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quinta-feira, 31 de março de 2011

Transfiguração


No post anterior, Mons João Clá Dias comenta um dos principais mistérios de nossa fé: a união da natureza Divina à humana na segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Agora Mons João explicará o sentido da Transfiguração. 
Nesse contexto, como situar a Transfiguração?

Um ensino puramente doutrinário não é capaz de, por si só, mover o homem a transformar sua vida. Um antigo adágio ilustra esta verdade de modo lapidar: “As palavras comovem, os exemplos arrastam”. Sobretudo quando o exemplo é íntegro e esplendoroso na verdade e no bem, tem ele uma força tal que age sobre as tendências da alma, convidando a um certo caminho — e às vezes impondo-o.
Ademais, há outro fator indispensável para arrebatar qualquer coração, e mantê-lo firme na reforma iniciada: a clareza do fim. Se este não estiver claro, o ânimo arrefecerá quando surgirem os primeiros lampejos das dificuldades e dos dramas, tão comuns em toda mudança de vida.
Ao tratar da Transfiguração de Jesus, assim se exprime São Tomás de Aquino sobre essa necessidade muito própria à criatura humana: “Para trilharmos bem um caminho, é necessário termos um conhecimento prévio do fim. Assim, o arqueiro não lança com acerto a seta, senão mirando primeiro o alvo que deve alcançar. (...) E isso sobretudo é necessário, quando o caminho é difícil e áspero, a jornada laboriosa, mas belo o fim” (3, q.45, a.1, c).
 Ora, para efetivar a Redenção com a morte na Cruz, e para formar a Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo ia submeter os apóstolos a provas duríssimas. Era muito conveniente, portanto, que fizesse conhecer experimentalmente, pelo menos a três deles, os fulgores de sua glória. Desse modo, não só se sentiriam robustecidos para enfrentar os traumas de sua Paixão, como também mais facilmente ajudariam seus irmãos a solidificar a Santa Igreja, e fortaleceriam os fiéis ao longo dos tempos.
Fulgor no Tabor, para suportar as agruras do Calvário
No mesmo tópico acima citado, São Tomás de Aquino continua a esclarecer, com sua genialidade habitual e sapiencial clareza:
“O Senhor, depois de haver anunciado a sua Paixão aos discípulos, convidou-os a lhe imitarem o exemplo. (...) Ora, o fim de Cristo, na sua Paixão, era alcançar não somente a glória da alma, que tinha desde o princípio da sua concepção, mas também a do corpo (...). E a essa glória também conduz os que imitam seu exemplo da Paixão, segundo diz a Escritura: Por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus. Por isso era conveniente que manifestasse aos seus discípulos a sua claridade luminosa; e tal é a Transfiguração, que também concederá aos seus, segundo diz o Apóstolo (São Paulo): Reformará o nosso corpo abatido para o fazer conforme o seu corpo glorioso. Donde dizer (São) Beda: foi conseqüência de uma pia providência que, tendo gozado por breve tempo da contemplação da felicidade eterna, tolerassem mais fortemente as adversidades” (3, q. 45, a. 1, c).
Já muito anteriormente a São Tomás, o Papa São Leão Magno comentara: “Para que os apóstolos concebessem com toda a sua alma essa ditosa fortaleza, não tremessem ante a aspereza da cruz, não se envergonhassem de Cristo e não tivessem por degradante o padecer... manifestou-lhes o esplendor de sua glória, porque, embora cressem na majestade de Deus, ignoravam o poder do corpo sob o qual a divindade se ocultava... Pois, estando ainda revestidos da carne mortal, não podiam ver e compreender, de modo algum, a inefável e inacessível divindade, visão reservada na vida eterna para os limpos de coração” (Sermão 51).
 E continuando o mencionado sermão, São Leão Magno afirma: “Cada membro [do Corpo Místico de Cristo] pode almejar a participação na glória que, com antecipação, resplandeceu na cabeça. O que já antes havia sido previsto pelo Senhor, quando falava da majestade de sua vinda: então os justos brilharão como um sol no Reino de seu Pai (Mt 3, 33).”
 A Transfiguração do Senhor foi uma excepcional graça mística concedida aos três apóstolos escolhidos, no alto do Tabor. Sua recordação ficou como uma fonte de sólida confiança, que lhes permitiu suportar os maiores sofrimentos, pois, assistindo a ela, tiveram um vislumbre da luz plena e refulgente da eternidade.
“Per crucem, ad lucem”
Deus deseja conferir-nos eternamente sua própria felicidade, fazendo-nos partícipes de sua natureza no esplendor da glória. É fundamental para nós pensarmos, com constância, na glória eterna, como um prêmio imensamente grande a nós oferecido. Nada há de melhor do que essa meditação para enfrentarmos as dificuldades e as cruzes do dia-a-dia.
Muitas são as ofertas de uma felicidade passageira que encontramos hoje em dia, apresentando fórmulas “mágicas”... fora do único caminho que é Jesus Cristo e sua Igreja. Tudo não passa de pura ilusão. Fomos criados para o Céu! Eis o que nos dá ânimo, resolução e alegria. “Per crucem, ad lucem” — “Pela cruz, chegaremos à luz”.
Aqui está uma observação importante a ser feita: muitos há que nos mostram a cruz do Senhor, e isto é ótimo e digno de todo louvor! Todavia, não basta. O objetivo de nossa existência não é a dor, nem o sacrifício. Não podemos nos esquecer da luz, nosso verdadeiro destino. A cruz não é o ponto final de nosso processo humano: é apenas o caminho.
Graças místicas
A Transfiguração de Jesus fortificou as virtudes da fé e da caridade nos Apóstolos.
Enquanto a fé nos faz crer na divindade de Cristo e em suas promessas, a caridade nos conduz a uma entranhada união com Deus. São duas virtudes extremamente interdependentes. Sem a fé na esplendorosa vida eterna que nos espera, a caridade tende a desaparecer.
 Mas, se a fé e a caridade dos apóstolos tanto lucraram com a Transfiguração do Senhor, não haverá algo, nessa mesma linha, que poderá auxiliar a vida espiritual de cada um de nós?
 A resposta é inteiramente positiva. Deus derrama graças místicas sobre todos os que trilham as vias da salvação, em intensidade maior ou menor, segundo o caso. Mas ninguém está excluído de recebê-las. Quem no-lo afirma é o famoso teólogo dominicano, Pe. Réginald Garrigou-Lagrange:

 “Para esses autores, a vida mística não é coisa extraordinária, como as visões e revelações, mas algo eminente na via normal da santidade. Consideram eles que isso é comum para as almas chamadas a se santificar na vida ativa, como São Vicente de Paulo. Absolutamente não duvidam que os Santos de vida ativa tenham tido normalmente a contemplação infusa bastante freqüente dos mistérios da Encarnação redentora, da Missa, do Corpo Místico de Jesus Cristo, do preço da vida eterna, se bem que esses Santos diferem dos puramente contemplativos, no sentido de que neles essa contemplação infusa é mais imediatamente dirigida à ação.”  
É claro que tais graças místicas não isentam ninguém de realizar os esforços próprios à prática das virtudes, tal como no-lo refere em outro trecho o mesmo autor:
 “Conforme o que acabamos de dizer, vê-se que a ascética está ordenada à mística. “Acrescentemos por fim que, para todos os autores católicos, a mística que não pressupõe uma ascese séria é uma falsa mística: foi a dos quietistas.”

Um “Tabor” em nossos corações
É fora de dúvida, pois, que Deus concede “Tabores”, ou seja, graças místicas, a cada um de nós.
 Quem não terá sentido, alguma vez, uma alegria interior, um palpitar do coração, uma emoção calma mas profunda, ao assistir a uma bela cerimônia? Ao apreciar o canto gregoriano, por exemplo? Ou ao contemplar alguma imagem? Quiçá ao ver um lindo vitral banhado de luz, dentro de uma igreja silenciosa, que deixa lá fora os ruídos do mundo? São mil ocasiões em que a graça sensível nos visita, e nos concede contemplações interiores, pré-degustações da felicidade perfeita que nos espera no Céu.
 Dois Doutores da Igreja, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, mestres da vida espiritual, dizem que a Providência costuma conceder aos principiantes graças místicas que depois irão experimentar novamente só no fim de suas vidas. Tal proceder divino visa fortalecer essas almas para atravessarem os períodos de aridez. É um modo comum de Deus agir: dá-nos consolações — o Tabor — para, quando vier a hora do Getsêmani, termos forças, sabendo que o fim será mais cheio de alegria e esperança.
São graças que nos animam a enfrentar os sacrifícios desta vida. Trata-se de experiências místicas que nos tornam patente quanto Jesus nos ama e quer nossa eterna glória.
Assim, ao longo de nossa existência terrena, já iremos experimentando um pouco das delícias eternas, e as tendas tão desejadas por São Pedro sobre o monte da transfiguração, Jesus as irá levantando no “Tabor” de nossos corações. Para tal, Ele exige de nós apenas uma condição: que não Lhe coloquemos obstáculos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Transfiguração

O transfigurar-se no Tabor, Jesus não quis somente fortalecer os apóstolos, mas todos os fiéis — incluindo cada um de nós —, até o fim do mundo.

Verdadeiro Homem
Um dos principais mistérios de nossa fé é a encarnação do Verbo. Com efeito, quem poderia excogitar a possibilidade de uma das Pessoas da Santíssima Trindade unir sua natureza divina à humana, e — sem deixar de ser verdadeiro Deus — se tornar também verdadeiro Homem? Nunca, pelo simples raciocínio, nenhum homem — e nem mesmo algum Anjo — conceberia tal conúbio entre Criador e criatura. Para conhecermos esse belo e atraente mistério, era necessário que o próprio Deus no-lo revelasse. O Redentor foi radical em assumir a humana condição, dentro da frágil contingência desta (excluído o pecado, como também qualquer defeito). Por exemplo, ao escolher as mais modestas circunstâncias para nascer: a total pobreza, uma gruta, o auge do inverno, tendo por berço apenas uma manjedoura.
 São inúmeros os episódios do Evangelho nos quais transparece a natureza humana de Jesus: o ter de fugir para o Egito, levado por Maria e José, a fim de poupar-se da espada de Herodes; o trabalhar como humilde carpinteiro, até os 30 anos de idade, evitando chamar a atenção do povo; o fazer penitência durante 40 dias no deserto, suportando as agruras de um terrível jejum; o verter sangue no Jardim das Oliveiras, em meio ao temor e à angústia ante a Paixão; o externar fraqueza física durante sua flagelação e enquanto carregava a cruz ao alto do Calvário. Por fim, a sua morte, como a de qualquer ser humano, e no pior dos suplícios.
Como diz São Paulo: “Sendo Ele de condição divina, não reteve avidamente sua condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens” (.l 2, 5-7). Sem uma especial assistência da graça, seria inevitável para qualquer um, ao ouvir a narração desses fatos, concluir que Jesus não passava de uma mera criatura humana.
Verdadeiro Deus
Por isso, o Unigênito Filho de Deus, para sustentar nossa fé, tornou patente sua origem eterna e incriada em muitos outros fatos e circunstâncias: a anunciação à Santíssima Virgem por meio de um Arcanjo; o aviso a São José, em sonhos, da concepção virginal de Maria; a aparição de uma multidão de anjos aos pastores, perto da gruta de Belém, para lhes anunciar o nascimento de Jesus; a moção sobrenatural no interior dos Santos Reis Magos, sobre a providencialidade daquele Menino. Sobretudo foi categórica sua glorificação, efetuada pelo Pai e pelo Espírito Santo, no momento do batismo no Jordão:
“Quando todo o povo ia sendo batizado, também Jesus o foi. E estando Ele a orar, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: ‘Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição’” (Lc 3, 21-22).
O próprio Salvador, ao afirmar “quem crê em Mim tem a vida eterna” (Jo 6, 47), não fazia referência à sua natureza humana, mas sim à sua divindade. A multiplicação dos milagres, cujo auge foi a ressurreição de Lázaro, tornou a todos evidente o pleno poder de Jesus sobre a natureza:
“Subiu Ele a uma barca com seus discípulos. De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande, que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. Os discípulos achegaram-se a Ele e o acordaram, dizendo: ‘Senhor, salva-nos, nós perecemos!’ E Jesus perguntou: ‘Por que este medo, gente de pouca fé?’ Então, levantando-se, deu ordem aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. Admirados, diziam: ‘Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?’” (Mt 8, 23-27).
Essa mesma pergunta pervadiria a mente de todos os que, durante aqueles ditosos três anos nos quais o próprio Deus caminhou pelas estradas da Palestina, d’Ele puderam aproximar-se. Seria Elias que voltara, ou algum dos outros profetas? Ou teria surgido um novo profeta? A resposta germinou nas almas mais virtuosas, ou mais predispostas a amar a verdade, e, pode-se dizer, desabrochou por inteiro na confissão de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus Vivo!” (Mt 16, 16), ou no Calvário, quando, em meio ao terremoto, raios e trovões consecutivos à morte de Jesus, brotaram dos lábios do centurião romano as entusiasmadas palavras: “Este homem era realmente o Filho de Deus” (Mc 15, 39).
 Apesar dessas — e de tantas outras — manifestações serem mais que suficientes para levar os homens ao ato de fé na divindade de Nosso Senhor, apareceram heresiarcas a negá-la, já no começo do cristianismo. Aliás, uma das razões pelas quais São João, o discípulo amado, escreveu seu Evangelho, entre os anos 80 e 100 de nossa era, foi para reafirmar ser Jesus verdadeiro Deus. E o conjunto dos Evangelhos, procurando sublinhar a mesma verdade, por mais de cinqüenta vezes dá-Lhe o título de Filho de Deus.
É necessário ter essas considerações em vista, para melhor analisarmos e compreendermos a Transfiguração do Senhor.
Conveniência da Transfiguração
Jesus poderia ter descido à Terra acompanhado de legiões de anjos, e manifestado em todo o esplendor sua infinita grandeza divina. Contudo não agiu assim. Revelou-nos sua natureza incriada de forma progressiva, e aos poucos foi se tornando mais categórico.
Diante de um povo ansioso por riquezas e grandezas materiais, era conveniente usar de muita cautela no fazer-se conhecer enquanto Deus: “Então ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem que Ele era o Messias” (Mt 16,20). Ao longo do Evangelho, diversas vezes Ele repete essa proibição, obrigando a observá-la até os próprios demônios: “Quando os espíritos imundos o viam, prostravam-se diante dele e gritavam: ‘Tu és o Filho de Deus!’ Ele os proibia severamente que o dessem a conhecer” (Mc 3,12). No mesmo sentido, após a Transfiguração no monte Tabor, disse Ele aos três apóstolos: “A ninguém contem esta visão até que o Filho do homem tenha ressuscitado dos mortos” (Mt 17,9). Caso a notícia se espalhasse, receava Jesus que surgisse um movimento meramente exterior e materialista, da parte de quem ansiava por um Messias temporal, restaurador do poderio de Israel sobre as outras nações.
Nesse contexto, como situar a Transfiguração?

(Ler a continuação no próximo post...)

segunda-feira, 28 de março de 2011

A prudência da carne e a prudência santa



O administrador infiel usa de prudência para garantir sua própria subsistência. Essa mesma sagacidade e diligência deveriam ter os filhos da luz para alcançar a santidade.

O homem ante a pobreza

Havia um certo país onde, segundo narra São João Damasceno, os cidadãos anualmente elegiam um novo rei a fim de evitarem os riscos de uma possível tirania. Conhecedores da sede de mando existente em todo homem, não permitiam a estabilidade perene do monarca: no final do ano, ele era destronado e deportado para uma ilha deserta na qual, depois de algum tempo, falecia por falta de recursos e de alimentos. Foi esse o destino de vários reis até que um, durante o exíguo reinado de 360 dias, transportou para a tal ilha tudo quanto pôde em matéria de subsistência para o resto de sua vida.

Soube ele contornar o mais temido dos males, ou seja, a pobreza. E, em parte, compreende-se esse temor em função de alguns instintos de nossa natureza, como, por exemplo, o de conservação e o de sociabilidade. A perspectiva da carência do essencial para nossa vida nos deixa aturdidos. A miséria extrema, sem uma intervenção de Deus, destrói no homem as últimas energias, aferra sua atenção à matéria e o incapacita de elevar as vistas para as considerações espirituais. Tal era, de acordo com a narração de São João Damasceno, a situação dos reis exilados após expirar seu mandato, lutando pela vida numa ilha sem recursos. Deixemos de lado os casos agudos como o mencionado acima e focalizemos a pobreza comum, aquela consistente em obter estritamente o necessário e, assim mesmo, mediante um árduo esforço. Nessas circunstâncias, embora conhecendo o grande apreço que Deus manifesta pela pobreza, assim como todos os privilégios a ela inerentes — as Escrituras encontram-se pervadidas de menções a esse respeito — as apreensões da criatura humana face às contingências da pobreza, conduzem-na a optar pelas vias da falsa ou verdadeira prudência.


Uma falsa prudência

Esta virtude, quando é falsa, portanto, entendida num sentido pejorativo, busca um fim terra-a-terra, temporal e passageiro. Ela é fruto de uma filosofia pagã para a qual não existe Deus, nem a alma humana e a remuneração futura. Essa impostação de espírito está bem sintetizada na atitude das virgens loucas (cf. Mt 25, 1-13) e repudiada por Deus em inúmeras passagens do Antigo e do Novo Testamento (cf. Pr 4, 19; 25-26; 1Cor 1, 19; Rm 8, 6; 1Tm 3, 2 s; 1Pd 4, 7; etc.).

Não poucas vezes a falsa prudência sabe empregar manhas e artimanhas para obter os bens terrenos, mas não os eternos. Para ela, o fim justifica os meios. Fundamenta-se ela na sabedoria deste mundo e daí surgem equívocos como, por exemplo, o de querer construir edifícios eternos com o que não é senão passageiro. Comenta São Paulo: “Ninguém se engane a si mesmo; se algum dentre vós se tem por sábio segundo este mundo, faça-se insensato para ser sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, pois está escrito: ‘Eu apanharei os sábios na sua própria astúcia’. E outra vez: ‘O Senhor conhece como são vãos os pensamentos dos sábios’” (1 Cor 3, 18-20).

A virtude da prudência

Diametralmente oposta se encontra a verdadeira virtude da prudência. A ela só se aferra quem se deixa conduzir pela graça de Deus, ao se ver diante da perspectiva de uma vida feita de pobreza. O quadro abaixo nos esclarece bem o quanto consiste esta virtude na reta escolha dos meios convenientes para obter um determinado fim (1).

Quem magistralmente soube transpor para a prática essa bela doutrina da prudência foi Santo Inácio de Loiola, o Fundador da Companhia de Jesus, na primeira meditação de seus Exercícios Espirituais: “O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e mediante isso salvar a sua alma”. Saber servir-se das criaturas — inclusive do dinheiro — para alcançar esse fim, é o divino ensinamento ministrado por Jesus na parábola do Administrador infiel, mas prudente, da Liturgia de hoje.

O administrador infiel

Disse também a seus discípulos: “Um homem rico tinha um feitor, que foi acusado diante dele de ter dissipado os seus bens.

“Nas três parábolas anteriores — comenta o Pe. Juan de Maldonado —, Cristo ensinara o cuidado que Ele tinha em converter os pecadores e sua benignidade para com os já convertidos; nesta, reportando-se à benignidade de Deus, ensina o empenho e a diligência que devem os pecadores, por sua vez, empregar para converter-se à amizade divina. Por este motivo expôs as três parábolas anteriores aos escribas e fariseus, que Lhe tinham dado a ocasião, e, por outro lado, esta Ele a propõe aos discípulos e a todos os seus ouvintes. É este o sentido da frase: ‘Disse também a seus discípulos’, ou seja, do mesmo modo como antes havia feito aos escribas e fariseus, segundo observa São Jerônimo”

Apesar deste comentário de Maldonado, devemos observar, para melhor clareza de interpretação, que continuarão presentes os fariseus enquanto ouvintes também nesta quarta parábola, conforme podemos constatar nas palavras de Lucas logo ao término da mesma: “Os fariseus, como eram avarentos, ouviam suas palavras e troçavam d’Ele” (Lc 16, 14). Aliás, essa seqüência de parábolas — a da ovelha desgarrada, a da dracma perdida, a do filho pródigo e esta do administrador infiel, mas prudente — se inicia pelo escândalo que significou aos olhos dos fariseus e dos doutores da Lei, o fato de verem “todos os cobradores de impostos e pecadores” se aproximarem de Jesus para serem instruídos: “Este acolhe os pecadores e come com eles” (Lc 15, 1-2). Essa foi a razão pela qual Jesus lhes propôs as três parábolas sobre a misericórdia. Portanto, também nesta quarta estão concernidos os escribas e fariseus. Tanto mais que Ele lhes dirá como uma das conclusões: “Fazei amigos com as riquezas da iniqüidade...” (v. 9).

Somos administradores de bens alheios e transitórios

Pelo que se pode deduzir dos versículos 6 e 7, relativos às dívidas que o feitor tinha obrigação de bem conduzir e cobrar, as propriedades desse tal “homem rico” deveriam consistir em olivais e trigais. Tudo leva a crer — e a maioria dos comentaristas coincide nesta apreciação — que o fato deste último “dissipar os bens” de seu senhor não se devia só ao relaxamento, mas também a abusos para satisfazer seus prazeres pessoais.

Já de início, neste versículo do Evangelho de hoje, cabe uma aplicação moral a cada um de nós: “Uma idéia errônea que domina os homens, aumenta seus pecados e diminui suas boas obras, consiste em crer que tudo quanto temos para as atenções da vida, nós o devemos possuir como senhores e, em conseqüência, nós o procuramos como o bem principal. Contudo, é exatamente o contrário, pois não fomos colocados nesta vida como senhores em sua própria casa, mas, isto sim, como hóspedes e forasteiros levados aonde não queremos ir e quando não pensamos: quem agora é rico, em breve será mendigo. Assim, sejas quem fores, deves saber que és apenas dispensador de bens alheios, dos quais te foi dado uso transitório e direito muito breve. Longe, pois, de nossa alma o orgulho da dominação, e abracemos a humildade e a modéstia do arrendatário ou caseiro” (3). Deus, portanto, coloca em minhas mãos os bens do corpo e da alma — os bens materiais e os da graça, vida, talentos, riquezas, etc. — para que eu os administre em função de sua Lei e glória. Que uso faço dos bens recebidos das mãos de Deus?

Súbita prestação de contas

Chamou-o e disse-lhe: Que é isto que eu ouço dizer de ti? Dá conta de tua má administração; não mais poderás ser meu feitor.

O senhor da parábola não demonstra ser muito vigilante por seus próprios bens, pois é só depois de receber de outros as informações a respeito da má conduta de seu administrador é que se põe a campo para retomar o controle da situação. O auxílio para ter uma real noção dos negócios e empreendimentos de sua propriedade lhe chega aos ouvidos através de pessoas invejosas e que desejam permanecer no anonimato para não se exporem a represálias ou vinganças.

É compreensível a atitude do senhor de pedir contas, pois nós também, em nosso relacionamento com Deus, “quando, em vez de administrar de modo a agradar-Lhe os bens que nos foram confiados, abusamos deles para satisfazer nossos gostos, convertemo-nos em arrendatários culpáveis”.

Ademais, percebe-se por essa sentença proferida pelo senhor, sua impossibilidade de aplicar um castigo proporcionado. “Não mais poderás ser meu administrador, por ser esta a primeira sanção que recebe quem administra mal os bens de seu amo, e também por não poder nem ser costume um rico castigar de outra maneira, pois o feitor não é um escravo que podia ser açoitado ou morto, mas um homem livre ao qual o senhor não podia dar outro castigo senão o de privar da honra e do cargo. Assim se pode aplicar ao pecador que, por sua má administração, isto é, por sua má observância da Lei de Deus, não é sempre removido de sua função nem excluído da Igreja, não é sempre privado de sua dignidade eclesiástica nem despojado dos bens que administrou mal, mas sempre é castigado”.

“Dá conta de tua má administração...” Um raio lhe atravessa o caminho. Quiçá, jamais tenha prestado contas durante a vida, e nada levava com ordem. Pela primeira vez, vê-se na contingência de reconhecer a existência de um senhor, ante o qual deve responder por seus atos. Quantos de nós não fazemos os mesmos equivocados cálculos? Só na hora do juízo de Deus, realizamos sermos meros administradores dos bens... Um certo dia, desconhecido por nós, mas não muito longínquo, seremos demitidos de nossa administração dos bens deste mundo. Prestadas as contas, qual será nosso destino eterno?

“A mesma coisa nos diz o Senhor todos os dias, apresentando-nos como exemplo aquele que, gozando de saúde ao meio-dia, morre antes da noite, e aquele que expira em uma festa: assim deixamos a administração de vários modos. Mas o bom administrador, o qual tem confiança, devido à sua boa administração, deseja dissolver-se como São Paulo e estar com Cristo; enquanto quem se apega aos bens da terra se encontra cheio de angústia na hora derradeira” .

Consciência da culpa

Então o feitor disse consigo: Que farei, visto que o meu senhor me tira a administração? Cavar não posso, de mendigar tenho vergonha.

“O feitor nem sequer tenta uma autodefesa. Tem a consciência machada e sabe perfeitamente que é verdade o que chegou ao conhecimento do senhor” (7).

Vemos neste versículo o retrato daqueles que viveram negligentemente ao longo de sua existência terrena, tal como afirma São João Crisóstomo. Se esse administrador estivesse habituado ao trabalho, não temeria ser despedido.

E nós? Poderemos trabalhar pela nossa salvação após a morte? Como nos precavermos em face a esse futuro?

Diligência do mau administrador para garantir seu futuro

Já sei o que hei de fazer, para que, quando for removido da administração, haja quem me receba em sua casa.

Usando de monólogos, também nós, em muitas ocasiões, tomamos nossas decisões como o fez o administrador. Para satisfazer sua preguiça e seu orgulho, evitando o trabalho e a mendicância, ele idealiza um meio eficaz que, em função de seu mau caráter, uma vez mais não levará em conta os interesses de seu senhor, mas sim os de seu egoísmo.

Os comentaristas aproveitam a reação desse mau feitor para mostrar como ele, tendo diante dos olhos um fim muito claro — o de sua própria subsistência —, pôs-se imediatamente a campo e usou dos meios para atingi-lo. Reprovando seu relaxamento moral, fazem eles uma aplicação ao caso específico de nossa salvação eterna. Se tivéssemos robusta convicção a respeito de nossa vida post-mortem, o fim último de nossa existência, seríamos mais diligentes em aplicar os devidos meios para obter a perpétua felicidade.

Sublinham eles de modo especial essa tenacidade do administrador em alcançar seus objetivos e a tomam como exemplo para nós “porque todo aquele que, prevendo seu fim, alivia com boas obras o peso de seus pecados (perdoando a quem lhe deve ou dando boas esmolas aos pobres), e dá liberalmente os bens do senhor, granjeia muitos amigos que hão de prestar bom testemunho dele perante o juiz, não com palavras, mas manifestando suas boas obras, e de preparar-lhe, com seu testemunho, a mansão do consolo. Nada há que seja nosso, pois tudo é do domínio de Deus”.

A pressa para atingir objetivos neste mundo

E chamando a cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’ 6 Ele respondeu: ‘Cem medidas de azeite’. Então disse-lhe: ‘Toma o teu recibo, senta-te e escreve depressa: cinqüenta’. 7 Depois disse a outro: ‘Tu quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o feitor: ‘Toma o teu recibo e escreve oitenta’.

Sobre quais seriam esses devedores e a transposição dessas medições aos usos desta ou daquela atualidade, pululam entre os autores hipóteses e cálculos. Por que se trata de dois devedores, e nem mais nem menos, para significar que devemos granjear muitos amigos, coincidimos com o célebre Maldonado em que, pela necessidade de uma quase esquematização, era mais adequado usar de uma narração breve. Idem no que tange ao azeite e ao trigo. Poderiam também ser outros produtos.

A respeito da diferença nas reduções ilícitas, mais provavelmente se deve ao senso de oportunidade do administrador, o qual oferecia a cada um dos devedores o suficiente para obter análogos resultados.

Chama a atenção a pressa do administrador em atingir suas metas. Infelizmente, assim também somos muitos de nós, ou seja, elaboramos planos e com rapidez os realizamos para os fins a atingir neste mundo, mas tudo se torna difícil, e até insolúvel, quando o objetivo é a nossa santificação. Nosso fim último é o supremo em relação aos outros, mas nem sempre lhe tributamos a importância devida. Quantos de nós não preferimos — bem ao contrário desse administrador — deixar para amanhã a realização de nossos propósitos de santidade? Na juventude, com fervor sonhávamos concretizá-los na maturidade, já tão próxima. Entrando nesta, jamais nos parece ela caminhar a passos velozes para o seu término definitivo...

Vemos por esses versículos o quanto se empenha o tal administrador em deitar o peso de seus esforços para fazer amigos comparsas de suas fraudes, a fim de ser por eles amparado no futuro. Esse deve ser nosso empenho na busca da amizade de Deus, dos justos, dos castos, dos pobres, etc.

Sagacidade dos filhos deste mundo

E o senhor louvou o feitor desonesto, por ter procedido sagazmente. Porque os filhos deste mundo são mais hábeis no trato com os seus semelhantes do que os filhos da luz.”

Surge aqui outro versículo muito discutido entre os autores. O elogio do senhor da parábola não recai sobre os aspectos ilícitos e imorais dos atos praticados por seu administrador, mas tão-somente sobre a esperteza deste. “Denominam-se contraditórias estas parábolas para compreendermos que — se pôde ser louvado pelo seu amo o homem que defraudou seus bens — muito mais devem agradar a Deus os que fazem aquelas obras de acordo com seus preceitos”

Por “filhos deste mundo” devemos entender como sendo aqueles que só se preocupam com os bens temporais. Os “filhos da luz” crêem na vida eterna após a morte, na resurreição final e trabalham por sua salvação. Entretanto, a “prudência” dos primeiros é infatigável, solerte, pertinaz, inteligente, hábil com vistas a obter seus objetivos. Assim devemos ser nós face ao nosso fim último, e nisso consiste o conselho implícito na comparação feita por Jesus. Apenas para ressaltar a clareza de compreensão, é bom frisar que os “filhos da luz” são inferiores muitas vezes em matéria de prudência, mas não em sabedoria.

Portanto, Eu vos digo: “Fazei amigos com as riquezas da iniqüidade, para que, quando vierdes a precisar, vos recebam nos tabernáculos eternos”.

Este versículo recalca mais a importância da sagacidade e da prudência a serem empregadas com vistas à vida eterna. Trata-se, portanto, de duas considerações diferentes que devem ser analisadas segundo as respectivas essências.

Deus é o verdadeiro proprietário de todo o Universo

Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não fostes fiéis nas riquezas iníquas, quem vos confiaria as verdadeiras? E, se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? 13 Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou odiará um e amará o outro, ou se afeiçoará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.

Alguns autores dão a estes quatro versículos o título de “apêndices parabólicos sobre as riquezas”. As três máximas neles contidas são de fácil compreensão e dispensam longas considerações.

É de se notar que Jesus não condena a propriedade, mas a toma como sendo um bem a ser gerido temporariamente com vistas à vida eterna. Não passa o homem de simples administrador. Deus, sim, é o autêntico proprietário. Se essa distinção é ignorada pelo homem, acaba ele por violar a supremacia de Deus enquanto Senhor de todo o Criado, ingressando, assim, na injustiça.

“As riquezas existentes nesta terra não são de posse absoluta do homem. Ele é administrador desses bens de Deus. Deve, pois, ser-Lhe fiel neles. É a expressão externa de sua fidelidade. Assim receberá os ‘próprios’ que, neste contexto, pela contraposição estabelecida, parecem referir-se a dons espirituais que Deus, em compensação por essa fidelidade requerida para os outros, concede em abundância ao discípulo”.

As expressões: “riquezas verdadeiras” e “o que é vosso” referem-se aos bens sobrenaturais, os dons da graça, os únicos eternos e absolutos. Quanto ao último versículo , São Mateus o coloca ao longo do Sermão da Montanha e numa formulação quase idêntica: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6, 24). Tanto em Lucas como em Mateus, “põe-se a tese e dá-se a razão de não poder servir a dois senhores: a Deus e às riquezas. Naturalmente, entendido num sentido de apego a elas ou numa aquisição ou uso reprovável delas”.

Nestes versículos finais (9 a 13), o Divino Mestre se manifesta como o Arauto do desprendimento de tudo quanto passa. Não é ilícito guardar os bens num cofre, o que não podemos é entesourá-los em nossos corações.

terça-feira, 8 de março de 2011

A necessidade da contínua conversão

Deus é Paciência e usa de longanimidade para conosco, dando-nos tempo mais do que suficiente para nos convertermos. Mas, sendo também Sabedoria e Justiça, sabe como e quando castigar.

O amor incondicional de Deus a cada um de nós

Por meio da consideração do universo, de modo especial sob o aspecto da beleza, pode o homem a todo momento reportar-se a Deus, vendo nas criaturas reflexos do Criador. Entretanto, muitos dos nossos contemporâneos vivem engajados em um ritmo de vida que os absorve por completo, dificultando-lhes tomar distância dos afazeres cotidianos e se deter, mesmo por alguns instantes, para admirar algo de nobre, elevado ou belo capaz de alçá-los à esfera sobrenatural.

Quem assim procede, demonstra ignorar o lado mais profundo da realidade, uma vez que Deus está em toda parte e intimamente em todas as coisas! “N’Ele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17, 28).

Deus quer dar-nos a vida eterna

Deus é sumamente comunicativo e “não cessa de chamar todo homem a procurá-Lo para que viva e encontre a felicidade”. Deseja entrar em contato conosco e tem por nós um amor gratuito, incomensurável e incondicional, que perdoa as infidelidades até o extremo de Nosso Senhor afirmar haver mais alegria no Céu pela conversão de um pecador do que pela perseverança de noventa e nove justos (cf. Lc 15, 7).



“Não quero a morte do pecador, mas que ele se converta e tenha a vida” (Ez 33, 11), diz a Sagrada Escritura. Esse pensamento expresso através da Revelação deve nos encher de confiança, qualquer que seja nossa situação espiritual.

Tanto mais que a vida desejada por Nosso Senhor, para nós, não se esgota nos limites de uma existência terrena cheia dos deleites dos sentidos, o que além de ilusório, quase nada seria face ao que Ele quer nos dar, ou seja, uma participação na própria natureza divina. Deus nos criou para gozarmos de sua plena e perpétua felicidade. Dádiva maior, não é possível excogitar!

Precisamos, sobretudo, não colocar obstáculos à graça

Desde toda a eternidade, Deus tem um plano específico para cada um de nós e o mantém, mesmo se a este não tenhamos correspondido como deveríamos. Em sua misericórdia, Ele vê o que toda pessoa seria se tivesse sido sempre fiel às graças recebidas, vivendo no auge de perfeição para a qual foi criada.

Deus espera que nossa vocação um dia se torne realidade e serve-Se dos acontecimentos cotidianos para nos mover à conversão. Assim, ainda que alguém se encontre num estado de extrema infelicidade por ter cometido uma falta grave — ou, pior ainda, por ter abraçado decididamente as vias do mal — o Divino Juiz não Se apressa em punir o pecador. Ao contrário, aguarda pacientemente o momento adequado para reconduzir o filho pródigo à casa paterna.

Mais ainda, o amor de Deus pelos homens é tão incondicional que, diante do anseio salvífico do Criador, nossa vontade fica relegada a um segundo plano. Bem sintetizou essa realidade Santa Maravilhas de Jesus em seu célebre lema: “Si tú le dejas...” — “Se tu O deixas...”. Pois, para trilharmos as vias da virtude, precisamos, sobretudo, não colocar obstáculos à ação da graça em nossas almas. A santidade não é principalmente resultado do nosso esforço, mas de uma iniciativa amorosa de Deus.

Jesus convida os Judeus à conversão
“Naquele tempo, vieram algumas pessoas trazendo notícias a Jesus a respeito dos galileus que Pilatos tinha matado, misturando seu sangue com o dos sacrifícios que ofereciam”.

Pouco tempo antes do episódio narrado neste Evangelho, quando o povo estava reunido no Templo para a oferta da Páscoa, alguns galileus, inconformes com o domínio romano, aproveitaram a grande confluência de peregrinos para iniciar uma revolução contra a autoridade de César.

Ao tomar conhecimento desse fato, Pilatos indignou-se e mandou executar os revoltosos. Ora, entrando os soldados no átrio do Templo, além desses promotores da sublevação, mataram também outros galileus que lá se encontravam para oferecer os sacrifícios de costume, derramando assim sangue inocente. A notícia produziu grande alvoroço e algumas pessoas apressaram-se a ir contar o ocorrido a Jesus.

A propósito do castigo temporal, alerta para a pena eterna
“Jesus lhes respondeu: ‘Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus por terem sofrido tal coisa? Eu vos digo que não. Mas, se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo’”.

Imaginavam os portadores da notícia que, sendo galileu, Jesus tomaria naturalmente o partido dos compatriotas mortos. Talvez até esperassem que a brutalidade da repressão levasse o Divino Mestre a pronunciar-Se a favor do nacionalismo judaico.

Ora, as cogitações de Nosso Senhor situavam-se sempre num plano muito superior ao das disputas políticas. Em sua resposta, Ele não Se compromete com os aspectos concretos da questão, mas aproveita a circunstância para dar uma lição moral, assim sintetizada por Fillion: “Sem julgar o procedimento do governador, nem descer ao terreno das discussões políticas, recorda aos seus ouvintes que, como todos ofenderam a Deus, estão todos expostos aos golpes da justiça divina, enquanto não se arrependerem e se converterem sinceramente”.

Deparamo-nos, aqui, com uma primeira atitude de Jesus a imitar: quando um fato da vida cotidiana se apresentar revestido de especial interesse, evitemos analisá-lo apenas segundo os aspectos terrenos, e procuremos elevar-nos até o plano sobrenatural, a fim de melhor julgá-lo.

De outro lado, na opinião de Leal e os outros professores da Companhia de Jesus, o teor da resposta do Divino Mestre visava corrigir uma ideia errada comum entre os judeus daquela época, segundo a qual toda dor era um castigo.5 Porém, ensina o Cardeal Gomá, só o Senhor “sabe se existe alguma relação entre os pecados pessoais e as desgraças ocorridas a alguém; os exemplos de Jó, de Epulão e Lázaro desmentem a teoria errônea e supersticiosa dos judeus”.

Ao afirmar que aqueles galileus mortos não eram mais pecadores do que os seus interlocutores, Jesus lança mão de um recurso psicológico para mais vivamente alertá-los sobre a gravidade intrínseca do pecado e das penas correspondentes. Pois, como afirma Maldonado, “tencionava Jesus advertir, acerca da pena eterna, os seus ouvintes impressionados pela narração daquele castigo temporal; como se lhes dissesse: [...] não reputeis miseráveis os homens que sofreram essa morte corporal, mas sim aqueles que sofrerão a morte da alma, e esta cairá com certeza sobre todos vós, se não fizerdes oportuna penitência”.

Um segundo caso trazido à tona por Nosso Senhor
“’E aqueles dezoito que morreram, quando a torre de Siloé caiu sobre eles? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? Eu vos digo que não. Mas, se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo’”.

Logo a seguir, Cristo faz referência a outra tragédia recente: o desabamento da torre de Siloé, matando dezoito pessoas que se encontravam em seu interior. Desta vez a desgraça não decorrera de um acontecimento político, mas sim de um episódio fortuito.

Também sobre este caso pairava a suspeita de ter sido um desastre ocorrido para castigo das vítimas, pois, segundo julgavam os judeus daquele tempo, a morte acidental só advinha a quem houvesse ofendido gravemente a Deus. “Uma tal desgraça parecia mostrar a mão da Providência Divina como querendo castigar seus pecados”, comenta Maldonado.

Entretanto, aqui mais uma vez o Divino Mestre os corrige: aqueles dezoito não eram mais pecadores do que os outros judeus. E novamente adverte-os sobre a necessidade de se converterem.

Cumprimento das profecias de Jesus
“No plano de Deus há horas determinadas para a efetivação de castigos ou desgraças coletivas”, precisa o padre Tuya.9 Algumas décadas depois do episódio narrado neste Evangelho, foi Jerusalém sitiada pelas tropas de Tito, e sucumbiram os habitantes da cidade exatamente como esses galileus no Templo, pelas mãos de romanos.

Sublinha, a este propósito, o Cardeal Gomá: “O próprio recinto do Templo, como narra Flávio Josefo, encheu-se de cadáveres durante o cerco de Jerusalém, ‘do mesmo modo’, oferecendo sacrifícios”.

E escreve Didon: “É provável que os sábios de então, os saduceus, cortesãos do poder estrangeiro; os fariseus, que acreditavam no triunfo de Israel, no orgulho cego de sua piedade sem virtude, sorrissem das ameaças do Profeta; o próprio povo sempre mais comovido com o presente do que com o futuro afastado, não parece ter-se impressionado com elas.

“A profecia todavia não tardou em verificar-se: quarenta anos mais tarde, os soldados de Tito degolavam no Templo os últimos partidários exasperados da independência nacional; e as casas de Jerusalém, incendiadas, desabavam, como a torre de Siloé, sobre os habitantes da cidade impenitente.

“Este futuro terrível para o qual a nação se precipita, não deixa mais o pensamento do Profeta; comove-O e entristece-O mais do que a sua própria morte; quereria preveni-lo, abalando as consciências e abrindo-as à voz de Deus. Se compreendessem o dever do momento, renunciariam aos sonhos terrestres que as enganam, acolheriam a Boa-Nova do Reino, de Israel transformado, deixando os romanos prosseguir na sua obra, tornar-se-ia o verdadeiro povo espiritual de Deus. Nunca destino mais sublime foi oferecido a uma nação; nunca se deu exemplo de mais incurável cegueira. Jesus em vão procurava desenganá-la”.

Assim, no ano 70, segundo muitos comentaristas, se cumpriram ambas as profecias incluídas no Evangelho de hoje. O historiador judeu Flávio Josefo, testemunha ocular daqueles acontecimentos, relata cenas dramáticas, como a de uma mãe que, movida pela fome e pelo desespero, assou ao forno o próprio filho, para comê-lo.

A parábola da figueira
Visando melhor vincar nas almas dos seus ouvintes a necessidade de uma pronta penitência, Jesus continua Seus ensinamentos recorrendo a uma parábola de fácil compreensão, por ser a figueira muito comum na Palestina daquela época. Costumava-se plantá-la pelo meio das vinhas, e tanto as uvas quanto os figos secos constituíam parte importante da alimentação dos povos que lá habitavam.

Imagem dos que não procuram fazer boas obras
“E contou-lhes também esta parábola: ‘Certo homem tinha uma figueira plantada na sua vinha. Foi até ela procurar figos e não encontrou’. Então disse ao vinhateiro: Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?’”.

A figueira costuma dar frutos logo no primeiro ano ou, no mais tardar, no segundo. Ora, aquela estava há três anos sem nada produzir. Não havia, portanto, necessidade de esperar mais tempo para cortá-la, porque uma planta estéril, além de ocupar espaço no pomar, desgasta inutilmente o solo.

De fato, a árvore da parábola simboliza as pessoas que não se esforçam em fazer boas obras, mas pretendem viver apenas se beneficiando das graças de Deus, sem procurar fazer frutificar esses dons. Afirma São Gregório Magno: “Quem não apresenta frutos de boas obras, segundo seu cargo e condição, ocupa debalde o terreno, como árvore estéril, pois impede outros de fazerem o bem no mesmo lugar por ele ocupado. [...] Com efeito, ocupa debalde o terreno quem põe obstáculos às almas alheias; ocupa debalde o terreno quem não se empenha em agir segundo o cargo que ocupa”.

Encontramos aqui mais uma aplicação para nossa vida espiritual: por vezes, sinais evidentes nos mostram que Deus nos quer em determinada atividade apostólica, para ampliação do Reino d’Ele. Apesar disso, nada fazemos. Incorremos, assim, numa falta por omissão. Com frequência, esse tipo de faltas passa despercebido em nosso exame de consciência, pois, por estarmos demasiadamente voltados para nossos próprios interesses, nem nos damos conta de que pecamos quando não produzimos os frutos que o Dono da Vinha espera.

Ora, nesta passagem há para nós uma advertência: o dono da vinha mandou cortar a figueira estéril. Não poderá acontecer algo semelhante com qualquer um de nós?

Analogia com o Povo Eleito
“’Mas o vinhateiro respondeu: Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e vou colocar adubo. Pode ser que venha a dar fruto. Se não der fruto, então tu a cortarás!’’’.

A situação descrita nestes versículos é aplicada pelos comentaristas ao Povo Eleito. Neste sentido, afirma o padre Tuya: “assim foi tratado Israel, cultivando-o repetidamente com avisos e profetas; em seguida o Batista e, por fim, Cristo com suas doutrinas e milagres. Mas os dirigentes de Israel não O reconheceram como o Messias”.

Com efeito, no Antigo Testamento várias vezes Deus exortou, sem sucesso, essa “figueira” a dar frutos. Já bem próximo do momento da colheita, mandou o Precursor, como arauto da justiça divina, alertando: “Fazei pois, dignos frutos de penitência. [...] Já o machado está posto na raiz da árvore. Toda árvore que não dá frutos será cortada e lançada no fogo” (Lc 3, 8-9). Mais tarde Ele próprio quis fertilizá-la com seu preciosíssimo Sangue divino, que regou toda a Terra.

Mas a “figueira” permaneceu estéril. “O Senhor procurou nela frutos de fé, mas ela nada tinha para dar”, sentenciou Santo Efrém de Nísibe.
Por isso, afirma São Cirilo de Alexandria: “Após a crucifixão do Salvador, os israelitas foram condenados a cair nas misérias que mereceram. Jerusalém seria capturada e seus habitantes mortos pela espada inimiga; suas casas seriam queimadas e até o Templo de Deus seria destruído”.16
Não esqueçamos, entretanto, aquilo que com propriedade fazem notar os mesmos professores da Companhia de Jesus: “A aplicação é extensiva ao homem em geral, pois a história judaica sintetiza a História da humanidade”.

Saibamos, então, encontrar as devidas analogias desta parábola para a nossa vida espiritual. Pois, como sublinha um piedoso autor: “Nós somos essa figueira, enxertados em Jesus Cristo pelo Batismo, plantados em sua Igreja pela fé, [...] cuidadosamente cultivados [...]. Procuramos corresponder a tudo isso, produzindo os frutos que Ele tem direito a esperar de nós?”.

Simbolismo da figura do vinhateiro
Muitos são os simbolismos atribuídos pelos comentaristas à figura do vinhateiro. Afirma Teófilo: “Deus Pai é o dono da vinha; o vinhateiro é Jesus Cristo, o qual não permite cortar a figueira estéril, como se dissesse ao Pai: ‘Mesmo não tendo dado frutos de penitência pela Lei e pelos Profetas, Eu os regarei com meus tormentos e minha doutrina, e talvez produzam frutos de obediência’”.

O Cardeal Gomá o identifica com o nosso Anjo da Guarda, ou com as pessoas suscitadas por Deus para nos dirigir, ou até mesmo com cada um de nós, porque “cada qual cuida de sua vinha”.

E São Gregório Magno se pergunta: “O que significa o vinhateiro, senão a ordem dos prelados? Pois estes, estando à frente da Igreja, estão certamente cuidando da vinha do Senhor”. E atribui, logo a seguir, um inesperado simbolismo ao trabalho do vinhateiro: “O que significa cavar ao redor da figueira senão increpar as almas infrutíferas? Com efeito, toda escavação se faz embaixo e é certo que a increpação, ao ser feita, humilha a alma; portanto, quando increpamos a alguém seu pecado, agimos como quem, por exigências do cultivo, cava em volta da árvore estéril”.

“Então tu a cortarás!”
A passagem do Evangelho termina abruptamente com palavras de terrível ameaça: “Então tu a cortarás!”.

Não faltavam no Antigo Testamento exemplos de severos castigos para dar crédito a essa advertência: no tempo de Noé, a terra foi submersa pelas águas do dilúvio (cf. Gn 7, 17-24); Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo (cf. Gn 19, 24-25); as tropas do faraó pereceram, afogadas no Mar Vermelho (cf. Ex 14, 27- 28). Deus é a Paciência, em substância, mas também é a Sabedoria e a Justiça, e sabe como e quando intervir.
E no Novo Testamento, veremos Jesus retomar a figura desta parábola quando, indo de Betânia a Jerusalém, três dias antes de Sua morte, teve fome e dirigiu-Se a uma figueira localizada à beira do caminho. Não achando nela senão folhas, disse-lhe: “Nunca mais produzas fruto algum!”. E, no mesmo instante, a figueira secou, deixando estupefatos os discípulos (cf. Mt 21, 17-20). Conforme especifica São Marcos, ela secou “até a raiz” (Mc 11, 20).

Bem pode essa árvore estéril representar a história de quem vai abusando da paciência do Criador, até o momento, desconhecido pelos homens, em que sua medida estará completa...

O que Deus espera de nós
Deus usa de longanimidade para conosco, conforme as palavras de São Pedro: “O Senhor pacientemente vos aguarda, não querendo que ninguém pereça senão que todos se arrependam” (II Pd 3, 9). Dá Ele tempo de sobra para a terra ser adubada e regada, ou seja, para as pessoas se converterem.


Contudo, os terríveis efeitos da Justiça divina convidam-nos a examinar a fundo nossa consciência, para saber se estamos cumprindo nossos deveres de cristão, assumidos no Batismo. O convite à conversão apresentado por esta passagem significa caminhar para a perfeição, excluindo qualquer apego ao pecado, pois o bem só poderá nascer de uma causa íntegra.

Estejamos, pois, conscientes da necessidade de uma contínua e autêntica conversão, uma vez que a busca de Deus exige do homem todo o empenho de sua inteligência e a retidão de sua vontade para corresponder à graça, sem a qual nada podemos fazer.

E se, por infelicidade, tivermos incorrido em muitas faltas, não nos esqueçamos de que Nossa Senhora e o nosso Anjo da Guarda estão sempre rogando por nós, para Deus nos conceder mais uma oportunidade. O mesmo fazem os bem-aventurados, conforme afirma Santo Agostinho ao comentar essa parábola: “Todos os santos são como vinhateiros que intercedem pelos pecadores perante o Senhor”.

Esta Liturgia — que nos adverte com tanta seriedade, mas também nos incentiva a ter uma inabalável confiança na misericórdia divina — é própria a nos conduzir, como dissemos, a um apurado exame de consciência. Aproveitemos, então, o dia de hoje para pedir a graça de romper inteiramente com o mal. Aquilo que Jesus esperava e até reclamava de Seu povo, tal qual transparece no Evangelho de hoje, é exatamente o que Ele quer de cada um de nós. Ou seja, uma grande virtude de penitência e espírito de compunção, necessários a todos os que não viveram uma perfeita inocência.

Essa dor dos próprios pecados, quando redunda numa contrição perfeita, produz belos e abundantes frutos, como a plena remissão de nossas culpas e das próprias penas temporais, e também um considerável aumento da graça santificante que faz a alma avançar rapidamente pelas sendas da santificação. Além de grande paz interior, essa contrição manterá a alma em estado de humildade, purificando-a e auxiliando-a a mortificar seus desordenados instintos. Aí está um ótimo meio para adquirir forças contra as tentações e garantir a perseverança na fidelidade aos Mandamentos.
Será que não nos move o exemplo tão clamoroso da rejeição daquele povo ao prazo que lhe dá o Salvador para seu arrependimento e conversão?

Reagiremos nós da mesma forma ou imploraremos, por meio de Maria, esse verdadeiro dom de Deus, que é a contrição perfeita?

Eis o que a respeito da pecaminosa rejeição do povo eleito comenta Didon: “O fruto que Deus esperava e reclamava da Sua nação escolhida era a penitência e a fé; a penitência que chora as infidelidades e as faltas, a fé que aceita a palavra de vida e dá acesso ao Reino messiânico”.
“Desde a primeira hora da Sua vida pública, Jesus não cessou de lembrar estes grandes deveres. Mas, afora alguns eleitos, nenhum responde; em lugar de bater no peito, os chefes religiosos não falam senão da sua justiça; em lugar de crer no Enviado, combatem-no, perseguem-no, difamam-no, ameaçam-no e anatematizam-no. A vingança de Deus aproxima-se, pronta a rebentar, se o Enviado desconhecido não suspende a sua explosão; esta raça cega mal o imagina, embala-se em ilusões fatais que a palavra de Jesus não consegue dissipar, adormece nas promessas de Deus, sem pensar que o seu endurecimento torna estéreis essas promessas e provoca a cólera celeste. Os milagres não podem mais sobre ela do que a palavra. Arrancam à multidão alguns gritos de admiração, mas escandalizam a classe dirigente que não cessa de opor ao Profeta as vãs observâncias do seu culto”.

Mais uma vez, podemos nos perguntar: e nós, reagiremos da mesma forma?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Antes e depois de Maria


1Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. 2Também foram convidados Jesus e o seus discípulos.3 Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho.4 Respoudeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.5 Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que Ele vos disser. 6Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. 7Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-na até em cima. 8Tirai agora, disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram. 9Logo que os chefes dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado água), chamou o noivo 10 e disse-lhe : É costume servir primeiro o vinho bom e, depois quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. 11Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. (Jo 2, 1-11).



O PORQUÊ DO MILAGRE


Freqüentemente, os profetas no Antigo Testamento se viam na contingência de comprovar por algum prodígio a autenticidade de suas previsões. Assim se deu, por exemplo, com Moisés (Ex 4, 30-31), Elias (1Rs 18, 19-39) ou Samuel ( 1Sm 12, 16-18). Ora, depois de chamar os cinco primeiros seguidores, quis o Mestre operar algo para confirmá-los na Fé, como o fizera com Natanael. Foi provavelmente por essa razão que Jesus "manifestou sua glória", efetuando seu primeiro milagre nas Bodas de Caná, ou seja, para levar seus discípulos a crerem na divindade de sua origem e missão (Jo 2,11).




E assim procedeu devido a uma suave e afetuosa súplica de sua Mãe. O Evangelho ressalta o importante papel de intercessora de Maria e deixa entrever seu maternal carinho para com os futuros Apóstolos ali presentes.








Nesse solene começo de vida pública de Jesus, sobressai-se de forma muito especial o fato de ter Ele escolhido uma festa nupcial como cenário do início de sua missão pública. O casamento não havia ainda sido elevado à categoria de sacramento.





Por outro lado, Jesus estava iniciando sua missão pública e desejava fundar a Igreja com vistas à santificação de todos. Ora, a célula mater da estruturação social sempre foi, e nunca deixará de sê-lo, a família, como podemos constatar nas palavras de S.S. o Papa João Paulo II na Audiência Geral de 1/12/1999.



Nas Bodas de Caná, segundo a interpretação de famosos teólogos e exegetas, Jesus quis reafirmar a importância conferida pela sociedade antiga à união conjugal e santificá-la, preparando assim as vias para dar-lhe um caráter sacramental.



A SÚPLICA ONIPOTENTE DE MARIA


A História nada registra sobre a origem das relações entre a Sagrada Família e os nubentes , nem sequer por que Jesus e Maria foram convidados para a festa. As hipóteses a respeito se multiplicam. Entre elas, menciona-se um eventual estreitamento de relações, decorrentes de serviços prestados por São José ao longo do tempo.





As peculiaridades e detalhes perderam-se pelo caminho, talvez por desígnio de Deus, a fim de concentrar a atenção dos séculos futuros na tão paradigmática festa das núpcias de Caná. Ali está simbolizado o lar católico como deve ser, e indicada a conduta a seguir face aos problemas e dificuldades da vida. Ali está prefigurada a família cristã assistida por Cristo, através da intercessão de Maria. A partir desse episódio, todos os cônjuges, até o fim do mundo, devem firmar-se na certeza de que Jesus solucionará qualquer drama ou aflição, se invocarem a onipotente mediação de Maria.





HARMONIA CONJUGAL





As épocas e os povos atingem seu esplendor quando a sociedade observa com rigor os princípios naturais e divinos relativos à constituição familiar. Este vasto e delicado assunto é de capital importância.



A harmonia conjugal torna perene, exemplar e frutuosa toda e qualquer atividade do marido ou da esposa; sobretudo, desse virtuoso entendimento se beneficiam os filhos. Por isso afirma o Eclesiástico (25,1 e2 ): " De três coisas se compraz o meu espírito, as quais têm a aprovação de Deus e dos homens:(...) um marido e uma mulher que se dão bem entre si."





NÃO BUSCAR DINHEIRO OU BELEZA, AO CASAR-SE





"Ditoso o homem que tem uma virtuosa mulher, porque será dobrado o número de seus anos.(...) A mulher virtuosa é uma sorte excelente, é o prêmio dos que temem a Deus e será dada oa homem pelas suas boas obras"(Ecli 26,1e3). Muitos conselhos poderíamos colher da Sagrada Escritura e da espiritualidade da Igreja sobre as qualidades do matrimônio e sobre quanto deve ele basear-se na virtude e na santidade, e não em motivos inferiores como a beleza física e o dinheiro. Fazer consistir nestes valores as razões essenciais de uma união indissolúvel, é sinal de completa insesatez, pois a beleza física se desfaz com o passar dos anos e a riqueza de um cônjuge pode trazer muita aflição de espírito. Adverte-se ainda o Eclesiástico: " Não olhes para a formosura da mulher, e não cobices uma mulher pela sua formosura"(25,28). " Todo o preço é nada em comparação com uma alma casta"(26,20).



POR INTERCESSÃO DE MARIA





E foi numa festa nupcial que, a pedido de sua Mãe, Jesus quis realizar seu primeiro milagre, para assim tornar patente aos olhos do mundo o quanto o matrimônio deve ser tomado como uma via de santificação.



A MEDIAÇÃO EFICAZ E A ONIPOTÊNCIA SUPLICANTE DE MARIA



Eis que em Caná abriu-se uma nova era na espiritualidade do gênero humano, com a inauguração de um especial regime da graça.



Ademais, em Caná, Maria nos ensina algo muito importante. Numa análise superficial, parece inexplicável a atitude de Nossa Senhora, pois apesar da negação de Jesus, Ela ordena aos criados fazerem tudo quanto Este lhes dissesse. Não havia Ele dito que não chegara a sua hora? Fica, por tanto, em quem lê o Evangelho, a impressão de Maria não ter feito caso desta resposta negativa.
Esclarecem-nos os teólogos ser esta atitude de Maria- à primeira vista um tanto obscura- uma excelente lição para nós.



Nem todas as determinações de Deus são absolutas. Há algumas que são condicionadas aos desejos e reações nossas. Ou seja, elas se cumprirão ou não, dependendo da manifestação de nossas disposições. Se Maria não tivesse recomendado aos serventes que agissem de acordo com as orientações de Jesus, os nubentes e seus convidados não teriam tomado o melhor dos vinhos da História, nem os Apóstolos assistido a tão grandioso milagre.



De onde se conclui ser importante rezarmos a Deus com fervor e constância, manifestando-Lhe nossas necessidades, pois é possível que Ele esteja à espera de nossa atitude para seguir uma ou outra via. Em Caná aprendemos com Maria o quanto Deus quer a nossa colaboração em sua obra.



Devido a esse sublime papel de medianeira e de onipotência suplicante da Santíssima Virgem, que se inicia publicamente nas Bodas de Caná, talvez pudéssemos dividir a História da espiritualidade em duas grandes eras: antes de Maria e depois de Maria.











quinta-feira, 4 de junho de 2009

De rejeitado a Onipotente


16 Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. 17 Quando O viram, adoraram-No; entretanto alguns hesitavam ainda. 18 Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda a autoridade me foi dada no Céu e na Terra. 19 Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 20 Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo ( São Mateus, cap. 28 ).


É de capital importância conhecer bem exatamente as causas que levaram Jesus a afirmar aos Apóstolos: " Toda autoridade me foi dada no Céu e na Terra.


Com a acentuada e crescente decadência moral dos últimos tempos, paulatinamente vão se transformando as mentalidades, e passam a vigorar novas normas, insurgindo-se contra as eternas estabelecidas por Deus.


Os homens contemporâneos acabam por eleger para si máximas relaxadas de vida: " Tudo é permitido ... É proibido proibir".


Jesus foi pedra de escândalo


Durante sua vida pública, Cristo dividiu os campos entre o bem e o mal, a verdade e o erro, o belo e o feio.


O fato de Jesus ter sido pedra de escândalo é uma das causas de O terem odiado e de O tratarem como o Homem mais rejeitado da História.Esse escândalo deu-se , por três razões.


Por sua humildade e grandeza


Que o Messias nascesse em uma gruta, talvez ainda fosse aceitável para o orgulho humano, mas morrer na cruz ... Era levar esta virtude até limites inconcebíveis.


De outro lado, Cristo de dentro de sua inferior condição humana, demonstrou seu domínio sobre as enfermidades e a própria morte, sobre os mares, os ventos e as tempestades, causando espanto aos seus mais próximos.


Jesus ademais escândalizou por sua doutrina.


Não só por expô-la com clareza e integridade totais, mas por ser Ele a própria Verdade em substância.


O Divino Mestre apontava para o grave dever moral de adequar a vida e os costumes à lei de Deus. Mas, sobretudo, convidava seus ouvintes a aceitá-Lo como fonte e substância de tudo aquilo que pregava.


Os fariseus eram hipócritas, e em seu orgulho estavam resolvidos a nunca aceitar a Verdade. Daí a perseguição até a morte, movida por eles contra o Verbo Encarnado.


Por fim, Jesus escandalizou por sua santidade.


O pecador, em sua concupiscência, tem horror ao justo pois, à luz da vida deste, dá-se conta da maldade e feiúra do vício que abraçou, e não querendo abandoná-lo, procura destruir, ou denegrir o símbolo que o censura.

Na rejeição está a origem de seu poder



Onde encontrar base dessa onipotência dada ao Filho do Homem?

Este versículo tem estreita relação com a Realeza de Cristo por direito de conquista.

Eis o fundamento de "toda autoridade" entregue a Cristo-Homem: sua Paixão e Morte, a Redenção do mundo.



Ora foi pelo escândalo produzido por Jesus, sem a menor fímbria de respeito humano, que Ele foi rejeitado e crucificado. Pela aceitação humilde dessa total rejeição, fez-se objeto de tão grande mérito: de rejeitado, tornou-se onipotente.


16 Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado


Foram convocados os "onze", pois o traidor já havia se suicidado. Jesus lhes dissera que os reencontraria na Galiléia, porém, a referência à montanha surge aqui por primeira vez e não se sabe ao certo qual terá sido ela. Alguns autores pensaram tratar-se do Tabor.


17Quando O viram, adoraram-nO; entretanto alguns hesitavam ainda


O Espírito Santo ainda não havia descido sobre os discípulos. Por isso faltava-lhes libertarem-se de uma compreensão muito humana do Messias, que lhes toldou a verdadeira visão , levando-os a perguntar-Lhe nessa ocasião: " Senhor porventura chegou o tempo em que vais restabelecer o Reino de Israel?"




A todo momento, Jesus nos chama para d´Ele mais nos acercarmos. Mas se nos deixarmos, por assim dizer, hipnotizar por nossos afazeres, amizades, pertences- enfim,por tudo que nos rodeia- não daremos ouvido à sua voz.

18 Mas Jesus, aproximando-se, lhes disse: Toda autoridade me foi dada no Céu e na Terra.


Evidentemente, não se refere Jesus neste trecho à sua natureza divina, pois, por esta tem poder absoluto desde todo sempre, sendo coeterno com o Pai. Trata-se, aqui, de uma comunicação da divindade à carne, do Filho de Deus ao Filho da Virgem: a autoridade suprema, absoluta e infinita é conferida à humanidade santíssima de Jesus.


19Ide, pois, e ensinaia todas as nações


Revestido de poder, Jesus não pede, mas ordena: " Ide". Assim procede para conferir aos enviados um caráter de oficialidade.

E qual será o raio de ação desse poder conferido à Igreja em seu nascedouro? Universal !


Batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo


Deus quer servir-se de instrumentos humanos para converter as almas. De forma solene determina que uns ensinem os outros, sem acepção de pessoas ou de raças, conduzindo todos para a recepção do Batismo.


20 Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi


A fé sem as obras é morta. Não basta, portanto, ter fé e ser batizado; para salvar-se é obrigatório cumprir os mandamentos divinos. Diz São João : " Se me amais, observareis os meus mandamentos..."


Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo


Além de categórico, seu compromisso é permanente e mais substâncial: " Estou convosco todos os dias, até o fim do mundo".


É a proclamação, segundo São Jerônimo, do triunfo da Igreja, pois Ele nunca se afastará dos fiéis que n´Ele crêem.



quinta-feira, 23 de abril de 2009

Jesus e a Samaritana

Neste comentário ao Evangelho, Mons. João Clá Dias comenta a incomensurável bondade de Nosso Senhor concedendo Graças para a conversão da samaritana e o seu enorme desejo de concedê-las ainda que não peçamos.

6 Estava lá o poço de Jacob. Fatigado da viagem, Jesus sentou-Se sobre a borda do poço. Era quase a hora sexta.
7 Veio uma mulher da Samaria tirar água. Jesus disse-lhe: “ Dá-me de beber”. 8 Os seus discípulos tinham ido a cidade comprar mantimentos. 9 Disse-Lhe , então, a mulher: “Como, sendo Tu judeu, me pedes de beber a mim , que sou samaritana?” Com efeito , os judeus não se dão com os samaritanos. 10 Jesus respondeu: “ Se tu conhecesses o dom de Deus, e Quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente Lhe pedirias e Ele te daria uma água viva.”11 A mulher disse-Lhe:“Senhor, Tu não tens com que a tirar e o poço é fundo; donde tens, pois essa água viva? 12 És Tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacob que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu, e os seus filhos e os seus gados?”13 Jesus respondeu:” Todo aquele que bebe desta água tornará a ter sede,14 mas aquele que beber da água que Eu lhe der, jamais terá sede; a água que Eu lhe der virá a ser nele uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna. 15 A mulher disse-Lhe: “ Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter mais sede, nem ter de vir aqui tirá-la”. ( Jo 4,6-15)




Tratava-se de uma mulher simples e comum diante do Criador. A samaritana jamais imaginaria quem era Aquele, e menos ainda o poder que estava nas suas mãos, de lhe oferecer a salvação eterna. Ele, por sua vez, transborda de desejo de tê-la consigo por toda a eternidade.

O Senhor lhe pede água. Será somente física a sua sede? Trata-se do mesmo sitio(tenho sede) pronunciado por Ele no alto da Cruz; seu grande anseio é redimir o gênero humano e, neste caso concreto, quer salvar aquela alma.

Deitemos toda a nossa atenção nesse encontro extremamente exemplificativo da teologia sobre o chamado da graça. Tanto a atitude de Jesus quanto a dela são paradigmáticas. Quem toma a iniciativa é Ele, sem levar em conta qualquer oração, pedido, desejo ou mérito da samaritana. Como com todos os homens, Ele procede de maneira inteiramente gratuita. Ela, por sua vez, nada suspeita das generosas intenções de seu interlocutor; pelo contrário, pensa que Jesus, por ser judeu, repudia por completo os samaritanos.

Nosso Senhor costuma agir adaptando-se aos modos de ser de cada um.

Quão misteriosa é a bondade de Deus!

Pelas roupas, pelo porte e quiçá até mesmo pela pronúncia das palavras, a samaritana percebera tratar-se de um judeu. Ora , o povo eleito não tocava nem sequer na vasilha de um samaritano, a fim de evitar as impurezas. Daí a perplexidade manifestada por ela.

A correspondência a esse primeiro chamado de Nosso Senhor poderia condicionar a perseverança dela e até mesmo sua salvação, porém sua reação foi a de levantar obstáculo. Jesus, entretanto, não desistirá de chamá-la à conversão.




Didática insuperável, perfeitíssima. É bem conhecida a curiosidade feminina e é desta que Jesus procura tirar partido. Com enorme afeto, Ele entretém e atrai a atenção da samaritana, pondo-a diante de algo mirabolante. Viva é a água que jorra da fonte. É sempre mais apreciada do que a retirada do poço. Jesus vai aos poucos se apresentando como um personagem incomum, com certas características misteriosas, possuidor de um dom de Deus.

Essa frase de Jesus, no modo condicional, já continha um começo de doutrina e tornava impossível à samaritana deixar de se interessar mais a fundo pelo judeu sentado à beira do poço. São duas sedes de teor distinto que acometem o Divino Mestre. Jesus necessitava da água comum e corrente, mas sua sede de converter aquela alma é incomparavelmente maior, e essa é a razão pela qual Ele procura despertar um interesse, todo feito de fé, no interior de sua interlocutora.

A graça começa a trabalhar-lhe a alma com suavidade e, ao mesmo tempo, com muito vigor.
As primeiras palavras dela haviam sido um tanto desabridas: “ Como sendo tu judeu...?” A partir deste curto diálogo, passa a tratá-Lo de “Senhor”, pois algo do mistério de Jesus ela já entrevê, o que significa um enorme passo para uma samaritana na consideração de um judeu.

Ela não chega a entender bem a substância das afirmações feitas por Jesus, mas certamente já estava atraída pelo todo do Divino Mestre, e por isso não as contradiz, apenas externa sua perplexidade, disposta a aceitar a uma explicação. Por ora, sua sua atenção está de fato centrada na “água viva” desejada por ela, e no fundo de seu subconsciente está se formando a hipótese de estar ela diante de um homem grandioso, comparável ao “nosso pai Jacob”.

Os samaritanos tinham a ufania de declarar ter sido sua terra habitada pelos patriarcas(Gen 12,6;33,18;35,4;37,12;etc.). Pretendiam com isso abrandar as abjeções que os judeus lhes tinham, oriundas da miscigenação de raça e de religião. Daí a lembrança do poço de Jacob.

Com a fé mais robustecida, ela crê no poder de Deus em criar uma água capaz de eliminar definitivamente a sede e, em conseqüência, de dispensá-la do trabalho de retirar daquele poço a água de todos os dias. De si, já seria uma maravilha criar essa água, mas Jesus lhe fala de um prodígio incomparavelmente maior: o das águas da Graça.