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sábado, 29 de março de 2014

EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 11, 1-45 - Ano A

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA
EVANGELHO - Jo 11, 1-45 - A ressurreição de Lázaro
RETORNO DE JESUS A BETÂNIA
Estava doente um homem, chamado Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2 Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e Lhe enxugou os pés com seus cabelos, cujo irmão, Lázaro estava doente. 3 Mandaram, pois, suas irmãs dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. 4 Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não é de morte, mas é para a glória de Deus, a fim de que o Filho do homem seja glorificado por ela.” 5 Ora, Jesus amava Marta, sua irmã Maria e Lázaro.
6 Tendo, pois, ouvido que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7 Depois disto, disse aos seus discípulos: “Voltemos para a Judéia”. 8 Os discípulos disseram-Lhe: “Mestre, ainda há pouco os judeus Te quiseram apedrejar, e Tu vais novamente para lá?”
9 Jesus respondeu: “Não são doze as horas do dia? Aquele que caminhar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10 porém, o que andar de noite tropeça, porque lhe falta a luz.” 11 Assim falou, e depois disselhes: “Nosso amigo, Lázaro, dorme; mas vou despertá-lo”.
12 Os seus discípulos disseram-Lhe: “Senhor, se ele dorme, também se há de levantar.” 13 Mas Jesus falava da sua morte; e eles julgavam que falava do repouso do sono. 14 Jesus disse-lhes então claramente: “Lázaro morreu, 15 e Eu, por vossa causa, estou contente por não ter estado lá, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.” 16 Tomé, chamado Dídimo, disse então aos outros discípulos: “Vamos nós também, para morrer com ele”.
ENCONTRO COM MARTA E MARIA
17 Chegou Jesus e encontrou-o já há quatro dias no sepulcro. 18 Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. 19 Muitos judeus tinham ido ter com Marta e Maria, para as consolarem pela morte de seu irmão.
20 Marta, pois, logo que ouviu que vinha Jesus, saiu-Lhe ao encontro; e Maria ficou sentada em casa.
21 Marta disse a Jesus: “Senhor, se estivesses cá, meu irmão não teria morrido. 22 Mas também sei agora que tudo que pedires a Deus, Deus To concederá.” 23 Jesus disse-lhe: “Teu irmão há de ressuscitar.” 24 Marta disse-Lhe: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” 25 Jesus disse-lhe: “Eu sou a Ressurreição e a Vida.; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; 26 e todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente. Crês nisto?” 27 Ela respondeu: “Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vieste a este mundo.” 28 Dito isto, retirou-se e foi chamar em segredo sua irmã Maria, dizendo: “O Mestre está cá e chama-te”. 29 Ela, logo que ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele. 30 Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta tinha ido ao seu encontro.
31 Então, os judeus que estavam com ela em casa e a consolavam, vendo que Maria tinha se levantado tão depressa e tinha saído, seguiram-na, julgando que ia chorar ao sepulcro.
32 Maria, porém, tendo chegado onde Jesus estava, logo que o viu, lançou-se aos seus pés e disse-Lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido.” 33 Jesus, vendo-a chorar, a ela e aos judeus que tinham ido com ela, comoveu-Se profundamente e emocionou-Se; 34 depois perguntou: “Onde o pusestes?” Eles responderam: “Senhor, vem ver.”
35 Jesus chorou. 36 Os judeus, por isso, disseram: “Vede como Ele o amava”. 37 Porém, alguns deles disseram: “Este, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que este não morresse?”
RESSURREIÇÃO DE LÁZARO
38 Jesus, pois, novamente emocionado no seu interior, foi ao sepulcro. Era este uma gruta com uma pedra colocada à entrada. 39 Jesus disse: “Tirai a pedra”. Marta, irmã do defunto, disse-Lhe: “Senhor, ele já cheira mal, porque está aí há quatro dias.” 40 Jesus disse-lhe: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” 41 Tiraram, pois, a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
“Pai, dou-Te graças por me teres ouvido. 42 Eu bem sabia que me ouves sempre, mas falei assim por causa do povo que está em volta de Mim, para que acreditem que Tu me enviaste.” 43 Tendo dito estas palavras, bradou em voz forte: “Lázaro, sai para fora!” 44 E saiu o que estivera morto, ligado de pés e mãos, com as ataduras, e o seu rosto envolto num sudário. Jesus disse-lhes: “Desligai-o e deixai-o ir”. 45 Então, muitos dos judeus que tinham ido visitar Maria e Marta, vendo o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele (Jo 11, 1-45).
A ressurreição de Lázaro
O grande amor de Jesus àquela família de Betânia tornava incompreensível sua aparente indiferença perante a enfermidade de Lázaro. Mas quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância.
PRESSUPOSTOS
O porquê dos milagres
Ao conceder a um taumaturgo a faculdade de realizar milagres — explica São Tomás — Deus tem por objetivo “confirmar a verdade por este ensinada” (1). O motivo principal se encontra na fé, pois a razão humana não tem suficiente altura para acompanhar os horizontes dessa virtude, e por isso muitas vezes é necessário serem as afirmações de caráter sobrenatural confirmadas pelo poder de Deus. Esses atos que excedem as forças da natureza propiciam uma acrescida facilidade em crer na procedência divina de tudo quanto é transmitido a respeito de Deus.
Ademais, através dos milagres, torna-se patente a presença de Deus no taumaturgo.
Ora, era indispensável ficar claro aos olhos de todos que a doutrina proclamada por Jesus procedia do próprio Deus e, muito mais ainda, proporcionar a cada um boas provas para crerem na união hipostática das duas naturezas, divina e humana, numa só Pessoa. Justamente em face dessa luminosa, magna e fundamental impostação se projeta a narração do Evangelho de hoje.
Prova da divindade de Jesus
São João escreveu seus vinte e um capítulos com a preocupação de tornar demonstradas pelos fatos tanto a origem divina da doutrina de Jesus quanto a onipotência de sua Pessoa. E, conforme nos explica São Tomás, os milagres operados pelo Redentor são prova de sua divindade:
“Em primeiro lugar, pela natureza das próprias obras, que ultrapassam todo o poder da virtude criada, e por isso não podiam fazer-se senão por virtude divina.”
“Em segundo lugar, pelo modo de fazer os milagres, isto é, porque os fazia como com próprio poder, e não orando, como outros” (2).
Além de encontrarmos elevados aspectos sobrenaturais através dos quais melhor conhecemos o Salvador em suas duas naturezas, e, assim, mais podemos amá-Lo, nesta narração de São João se confirma seu estro literário. Ela é bela, atraente e comovedora, constituindo-se como única em seu gênero. Consagra historicamente os preciosos detalhes do mais importante milagre de Jesus, que Lhe conferiu uma grande glória — levando à crença um bom número de judeus — e, ao mesmo tempo, produziu o máximo grau de ódio nos seus inimigos, a ponto de apressá-los em seus intentos deicidas. Este episódio tão pervadido de pulcritude divina e humana será a causa imediata da fúria do Sinédrio e conseqüente determinação da morte de Jesus.
A pluma do Evangelista percorre o pergaminho, confirmando em cada versículo o agudo senso de observação do escritor, como também tornando patente ter sido ele uma exímia testemunha ocular, digna de fé, de todo o ocorrido. Quem poderia compor ou imaginar os minuciosos pormenores de veracidade transparente, como, por exemplo, as palavras, a emoção e as próprias lágrimas do Filho de Deus feito Homem, que fluem com leveza da escrita do Autor Sagrado? É escrupulosa sua fidelidade na transmissão da realidade que pode ser dividida em três partes distintas: o retorno de Jesus a Betânia, o encontro e a conversa com Marta e Maria, e a ressurreição de Lázaro.
ANÁLISE DO EVANGELHO

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quinta-feira, 27 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A – Jo 9, 1-41

Conclusão dos comentários ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41
Deixemos as trevas deste mundo
O cerne deste Evangelho nos é sintetizado por São Paulo em sua Epístola aos Efésios, também proposta à nossa consideração neste domingo da alegria: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5, 8).
Tendo nascido com o pecado original, de fato estaremos em trevas para compreender o sobrenatural enquanto não recebermos a luz da graça pelo Batismo. Esta é incomparavelmente superior à própria luz solar. “O que é o Sol para o mundo sensível, é-o Deus para o mundo espiritual: a luz da justiça e da verdade eterna, da mais elevada formosura e do amor infinito, da mais pura santidade e da mais perfeita felicidade”,15 afirma o padre Scheeben.
Em nosso apostolado, esforcemo-nos, pois, em ajudar os outros a recuperar a vista espiritual, porque, assim, poderão contemplar os reflexos da luz divina na criação e ordenar sua vida em função desse Luzeiro que é Cristo Jesus e a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Apresentando-nos esse magnífico Evangelho sobre a luz no 4º Domingo da Quaresma, a Igreja nos proporciona um particular alento para avançarmos com ânimo resoluto na vida espiritual. Às vezes fraquejamos, deixamo-nos arrastar por nossas más inclinações e sentimos periclitar nossa perseverança nas vias da santificação. Nesses momentos, lembremo-nos da cura do cego de nascença e consideremos que, se Deus permitiu que caíssemos numa debilidade, Ele está atento para intervir a qualquer momento e restaurar em nós a vida divina. Com as orações e a mediação maternal de Maria, nos encontraremos purificados para contemplar a luz do Círio Pascal, símbolo também dessa Luz que nos foi dada com a Ressurreição de Cristo e que nos vem através dos Sacramentos.
1ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología Moral para Seglares. 5.ed. Madrid: BAC, 1979, v.I, p.232.
2CUTTAZ, François Joseph. Nuestra vida de gracia (El Justo). Madrid: Studium, 1962, p.28-29.
3TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.941.
4 Idem, p.946.
5 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: Rialp, 2000, v.II, p.358-359.
6 Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Juan (3060). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.II, p.273.
7 Idem, p.282-283.
8 Idem, p.283-284.
9 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Comentario al Evangelio según San Juan. Buenos Aires: Ágape, 2008, t.V, p.22.
10 TUYA, op. cit., p.1163.

11 FILLION, op. cit., p.362. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A – Jo 9, 1-41

Continuação dos comentários ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41


O cerne deste episódio
35 “Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: ‘Acreditas no Filho do Homem?’. 36 Respondeu ele: ‘Quem é, Senhor, para que eu creia nele?’. 37 Jesus disse: ‘Tu O estás vendo; é Aquele que está falando contigo’. Exclamou ele: 38 ‘Eu creio, Senhor!’. E prostrou-se diante de Jesus”.
O objetivo de São João, ao narrar esse episódio, era, sem dúvida, tornar evidente o seguinte ponto: ao ser curado da cegueira, aquele homem recebeu também a crença na divindade de Cristo.
A pergunta do Mestre é formulada com suprema sagacidade. Em diversas ocasiões Ele Se denomina nos Evangelhos como o Filho do Homem. Essa expressão O protegia da malícia dos fariseus, que procuravam pretexto para condená-Lo, pois podia ser interpretada tanto como “o homem que Eu sou”, quanto como uma denominação do Messias.13 No fundo, Ele dava testemunho da sua divindade por meio de um título do qual os fariseus não poderiam tirar proveito para seus insidiosos ataques.
E quando respondeu ao mendigo com as palavras: “Tu O estás vendo”, fazia menção ao duplo benefício que lhe concedera: a visão natural e o dom de crer na sua divindade. Por isso o miraculado proclamou sua fé prosternando-se diante d’Ele, em atitude de adoração, e provavelmente passou a acompanhar os discípulos.
É razoável considerar ter esse milagre concorrido muito para confirmar na fé os próprios Apóstolos e, ademais, lhes haver dado a possibilidade de ponderar o quanto vale mais a conversão espiritual do que a cura da cegueira material.
A leitura do próximo versículo nos fará entender melhor este aspecto da questão.
A verdadeira visão
39 “Então, Jesus disse: ‘Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos’”.
Emprega aqui o Divino Mestre o verbo “ver” em dois sentidos: o físico e o espiritual. Santo Agostinho assim comenta essa passagem: “Embora todos, ao nascer, tenhamos contraído o pecado original, nem por isso nascemos cegos; contudo, considerando bem, nascemos cegos nós também. Com efeito, quem não nasceu cego? Cego de coração. Mas o Senhor, que fizera ambas as coisas, os olhos e o coração, curou tanto uns quanto o outro”.14
40 “Alguns fariseus, que estavam com Ele, ouviram isto e Lhe disseram: ‘Porventura, também nós somos cegos?’. 41 Respondeu-lhes Jesus: ‘Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece’”.
À interpelação de alguns fariseus, Nosso Senhor responde com uma impressionante increpação. Com efeito, se, apesar de todas as obras por Ele realizadas, alguém O considera apenas de modo natural e humano, sem reconhecer sua divindade, esse é, de fato, um cego de alma, um cego de coração. Pelo contrário, quem padece de cegueira corporal, mas, por ação da graça, acredita na divindade do Messias, este foi curado da cegueira espiritual, cura incomparavelmente mais importante que a da cegueira física. Pois, como afirma o Apóstolo, “o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (II Cor 4, 17).
Essa é a beleza da liturgia de hoje, ao ressaltar a maravilha da visão sobrenatural.
Continua no próximo post

segunda-feira, 24 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A – Jo 9, 1-41

Comentário ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41
Má vontade diante do milagre patente
8 “Os vizinhos e os que costumavam ver o cego — pois ele era mendigo — diziam: ‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’. 9 Uns diziam: ‘Sim, é ele!’. Outros afirmavam: ‘Não é ele, mas alguém parecido com ele’. Ele, porém, dizia: ‘Sou eu mesmo!’. 10 Então lhe perguntaram: ‘Como é que se abriram os teus olhos?’. 11 Ele respondeu: ‘Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Então fui, lavei-me e comecei a ver’. 12 Perguntaram-lhe: ‘Onde está ele?’. Respondeu: ‘Não sei’”.
Um fato tão extraordinário como este foi motivo de grande sensação, comentários e discussões entre “os vizinhos e os que costumavam ver o cego” pedindo esmolas. O sintético relato evangélico não especifica se houve manifestações de entusiasmo, de incredulidade ou de ódio. Contudo, parece certo que a primeira reação de alguns foi, pelo menos, de “ignorar” a evidência da cura milagrosa. Indício disso é o tom reservado das respostas do feliz beneficiário do milagre.
Má-fé e dureza de coração dos fariseus
13 “Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14 Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15 Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: ‘Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!’. 16 Disseram, então, alguns dos fariseus: ‘Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado’. Mas outros diziam: ‘Como pode um pecador fazer tais sinais?’. 17 E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: ‘E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?’. Respondeu: ‘É um profeta’. 18 Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista”.
A par do desentendimento instalado entre os fariseus a propósito do acontecimento, esses versículos tornam patentes dois aspectos do estado de espírito deles. A má-fé: pouco se importando com o favor dispensado por Nosso Senhor ao infortunado cego, proferem contra Ele a desgastada censura de violação do sábado. E a dureza de coração: mesmo diante da evidência, negam-se a acreditar em Jesus e inquirem o mendigo, não para apurar a verdade, mas na esperança de conseguir um testemunho hostil ao Divino Mestre. “Interrogam-no acerca da visão obtida, não para saber, mas para forjar uma calúnia e impor falsidade”,9 comenta São Tomás. O ex-cego, pelo contrário, faz diante deles um ato de fé em Jesus: “É um profeta”.
Como se esquivam os pais do cego
18b “Chamaram os pais dele 19 e perguntaram-lhes: ‘Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?’. 20 Os seus pais disseram: ‘Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21 Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo’. 22 Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23 Foi por isso que seus pais disseram: ‘É maior de idade. Interrogai-o a ele’”.
Não tiveram dificuldade os pais do cego em perceber a malícia e o ódio que imperavam nesse inquérito dos fariseus. E tinham motivos de sobra para temê-los, pois a expulsão da sinagoga poderia ter graves consequências no campo civil, como o desterro e o confisco dos bens. Por isso preferiram cortar qualquer possibilidade de fazer algum pronunciamento a respeito de Jesus: Não sabemos, perguntai ao nosso filho, ele é maior de idade.
Contraste entre o ódio dos fariseus e a sabedoria do mendigo
24 “Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: ‘Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador’. 25 Então ele respondeu: ‘Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo’. 26 Perguntaram-lhe então: ‘Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?’. 27 Respondeu ele: ‘Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos d’Ele?’. 28 Então insultaram-no, dizendo: ‘Tu, sim, és discípulo d’Ele! Nós somos discípulos de Moisés. 29 Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é’. 30 Respondeu-lhes o homem: ‘Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! 31 Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32 Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33 Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada’. 34 Os fariseus disseram-lhe: ‘Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?’. E expulsaram-no da comunidade”.

Grande era a contumácia dos dirigentes da sinagoga. Nota-se nesses versículos, mais uma vez, sua malévola insistência na tentativa de obter do miraculado uma declaração contra o Senhor. “Os fariseus procuravam em sua resposta somente um motivo para desvirtuar os fatos e negar que Cristo o havia curado”, observa o padre Tuya.10 Mas, assistido pelo Espírito Santo, o mendigo respondeu-lhes com acerto, tal como o próprio Jesus teria feito em iguais circunstâncias. “Que contraste entre o ódio, a astúcia e a violência dos fariseus, reprimida no início, mas logo depois declarada, e, de outro lado, a calma, a habilidade e a fina ironia do mendigo que, embora aparentemente vencido, conseguirá a vitória!”,11 comenta bem a propósito Fillion. Prevaleceu a sabedoria do homem simples fiel à graça sobre a pretensiosa ciência dos fariseus, ficando patente que o milagre beneficiara mais profundamente a visão da alma do que a visão do corpo.
Quanto aos fariseus, estes reagiram de acordo com sua obstinação: após insultar grosseiramente o homem que uma autoridade justa deveria tratar com toda a benevolência, decretaram contra ele a sentença de excomunhão.

Uma razão a mais para Jesus o atrair a Si com sua divina bondade. Comenta, a esse respeito, Santo Agostinho: “Depois de muitas coisas, foi excluído da sinagoga dos judeus aquele que era cego e agora enxergava. Enfureceram-se contra ele e o expulsaram. E era isso que temiam seus pais, conforme foi declarado pelo Evangelista. [...] Temiam, pois, eles serem enxotados da sinagoga; ele não temeu e foi enxotado; os pais permaneceram nela. Mas ele é acolhido por Cristo e pode dizer: ‘Porque meu pai e minha mãe me abandonaram’. Que acrescentou? ‘O Senhor, porém, tomou-me sob a sua proteção’. Vem, ó Cristo, e recebe-o; eles o excomungaram, acolhe-o tu. Tu, o Enviado, acolhe o excluído”.12
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sábado, 22 de março de 2014

Comentário ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A

Comentário ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41
Cristo dispôs tudo para sua glória
1“Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2 Os discípulos perguntaram a Jesus: ‘Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?’. 3 Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. 4 É necessário que nós realizemos as obras d’Aquele que Me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5 Enquanto estou no mundo, Eu sou a luz do mundo’”.
A crença de que os males físicos eram sempre consequência de algum pecado estava muito arraigada não só nos judeus, mas também nos povos pagãos contemporâneos de Cristo. “Em diversas ocasiões”, escreve Fillion, “o próprio Jesus parecia ter considerado como castigo do pecado algumas das enfermidades por Ele curadas”.5 E São João Crisóstomo observa que certa feita, depois de haver curado um paralítico, Ele o advertiu: “Não peques mais, para não te suceder algo pior” (Jo 5, 14), dando a entender assim que o pecado havia sido causa daquela doença.6
No presente caso, porém, declara taxativamente o Mestre que essa cegueira foi permitida desde toda a eternidade, para dar ensejo à manifestação de seu poder divino sobre a natureza. E, como veremos pouco abaixo, esse milagre foi também a misericordiosa oportunidade para o cego receber a graça da conversão; juntamente com a luz natural, veio-lhe a fé n’Aquele que é a Luz do mundo.
A didática de um grandioso milagre
6 “Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7 E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé’ (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando”.
Causa surpresa o fato de Jesus cuspir no chão, fazer lama, passar nos olhos do doente e depois dar-lhe ordem de ir lavar-se. Ora, Ele poderia ter operado esse milagre mediante um simples olhar ou um ato de vontade, como mais tarde fará com outro cego — o de Jericó — a quem Jesus disse: “Vê” (Lc 18, 42). No entanto, quis sarar o cego de nascença aplicando-lhe barro sobre os olhos e mandando-o lavar-se na piscina de Siloé. Bem observa, a este propósito, São João Crisóstomo: “Cuspiu no chão para eles não atribuírem um poder milagroso à água dessa piscina e para entenderem que saiu de sua boca a misteriosa energia que regenerou os olhos do cego e os abriu. É por isso que o Evangelista diz: ‘Fez lama com a saliva’. Em seguida, para evitar que se pensasse num poder secreto da terra, mandou-o ir lavar-se”.7
Primeiro quis o Divino Mestre que todos os circunstantes vissem o cego com barro nos olhos, e isso, certamente, causou viva impressão. Em seguida, ao retornar o homem curado, ficaria patente perante eles Quem era o autor da cura. Para um povo duro de coração como aquele, era preciso não haver dúvida a tal respeito. Daí ter Jesus utilizado a própria saliva, misturando-a com a terra, duas matérias incapazes por si de operar a cura, ressaltando provir d’Ele o poder sobrenatural. Pode-se observar que os detalhes do episódio foram divinamente dispostos para produzir nos presentes o grande efeito narrado pelo Evangelista.

Por sua vez, o cego acreditou na palavra de Jesus. Não pensou, por exemplo, em quantas vezes já se lavara na piscina de Siloé, sem se curar, nem se aquela lama poderia prejudicar ainda mais sua saúde. Comenta São João Crisóstomo: “Note-se como o cego tinha a disposição de obedecer em tudo. [...] Seu único objetivo foi o de obedecer a Quem lhe ordenava. Nada pôde dissuadi-lo, nada constituiu obstáculo”.8 Ele fez exatamente o que Nosso Senhor mandara, e foi recompensado.
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quinta-feira, 20 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A

Comentário ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare
Ao operar o milagre da cura de um cego de nascença, Nosso Senhor Jesus Cristo mostra que há cegueira pior à dos olhos corporais: a da alma, que impede o desenvolvimento da luz sobrenatural infundida em nossas almas pelo Batismo.
Evangelho Jo 9, 1-41
“Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. 2 Os discípulos perguntaram a Jesus: ‘Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais?’. 3 Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. 4 É necessário que nós realizemos as obras d’Aquele que Me enviou, enquanto é dia. Vem a noite, em que ninguém pode trabalhar. 5 Enquanto estou no mundo, Eu sou a luz do mundo’. 6 Dito isto, Jesus cuspiu no chão, fez lama com a saliva e colocou-a sobre os olhos do cego. 7 E disse-lhe: ‘Vai lavar-te na piscina de Siloé’ (que quer dizer: Enviado). O cego foi, lavou-se e voltou enxergando.
8 Os vizinhos e os que costumavam ver o cego — pois ele era mendigo — diziam: ‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’. 9 Uns diziam: ‘Sim, é ele!’ Outros afirmavam: ‘Não é ele, mas alguém parecido com ele’. Ele, porém, dizia: ‘Sou eu mesmo!’. 10 Então lhe perguntaram: ‘Como é que se abriram os teus olhos?’. 11 Ele respondeu: ‘Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Então fui, lavei-me e comecei a ver’. 12 Perguntaram-lhe: ‘Onde está ele?’. Respondeu: ‘Não sei’. 13 Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14 Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15 Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: ‘Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!’. 16 Disseram, então, alguns dos fariseus: ‘Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado’. Mas outros diziam: ‘Como pode um pecador fazer tais sinais?’. 17 E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: ‘E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?’. Respondeu: ‘É um profeta’. 18 Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista.
Chamaram os pais dele 19 e perguntaram-lhes: ‘Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?’. 20 Os seus pais disseram: ‘Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21 Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo’. 22 Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23 Foi por isso que seus pais disseram: ‘É maior de idade. Interrogai-o a ele’. 24 Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: ‘Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador’. 25 Então ele respondeu: ‘Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo’. 26 Perguntaram-lhe então: ‘Que é que Ele te fez? Como te abriu os olhos?’. 27 Respondeu ele: ‘Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos d’Ele?’. 28 Então insultaram-no, dizendo: ‘Tu, sim, és discípulo d’Ele! Nós somos discípulos de Moisés. 29 Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é’. 30 Respondeu-lhes o homem: ‘Espantoso! Vós não sabeis de onde Ele é? No entanto, Ele abriu-me os olhos! 31 Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32 Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33 Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada’. 34 Os fariseus disseram-lhe: ‘Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?’.
E expulsaram-no da comunidade.
35 Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: ‘Acreditas no Filho do Homem?’. 36 Respondeu ele: ‘Quem é, Senhor, para que eu creia nele?’. 37 Jesus disse: ‘Tu o estás vendo; é Aquele que está falando contigo’. Exclamou ele: 38 ‘Eu creio, Senhor!’. E prostrou-se diante de Jesus. 39 Então, Jesus disse: ‘Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos’. 40 Alguns fariseus, que estavam com ele, ouviram isto e lhe disseram: ‘Porventura, também nós somos cegos?’. 41 Respondeu-lhes Jesus: ‘Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece’” (Jo 9, 1-41).
O  Domingo “Lætare” traz-nos uma jubilosa esperança
A visão é o principal dos sentidos corpóreos, por ser o que nos proporciona melhor o conhecimento do Criador, através da contemplação do verdadeiro, do bom e do belo existente nas criaturas.
Esse magnífico dom é símbolo de outro mais precioso, relativo à vida da graça. Não vemos a Deus fisicamente, mas Ele está presente em toda parte. Embora possamos, pela lógica, demonstrar sua existência, não nos é possível vê-Lo com os olhos carnais, mas sim aderirmos a Ele com o auxílio da luz da graça que ilumina a inteligência, inclina a vontade ao bem e ordena nossa sensibilidade. Sem o dom de Deus que é a virtude da fé, nada conseguimos ver nem aceitar no campo sobrenatural. Entretanto, como afirma Royo Marín, “ao revelar-nos sua vida íntima e os grandes mistérios da graça e da glória, Deus nos faz ver as coisas, por assim dizer, do seu ponto de vista divino, tal como Ele as vê”.1
Em sentido figurado, poderíamos dizer que nascemos com os olhos vendados e o Batismo nos arranca a venda. Mesmo assim, na Terra vemos a Deus em sombras, ou seja, não podemos vê-Lo como Ele é. Explica-nos isso com clareza Mons. Cuttaz: “Encontra-Se Ele diante de nós com toda a sua infinita beleza, pois está em toda parte, especialmente na alma do justo. Um pouco, nós O conhecemos por sua ação, mas não O vemos: falta-nos uma luz, um instrumento de visão sobrenatural. É a graça que nos proporcionará isso no Céu, dentro desse ‘lumen gloriæ’ (luz da glória), da qual será o princípio”.2
Nesta vida terrena, temos na alma apenas uma semente de visão beatífica. Mas, ao passarmos para a eternidade, ela se desenvolverá como uma árvore, e desaparecerão por completo os véus que cobrem a fé e a esperança, e veremos Deus face a face.
A liturgia do 4º Domingo da Quaresma, domingo de alegria, nos traz a jubilosa esperança da plena posse dessa visão.
Um homem que vivia nas trevas físicas e epirituais
Ao escrever seu Evangelho, no momento em que a Igreja se encontra em plena controvérsia com os gnósticos, São João empenha-se desde o início em provar que Jesus é ao mesmo tempo Homem, embora sem personalidade humana, e Deus, unindo hipostaticamente a natureza divina e a humana na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.
Analisando a finalidade do Evangelho de São João, comenta o padre Tuya: “Quis-se notar nele uma certa tendência polêmica contra o fato de querer separar o homem de Deus”.3 E acrescenta mais adiante: “Num aspecto, a imagem de Cristo aparece delineada com traços sublimes: é Deus. [...] Mas mostra que Ele é também Homem. [...] Na imagem do Deus-Homem, João não se limita a especular; relata a história e revela os atos divinos e humanos”.4
O trecho do Evangelho deste domingo apresenta Nosso Senhor pouco depois de sair do Templo, onde acabara de ter uma das mais ardentes polêmicas com os fariseus, encerrada por Ele com uma solene declaração de sua divindade, ao afirmar com fórmula de juramento: “Em verdade vos digo, antes que Abraão fosse, Eu sou” (Jo 8, 58). Os fariseus, então, “pegaram em pedras para Lhe atirarem” (Jo 8, 59). Tinham a intenção de matá-Lo, mas não conseguiram, pois Ele se esquivou e saiu do Templo, “porque ainda não era chegada sua hora” (Jo 8, 20).

Logo após essa dramática cena, Jesus fez diante de todo o povo o estrondoso milagre que servirá para confirmar a veracidade de suas palavras a respeito de sua sobrenatural origem.
Continua no próximo post

quarta-feira, 19 de março de 2014

EVANGELHO III DOMINGO DA QUARESMA - ANO A - Jo 4, 5-15 - 2014

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO III DOMINGO DA QUARESMA - ANO A - Jo 4, 5-15 -  2014
11 A mulher disse a Jesus: “Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? 12 Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?”
A graça começa a trabalhar-lhe a alma com suavidade e, ao mesmo tempo, com muito vigor. As primeiras palavras dela haviam sido um tanto desabridas: “Como é que Tu, sendo judeu...”. A partir deste curto diálogo, passa a tratá-Lo de “Senhor”, pois algo do mistério de Jesus ela já entreve, o que significa um enorme passo para uma samaritana na consideração de um judeu.
Ela não chega a entender bem a substância das afirmações feitas por Jesus, mas decerto já estava atraída pelo todo do Divino Mestre, e por isso não as contradiz, apenas externa sua perplexidade, disposta a aceitar uma explicação. Por ora, sua atenção está de fato centrada na “água viva” desejada por ela, e no fundo de seu subconsciente está se formando a hipótese de estar diante de um homem grandioso, comparável ao “nosso pai Jacó”.
Os samaritanos tinham a ufania de declarar ter sido sua terra habitada pelos patriarcas (cf. Gn 12, 6; 33, 18; 35, 4; 37, 12; etc.). Pretendiam com isso abrandar as abjeções que os judeus lhes tinham, oriundas da miscigenação de raça e de religião. Daí a lembrança do poço de Jacó.
13 Respondeu Jesus: “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. ‘ Mas quem beber da água que Eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.
Deus criou o homem com sede de infinito. Nossa alma só repousa em Deus, pois Ele é nosso fim último, e nada fora d’Ele nos satisfaz plenamente.
A Sagrada Escritura nos diz: “A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir” (Ecl 1, 8). E este um fato realíssimo a se repetir em nós, e em torno de nós, a todo momento: nenhuma criatura nos fornece a ilimitada felicidade que buscamos. E ali, no próprio poço de Jacó, estava o símbolo das paixões humanas, segundo comenta Santo Agostinho.3 Um prazer que não seja de Deus, por mais que produza gozo, terminará por apenas causar tédio e decepção. Mas a alma, tornando-se escrava dele, o procurará outras vezes, nas suas mais variadas formas. A água do poço é simbólica de nossas inclinações, sempre nos atrairão a retornar a elas.
Sem desprezar em nada a memória de Jacó — até, pelo contrário, respeitando-a muito — Jesus oferece à samaritana uma água extraordinariamente superior àquela do patriarca. Mais ainda, Ele promete “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.
15A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la”.
Com a fé mais robustecida, ela crê no poder de Deus em criar uma água capaz de eliminar definitivamente a sede e, em consequência, de dispensá-la do trabalho de retirar daquele poço a água de todos os dias. De si, já seria uma maravilha criar essa água, mas Jesus lhe fala de um prodigio maior e incomparável: o das águas da graça. “O bem da graça é, para o indivíduo, melhor que o da natureza de todo o universo”,4 afirma São Tomás de Aquino.
Santo Agostinho5 glosa este versículo, mostrando que há tão só uma água capaz de extinguir a sede por completo, por fazer brotar no nosso interior uma fonte permanente, que jorrará até o feliz dia de nossa entrada para a eternidade. Se pedíssemos a Jesus, tal qual a samaritana o fez: “Senhor, dá-me dessa água”, Ele nos responderia: “Se alguém tiver sede, venha a Mim e beba. Quem crê em Mim, como diz a Escritura: ‘Do seu interior manarão rios de água viva’. Dizia isso, referindo-Se ao Espírito que haviam de receber os que cressem n’Ele” (Jo 7, 37-39).
No entanto, num primeiro momento, ela ainda não alcança o verdadeiro sentido das palavras de Nosso Senhor. A essa mulher se aplica o que diz São Paulo: “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus” (I Cor 2, 14).
Apesar disso, o Salvador não desiste. Pelo contrário, continuará a trabalhar a alma dela com zelo divino. Quem O visse conversando com a samaritana, sentado à beira do poço, jamais poderia imaginar não só o teor da conversa, como também o amor manifestado por Ele em relação àquela pobre ovelha desgarrada.
Neste ponto do diálogo terminaremos o comentário da Liturgia de hoje. Nos versículos seguintes as maravilhas narradas são ainda maiores: Jesus lhe revela ser o Messias (cf. Jo 4, 26), depois de mostrar-lhe que conhecia sua má vida matrimonial (cf. Jo 4, 16-18). Transformada pela graça do Redentor, ela assume a função de verdadeira apóstola junto a todos os seus conhecidos.
Esse belíssimo episódio nos faz compreender melhor as PA lavras de São Paulo, que a Liturgia também hoje seleciona para a segunda leitura (Rm 5, 1-2.5-8): “Dificilmente alguém morrerá por um justo; por uma pessoa muito boa, talvez alguém se anime a morrer. Pois bem, a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,7-8).
 CONCLUSÃO
A samaritana, apesar de não ter vida virtuosa e de ser uma estrangeira, com todas as implicações da Lei, possuía uma alma penetrada por comovedora simplicidade, verdadeiramente cândida. Seu modo de ser é humilde e despretensioso. E cumpridora de suas obrigações e conhecedora dos princípios e tradições de sua religião. Sua conversa é elevada e sincera, como quando manifestou o quanto acreditava em Jesus. Essas qualidades atraíram o amor do Redentor e O fizeram ir em busca da ovelha perdida.
Muito pelo contrário, no caso de Nicodemos, este é quem toma a iniciativa de ir em busca do Mestre. Confiante na ciência farisaica, teve dificuldade maior em aderir ao Senhor. Ademais, temia perder sua posição social. Assim mesmo, acabou defendendo Jesus nos momentos mais difíceis, porque recebeu muitas graças para tal, e a elas correspondeu.
Na ciência ou na ignorância, na virtude ou no pecado, o fundamental é buscarmos a água da vida, nas fontes da Santa Igreja. E indispensável não nos apegarmos a certos conhecimentos que possamos ter adquirido e, desta forma, fugirmos do orgulho da ciência. Ou então assumirmos a simplicidade de espírito e humildade de coração da samaritana, ainda que, infelizmente, estejamos dentro de uma via pecaminosa como a dela.
Em síntese, roguemos, de modo especial neste domingo, à Santíssima Virgem para que nos obtenha de seu Divino Filho a água da vida, fazendo jorrar em nossos corações o líquido precioso da graça que nos conduz à morada eterna.
1) SANTO AGOSTINHO. In bannis Evangelium. Tractatus XV, n.6. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1968, v.XIII, p.409.
2) Idem, n.10, p.413.
3) Cf. SANTO AGOSTINHO. De diversis quæstionibus octoginta tribus. Q.64, n.2. In: Obras. Madrid: BAC, 1995, v.XL, p.187-188.
4) SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.113, a.9, ad 2.
5) Cf. SANTO AGOSTINHO, De diversis quæstionibus octoginta tribus, op. cit., n.4, p.190.