlia, a nordeste do Lago de Tiberíades. Havia pouco ocorrera a morte de São João Batista promovida por Herodes, cujas curiosas cogitações agora se voltavam para o Divino Redentor, um Personagem infinitamente maior que o Precursor. Por isso o governante estava à espreita de uma oportunidade para aproximar-se de Jesus, motivado, ao que tudo indica, por levianas ou perversas intenções. A sabedoria d’Aquele que sonda os rins e corações, no entanto, não ignorava a astúcia deste homem, e “com esse rápido afastamento parece ter querido evitar a vizinhança do tetrarca”,5 diz Fillion. Contudo, se o pretensioso Herodes perdeu a ocasião desejada, o mesmo não aconteceu com o povo, que logo ficou sabendo do paradeiro da barca do Mestre e pôs-se a caminho, por terra, para encontrá-Lo.
A recompensa dos que procuram o Reino de Deus
Naquele tempo, 11b Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam.
Qual foi a razão que levou a multidão a seguir Nosso Senhor? Como narram os evangelistas, não houve um só doente que, ao aproximar-se d’Ele com fé, pedindo a cura, ficasse sem ser atendido. Isso impressionava a opinião pública, dado que naquele tempo a medicina ainda não atingira grande progresso, o que concorria para tornar os milagres mais impactantes. Ele supria a ineficácia da ciência com um olhar, uma imposição de mãos, um desejo ou um toque que fosse, e curava todos num só instante. Aquela gente estava deslumbrada com os sinais divinos que transpareciam na humanidade de Cristo e dava-se conta do quanto os ensinamentos d’Ele mereciam todo crédito e acatamento e O seguia.
2 A tarde vinha chegando. Os doze Apóstolos aproximaram-se de Jesus e disseram: “Despede a multidão, para que possa ir aos povoados e campos vizinhos procurar hospedagem e comida, pois estamos num lugar deserto”.
Nosso Senhor ensinou: “Buscai o Reino de Deus e a sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 33). A multidão, em consonância com o conselho divino, acompanhava Jesus naquela circunstância pela convicção de que Ele era um extraordinário Profeta. Estavam desejosos de curas, sim, mas também buscavam a verdade, a doutrina, queriam conhecer mais a Deus e as realidades eternas.
Os Apóstolos, porém, encontravam-se preocupados com as providências materiais. Não atinavam que se o Mestre curava daquela maneira podia também realizar outros milagres e quiçá temessem ser mandados providenciar alimento para tão grande multidão. Por esse motivo propõem logo a Nosso Senhor despedir o povo, numa fuga sutil dessa responsabilidade. Ora, Ele podia perfeitamente matar a fome de todos, porque quem cura um coxo, um cego ou um surdo-mudo é capaz de remediar também outra doença muito mais leve chamada fome. Todavia, como o que Ele tinha em mente era formar os Apóstolos, deu-lhes uma resposta surpreendente.
Nosso Senhor põe os Apóstolos à prova
13 Mas Jesus disse: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles responderam: “Só temos cinco pães e dois peixes. A no ser que fôssemos comprar comida para toda essa gente”. 14a Estavam ali mais ou menos cinco mil homens.
O Salvador ordenou aos Apóstolos, então, que dessem de comer à multidão, para pô-los à prova, pois sabia o que ia fazer (cf. Jo 6, 6). Mas eles, desconfiados, comentavam que, como disse Filipe (cf. Jo 6, 7), mesmo se tivessem duzentas moedas de prata não seria suficiente para comprar pão e distribuir um pedaço para cada um dos que ali estavam: cinco mil homens, além das mulheres e crianças, o que perfazia um número bem maior. E ainda que possuíssem o dinheiro, onde encontrar tamanha quantidade de pão à venda naquela hora tardia? Santo André inclusive sublinha a situação, dizendo que o único vendedor de alimento no meio daquela aglomeração era um menino que carregava cinco pães e dois peixes (cf. Jo 6, 8-9). “Acreditava” — comenta São João Crisóstomo — “que o Autor dos milagres com pouco faria pouco, e com mais faria mais; o que, com toda clareza, não era assim”.6
Sendo Deus, Nosso Senhor tinha domínio absoluto sobre a matéria e podia tirar criaturas do nada, sem necessitar dos cinco pães e dois peixes, uma vez que sua própria vontade era suficiente para produzir o alimento que saciasse a multidão. “Com efeito, era-Lhe fácil fazer surgir indistintamente, de muitos ou de poucos, uma grande quantidade de pães, já que não precisava de matéria-prima”.7 No entanto, Ele pediu aos Apóstolos o que estava ao alcance deles, embora fossem tão só esses parcos víveres. Aprendamos, pelo exemplo que esta passagem nos oferece, a não negar até o pouco que temos quando o pede Jesus, lembrando-nos de que este pouco pode servir de pretexto para que Ele realize grandes maravilhas.
14b Mas Jesus disse aos discípulos: ‘Mandai o povo sentar-se em grupos de cinquenta’. Os discípulos assim fizeram, e todos se sentaram.
Nessa simples recomendação, o Divino Mestre manifesta seu perfeito senso de ordem. Para evitar febricitação ou correria, e para que a distribuição fosse feita com calma e até de modo cerimonioso, dispõe que as pessoas se sentem em grupos. Ademais, segundo observa também São João Crisóstomo, Ele agiu dessa maneira “para mostrar que, antes de comer, deve-se agradecer a Deus”.8
Milagre que é imagem da eucaristia
6 Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, abençoou-os, partiu-os e os deu aos discípulos para distribuí-los à multidão. I7a Todos comeram e ficaram satisfeitos.
Difícil é não relacionar os gestos de Jesus nesta cena com aqueles que mais adiante adotaria para instituir o Sacramento da Eucaristia. Ia Ele, com isso, preparando as multidões para o grande mistério que seria revelado algum tempo depois. A magnitude do milagre é indicada pelas palavras: “todos comeram e ficaram satisfeitos” ou, como escreve São João, “tanto quanto queriam” (6, 11). Podemos supor que cada um dos presentes também obteve, além da medida para matar a fome do momento, uma quantidade excedente para levar para os seus lares. Tão imenso benefício afluía, nas palavras de São Gregório de Nissa, “dos celeiros inesgotáveis do divino poder”.9
7b E ainda foram recolhidos doze cestos dos pedaços que sobraram.
Mais uma vez o texto evangélico deixa transparecer em Nosso Senhor o apreço pela ordem e até pela limpeza, e o quanto Ele é amante da disciplina, não deixando as sobras pelo chão. Foram recolhidos os pedaços restantes que encheram doze cestos. Quis Jesus que o número coincidisse com o dos Apóstolos, para que eles mesmos carregassem os fardos e comprovassem a dimensão do milagre de que antes desconfiaram. “Isso ocorreu com vistas à instrução dos discípulos. [...] Pelo mesmo motivo aconteceu que o número de canastras fosse exatamente igual ao dos discípulos. [...] Não me admira apenas a grande quantidade de pães, como também, e ao lado disso, a exatidão das sobras, de sorte que não fez com que sobrassem nem mais nem menos, mas justamente o que queria”.10
Fica patente o poder de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a matéria em geral, sobre o alimento e, em concreto, sobre o pão, pelo modo com que Ele o multiplica conforme seus desígnios, não permitindo sequer que os restos sejam menosprezados. Ao instituir a Eucaristia, mais tarde, também não queria que os fragmentos do Pão consagrado fossem tratados sem veneração, como pretendem certos incrédulos que defendem a Presença Real nas espécies eucarísticas só durante o ato litúrgico. Igualmente é digno de nota que Ele, por um princípio simbólico, não permitiu jogar nada fora para nos ensinar que não se deve perder ninguém. Ainda que uma alma esteja trilhando as vias do pecado, é preciso empreender todos os esforços para recuperá-la, pois não é outro o divino anseio: “Daqueles que me destes, Eu não perdi nenhum” (Jo 18, 9).
Ele quis que o milagre se desse com todas essas características para facilitar a compreensão do grande dom que em breve lhes ofereceria: a Sagrada Eucaristia. Tendo demonstrado possuir tamanho poder sobre o pão, tornava patente que, se o desejasse, poderia retirar dele a substância original para dar lugar a seu Corpo, Sangue, Aima e Divindade,11 embora permanecessem os mesmos acidentes — sabor, aparência, textura, odor. Dessa forma, Jesus criava as condições para que as pessoas com fé correspondessem à dádiva inigualável que, desde toda a eternidade, havia preparado.
O IMENSO DOM DA EUCARISTIA
A partir deste episódio que contemplamos aqui pela pena de São Lucas, São João, por sua vez, em seu Evangelho, demonstra na sequência da sua narração que com esse milagre Nosso Senhor tinha em vista a revelação formal da Eucaristia. O milagre da multiplicação dos pães é apenas uma introdução — pálida, mas quão cuidadosa — escolhida pelo Redentor para sublinhar o tema eucarístico e desenvolvê-lo com extraordinária clareza no discurso sobre o Pão da Vida (cf. Jo 6,22-59). Eis a razão de ser lembrado pela Igreja ao comemorar a Solenidade de Corpus Christi.
O significado profundo do milagre está no fato de Deus ter criado o homem com a necessidade digestiva — como aludimos a princípio — porque iria oferecer-Se em alimento. Ele, que poderia ter-nos criado com a subsistência baseada somente no ar, por exemplo, quis que tivéssemos a necessidade de comer, para ficar patente que, assim como na alimentação se encontra a base da vida natural, a essência da vida da graça está na Eucaristia.’2
Um banquete para a alma
A Eucaristia é um sagrado banquete — “o sacrum convivium”,’3 diz a bela antífona composta por São Tomás para o Ofício Divino desta Solenidade —, no qual temos especial convívio com Nosso Senhor Jesus Cristo; um banquete divino porque é oferecido por Deus, realizado com Deus, a propósito de Deus. Incomparavelmente mais que uma champanhe de excelente qualidade, mais que um caviar russo, mais do que qualquer iguaria que se possa conceber, na mesa da Eucaristia é oferecido o Corpo, Sangue, Alma e Divindade do Salvador. E o próprio Deus dando-Se a nós como alimento de valor infinito, cujo efeito os curtos limites de nossa inteligência não al-cançam. É o mysterium fidei. Se São Tomás afirma que a menor participação na vida da graça supera todo o universo criado,14 que dizer do valor do próprio Criador da graça? A Eucaristia é, por conseguinte, o mais importante de todos os Sacramentos quanto à substância, por consistir no próprio Deus e Autor da graça, enquanto os demais apenas transmitem a graça, a participação criada na vida divina incriada.’5 E por isso, ensina ainda o Doutor Angélico, que todos os outros Sacramentos existem em função da Eucaristia, embora não seja esta a porta dos demais, como o é o Batismo.16 Todas as riquezas da Terra são como poeira perto do Santíssimo Sacramento, manifestação do extraordinário amor de Deus para conosco!
Os efeitos do mais excelso Sacramento
Qual é, então, a união com Nosso Senhor produzida por tão alto dom? Diz o Evangelho: “Assim como o Pai que me enviou vive, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha Carne viverá por mim” (Jo 6, 57). Sempre que estamos na graça de Deus, Ele permanece em nós e nós permanecemos n’Ele, pois por sua divindade é o único Ser que pode inabitar em nós. Essa união se intensifica na hora da Comunhão, quando, além da inabitação da Santíssima Trindade, acrescenta-se a presença do Corpo glorioso, Sangue e Alma de Nosso Senhor Jesus Cristo: “mens impleturgratia”,’7 a alma fica repleta de graça. “Não há Sacramento mais salutar que este para purificar os pe cados, dar novas forças e enriquecer o espírito com a abundância de todos os dons espirituais”,’8 afirma o Doutor Angélico. É um verdadeiro manancial de toda graça, pelo que, em rigor, uma só Comunhão seria suficiente para nos tornar santos!
Esta união é tão alta que custa encontrar um exemplo na natureza que se aproxime dessa realidade sobrenatural. Uma esponja seca logo se embebe ao ser lançada na água, mas a união com Cristo na Eucaristia é muito maior, pois na esponja a água ocupa espaços vazios, na Eucaristia, porém, Ele nos “embebe” por inteiro. Para empregar outra imagem, é como se tirassem todo o nosso sangue por uma das veias e por outra fosse introduzido o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. A fim de exprimir tão sublime realidade, São Cirilo de Alexandria propõe a metáfora da cera: “Assim como a cera derretida acrescentada a outra cera se mistura perfeitamente, constituindo-se uma só, também aquele que recebe o Corpo e o Sangue do Senhor fica unido a Ele tão estreitamente, que Cristo está nele e ele em Cristo”.19 E uma união de tal maneira forte que bem poderíamos chamar de “mútua compenetração”, a qual dura enquanto as espécies eucarísticas permanecem em nós.
Não é sem razão que continua dizendo com agudeza São Tomás, na mesma antífona, que a Eucaristia é “penhor de nossa salvação e ingresso na vida eterna”.20 De fato, para aí chegarmos há uma série de condições, entre as quais a de comungar. Enquanto estamos na Terra, vivemos fora da verdadeira Pátria: o Céu. Deus nos faz passar pelas aflições deste vale de lágrimas porque nos dará tanta glória que, se não tivéssemos experimentado a dor, julgaríamos merecer o prêmio oferecido, o qual, na verdade, está muito acima de nós.
FAÇAMOS CRESCER ESSA SEMENTE!
Quando analisamos uma semente, sabemos que dali pode nascer uma enorme árvore. E a graça é uma semente da glória. Se nesta vida formos fiéis às graças recebidas para nos manter com integridade dentro da prática da virtude e obedientes à Lei de Deus, protegeremos nossa semente e a faremos germinar. Basta colocá-la na terra e tratá-la com esmero que ela se desenvolverá. Pelo contrário, pequenos atos de inveja, de comparação, uma mentira sem importância ou, pior ainda, um pecado mortal, tiram o viço daquele germe e impedem que dele nasça a árvore, ou seja, que desabroche para a glória eterna. Como devemos agir para conservar nossa semente, de tal forma que não só venha a dar uma árvore, mas que seja repleta de frutos? Através da comunhão frequente. A comunhão é penhor de glória futura, é como uma certidão assinada por Deus de que nos serão abertas as portas do Céu. Todos aqueles que se alimentam do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor vão ressuscitar no último dia e obterão a eternidade feliz, pois Ele prometeu: “Quem come minha Carne e bebe meu Sangue terá a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Quem vai nos ressuscitar é Ele. E assim como acreditamos que Ele está na hóstia e no vinho consagrados, que é realmente a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnada, que morreu na Cruz para nos redimir e agora está sentado à direita de Deus Pai, também devemos crer com toda a segurança na sua promessa de sermos ressuscitados em corpo glorioso se seguirmos sua recomendação.
Sem embargo, comprovamos, com pesar, como esta dádiva é esquecida e, por vezes, até desprezada, pois a maioria das pessoas não dá suficiente valor à Eucaristia e negligencia a Comunhão, além de abandonar Jesus Hóstia no sacrário. Se soubéssemos, por exemplo, que tomando todos os dias um elixir misterioso nos transformaríamos na pessoa mais rica, mais bela ou mais inteligente do mundo, estaríamos dispostos a qualquer sacrifício para obter tal bebida. Ora, com a Eucaristia não se trata de ficarmos ricos, belos ou inteligentes, mas sim de receber a maior riqueza, beleza ou inteligência que possa haver: a eterna bem-aventurança.
Nosso Senhor adverte para o valor desse dom na parábola do banquete (cf. Mt 22, 2-14), na qual um rei convida seus súditos para participar de uma grande festa. Deus chama todos os homens para o banquete eterno, e este começa aqui na Terra, com a Eucaristia. Podemos comungar sempre que quisermos. O Santíssimo Sacramento permanece à nossa disposição em inúmeras igrejas e muitos ainda fazem o mesmo que os servos maus da parábola, que preferiram tratar de seus negócios e deixaram o rei sozinho. Se tivéssemos a possibilidade de comungar uma única vez durante a vida poderíamos dar toda a nossa existência por muito bem empregada. E Ele Se oferece a nós diariamente... Que insondável misericórdia!
Ação de graças junto com Maria
Diante de tanta sublimidade, como deveria ser nossa acção de graças ao comungar? Deveria ser um êxtase de amor! Feita com todo carinho e devoção, profunda e séria, cheia de piedade, encanto, fogo e entusiasmo, e não um palavrório vazio, entrecortado por distrações, alheio ao tesouro que levamos dentro de nós.
Com que recolhimento e adoração terá comungado Maria Santíssima! O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira compôs uma bela oração dirigida a Nossa Senhora, na qual interpreta a súplica de um fiel que gostaria de receber a Eucaristia com disposições semelhantes às d’Ela: “Minha Mãe, quando Jesus estava em vosso claustro, Vós encontrastes inúmeras coisas para Lhe dizer; vede, entretanto, que misérias eu digo no momento em que O recebo na Sagrada Eucaristia! Por isso eu Vos peço: falai por mim, minha Mãe, e dizei-Lhe tudo quanto eu quereria ser capaz de dizer, mas não o sou. Adorai-O como eu quereria adorá-Lo; dai-Lhe a ação de graças que eu quereria dar-Lhe; apresentai-Lhe atos de reparação pelos meus pecados e pelos do mundo inteiro, com um calor de reparação que, infelizmente, eu não tenho” 21.

Sejamos, a exemplo de Nossa Senhora, muito cuidadosos em nossa ação de graças: compenetrados do quanto temos para agradecer a Jesus, para louvá-Lo e adorá-Lo, sem nos esquecer de pedir perdão por nossas faltas. Que esta Solenidade de Corpus Christi seja a ocasião ideal para afervoramos nosso coração com um amor mais intenso pela Sagrada Eucaristia, pois é neste alimento celeste que encontraremos as forças para enfrentar as dificuldades da vida, até alcançarmos a eternidade feliz. Guiados pelo insuperável exemplo de Maria, tenhamos a firme convicção de que Ele se compraz com a ação de graças de um pecador que se reveste dos méritos d’Ela: “Devemos pedir que Nossa Senhora esteja espiritualmente presente em nossa Comunhão a fim de que preencha, de algum modo, o infinito espaço que nos separa de seu Divino Filho, o qual nos acolherá, satisfeito por havermos recorrido à sua Mãe. Ele então nos dirá: ‘Tu és um filho de Maria, minha Mãe, pede-me o que queres” .22 Além dos pedidos individuais que podemos e devemos fazer, imploremos a graça de realizar com fruto tudo o que estiver ao nosso alcance para a maior glória de Deus e exaltação da Santa Igreja. 
1) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.97, a.3, ad 3.
2) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilice in Genesim. In Cap. III Genes., hom.XVII, n.9: MG 53, 146.
3) Cf. GARCÍA-VILLOSLADA, SJ, Ricardo. San Ignacio de Loyola. Nueva Biografía. Madrid: BAC, 1986, p.598.
4) CASTELOT, André. Talleyrand ou le cynisme. Paris: Perrin, 1980, p.536.
5) FILLION, Louis-Claude. Nuestro Señor Jesucristo según los Evangelios. Madrid: Edibesa, 2000, p.205.
6) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XLII, n.2. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (30-60). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.11, p.141.
7) Idem, ibidem.
8) Idem, p.141-142.
9) SÃO GREGÓRIO DE NISSA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.IX, v.10-17.
10) SAO JOAO CRISÓSTOMO. Homilía XLII, n.3. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (30-60), op. cit., p.143.
11) Cf. SAO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.75, a.4.
12) Cf. Idem, q.79, a.1.
13) SAO TOMAS DE AQUINO. Officium Corporis Christi “Sacerdos”. Vesp. II, antiph. ad Magnificat.
14) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.113, a.9, ad 2.
15) Cf. Idem, III, q.65, a.3.
16) Cf. Idem, ibidem.
17) SAO TOMÁS DE AQUINO, Officium Corporis Christi “Sacerdos”, op. cit.
18) Idem, noct.1, lect.2.
19) SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. In bannis Evangelium. L.PvÇ c.2: MG 73, 365.
20) SAO TOMÁS DE AQUINO. Officium Coiporis Christi “Sacerdos”. Vesp. II, antipli. ad Magnificat
21) CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 24 mar. 1984.
22) CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Mane nobiscum Domine. In: Dr Plinio. São Paulo. Ano XIII. N.143 (Fey., 2010); p.17.

Arautos do Evangelho

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Evangelho 9º Domingo do Tempo Comum — Lc 7, 1-10 — Ano C 2013

Comentários ao Evangelho  9º Domingo do Tempo Comum — Lc 7, 1-10 — Ano C 2013
Fé na divindade Jesus
3 O oficial ouviu falar de Jesus e enviou alguns anciãos dos judeus, para pedirem que Jesus viesse salvar seu empregado.
A fama de Nosso Senhor corria “por todos os lugares da circunvizinhança” (Le 4, 37), escreve o Evangelista, logo após a narração da cura de um possesso em Cafarnaum. E a notícia chegou também aos ouvidos do centurião. Certamente, entre os relatos acerca d’Aquele homem extraordinário, contaram-lhe os numerosos milagres operados em benefício dos enfermos. Foi o suficiente para o oficial encher-se de confiança: aquele Mestre dos judeus poderia restabelecer a saúde de seu empregado! Nesse instante, sem o saber, deu seu primeiro assentimento à graça da fé na divindade de Jesus, crendo de imediato na onipotência d’Ele, como sublinha Santo Ambrósio: “Conjecturou que Cristo dava a saúde aos homens não com poder de homem, mas de Deus”.6
Talvez por considerar-se indigno de ser atendido por um homem célebre entre os próprios judeus — os quais procuravam manifestar de modo categórico sua eleição divina e, como consequência desta, sua superioridade em relação aos gentios —, o centurião pediu aos anciãos da cidade que apresentassem sua súplica a Jesus, em favor de seu servo.
Atraído pelo Deus verdadeiro
4Chegando onde Jesus estava, pediram-lhe com insistência: “O oficial merece que lhe faças este favo porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga.
Um oficial romano geralmente era bem abastado, pois, além da remuneração própria ao cargo, cabia-lhe a maior parte dos despojos obtidos na guerra. A largueza de posses do centurião de Cafarnaum é comprovada pelo fato de ter construído uma sinagoga, gesto que propiciou o sentimento de gratidão do povo pelo benfeitor da religião, dada a importância dedicada ao culto por todo israelita.
Os anciãos não hesitaram, então, em interceder por ele junto ao Mestre. No entanto, pelo modo de apresentar o pedido, podemos perceber como os ensinamentos de Nosso Senhor ainda não lhes haviam penetrado a mentalidade, pois dizem que o centurião “merece” o milagre por estimar o povo judeu e ter-lhe feito um benefício. Portanto, estavam convencidos de que Deus favorecia quem, através de atitudes exteriores, se mostrava digno de ser por Ele agraciado, dentro da antiga lei da mera reciprocidade. O milagre se lhes afigurava mais como uma recompensa do que como uma misericórdia divina, e o Salvador lhes mostrará quão equivocada era tal concepção.
De outro lado, vemos quanto esse oficial se mostrava simpático à religião verdadeira, sendo provavelmente “um daqueles pagãos aos quais já não satisfaziam os mitos politeístas, cuja fome religiosa não se saciava com a sabedoria dos filósofos e que, por conseguinte, simpatizava com o monoteísmo judaico e com a moral que dele derivava. Era temente a Deus, professava a fé no Deus único, participava do culto judaico, mas ainda não havia passado definitivamente ao judaísmo. Todavia, buscava a salvação de Deus. Manifestava sua fé no Deus único, seu amor e seu temor a Deus no amor ao povo de Deus e na solicitude pela sinagoga que ele mesmo havia edificado. Seus sentimentos se expressavam em obras”.7
De fato, a abertura dos gentios em relação ao judaísmo era fenômeno frequente nesse período histórico em que diversos povos se encontravam aglutinados sob o jugo de Roma. Tal situação favorecia as relações entre judeus e gentios, trazendo como consequência que um considerável contingente de pagãos vivia à maneira judaica, adotando muitos costumes hebreus, como descreve Flávio Josefo: “Vários outros povos também há muito tempo ficaram tão impressionados pela nossa piedade, que não há cidade grega, nem bárbaros, onde não se deixe de trabalhar no sétimo dia, onde não se acendam lâmpadas e onde não se façam jejuns”.8
Encontrando-se em circunstâncias de tal modo oportunas, boa parte dos judeus não hesitava em fazer proselitismo, seguindo o conselho do velho Tobias: “Se Ele vos dispersou entre os povos que não O conhecem, foi para que publiqueis as suas maravilhas e lhes façais reconhecer que não há outro Deus onipotente senão Ele” (Th 13, 4). No parecer de Fillion, o centurião era um dos chamados “prosélitos da porta”, ou seja, “chegado até o umbral dessa religião superior, na qual não se entrava definitivamente senão com a condição de fazer-se circuncidar e praticar integralmente a Lei de Moisés”.9
Eficácia da mediação e da humildade
Então Jesus pôs-se a caminho com eles.
Nosso Senhor toma a iniciativa de ir até a casa do oficial, expressando desse modo, seu agrado diante de atitude tão confiante. Repete-se, no caso, uma peculiaridade que já havia movido Jesus a realizar outros milagres, como a cura da sogra de Pedro (cf. Lc 4, 38-39), ou o restabelecimento e perdão dos pecados do paralítico descido pela abertura de um teto (cf. Mc 2, 3-5): o Salvador não exige dos enfermos a manifestação do desejo de serem curados, bastando-Lhe a fé dos intercessores.
6b Porém, quando já estava perto da casa, o oficial mandou alguns amigos dizerem a Jesus: “Senhor, não te incomodes, pois não sou digno dc que entres em minha casa. 7a Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente a teu encontro”.
O oficial sabia ser proibido na Lei de Moisés que um judeu entrasse nas casas dos pagãos, sob pena de tornar-se impuro quem o fizesse. Preocupado com os ritos de purificação aos quais obrigaria a passar o Mestre, após visitá-lo, e, sobretudo, por julgar que tal condescendência sobrepujava em muito sua indignidade de pagão, enviou-Lhe uma mensagem com o objetivo de poupá-Lo de tal constrangimento.

Cabe-nos aqui analisar essa atitude de humildade: contrastando com o conceito positivo que os anciãos e todo o povo da cidade tinham a respeito de sua pessoa, o centurião dá provas de uma equilibrada apreciação de seus próprios predicados, declarando sua pequenez diante da grandeza de Cristo. Sem dúvida, essa atitude submissa da parte de um personagem cujo poderio inspirava temor causou considerável impressão na multidão.
6) SANTO AMBROSIO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.VII, v.1-10.
7) STÖGER, Alois. El Nuevo Testamento y su mensaje. El Evangelio según San Lucas. Barcelona: Herder, 1970, v.111-i, p.200.
8) FLAVIO JOSEFO. História dos Hebreus. Contra Apio. L.II, c.9.
9) FILLION, Los milagros de Jesucristo, op. cit., p.295.

sábado, 25 de maio de 2013

Evangelho 9º Domingo do Tempo Comum — Lc 7, 1-10 — Ano C 2013


Comentários ao Evangelho  9º Domingo do Tempo Comum — Lc 7, 1-10 — Ano C 2013
Naquele tempo, 1 quando acabou de falar ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum. 2 Havia lá um oficial romano que tinha um empregado a quem estimava muito, e que estava doente, à beira da morte.3 O oficial ouviu falar de Jesus e enviou alguns anciãos dos judeus, para pedirem que Jesus viesse salvar seu empregado.4 Chegando onde Jesus estava, pediram-lhe com insistência: “O oficial merece que lhe faças este favor, 5 porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga”.
6 Então Jesus pôs-se a caminho com eles. Porém, quando já estava perto da casa, o oficial mandou alguns amigos dizerem a Jesus: “Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa.7 Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente a teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado. 8 Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens. Se ordeno a um: ‘Vai!’, ele vai; e a outro: ‘Vem!’, ele vem e ao meu empregado ‘Faze isto!’, e ele o faz”.
9 Ouvindo isso, Jesus ficou admirado. Virou-se para a multidão que o seguia, e disse: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”.10 Os mensageiros voltaram para a casa do oficial e encontraram o empregado em perfeita saúde (Lc 7, 1 -10).

A medida de nossa fé é nossa esperança
Nosso Senhor Jesus cristo pode e quer nos auxiliar em todas as nossas necessidades. Mas Ele condiciona a manifestação de sua onipotência misericordiosa à intensidade de nossa fé.
O VERBO DIVINO É ONIPOTENTE
Pelo semblante se conhece um homem; pelo aspecto do rosto se reconhece o sábio. A maneira como um homem se veste e como sorri, e a sua maneira de andar revelam aquilo que ele é”, observa o Eclesiástico (19, 26-27), transformando em máxima esse curioso matiz do relacionamento social. De fato, observar o exterior de uma pessoa leva-nos a melhor conhecê-la, pois algo da própria personalidade transparece tanto através da constituição física do corpo, quanto por meio de suas reações temperamentais.
Assim, embora o homem não veja o que se passa no interior de seu semelhante, pode discerni-lo pelas manifestações exteriores. Tal capacidade de percepção ocupa importante papel na vida em sociedade, pois, permitindo ao homem formar uma noção mais completa a respeito de seu próximo, propicia certa facilidade de mútua compreensão e adaptação, fatores indispensáveis para uma boa convivência.
Não obstante, essa regra teve uma singular exceção na História: Nosso Senhor Jesus Cristo. Sem dúvida, seu semblante e modo de ser denotavam, de forma indiscutível, um caráter superior. No aspecto físico não havia a mínima incorreção; dos gestos e do olhar emanavam nobreza e sublimidade, além de uma irresistível força de atração sobre quem O contemplasse, mesmo por poucos instantes. Contudo, por mais extraordinária que fosse a compleição de Jesus — a qual refletia sua perfeitíssima alma humana —, ela não evidenciava sua personalidade divina. E essa foi a prova de todos os que d’Ele se aproximaram durante os 33 anos de sua vida mortal: crer na divindade d’Aquele Mestre “exteriormente reconhecido como homem” (Fl 2, 7).
Com efeito, se o Verbo Se apresentasse em toda a magnificência de sua personalidade, ninguém cogitaria ser Aquele o “filho do carpinteiro”, e todos — até os que se recusassem a aceitá-Lo — seriam obrigados, pela força da evidência, a ver n’Ele o próprio Deus. Entretanto, além dos outros efeitos da sua vinda ao mundo, Deus quis dar aos homens o mérito da fé diante do mistério da Encarnação. Para tal, assumiu totalmente nossa débil natureza, à exceção do pecado, sujeitando-Se à fome (cf. Mt 4, 2), à fadiga (cf. Jo 4, 6), à sede (cf. Jo 4, 7) e ao sono (cf. Mc 4, 38).
Sendo patente que Nosso Senhor era verdadeiro homem, fazia-se necessário demonstrar que Ele era também verdadeiro Deus. Foi o que fez durante sua vida pública, ensinando com autoridade e operando milagres. Estes revelavam de modo inequívoco sua divindade, quer confirmando a veracidade da doutrina — a qual continha revelações acerca de sua origem divina —, quer por serem feitos por sua própria virtude, ou ainda porque transcendiam todo o poder criado.1
A onipotência manifestada ao operar os milagres é um atributo próprio de Deus, intransferível a qualquer criatura, inclusive à humanidade de Cristo. Portanto, ao usar os predicados humanos para suspender as leis da natureza — por exemplo, tocando o leproso e dizendo-lhe: “Eu quero, sê curado!” (Mt 8, 3) —, Jesus mostrava a realidade de sua Encarnação, na qual, conforme ensina São Tomás, “a natureza humana é instrumento da ação divina, e a ação humana recebe poder da natureza divina”.2
Daí decorre que, presenciando um só milagre, até mesmo os que recusavam seus ensinamentos não tinham mais motivos para duvidar de seu poder divino, como declarou o próprio Re dentor: “Se eu não faço as obras de meu Pai, não me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheçais que o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10, 37-38).
As páginas do Evangelho guardam numerosas passagens nas quais reluz essa onipotência do Homem-Deus. 0 90 Domingo do Tempo Comum traz à nossa consideração uma delas, realçando a nossos olhos a figura de um pagão cuja fé é elogiada pelo próprio Jesus.
PRENÚNCIO DA CONVERSÃO DOS GENTIOS
Naquele tempo,1 quando acabou de falar ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum.
Pouco antes de se dirigir à cidade, Nosso Senhor concluíra uma de suas mais belas pregações, a qual tivera por prefácio as bem-aventuranças. Desde o oferecer a outra face ao agressor e emprestar sem exigir devolução, até o surpreendente “amai os vossos inimigos” (Le 6, 27), o sermão deixara consignada a nova perspectiva de relacionamento social trazida por Cristo, a qual estendia a um âmbito universal o amor, então circunscrito aos limites da reciprocidade. São Lucas registra este discurso como antecedente imediato do episódio contemplado no Evangelho de hoje, visando mostrar como Jesus confirma tal doutrina com o exemplo de sua própria conduta.
2 Havia lá um oficial romano que tinha um empregado a quem estimava muito, e que estava doente, à beira da morte.
São Mateus, narrando este mesmo fato, precisa a categoria do oficial: é chefe de uma centúria, subdivisão inferior da infantaria romana, correspondente à sexagésima parte de uma legião. Devido às vastidões do Império, as legiões eram enviadas a regiões estratégicas. Na Palestina, havia centúrias estacionadas em locais como Cafarnaum — por estar situada na fronteira norte da Galileia. Se houvesse necessidade, recebiam reforço de outras unidades que se encontrassem próximas.
Embora pagãos, os centuriões gozavam de grande popularidade entre os judeus, por serem tidos por militares bem conceituados, capazes e experientes na arte da guerra, além de respeitados por sua autoridade, O centurião deste episódio do Evangelho desfrutava de todas essas prerrogativas. Estando a serviço do tetrarca Herodes Antipas, comandava uma das poucas guarnições estacionadas na província, e ali era considerado uma figura importante.
Já de início, um detalhe desperta a atenção e nos faz compreender melhor o significado desse primeiro milagre realizado em favor dos gentios: a sensibilidade do oficial em relação a seu escravo,3 atitude incomum na sociedade da época, regida pelo Direito Romano, o qual considerava o escravo como res — coisa. Segundo Fillion, tal compaixão era algo “muito raro entre romanos e gregos, que, em geral, tratavam seus escravos com enorme desprezo e dureza, chegando frequentemente à crueldade”.4 Além de revelar uma natural retidão de alma, esse indício dos “nobres sentimentos de humanidade”5 que animavam o centurião deixa transparecer quanto suas disposições consonavam com os ensinamentos preceituados havia pouco por Cristo.
1)Cf. SAO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.43, a.4.
2) Idem, a.2.
3) Embora na tradução litúrgica conste “empregado”, o original grego fala em δούγος (douloj), isto é, escravo
4) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.11, p.127.
5) FILLION, Louis-Claude. Los milagros de Jesucristo. Barcelona/México: Circulo Latino, 2005, p.294.

Continua no próximo post.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Evangelho Solenidade da Santíssima Trindade - Jo 16, 12-15 - Ano C - 2013


Continuação dos comentários ao Evangelho Solenidade da Santíssima Trindade - Jo 16, 12-15 -  Ano C - 2013
O Paráclito transformará as nossas almas
15 “Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que Ele receberá e vos anunciará é meu”.
Após ter afirmado no versículo anterior que o Espírito Santo “receberá do que é meu”, Jesus agora declara: “tudo o que o Pai possui é meu”, evidenciando a união substancial das três divinas Pessoas. Como bem assevera Lagrange, “é tal a unidade do Pai e do Filho que é preciso reconhecer: tudo quando o Espírito recebeu do Pai, Ele recebeu também do Filho, porque o Filho tem tudo quanto o Pai tem. Estas palavras são o que o Novo Testamento contém de mais expressivo sobre a unidade de natureza e a distinção de Pessoas na Santíssima Trindade, e especialmente sobre a processão do Espírito Santo”.24
No mesmo sentido se pronuncia o Cardeal Gomá, ao afirmar ser este versículo “uma forma de manifestar, segundo o raciocínio e as palavras do homem, aquilo que se produz de maneira inefável no seio da Trindade beatíssima. Baste-nos saber — para sentirmos profunda gratidão ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo — que as três Pessoas divinas realizaram o mistério de nossa salvação e santificação, e que as inspirações da graça, as sugestões de ordem intelectual, às quais aqui Se refere Jesus, atribuem-se ao Espírito Santo porque é obra de amor que se atribui ao Espírito Santificador”.25
Assim, em todas as nossas orações, sobretudo ao recebermos a Sagrada Comunhão, peçamos a graça de sermos inteiramente dóceis às inspirações do Paráclito. Abramos-lhe as nossas almas sem nenhuma restrição, desconfiança ou reserva, a fim de que Ele nos encha de luzes, fogo e entusiasmo, como o fez com os Apóstolos no dia de Pentecostes.
Fazemos Parte da Família divina
No Paraíso Terrestre, Adão passeava com Deus na brisa da tarde (cf. Gn 3, 8). Afirma, a este propósito, Santo Irineu: “O Jardim do Éden era tão belo e agradável que com frequência Deus nele Se apresentava pessoalmente, passeava e conversava com o homem, prefigurando o que haveria de suceder no futuro, isto é, que o Verbo de Deus habitaria junto ao homem e conversaria com ele, ensinando-lhe sua justiça”.26
Mas se esta passagem bíblica prenuncia o inefável relacionamento que a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade teria com os homens durante 33 anos nesta Terra, através de Sua sagrada humanidade, ela evoca ainda mais o celeste convívio na felicidade eterna, quando contemplaremos face a face o mesmo Deus que o homem apenas entrevia no Paraíso.
Com a maternal preocupação de preparar-nos para esse sobrenatural relacionamento, a Liturgia de hoje ilumina nosso entendimento e move nossa vontade. Pois se, pelo Batismo, a graça nos faz participar daquilo que o Espírito recebeu de Cristo, e Cristo recebeu do Pai, ela nos eleva muito acima da nossa natureza humana para nos tornar verdadeiros filhos e herdeiros da Santíssima Trindade. Como mais precisamente nos ensina São Paulo: “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).
Mesmo sendo puras criaturas, há no Céu um trono preparado para cada um de nós, e a consideração de tão grande dádiva convida-nos a esquecermos as contingências da vida terrena e elevar o espírito até a bem-aventurança eterna. Todos nós somos chamados a participar da própria vida de Deus. Pertencemos, como membros adotivos, a esta família chamada Santíssima Trindade. Este é nosso maior tesouro.
Saibamos dar o devido valor a esta gratuita dádiva, e procuremos compreender que, em nosso relacionamento diário, temos uma insuperável matriz de convívio: o eterno amor entre as três Pessoas divinas. Pois, ensina-nos a Santa Igreja, a família cristã é “comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.27
Sejamos gratos à Divina Providência, rogando a graça de estarmos à altura de tudo quanto d’Ela recebemos. E peçamos, por meio da Filha diletíssima do Pai, Mãe admirável de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Esposa e Templo do Paráclito, que a Santíssima Trindade nos cumule de dons místicos no relacionamento com o Pai que nos criou, com o Filho que nos redimiu, e com o Espírito que nos santifica.

1SANTO AGOSTINHO. De Trinitate, I,8, c.5: PL 42, 952953.
2ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología de la Perfección Cristiana. 9.ed. Madrid: BAC, 2001, p.53.
3SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.32, a.1, resp.
4Idem, ibidem.
5SANTO ANTONIO MARÍA CLARET. Colección de Pláticas Dominicales. Barcelona: Librería Religiosa, 1886, v.II, p.256.
6SANTA MARIA MADALENA DE PAZZI apud PLUS, SJ, Raúl. Cristo en nosotros. Barcelona: Librería Religiosa, 1943, p.153.
7PLUS, SJ, op. cit., ibidem.
8FABER, Frederick William. Œuvres posthumes. P. Lethielleux,1906, t.I, p.125; t.II, p.242.
9TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada – II Evangelios. Madrid: BAC, 1964, p.1253. No mesmo sentido, MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. III. Evangelio de San Juan. Madrid: BAC, 1954, p.867.
10MALDONADO, SJ, op. cit., ibidem.
11GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Barcelona: Acervo, 1967, v.II, p.535.
12 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid:
Voluntad, 1927, p. 223.
13 TUYA, OP, op. cit., p.1253.
14 Catecismo da Igreja Católica, n.66.
15 MALDONADO, SJ, op. cit., p.869.
16 Catecismo da Igreja Católica, n.65.
17 LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Jean. Paris: Lecoffre, 1936, p.422.
18 GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.535.
19 Cf. MALDONADO, SJ, op.cit., p.871.
20 GOMÁ Y TOMÁS, op. cit.,p.534.
21 SAN JUAN CRISÓSTOMO. Homilías selectas – Homilías exegéticas. Madrid: Razón y Fe, 1911, t.III, p.509.
22 DÍDIMO apud SANTO TOMÁS DE AQUINO. Catena aurea.
23 MALDONADO, SJ, op. cit., p.872.
24 LAGRANGE, OP, op. cit., p.423.
25 GOMÁ Y YOMÁS, op. cit., p.535.
26 ST. IRENAEUS, BISHOP OF LYON. The Demonstration of the Apostolic Preaching. London: Society of Promoting Christian Knowledge, 1920, p.82.
27 Catecismo da Igreja Católica, n.2205.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Evangelho Solenidade da Santíssima Trindade - Jo 16, 12-15 - Ano C - 2013


Continuação dos comentários ao Evangelho Solenidade da Santíssima Trindade - Jo 16, 12-15 -  Ano C - 2013
Três pessoas idênticas e coeternas
13b “Pois não falará por Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido”.
Com Nosso Senhor, atingiu-se a plenitude da Revelação. “Cristo, o Filho de Deus feito Homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N’Ele o Pai disse tudo e não haverá outra palavra senão esta”.16 Portanto, nada há fora do Verbo Encarnado que possa ser transmitido aos homens, e devemos interpretar neste sentido o presente versículo, como observa Lagrange: “O Espírito não falará por Si mesmo, ou seja, não exporá uma doutrina própria d’Ele: a doutrina não será nova, pelo menos no sentido de que não será estranha à Revelação já feita pelo Filho”.17
De outro lado, convém evitar a conclusão errônea segundo a qual o Espírito Santo necessitaria ouvir os ensinamentos de Cristo para depois transmiti-los aos Apóstolos, como se Ele tivesse alguma inferioridade em relação ao Filho. Sendo as três Pessoas idênticas e coeternas, são um só Deus.
Portanto, falando em termos humanos, o que “sabe” uma Pessoa divina, “sabem-no” também as outras. Ou, dito com as palavras do Cardeal Gomá: “A ciência das três Pessoas divinas é a mesma, infinita; contudo, recebendo o Espírito Santo a natureza do Pai e do Filho, dos quais procede, recebe também a ciência, segundo nossa maneira de falar”.18
Assim, quando o Paráclito disser aos Apóstolos “tudo quanto tiver ouvido”, estará revelando aquilo que conhece desde toda a eternidade, tal qual o Pai e o Filho.
O dom de profecia
13c “Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará”.
Pode-se interpretar esta afirmação como um recurso didático utilizado pelo Divino Mestre para melhor fazer compreender, aos Seus ouvintes, toda a extensão do poder do Espírito Santo para conduzir as almas à plena verdade. Mas outros autores, entre os quais Maldonado,19 preferem interpretar esta passagem como sendo um desejo de Jesus, de frisar a presença do dom de profecia entre os demais dons que o Espírito Santo infundiria nos Apóstolos.
Pois se este dom foi dado à Sinagoga, com muito maior razão deveria possuí-lo a Igreja. É o que assinala o Cardeal Gomá: “As funções do Espírito Santo não terminaram com a morte dos Apóstolos; com eles encerrou-se a Revelação; mas a Igreja tem a assistência positiva do Espírito Divino para não errar no caminho da verdade especulativa e prática; por outro lado, nunca cessou, na Igreja, o espírito de profecia”.20
Lembremos também que profetizar não significa apenas, nem principalmente, prever o futuro; consiste, pelo contrário, em interpretar o presente para saber conduzir os fiéis nas vias da Providência. Esse carisma para discernir os desígnios de Deus e guiar Seus filhos é concedido à Igreja em um grau incomparavelmente maior do que foi dado na Antiga Lei.
O Espírito não é maior do que o Filho
14“Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará”.
Tudo quanto se refere à Santíssima Trindade fica envolvido em véus de mistério. Qual o significado da afirmação feita pelo Divino Mestre: “Receberá do que é meu”?
Sob uma perspectiva eminentemente pastoral, Crisóstomo assim interpreta: “Para que, ao ouvir essas palavras, não julgassem os discípulos ser o Espírito Santo maior do que Ele e caíssem em maior impiedade, disse: ‘Receberá do que é meu’. Ou seja: ‘O que Eu disse, também Ele o dirá’”.21
Dídimo, de sua parte, sob um prisma metafísico, busca o sentido da mesma expressão: “‘Receber’, aqui, segundo a natureza divina, deve entender-se da seguinte forma: assim como o Filho, dando, não Se priva do que dá, nem Se prejudica beneficiando a outrem, assim também o Espírito Santo não recebe o que antes não possuía; pois se recebesse um dom que não tinha anteriormente, ficaria sem ele quando o transferisse a outrem. Convém entender que o Espírito Santo recebe do Filho aquilo que constitui Sua natureza, e que não são duas substâncias — uma que dá e outra que recebe — mas sim uma só substância. Do mesmo modo, o Filho recebe do Pai a mesma substância que subsiste em ambos: nem o Filho é outra coisa que tudo aquilo que recebe de Seu Pai, nem o Espírito Santo é outra substância que a que recebe do Filho”.22
Já Maldonado, em consonância com diversos comentaristas antigos, procura salientar a glorificação que Cristo há de receber pelo testemunho que d’Ele será dado pelo Espírito da Verdade, e conclui: “Portanto, a verdadeira interpretação é: ‘O Espírito virá em meu nome e ensinará minha doutrina, como legado meu. Por isso, a glória de Suas obras e magistério redundará em minha glória’”.23
Continua no próximo post.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Evangelho Solenidade da Santíssima Trindade - Jo 16, 12-15 - Ano C - 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho Solenidade da Santíssima Trindade - Jo 16, 12-15 -  Ano C - 2013

Jesus anuncia o Paráclito
O trecho do Evangelho de São João, hoje contemplado, pertence ao relato da Última Ceia. Precede a Oração Sacerdotal, e sucede ao episódio do lava-pés e a diversas afirmações misteriosas do Divino Redentor que pareceram incompreensíveis aos Apóstolos, como o anúncio da traição de Judas, da negação de Pedro antes que o galo cantasse, ou ainda da Sua breve partida: “Para onde Eu vou, vós não podeis ir” (Jo 13, 33).
Encontravam-se eles admirados e perplexos ao extremo diante do grandioso panorama apresentado por Jesus, tanto mais que suas vidas estavam em questão, pois poucos instantes antes o Salvador afirmara: “Virá a hora em que todo aquele que vos matar, julgará estar prestando culto a Deus” (Jo 16, 2).
“Não sois capazes de compreender agora”
12“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora”.
Chama a atenção ver o Mestre por excelência, incomparável pedagogo, dotado de divina didática, afirmar que vai silenciar determinados ensinamentos porque Seus interlocutores não são capazes de compreendê-los.
Até se poderia ter a falsa impressão de que, por causa de certas deficiências dos Apóstolos, Nosso Senhor houvera decidido guardar para Si algumas das doutrinas que deveriam fazer parte da Revelação. E que, portanto, se os Doze tivessem sido inteiramente fiéis, ter-lhes-ia o Divino Mestre desvendado muitas outras maravilhas. Afirmar isso, porém, seria grave erro, pois equivaleria a asseverar que ficou incompleta a missão de Nosso Senhor, não tendo sido atingida, com Ele, a plenitude da Revelação.
 Para bem entendermos este versículo, precisamos considerar a rudeza dos Apóstolos, sua condição de pessoas simples e a sublimidade dos ensinamentos que lhes seriam confiados. Tudo isto exigia, segundo o padre Tuya, “uma transformação radical que, no plano do Pai, estava reservada ao Pentecostes, como ponto inicial da ação do Espírito sobre eles”.9
Necessitavam dos dons do Paráclito para compreender certas verdades reveladas, que ultrapassam a capacidade humana de entendimento. De nada serviria, naquele momento, toda a divina didática de Cristo, sem estar acompanhada pela ação sobrenatural que se lhes concederia mais adiante. Embora o Espírito Santo “não fosse melhor mestre que Jesus, Ele, entretanto, lhes falaria numa oportunidade melhor”, explica Maldonado.10
De outro lado, as palavras de Nosso Senhor não autorizam a deduzir que tenha havido alguma falta ou infidelidade da parte dos Apóstolos. Apenas afirma o Divino Mestre serem eles incapazes de compreender, naquele momento, “muitas coisas” que Ele tinha a transmitir. Nisso nada havia de desonroso, pois, mesmo decorridos já dois milênios, durante os quais a doutrina católica foi crescentemente explicitada pelo Magistério pontifício, pelos escritos dos doutores ou pela voz dos pregadores, muitas das verdades reveladas permanecem ainda incompreensíveis à razão humana, aguardando uma ação do Paráclito que venha esclarecê-las.
Uma última reflexão, útil especialmente para nós sacerdotes. Além de reconhecermos com humildade essa limitação do nosso intelecto, precisamos saber aplicar, no exercício de nosso ministério, a lição moral que o Cardeal Gomá tira deste versículo: “A inteligência humana é um vaso pequeno demais para receber toda a verdade divina. Por isso Deus é misericordioso a ponto de descer até nós e dar-nos a verdade de acordo com a medida de nossa capacidade. Tenham isto bem presente aqueles que ensinam, ao povo, as verdades de nossa Religião”.11
“Ele vos conduzirá à plena verdade”
13a “Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, Ele vos conduzirá à plena verdade”.
Deveria nosso Redentor partir em breve, vindo em seguida o Paráclito para abrir as almas dos discípulos à “plena verdade”, isto é, conduzi-los ao conhecimento completo do que foi revelado. Pois cabe ao Consolador, como afirma Fillion, finalizar a obra de Jesus, ensinando aos Seus discípulos “a verdade cristã inteira e completa em toda a sua extensão, e sem perigo de errarem, ao menos naquilo que lhes fosse necessário para seu futuro ministério”.12
No mesmo sentido se pronuncia o padre Manuel de Tuya, ao afirmar: “O contexto do Evangelho de João sugere que, mais do que a uma revelação absolutamente nova de verdades, feita pelo Espírito Santo, refere-se a uma maior penetração das verdades reveladas por Cristo aos Apóstolos”.13
Com efeito, no decurso da era da Nova Aliança, o Espírito Santo não deixa de inspirar progressivamente as almas no sentido de melhor entenderem a riquíssima doutrina deixada por Nosso Senhor. Tudo quanto Ele ensinou será passível de desdobramentos e aprofundamentos até o fim do mundo. E sempre haverá novas pérolas a descobrir nesse inesgotável tesouro, pois, “embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à Fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos”.14
Em relação ao método usado pelo Espírito Paráclito para melhor fazer penetrar os Apóstolos nas verdades reveladas, Maldonado interpreta da seguinte forma a expressão “vos conduzirá”: “Conduzir à plena verdade não significa ensinar de qualquer maneira toda a verdade, mas agir de modo que o mestre leve quase pela mão o discípulo, e vá ensinando-lhe o caminho da verdade mais adequado à sua inteligência; ou seja, não expor-lhe todas as coisas ao mesmo tempo ou em desordem, mostrando primeiro o difícil e depois o fácil, mas ao contrário, propondo primeiro o fácil e em seguida o difícil, cada coisa a seu tempo, de acordo com o aproveitamento e a capacidade de quem aprende”.15
É preciso notar, por fim, que quem não tiver recebido o Sacramento do Batismo jamais conseguirá atingir certas verdades da nossa Fé, por maiores que sejam a inteligência e o esforço aplicados. E isto porque a alma não recebeu a luz do Espírito Santo, que torna compreensível a Palavra divina.
Assim aconteceu quando Nosso Senhor revelou a Eucaristia: muitos dos Seus discípulos O abandonaram, por interpretarem Suas palavras em sentido literal (cf. Jo 6, 48-69); hoje, porém, com o auxílio da graça do Paráclito, milhões e milhões de fiéis no mundo inteiro participam da Celebração Eucarística, dobrando os joelhos em adoração, ao serem pronunciadas, na Consagração, palavras do teor daquelas que outrora tanto chocaram, inclusive os Apóstolos.

Continua no próximo post.