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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho – 25º Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 9 30-37,

Comentário final ao Evangelho Mc 9, 30-37


Jesus externa seu amor por quem jamais pecou
“...e disse-lhes: 37 ‘Todo o que recebe um destes meninos em Meu nome, a Mim é que recebe; e todo o que recebe a Mim, não Me recebe, mas Aquele que Me enviou’”.
Embora os Evangelistas sejam muito sintéticos ao narrar esta passagem, podemos bem imaginar o quanto Nosso Senhor deve ter-Se demorado com esse menino, fazendo belíssimas considerações sobre a infância. Podemos supor também com quanto ardor elogiou sua humildade e desprendimento, pondo em realce as virtudes próprias a quem jamais pecou.
Transparece assim, neste último versículo do Evangelho hoje comentado, todo o amor de Jesus pela inocência, representada na criança por Ele abraçada. Esse menino — o futuro mártir Santo Inácio de Antioquia, segundo refere Eusébio de Cesareia18 — simboliza a pessoa que se entrega a Deus, sem reservas nem racionalizações, com reta intenção.
Cristo é modelo de inocente, enquanto Homem, e a Inocência em essência, enquanto Deus. Ele chama para junto a Si aquela criança porque, como ensina São Leão Magno, “ama a infância, mestra de humildade, norma de inocência, modelo de mansidão. Cristo ama a infância, sobre a qual quer modelados os costumes dos adultos, e à qual quer reconduzida a idade senil; e leva a seguir seu humilde exemplo àqueles que depois eleva ao Reino eterno”.19
Sobre este versículo, comenta o Crisóstomo: “E acrescenta ‘em Meu nome’ para que os discípulos, guiados pela razão, adquiram em nome de Cristo a virtude que o menino pratica guiado pela natureza. Entretanto, para não se pensar que Ele se referia só àquele menino quando ensinava que Ele era honrado nos meninos, acrescenta: ‘E todo o que recebe a Mim, não Me recebe, mas Aquele que Me enviou’, etc., querendo ser considerado em grau igual ao de Seu Pai”.20
Todo o que recebe um destes meninos em Meu nome, a Mim é que recebe”. Jesus mostra-se assim igual ao Pai, indicando, ao mesmo tempo, que quem recebe o inocente, o afaga e o protege, abraça na realidade ao próprio Deus.
Nessa perspectiva, lembra Maldonado que São Marcos “aduz esta razão em lugar da conclusão posta por São Mateus: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. Prova-se implicitamente esta conclusão com o que diz aqui São Marcos, que ninguém entrará no Reino de Deus se não for semelhante a Deus. Nenhuma coisa manchada poderá entrar naquela cidade (como escreve São João no Apocalipse, 21, 27). Não podeis ser semelhantes a Deus se não O recebeis; e não O podeis receber se não Me recebeis, a Mim que fui enviado pelo Pai. E não Me podeis receber se não recebeis em Meu nome os meninos e não vos assemelhais a eles. Portanto, se não vos converterdes e vos tornardes como meninos, não entrareis no Reino dos Céus”.21
Uma nova forma de governar e se relacionar
De acordo com o espírito do Evangelho, pouco antes declarado pelo Divino Mestre, quem quiser ter autoridade deve estar disposto a servir. Jesus acaba de ensinar aos Apóstolos essa verdade, chocando inteiramente a mentalidade pagã que dominava os seus espíritos, segundo a qual se deve dominar os outros à base da força.
Em uma sociedade marcada pela inocência, a autoridade deve governar o súdito como quem governa uma criança. Ela não tem delírios de mando; é despretensiosa, flexível e humilde; está sempre à disposição dos outros. Sendo ela tenra e frágil, pede ser conduzida com carinho e afeto. E, para isso, o governante tem de se pôr ao serviço dos seus subordinados, criando um regime que busque mais atrair do que impor, procurando despertar neles o entusiasmo pela prática do bem.
O bem mais precioso que o homem pode receber
Preservar a inocência batismal — ou recuperá-la, caso tenha tido a desgraça de perdê-la — deve ser a meta de todo cristão. Porque quem a possui conserva na alma Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai e o Espírito Santo.
A inocência é o bem mais precioso que o homem pode receber. A união com a Santíssima Trindade de quem jamais pecou outorga-lhe uma autoridade que nem o poder, nem o dinheiro, nem as manobras diplomáticas são capazes de conceder.
Em sua primitiva inocência, o homem era inerrante, pois como ensina São Tomás: “Não era possível, enquanto durasse a inocência, que o intelecto humano desse sua aquiescência a algum erro como se fosse verdade”.22 De forma análoga, o homem que mantém sua inocência batismal será infalível na medida que em se deixe guiar pela graça, pelas virtudes infusas e os dons do Espírito Santo. Assim o afirma o padre Garrigou-Lagrange: “Na ordem da graça, a fé infusa faz-nos aderir à palavra divina e ao que esta exprime. […] Enquanto os sábios dissertam longamente e levantam todo tipo de hipóteses, Deus faz Sua obra naqueles que têm o coração puro”.23
Devemos, portanto, envidar todos os esforços para manter sem pecado a nossa alma, ainda que seja necessário, para isto, sacrificar a própria vida. E se, por infelicidade, tivermos perdido a inocência batismal, empenhemo-nos ao máximo em recuperá-la, como o fez Santa Maria Madalena, através de um ardente amor ao Divino Mestre. E tanto amou que se assemelhou ao Amado a ponto de ser venerada como a primeira das virgens na ladainha de todos os Santos.
1“Como toda a integridade do estado harmônico de que acabamos de falar era produzida pela submissão da vontade humana a Deus, resultou da subtração da vontade humana a essa submissão divina uma alteração da submissão perfeita das potências inferiores à razão, e do corpo à alma. Em consequência, o homem sentiu no apetite sensitivo inferior os movimentos desordenados da concupiscência, da cólera e das outras paixões estranhas à ordem da razão, e mesmo contrárias à razão, envolvendo-a nas trevas, na maior parte das vezes, e perturbando-a em suas faculdades” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compêndio de Teologia. c. 192).
2Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. I-II, q. 2 e 3.
3Cf. MALDONADO, SJ, Pe. Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios – II San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, p. 146.
4DIDON, Henri, OP. Jesus Cristo. Porto: Liv. Int. de Ernesto Chardron, 1895, V. 2, p. 227.
5Idem, p. 228.
6Apud ODEN, Thomas C. e HALL, Cristopher A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia – Nuevo Testamento 2 San Marcos. Madrid: Ciudad Nueva, 2000, p. 184. 7LAGRANGE, OP, P. M.J. Evangile selon Saint Marc. 5. ed. Paris: Gabalda et Fils, 1929, p. 244.
8TUYA, OP, Pe. Manuel de. Biblia Comentada – II Evangelios. BAC: Madrid, 1964, p. 695.
9Cf. AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. I-II q. 78, a. 1.
10GOMÁ Y TOMÁS, Card. Isidro. El Evangelio explicado. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, V. 3, p. 83.
11La Sagrada Escritura. Texto y comentarios por Profesores de la Compañía de Jesus. Nuevo Testamento.– Evangelios. Madrid: BAC, 1961, Vol. 1, p. 450.
12LAGRANGE, OP, P. M.J. Op. cit., p. 244-245.
13DEHAULT. L’Evangile expliqué, défendu, médité – tome troisième. Paris: Lethielleux, 1867, p. 290.
14MALDONADO. Op. cit., p. 151.
15Idem, ibidem.
16JUAN CRISÓSTOMO, San. Homilías sobre el Evangelio de Mateo, hom. 58, 3.
17BEDA, São. In Marci Evangelium Expositio, l. 3, c. 9: PL 92, 0224.
18Cf. DEHAUT, Op. cit., p. 290.
19LEÃO MAGNO, São. Sermones in præcupuis totius anni festivitatibus ad romanam plebem habiti. Serm. 37, c. 3: PL 54, 0258.
20 BEDA, São. Op. cit., PL 92, 0225.
21MALDONADO. Op. cit., p. 152-153.
22AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. I, q. 94, a. 4.
23GARRIGOU-LAGRANGE, OP, P. Réginald Marie. El sentido común. La filosofía del ser y las fórmulas dogmáticas. Buenos Aires: DEDEBEC y Ediciones Desclée, De Brouwer, 1945, p. 340-344.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho – XXV Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 9, 30-37,


Um novo conceito de autoridade ( Continuação dos comentários ao Evangelho Mc 9, 30-37)

35“Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: ‘Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos’”.

O Mestre conhecia bem aqueles que escolhera, pois, conforme comenta o padre Lagrange, Ele “não se espanta com a preocupação dos discípulos, nem contesta o princípio da hierarquia, mas insinua o espírito novo do qual deve estar animado quem tem cargo de direção. Há certamente aqui a previsão de outra ordem de coisas”.12

Com Suas palavras, Jesus não condena o desejo de obter a primazia, mas põe uma condição: para ser o primeiro, é preciso ser “o último de todos e o servo de todos”. Essa afirmação abria um panorama completamente novo para os Apóstolos, os quais compartilhavam do conceito de autoridade comum e corrente naquela época: quem é mais forte, mais capaz, mais inteligente, mais rico, ou mais esperto, esse manda e os outros obedecem.

Perante essa visão, Nosso Senhor declara qual é a regra de governo que deverá vigorar na Era Cristã: “O novo Reino que quero instaurar não será como os reinos da terra. O que deve animar Meus discípulos não é o espírito de ambição, a procura das grandezas. Pelo contrário, a primeira condição, a condição fundamental, para almejar o primeiro posto no Reino messiânico é a humildade, o menosprezo das honras, o desinteresse de quem se esquece de si mesmo para dedicar-se ao serviço dos irmãos”.13

Humildade, menosprezo das honras, desinteresse por si mesmo e dedicação aos irmãos: são estas as características de quem deve mandar de acordo com o espírito de Jesus. É a precedência da virtude e da inocência na sociedade. Nada mais oposto à ira, à inveja e às rivalidades que tanto atormentam o homem depois do pecado original!

A esse respeito, transcreve o padre Maldonado expressivo comentário do Bispo e mártir São Cipriano: “Com Sua resposta, cortou Jesus qualquer emulação e extirpou toda ocasião e pretexto da mordaz inveja. Não é lícito ao discípulo de Cristo ter essas rivalidades e invejas, nem pode existir entre nós peleja para sobressair-se, pois aprendemos que o caminho para a primazia é a humildade”.14

Convém notar, por fim, que Jesus “sentou-Se” antes de fazer esta solene declaração, “como para julgar no Seu Tribunal e ensinar aos Apóstolos, da Sua Cátedra, algo grave e importante que merecia ser dito não de pé e como que de passagem, mas sentado e de propósito, com plena advertência e consideração”.15

Governar em função da inocência

36“E tomando um menino, colocou-o no meio deles; abraçou-o...”.

Comentam extensamente os exegetas este episódio no qual Jesus chama para junto de si uma criança, relacionando-o com a narração de São Lucas, que no final do seu relato reproduz estas palavras do Salvador: “Pois quem dentre vós for o menor, esse será grande” (Lc 9, 48).

As crianças estão isentas de inveja e vanglória

Ressalta-se, em geral, como o Divino Mestre serve-Se deste eloquente recurso pedagógico para fazer ver aos discípulos, cegos pelo desejo de supremacia, a necessidade de serem simples e humildes. Pois, como observa o Crisóstomo, “o menino está isento de inveja, de vanglória e de qualquer ambição de primazia”.16

Por sua vez, Beda o Venerável ressalta o quanto Deus tem em alta estima a virtude da humildade: “Pelo qual, ou simplesmente aconselha aos que querem ser os primeiros que recebam, em honra dEle, os pobres de Cristo, ou que sejam como meninos, a fim de conservarem a simplicidade sem arrogância, a caridade sem inveja e a dedicação sem ira. O fato de abraçar o menino significa que os humildes são dignos de Seu abraço e de Seu amor”.17

Mostra assim Jesus, neste episódio, quanto o verdadeiro discípulo não deve estar preocupado se será, ou não, maltratado, esquecido, posto de lado. Ele precisa apresentar-se sem qualquer pretensão, nem orgulho, mas, pelo contrário, admirando as qualidades alheias. Quem assim age será o primeiro a receber a misericórdia de Deus. Aquele que se tem por último e se considera o menor será quem mais recebe da Divina Providência.

Pode-se conjecturar a profunda perplexidade dos Doze naquele momento. Queriam eles ocupar posição de destaque, Jesus aponta-lhes a necessidade de procurar o último lugar. Aspiravam a um reino messiânico glorioso, Jesus alerta-os sobre Sua Paixão e morte na Cruz... O choque de mentalidades vai-se tornando cada vez mais patente. Porém, tudo é dito com doçura, sem acrimônia, no momento oportuno, de forma a que as divinas palavras do Mestre penetrem beneficamente nos espíritos. Manifesta Ele aqui, uma vez mais, a admirável e delicada arte de corrigir, que servirá de modelo a todos quantos tiverem o encargo da direção das almas.

Continua no próximo post.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho – XXV Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 9, 30-37

Continuação do post anterior
32“Mas não entendiam estas palavras; e tinham medo de Lhe perguntar”.
Não era a primeira vez que o Messias anunciava Sua Paixão e Ressurreição aos Apóstolos. Estes, porém, tão distantes estavam de tais cogitações, que nem sequer Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas da Transfiguração, entenderam o que Ele lhes quis dizer.
Ao descer do Monte Tabor, o Senhor já os havia alertado para nada contarem “até que o Filho do homem tivesse ressurgido dos mortos” (Mc 9, 9). Entretanto, ignoravam o sentido dessas palavras, pois discutiam entre si o que significaria “ser ressuscitado dentre os mortos” (Mc 9, 10).
Bem aponta o Crisóstomo “quão pouco compreendiam os discípulos o sentido da clara predição da morte do Senhor. Inclusive depois de todos esses milagres reveladores, após essa singular revelação de identidade de Jesus por parte da voz celeste, e depois da predição explícita de Sua morte e Ressurreição, continuavam eles sem entender o mais importante e estavam preocupados por sua própria ansiedade”.6
De sua parte, o padre Lagrange assim analisa esta passagem: “Os discípulos continuam não compreendendo. O que menos convinha ao Messias era a Paixão; o que menos se entendia da doutrina de Jesus ainda era a necessidade do sofrimento. Quando o Mestre disto falou pela primeira vez, Pedro protestou, mas foi vivamente repreendido (cf. Mc 8, 31); na segunda, eles mudaram de assunto (cf. Mc 9, 11); agora eles não ousam sequer perguntar”.7
Sua mentalidade estava em choque com Nosso Senhor
Ora, se os discípulos não compreendiam o que o Mestre lhes dizia, qual a razão de terem medo de perguntar? Jesus sempre os tratara com uma bondade inefável e a ocasião não podia ser mais propícia, estando eles a sós com o Mestre. Era tão fácil, sobretudo naquele momento de intimidade, pedir-Lhe um esclarecimento!
Havia para isso uma profunda razão psicológica. A perspectiva da morte do seu Mestre ia contra todos os planos de projeção social, de solução política e econômica que eles almejavam. Significava a destruição do castelo de ilusões que os israelitas montaram a respeito do Messias: o de um homem capacíssimo, cheio de dons para libertar do domínio romano o Povo Eleito e projetá-lo acima dos outros povos.
Os Apóstolos percebiam que a mentalidade deles estava em choque com a de Nosso Senhor. O Mestre ensinava uma doutrina que eles, no fundo dos seus corações, não desejavam ouvir. A resposta de Jesus podia tornar clara demais essa dissonância, colocando-os na obrigação de mudar de mentalidade, o que de todo eles não queriam.
Bem observa o padre Tuya a este propósito: “Eles sabem que as predições do Mestre se cumprem. Têm um pressentimento em relação àquele programa sombrio — para Jesus e para eles — e evitam insistir sobre ele”.8
O homem, segundo nos ensina a filosofia tomista, nunca pratica o mal enquanto mal; sempre procura justificá-lo, dando-lhe uma aparência de bem.9 E no espírito dos discípulos, duas ideias contraditórias entravam em conflito: a do autêntico Messias, que lhes falava de perseguições, morte e Ressurreição, e a de um Messias meramente humano, restaurador do poder temporal de Israel. Eles então racionalizavam para justificar a ideia errada na qual insistiam em acreditar.
O receio de romper os alicerces dessa mentalidade política e terrena os fazia ter medo de perguntar.
33“Em seguida, voltaram para Cafarnaum. Quando já estava em casa, Jesus perguntou-lhes: ‘De que faláveis pelo caminho?’. 34 Mas eles calaram-se, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior”.
Sabia Cristo perfeitamente de qual assunto os Apóstolos trataram ao longo do percurso. À incômoda indagação, porém, eles ficaram calados, envergonhados de dizer ao Mestre que o tema de sua conversa havia sido uma egoística disputa de primazia pessoal.
O seu silêncio já era um meio reconhecimento da falta cometida, da qual eles tinham certa consciência, como afirma o Cardeal Gomá: “Sua conduta está em flagrante oposição com o sentir do Mestre, e estão confusos diante dEle”.10
No mesmo sentido se pronunciam comentaristas da Companhia de Jesus: “O silêncio dos discípulos perante a pergunta do Mestre é muito psicológico. Sentem-se, sem dúvida, conscientes de que suas aspirações não encontrariam aprovação”.11
Continua no próximo post

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho – XXV Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 9, 30-37

Continuação do Comentário ao Evangelho Mc 9, 30-37
30“Tendo partido dali, atravessaram a Galileia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse”.
Após descer do monte Tabor e exorcizar um menino possesso, diante de numerosa multidão, Jesus dirigiu-se à Galileia.
Quis fazer a viagem discretamente, só com os mais próximos, porque ao longo do caminho “ensinava os Seus discípulos”.3 O Evangelista deixa aqui transparecer a divina pedagogia de Jesus. Ele instruía os discípulos durante o trajeto, por meio do convívio. Não lhes ensinava a filosofia dos gregos, nem a doutrina dos mestres de Israel. Abria-lhes os segredos de Seu Divino Coração, dava-lhes a conhecer tudo quanto ouvira do Pai (cf. Jo 15, 15).
Jesus prepara os Apóstolos para a provação
Do sublime episódio ocorrido no Tabor — ao qual só assistiram Pedro, Tiago e João —, nada havia transpirado. Entretanto, os outros Apóstolos, vendo aqueles três tão radiantes e cheios de luz, muito provavelmente percebiam que algo de grandioso devia ter acontecido. Sem dúvida, estavam curiosos, talvez aflitos, para saber o que sucedera.
Quiçá pensassem, segundo seus critérios mundanos, que o Senhor tivesse revelado algum ousado plano para a conquista do poder e havia, portanto, necessidade de se guardar rigoroso segredo. A ideia da restauração de um reino temporal que desse aos israelitas um domínio sobre os demais povos estava tão arraigada nos judeus daquele tempo — portanto, também nos seguidores de Jesus —, que após a Ressurreição ainda houve quem Lhe perguntasse: “Senhor, é agora que ides restaurar o reino de Israel?” (At 1, 6).
Aos poucos, pacientemente, o Mestre ia retificando essa visualização mundana e materialista de Seus discípulos. O próprio fato de deslocar-Se com eles sem que ninguém o soubesse correspondia a esse objetivo. Jesus desejava estar a sós com os Apóstolos para formá-los e prepará-los para as difíceis provações futuras.
31“E ensinava os Seus discípulos: ‘O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-Lo-ão; e ressuscitará três dias depois de Sua morte’”.
Anunciando Sua Paixão e morte, Jesus punha diante dos Doze o amargor da prova e da perseguição.
Ora, “nada repugnava mais aos judeus que a ideia de um Messias sofredor e vítima”, afirma Didon.4 Eles esperavam com avidez a glória, o triunfo de Israel, uma paz e prosperidade de séculos ou até de milênios... Ou seja, aspiravam a uma eternidade de gozo terreno.
Davam-se conta os Apóstolos, sem dúvida, de que Jesus estava criando uma instituição para dar continuidade à Sua Obra. Percebiam também que Ele os ia formando para, em determinado momento, cada qual exercer um importante papel. Continuavam, entretanto, tomados pela ideia equivocada de um reino terreno, e sua preocupação era justamente saber quem ocuparia os altos cargos nessa nova organização.
Assim o assinala Didon, ao comentar as rivalidades que se levantavam entre eles: “Pedro tinha sido designado como chefe; Tiago e João pareciam gozar de certa predileção. Ora, estas preferências manifestas não deixavam de despertar entre os outros algum ciúme e inveja. [...] Daí as disputas azedas, as rivalidades, as ofensas, as feridas de amor próprio”.5
Nesse clima de ambição e de delírio de mando dos Seus discípulos, Nosso Senhor os está pacientemente preparando para não sucumbirem à terrível provação que se aproximava.
Continua no próximo post

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho – XXV Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 9, 30-37

Acompanhe os comentários de Mons João Clá Dias ao Evangelho Mc 9, 30-37 em diversos posts.


Evangelho Mc 9, 30-37
30“Tendo partido dali, atravessaram a Galileia. Não queria, porém, que ninguém o soubesse. 31 E ensinava os seus discípulos: ‘O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-Lo-ão; e ressuscitará três dias depois de sua morte’. 32 Mas não entendiam estas palavras; e tinham medo de Lhe perguntar. 33 Em seguida, voltaram para Cafarnaum. Quando já estava em casa, Jesus perguntou-lhes: ‘De que faláveis pelo caminho?’. 34 Mas eles calaram-se, porque pelo caminho haviam discutido entre si qual deles seria o maior. 35 Sentando-Se, chamou os Doze e disse-lhes: ‘Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos’. 36 E tomando um menino, colocou-o no meio deles; abraçou-o e disse-lhes: 37 ‘Todo o que recebe um destes meninos em Meu nome, a Mim é que recebe; e todo o que recebe a Mim, não Me recebe, mas Aquele que Me enviou’”
Uma sociedade marcada pela inocência
A sociedade humana no Paraíso
Uma sociedade que se desenvolvesse no Paraíso Terrestre, composta por uma humanidade em estado de justiça original, seria regida pela graça divina e favorecida por dons preternaturais e sobrenaturais concedidos por Deus. Nela reinariam a plena harmonia e o total entendimento entre os homens, sem inveja nem rivalidades. Cada qual admiraria a virtude dos outros, alegrando-se com eles e desejando-lhes a maior santidade possível.
Aconteceu, contudo, que o homem pecou e foi expulso do Paraíso. Despojada dos dons de que gozavam nossos primeiros pais, a humanidade ficou sujeita à doença, à morte, ao desequilíbrio psíquico e a tantas outras mazelas.
Mais grave ainda, a alma perdeu o dom da integridade, pelo qual dominava a concupiscência e mantinha as paixões em perfeita ordem.1 Sem este dom, elas entraram em ebulição, tornando necessária ao ser humano uma contínua luta interior para poder governá-las. A inocência entrou em estado de beligerância para se preservar do pecado.
A causa mais profunda das dissensões
Consequências dessa desordem são a inveja e as rivalidades, principal causa, por sua vez, das rixas e dissensões. Pois, como afirma o Apóstolo São Tiago na segunda leitura deste 25º Domingo do Tempo Comum, “onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más” (Tg 3, 16).
Com efeito, é a inveja um dos vícios mais perniciosos. Quem por ela se deixa levar, não conhece a felicidade. O invejoso está sempre se comparando com os outros, e quando se depara com quem o supera em qualquer ponto, logo se pergunta: “Por que ele é mais e eu menos? Por que ele tem e eu não?”. Essa atitude torna ácida e amargurada a sua vida, causando toda espécie de dissabores e, por vezes, até de mal-estar físico.
Deste “por que” — proveniente em última análise do orgulho — decorrem os males todos. Bem claramente o aponta São Tiago: “De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós?” (Tg 4, 1).
Quanta luta trava o homem hoje, por exemplo, para obter mais dinheiro, mais poder ou mais prestígio, recorrendo muitas vezes a meios ilícitos ou até criminosos! Em quantas misérias morais cai ele, para atingir esse objetivo!
Contudo, mesmo tendo acumulado imensa fortuna, ou galgado o supra-sumo do poder, nunca estará satisfeito. Sempre quererá mais, porque a alma humana é insaciável, por natureza, uma vez que é feita para o infinito, para o absoluto, para o eterno.2 Daí conclui São Tiago: “Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir” (Tg 4, 2).
Enorme esforço faz o homem ganancioso para obter algo que, em vez de trazer-lhe a felicidade, o fará perder a paz de alma!
A santidade faz recuperar o equilíbrio perdido
Para vencer as paixões desregradas e recuperar o equilíbrio de alma perdido por causa do pecado, há apenas um caminho: abraçar as vias da santidade.
Na luta constante contra as próprias paixões, procurando submetê-las à Lei Divina, irá o homem restaurando a inocência primitiva, e, com isso, suas reações de alma se tornarão cada vez mais semelhantes àquelas que teria no Paraíso. O que ali lhe seria fácil, custa-lhe agora, nesta terra de exílio, grande esforço, dura luta interior e muita ascese, acompanhados do indispensável auxílio da graça. Pois sem esta nenhum homem é capaz de dominar a tremenda ebulição das próprias paixões.
Portanto, o Reino de Deus prosperará nesta terra na medida em que houver entre os homens almas santas, faróis de virtude e de inocência a iluminar o caminho da humanidade. Será o Reino da inocência, à imagem do Inocente por excelência, Nosso Senhor Jesus Cristo. Teremos, assim, a realização mais próxima possível da civilização paradisíaca. É esta uma das importantes lições a tirar do rico Evangelho deste domingo.

Continua no próximo post.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Comentário Evangelho 24º Domingo Tempo Comum ano B

final
Pedro repreende Jesus...
32 E falava destas coisas claramente. Pedro, tomando-O à parte, começou a repreendê-Lo.
Há um leque de interpretações a propósito deste episódio, desde as de autores calvinistas de mau espírito, como refere Maldonado, até as de santos e doutores. Para bem entendê-lo, devemos levar em conta a falta de conhecimento dos Apóstolos sobre a Paixão de Jesus. De fato, logo depois de ter proclamado a filiação divina do Mestre, não era nada fácil a Pedro ter de admitir a necessidade de sua condenação e morte, por mais que se falasse em ressurreição. Realmente, nesta cena, se bem que não tenha sido Pedro quem falou, mas Simão, o filho de Jonas, não se pode negar que o tenha feito com enorme manifestação de benquerença. Os bons autores ressaltam o carácter afetuoso do gesto de Pedro. São Jerônimo, por exemplo, aponta essa circunstância, mostrando que Pedro pode ter errado “no sentido”, mas não no afeto (2). É nessa mesma linha que Beda explica: “Disse isso, levado por seu afeto e bons desejos, como se quisesse dizer: Isso não pode ser! E os meus ouvidos se recusam a ouvir que o Filho de Deus há de ser morto” (3).
Jesus admoesta Pedro
33 Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os seus discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: “Retira-te daqui, Satanás, que não aprecias as coisas de Deus, mas sim as dos homens”.
A própria dramaticidade empregada pelo Divino Mestre, nessa reprimenda, é didática, pois, assim, melhor conformou a mentalidade dos Apóstolos a um messianismo redentor através da dor. Essa é a opinião de São João Crisóstomo: “Como é que São Pedro, tendo sido favorecido por uma revelação de Deus, caiu tão rápido e perdeu sua estabilidade? Diremos que não é motivo de espanto ele ignorar isso. Sabia por revelação que Cristo era Filho de Deus vivo, mas ainda não lhe tinha sido revelado o mistério da Cruz e da Ressurreição. [Jesus] então, para manifestar ser conveniente que Ele chegasse até a Paixão, repreendeu Pedro” (4).
E por que Jesus chama Pedro de Satanás? Assim responde Fr. Manuel de Tuya OP: “Naturalmente, não é que Pedro o fosse, nem que Satanás o influenciasse (1Jo 13,2), mas sim porque sua afirmação era digna da missão de Satanás, a qual consistia em desfazer a autêntica obra messiânica, o que já havia pretendido fazer nas ‘tentações’ do deserto. Por isso, a sugestão de Pedro a Jesus, que surge transbordante de afeto, é para Ele ‘escândalo’: tropeço, obstáculo, pois, a segui-la, seria boicotada a obra messiânica do Pai: o messianismo espiritual de morte de cruz. Pedro, com isso, não olhava ‘as coisas de Deus, mas sim as humanas’ (Mt- Mc)” (5).
As condições para seguir Cristo
34 Depois, chamando a Si o povo com os seus discípulos, disse-lhes: “Se alguém quer seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. 35 Porque quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a vida por amor de Mim e do Evangelho, salva-la-á”.
Esta afirmação tão categórica exige de nossa parte uma especial análise e degustação, por ser repetida, ademais, nos outros Evangelhos (cf. Mt 10, 38-39; Lc 17, 33; Jo 12, 25). Aqui se encontram as condições para sermos verdadeiros discípulos de Cristo.
1. “Se alguém quer...” — Depende de nossa livre vontade. Esperar por uma graça que realize em nós a plenitude de nossa salvação, sem o menor concurso de nossa vontade, é confundir Redenção com Criação, ou a vida eterna com a natural. Esse convite, evidentemente, deve receber uma resposta afirmativa de nossa parte. E é indispensável que seja fervorosa, pertinaz e contínua. Ou, por outra, não podemos nos esquecer um só segundo dessa determinação.
2. “...negue-se a si mesmo...” — A origem de todos os pecados encontra-se no amor desordenado a nós mesmos, em detrimento da verdadeira caridade. E o melhor remédio para essa terrível enfermidade é essa renúncia a nós mesmos, para encontrar-nos em Deus. Seu primeiro grau consiste no horror ao pecado mortal, preferindo morrer a consentir nessa aversão a Deus. O segundo diz respeito ao pecado venial consciente e deliberado. O terceiro incide sobre as imperfeições e o amor-próprio, tão sorrateiro em imiscuir-se até na prática das virtudes. Ao se progredir neste último grau, maior se torna nossa liberdade interior, como também o gozo da paz e de consolações. Quem vive no oposto a esses três graus, ou não entendeu a grandeza deste convite, ou conscientemente o recusou.
3. “...tome sua cruz ...” — Há cruzes e cruzes! As extraordinárias se apresentam diante de nós em épocas de perseguição religiosa. São os suplícios e a própria morte. Devemos enfrentá-los tal qual o fizeram Jesus e todos os mártires, jamais renegando a nossa fé.
Outras haverá que são comuns a todos os tempos. Boa parte delas não são procuradas por nós, mas indesejadas, como por exemplo, as doenças, as debilidades da ancianidade, os rigores do clima, etc. Outras, ainda, são oriundas do acaso: as perdas financeiras, as desgraças, os contratempos, a pobreza, a incompreensão e o ódio gratuito da parte dos outros, perseguições, injustiças. Às vezes, são os efeitos do nosso próprio caráter, temperamento, inclinações, etc.
Como são numerosas as cruzes que surgem ao longo de nossa vida!... Não as podemos evitar; pelo contrário, temos obrigação de carregá-las. E a experiência nos mostra como elas se tornam mais pesadas sobre nossos ombros quando as conduzimos entre choramingos e lamúrias, ou, pior ainda, se contra elas nos revoltamos. Ademais, nestes casos diminuímos, ou até perdemos, os correspondentes méritos.
Por fim, há também as cruzes escolhidas livremente por nós. Abraçar a via do matrimônio, ou a de uma comunidade religiosa, ou ainda a de leigo solteiro vivendo cristãmente no mundo, significa compreender e desejar todos os sofrimentos que são correlatos a cada situação. O cumprimento perfeito de cada uma das exigências do respectivo estado de vida, a subordinação das paixões, o freio dos caprichos, a privação destas ou daquelas comodidades, etc., constituem um campo florido de cruzes, inerentes ao caminho eleito por nossa deliberação. Sem contar a aridez, o tédio, o desgosto que de tempos em tempos nos assaltam ao longo da estrada percorrida por nós, e sem volta atrás. Mas se nossa decisão foi consciente e, sobretudo, se teve origem num sopro do Espírito Santo, jamais devemos nos arrepender. Muito pelo contrário, enchamo-nos de ânimo e até de entusiasmo, dando passos firmes rumo à meta final de nossa salvação.
4. “... e siga-Me” — Se empregássemos o melhor de nossos esforços, praticando os maiores sacrifícios para carregar nossa cruz, mas num caminho diferente do traçado por Jesus, não bastaria! É preciso abraçar a própria cruz, “por Ele, com Ele e n’Ele”. Na contemplação dos padecimentos da Paixão de Cristo, encontrarei as energias para carregar minha própria cruz.
Quanto a perder ou salvar a vida, comenta o Pe. Andrés Fernández Truyols SJ: “O que o Mestre quer gravar no coração de seus ouvintes é que devemos estar dispostos a passar por tudo, até mesmo a morte, desde que seja para salvar a alma. Porque de nada adianta ao homem ganhar o mundo todo se, no fim, vier a perder a sua alma, ou seja, se não alcançar a salvação eterna” (6). ²

1) Cf. Hom. 54 in Mt, in Obras completas, BAC, Madrid, 1956, v. II, p. 137. 2 ) Cf. ML, 26, 103. 3 ) Apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea, in Mc. 4 ) Hom. 55 sobre Mt 3, 22 -23. 5 ) Bíblia Comentada, BAC, Madrid, 1964, vol. II, p. 385. 6 ) Vida de Nuestro Señor Jesucristo, BAC, Madrid, 1954, vol. III, p. 369.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Comentário ao Evangelho — 24º domingo do Tempo comum - Mc 8, 27-35

Continuação 

Jesus prepara os apóstolos para a paixão
31 E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem padecesse muito, que fosse rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, que fosse morto, e que ressuscitasse depois de três dias.
Em rigor de objetividade, não era a primeira vez que Jesus tratava de sua futura Paixão. De maneira implícita, já a ela se referira anteriormente (por exemplo, em Mt 9, 15; 12, 40; Jo 2, 19-21; 3, 14), mas não com tanta clareza como agora. Sobretudo pelo fato de todos estarem sob a forte impressão da figura de um Messias triunfal e político, era indispensável usar de inteira franqueza. Ora, o momento não podia ser mais propício para tal, pois o coração de cada um deles estava pervadido pela consideração da divindade do Mestre. Sem embargo, essa revelação deve ter sido surpreendente, por isso mesmo representando uma excelente ocasião para introduzi-los nas perspectivas de sua morte. A divindade de Nosso Senhor permaneceria como forte lembrança no fundo de suas almas, apesar de estar, nas aparências, mais do que invisível, destruída. Sobretudo, o fato de ter sido prevista com tantos detalhes, como consta no presente versículo, constituía um auxílio à virtude da Fé e afastava qualquer resquício de escândalo. Compreende-se que São Paulo ensine que sem a Ressurreição, nossa fé seria vã (1 Cor 15, 14).
Os primeiros a meditarem na Paixão
Os Apóstolos foram muito privilegiados também a respeito disso. Somente eles e a Santíssima Virgem puderam meditar sobre as ignomínias e tormentos pelos quais iria passar o Salvador, antes mesmo de se terem estes verificado. Foram eles os primeiros convidados a se beneficiar das grandezas da misericórdia divina, de um Deus que se encarna e morre, por amor a cada um de nós. Quanta consolação, graças e forças estavam à disposição deles, a partir dessa revelação!
Aliança entre justiça e misericórdia
Jesus afirma a necessidade de sua morte, que seria injustamente imposta pelo Sinédrio. Por desígnios inimagináveis, o Pai havia determinado, desde toda a eternidade, a aliança entre a mais severa justiça e a mais afetuosa misericórdia. Para salvar-nos, não hesitou em nos dar seu próprio Filho e, entretanto, ao considerar os direitos de sua justiça, exigiu desse Filho muito amado a pior das mortes.
Nosso Senhor sofre enquanto filho do Homem e, por ser Filho de Deus, nos salva pelo oferecimento de seus tormentos. Sua humanidade está hipostaticamente unida à natureza divina, e por isso sua Paixão tem mérito infinito. Em função dessas duas naturezas unidas numa pessoa divina, Jesus repara a desobediência de nossos primeiros pais, assim como os pecados de toda humanidade. Ele é a cabeça e o primogênito dos homens e, assim, acaba por constituir uma nova geração de resgatados e regenerados, pela força de seu Preciosíssimo Sangue. Esse é o mais fino fundo da proposta que Jesus faz aos Apóstolos, ao lhes revelar sua morte, conforme diria, mais tarde, São Paulo: “O primeiro homem formado da terra, é terreno; o segundo homem, vindo do Céu, é celeste” (1 Cor 15, 47). Era-lhes indispensável renunciar ao velho Adão, originado do barro, para se entregarem ao Novo Adão, descido dos Céus.
O amor não se contenta com pouco. Ora, o amor de Jesus é infinito e, por isso, deseja a plenitude de sua entrega às dores, à rejeição das mais altas autoridades eclesiásticas, à morte e ao sepultamento. Que maiores provas de amor, a Deus e à humanidade decaída, poderiam ser dadas?
Por fim, eis uma revelação que anula qualquer possibilidade de escândalo proveniente da crucifixão: “Que ressuscitasse depois de três dias”. É o penhor de nossa própria ressurreição. A morte, limite máximo do poder do mundo, é o seu termo implacável, mas o poder de Jesus é eterno e, depois de sofrermos e morrermos por Ele, ressuscitaremos para eternamente reinarmos com Ele.
A seguir Pedro repreende Jesus. Como pode fazer isso?  Leia no próximo post.