-->

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pesca milagrosa II

Continuação da pesca milagrosa
6 Disse-lhes: “Lançai a rede para o lado direito da barca e encontrareis.” Lançaram a rede e já não a podiam arrastar, por causa da grande quantidade de peixes.
Sendo Jesus onipotente, sua didática é divina. A fim de tornar ainda mais maravilhoso o milagre a ser por Ele operado, aproveita-se de uma noite de fracasso para aconselhar-lhes a lançar uma vez mais a rede. Nossas desilusões com as puras forças da natureza muitas vezes nos são úteis para convencer-nos da infinitude do poder de Deus.
Jesus orienta que seja do lado direito da barca. Por quê?
Quem nos explica é o grande Santo Agostinho (2): “Essa pesca se faz depois da Ressurreição do Senhor para nos indicar qual será o estado da Igreja após a nossa ressurreição. ‘Lançai a rede à direita da barca’ (Jo 21, 6) disse o Senhor. Os que estão à direita não se confundirão com os outros. Não esquecestes como o Filho do Homem nos garantiu sua vinda no meio dos anjos; as nações comparecerão diante d’Ele, e Ele as separará como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, as ovelhas à direita, os cabritos à esquerda, e dirá depois às ovelhas: ‘Vinde (...) tomai posse do reino’; e aos cabritos: ‘apartai-vos de mim, malditos, ao fogo eterno’ (Mt. 25, 31-41). ‘Lançai a rede à direita’ significa, portanto, vede-me ressuscitado’. Quero dar-vos uma imagem do que vai ser a Igreja na Ressurreição dos mortos. ‘Lançai à direita’ (...) Lançaram a rede à direita e mal podiam levantá-la, tal era o seu peso!”
7 Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ao ouvir dizer que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava nu, e lançou-se à água.
Compreensível e belo era que o discípulo mais amado, somando suas impressões ainda implícitas à constatação da superabundância de peixes obtida, fosse o primeiro a concluir quem era aquele possível freguês. O timbre da voz, o decidido da ordem e a plenitude do efeito levaram João a reconhecê-Lo: “É o Senhor!”, exclamou ele.
Entretanto, o que mais amava, devido ao seu temperamento impetuoso e arrojado, foi o único a lançar-se nas águas. A dor pela falta cometida, o entusiasmo por Jesus, a rede pesadíssima, etc. fizeram-no optar por vias mais rápidas e decididas. Porém, por estar usando uma roupa comum dos pescadores daqueles tempos, devido a serem quentes os ares do Lago de Genezaré naquela época do ano, viu-se Pedro na contingência de cingir-se com a túnica, para nadar os cem metros que o separavam de Jesus. O “porque estava nu” não significa que estivesse de todo despido, mas sim com o sumário traje de pescador.
Curioso é de se notar que na época de Jesus nadava-se cingido de túnica.
8 Os outros discípulos, que não estavam distantes da terra senão duzentos côvados, vieram no barco puxando a rede cheia de peixes.
Ouçamos Santo Agostinho comentar este versículo (3): “Trouxeram a rede até a margem. (...) Ao dizer-se ‘margem’, deve-se entender ‘fim do mar’; e por ‘fim do mar’, entende-se fim do século. Na primeira pesca, as redes não foram trazidas até a margem, pelo contrário, os peixes foram colocados dentro das barcas. Agora não, são arrastadas até a praia. Espera o fim do século. Ele virá para o bem dos que estiverem à direita e para o mal dos que estiverem à esquerda”.
9 Logo que saltaram para terra, viram umas brasas acesas, peixe em cima delas, e pão.
Segundo São João Crisóstomo e muitos outros autores, foi intenção do evangelista fazer notar a evidência do milagre operado por Jesus. Comentam eles a nova maneira de agir sobre a natureza, após a Ressurreição. Antes, o Senhor se aproveitava de matéria existente, agora já não, a realização é ainda mais maravilhosa, ou seja, certamente do nada tirou Jesus as brasas, o peixe e o pão. Como medir a delicadeza do gesto de Quem amou os seus e os amou até o fim?
10 Jesus disse-lhes: “Trazei dois peixes que apanhastes agora.”
Esse pedido feito por Jesus não visava apenas aumentar a quantidade de peixes a serem comidos por eles. De maneira sempre afetuosa e com ilimitada bondade, Jesus deseja fazê-los comprovar a grandeza da pesca realizada. Até esse momento, os Apóstolos estavam absortos na contemplação do Mestre e até já haviam se esquecido dos peixes e da barca. Em realidade, seu propósito era o de que trouxessem todos os peixes e os contassem.
11 Simão Pedro subiu à barca e arrastou a rede para terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes. E, sendo tantos, não se rompeu a rede.
Pedro, em seu ardoroso amor, está sempre pronto a, com arrojo, atender às solicitações de Jesus. Sua disponibilidade total não se cifra somente ao fato de ser ele o dono da barca. Ele sozinho termina a operação iniciada pelos outros. O primeiro no amor, o mais flexível na obediência. Aí está a verdadeira raiz da qual retiram substanciosa seiva todas as virtudes: o amor.
O número cento e cinquenta e três suscitou ao longo dos séculos — e até mesmo entre os Padres da Igreja — uma variada gama de opiniões. Entre somas, subtracções e multiplicações, uma corrente de teólogos e de exegetas atribuíram um notório caráter simbólico a essa cifra. Outros, porém, — e é a opinião predominante hoje em dia — julgam ter sido intenção exclusiva do evangelista, a de ressaltar a grandeza do milagre.
Simbólica, sem dúvida alguma, é a afirmação contida no fim do versículo, ou seja, apesar do grande número e do porte dos peixes, a rede não se rompeu. Quase todos os autores procuram tornar clara essa passagem de São João. Santo Agostinho é o mais feliz em interpretá-la.
Explica-nos ele a diferença entre as duas pescas, no tocante à integridade da rede. Na primeira, rompeu-se. Símbolo das heresias que surgiriam ao longo dos séculos. Na descrita pelo Evangelho de hoje, a rede manteve-se intacta apesar do enorme peso. Esta é uma pré-figura da Igreja após a ressurreição dos mortos, na qual haverá o supremo império da paz dos justos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

As pescas milagrosas

A PRIMEIRA PESCA MILAGROSA
Jesus é o Mestre. Ele ensina de maneira insuperável, aproveitando-se dos episódios do dia-a-dia para elevar as almas ao amoroso conhecimento das vias escolhidas para seus eleitos. Aqueles homens estavam habituados aos ofícios e mistérios do mar, e era a partir dessa realidade que o Senhor queria conduzi-los às mais altas paragens da santidade.
No milagre anterior (Lc 5, 1-7), Jesus ordenara o lançamento das redes sem determinar se à esquerda ou à direita, para significar a universalidade da missão da Igreja Militante, a qual deve atingir tanto os bons quanto os maus, até o momento da separação definitiva entre o joio e o trigo. Os peixes foram recolhidos em tal abundância que chegaram a romper as redes, rompimento este, símbolo das heresias que surgiriam no futuro. As barcas quase se afundaram, representação dos riscos tremendos pelos quais, incólume, passaria a Igreja. Estas e outras figuras nos fazem compreender a situação da Igreja durante o curso da História.
Já a pesca do Evangelho de hoje, realizada depois da ressurreição do Senhor, foi por Ele ordenada a fim de nos mostrar o estado da Igreja Triunfante após o Juízo Final.
1 Depois disto, Jesus voltou a mostrar-Se aos seus discípulos, junto do mar de Tiberíades. Mostrou-Se deste modo:
Jesus não mais convivia com os seus, como anteriormente fizera. Por isso o versículo começa com as palavras: “Depois disto”. Já estava em corpo glorioso e, conforme nos ensina São Tomás, Jesus poderia ser ou não visto, dependendo de sua vontade os discípulos O veriam somente se Ele se mostrasse. Esta é a razão teológica pela qual João narra:“Mostrou-Se deste modo”.
2 Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos do Zebedeu e dois outros dos seus discípulos.
Ainda não havia descido sobre eles o Espírito Santo. As aparições de Jesus eram esporádicas. Estavam desocupados e, assim sendo, se juntavam para mutuamente se apoiarem. Eram sete ao todo, número que chama a atenção de alguns autores pelo seu significado de multiplicidade.
3 Simão Pedro disse-lhes: “Vou pescar”. Responderam-lhe: “Nós vamos também contigo”. Partiram e entraram numa barca. Naquela noite nada apanharam.
A noite é o período mais propício para a pesca e, certamente, hábeis e experientes nesse ofício, intuíam um bom êxito naquele empreendimento proposto por Pedro. Bastou ele comunicar seu plano que todos os outros se congregaram naquela aventura, tanto mais que deveriam estar carentes de subsídios para seu dia-a-dia. Pedro, sempre entusiasmado e não menos impetuoso, paulatinamente se havia constituído em propulsor dos Apóstolos.
Deu-se a partida cheia de esperança. Entretanto, com o passar das horas, a constatação da ineficácia de seus esforços fazia-lhes crescer no coração a convicção de quanto dependiam de um auxílio divino.
4 Chegada a manhã, Jesus apresentou-Se na praia, mas os discípulos não conheceram que era Ele.
O senso de observação era rico naquela civilização orgânica. Sem jornal, televisão, cinema ou rádio, as notícias se espalhavam oralmente e, por essa razão, surgiam espectadores da realidade por todas as partes. Assim, tomaram com naturalidade a presença de Jesus na praia, sem reconhecê-Lo de imediato. Aliás, da mesma forma havia procedido o Mestre com os discípulos de Emaús e com Madalena.
5 Jesus disse-lhes: “Rapazes, tendes alguma coisa para comer?” Responderam-Lhe: “Nada”.
Jesus, mesmo ao dirigir-lhes a palavra, voluntariamente não revela sua identidade, quer comunicar-Se com eles de forma exclusivamente humana, quiçá até mesmo modificando o timbre de voz e a expressividade, para não ser reconhecido. Este minúsculo detalhe nos mostra o quanto Jesus pode estar presente junto de nós em nossas actividades quotidianas, sem nós nos darmos conta. Compreenderemos no dia de nosso Juízo a que extremo Ele foi nosso companheiro a cada segundo, observando até nossos pensamentos e desejos.
Neste curto diálogo, Jesus propicia aos sete Apóstolos o sonho com um possível freguês. É curioso notar como, apesar do fracasso noturno, estão dispostos a uma nova tentativa para não perder o hipotético comprador. Assim devemos ser nós em nossos afazeres, sobretudo os apostólicos, ou seja, nunca desanimar. Sempre há uma última chance.

Continua no próximo post...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A multiplicação dos pães

“Nada de grandioso se faz repentinamente”, diz um provérbio latino. O mais excelso de todos os sacramentos, a Eucaristia, deveria ser precedido por belas pré-figuras, numa longa preparação da humanidade através dos séculos. No Antigo Testamento, uma das mais expressivas foi o maná caído do céu para os hebreus, durante os quarenta anos de travessia do deserto, em busca da Terra da Promissão.
No Evangelho da multiplicação dos pães, vemos o Divino Mestre tornar patente seu império sobre esse alimento. Logo a seguir, Ele andará sobre as águas num mar encapelado, com o intuito de deixar evidente o quanto dominava seu próprio corpo. Assim, as premissas para a instituição da Eucaristia iam se fixando nos que o seguiam, sobretudo nas almas dos Apóstolos.
Por outro lado, o rico sabor e a alta qualidade dos pães e peixes distribuídos por Jesus, deixaram a multidão ansiosa por comê-los novamente (12). E quando Jesus disse aos que foram beneficiados pelo milagre: “Moisés não vos deu o pão do Céu (...) o pão que desce do Céu e dá vida ao mundo”, eles logo Lhe pediram: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (13).
É insuperável a didática de Jesus ao iluminar assim a inteligência de seus discípulos, tocar seus corações e mover suas vontades rumo a um ardente desejo da Eucaristia. Método perfeito, tal qual o recomenda São Tomás de Aquino.
Após isso, com soberana autoridade e divina unção, Ele declara: “Eu sou o Pão da Vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o Pão que desceu do Céu para que aquele que dele comer, não morra. Eu sou o Pão Vivo descido do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente; e o Pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo.
Quem mais poderia unir a autoridade grandiosa à total simplicidade? Com muita propriedade, assim se expressa Bossuet sobre este aspecto de Jesus: Quem não admiraria a condescendência com que tempera a elevação de sua doutrina? É leite para os meninos e, ao mesmo tempo, pão para os fortes. Vemo-Lo cheio dos mistérios de Deus, mas se percebe que não está possuído como os outros mortais aos quais Deus se comunica: fala disso naturalmente, como tendo nascido nesse segredo e nessa glória; e o que Ele tem sem medida (Jo III, 34), Ele o dá com medida, a fim de que nossa debilidade possa suportá-lo.
Por isso, importa convencermo-nos em nos deixar conduzir pelos ensinamentos de Jesus, pois não quer Ele senão a nossa felicidade eterna e com prodigalidade: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham abundante”.”

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Talentos -Parte III

A recompensa e o castigo
“O que recebeu cinco talentos, aproximou-se e apresentou outros cinco: ‘Senhor — disse-lhe — confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei’. Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’. O que recebeu dois talentos, adiantou-se também e disse: ‘Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei’. Disse-lhe seu senhor: ‘Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor’”.
Pela forma com que os dois servos fiéis se aproximam, podemos discernir uma espécie de sofreguidão, de santa ansiedade, da parte deles, pela chegada do seu senhor. Nota-se que tinham passado todo o tempo de sua ausência suspirando pelo seu retorno. Ao ouvirem que ele os chama, vão céleres ao seu encontro, porque percebem ter chegado o fim das penas, trabalhos e esforços. Acorrem logo e sem nenhum receio. O que temeriam eles de um senhor que sempre amaram e pelo qual sempre trabalharam?
Esta é a situação dos homens que, durante a vida, atuaram com seriedade e diligência, utilizando todo o seu tempo no serviço do Senhor. Uma vez que cumpriram eximiamente o seu dever e souberam avaliar, aprimorar e agradecer os dons recebidos de Deus e deles se utilizar, não terão dificuldade alguma em deixar esta vida e passar para a eternidade.
A morte os encontrará alegres e desejosos de prestar contas Àquele que tudo lhes deu. Perante a perspectiva do Juízo, não sentirão temor, mas sim uma santa avidez de ir gozar eternamente da Presença de seu Senhor.
Nós, que agora consideramos esta parábola, não poderíamos deter-nos para um breve exame de consciência?
Quanto nos esforçamos por fazer render os dons que Deus nos deu para a glória dEle? Aplicamo-nos, como devemos, muito mais no serviço dEle do que em satisfazer o nosso egoísmo? Em que medida nossas retribuições, nossos louvores, nosso amor a Deus correspondem a tudo aquilo que Ele fez por nós?
Necessidade de restituir os talentos recebidos
Consideremos, a seguir, o belo gesto dos servos, reconhecendo que tudo pertence ao senhor e não se apropriando de nada: “Senhor, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei. [...] Senhor, confiaste-me dois talentos; eis aqui os dois outros que lucrei”.
Ao longo da nossa vida, Deus não deixa de nos conceder “talentos”. No Batismo, recebemos o dom por excelência que é a graça santificante, participação criada na vida incriada de Deus. A ela, por pura liberalidade divina, se acrescentam graças atuais ordinárias, operantes e cooperantes, e também graças atuais extraordinárias, que a Providência concede em circunstâncias especiais.
Perante tal profusão de “talentos”, devemos reconhecer, com gratidão, que todos esses dons pertencem a Deus. E quando deles “tiramos lucro” ao praticarmos uma boa obra, devemos saber ver, com humildade, quanto o mérito desse ato provém de Deus. Como os servos fiéis, precisamos retribuir a Deus tanto pelos “talentos” recebidos, como por aqueles lucrados pelos nossos atos de virtude.
A recompensa dos servos fiéis
Os servos fiéis da parábola dobraram a soma recebida das mãos de seu senhor, mostrando como o trabalho feito com diligência, com amor, com responsabilidade, acaba sendo coroado pelo sucesso.
“Muito bem, servo bom e fiel; já que foste fiel no pouco, eu te confiarei muito. Vem regozijar-te com teu senhor”.
A seriedade com que ambos se comportaram merece de seu senhor idêntico e belíssimo elogio, o qual evoca o que receberão do próprio Deus todos quantos procederam bem durante sua existência terrena.
A resposta do senhor — “eu te confiarei muito” — lembra também outra verdade importante: quem corresponde às primeiras graças, é geralmente beneficiado por outras ainda maiores e por uma renovada força para ser fiel a elas. Toda graça bem correspondida abre as portas para Deus outorgar muitas outras; e quem, nesta terra, deixa de corresponder a uma graça, corre o terrível risco de fechar as portas para as vindouras. Talvez, até, para aquelas que devem conduzi-lo à Bem-Aventurança eterna...
É importante ressaltar, por fim, que o prêmio é infinitamente superior ao esforço que os servos fizeram: “Vem regozijar-te com teu Senhor”. Para um pobre mortal que sai desta vida, o entrar no Céu, o ver Deus face a face, o possuí-Lo, amá-Lo e gozar da sua essencial felicidade é algo inimaginável e muito acima de qualquer merecimento!
O servo que esconde o talento
“Veio, por fim, o que recebeu só um talento: ‘Senhor — disse-lhe —, sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, tive medo e fui esconder teu talento na terra. Eis aqui, toma o que te pertence’”.
O comportamento deste “servo mau e preguiçoso” é chocante e digno de toda reprovação, sobretudo se comparado com o dos servos “bons e fiéis”. Em lugar de exercer sua função de forma séria e responsável, ele esconde o talento, guiado por um medo pecaminoso que nada tem a ver com o timor reverentialis (temor reverencial) das almas virtuosas.
Durante a ausência do senhor, foge do cumprimento de sua obrigação e, ao ser chamado a prestar contas, revolta-se contra ele. Para justificar sua falta, ultraja aquele a quem deveria servir, acusando-o de ser injusto: “Sabia que és um homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste”. Sua atitude erige-se, assim, em paradigma do comportamento dos pecadores que procuram justificar suas faltas revoltando-se contra Deus e contra os outros. Nunca reconhecem sua culpa; tudo lhes serve de escusa para a sua má conduta.
Sofismarão que é muito difícil salvar- se, porque poucas são as pessoas que alcançam o Céu; ou afirmarão: “Minhas paixões são vivas demais...”; ou: “O mundo está tão corrompido...” De nada servirá aconselhá-los a fazer um maior esforço para domar suas paixões, se elas forem fortes demais; nem recomendar-lhes a fuga das ocasiões que os põem em grave risco. Pois esses pecadores não procuram corrigir-se, mas sim, como já foi dito, sempre buscam razões para justificar suas más obras.
A resposta do senhor
“Respondeu-lhe seu senhor: ‘Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com juros o que é meu’”.
O senhor não se preocupa em refutar as afirmações do servo infiel, porque a ofensa que ele lhe faz é tão sem fundamento que não merece resposta. Pelo contrário, vai directamente ao ponto essencial do assunto, devolvendo-lhe a acusação: “Servo mau e preguiçoso! Sabias que colho onde não semeei e recolho onde não espalhei. Devias, pois, levar meu dinheiro ao banco e, à minha volta, eu receberia com juros o que é meu”.
O castigo
“Tirai-lhe este talento e dai-o ao que tem dez. Dar-se-á ao que tem e terá em abundância. Mas ao que não tem, tirar-se-á mesmo aquilo que julga ter. E a esse servo inútil, jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.
A condenação do “servo mau e preguiçoso”, contida nestes versículos, mostra-nos quão terrível será o suplício dos pecadores no Juízo Final.
Nesse dia, seus falsos raciocínios serão desmascarados diante de todos, e eles sentirão a mais viva vergonha. Os dons que a eles tinham sido concedidos, ser-lhes-ão arrancados e entregues a outros, provocando-lhes uma inveja e amargura tremendas. Aquilo que durante a vida desprezaram aparecerá ante seus olhos em todo o seu valor, enriquecido por Deus e posto nas mãos de outro que aproveitou melhor as graças recebidas.
A essas lancinantes dores, une-se a humilhação de ver-se condenado e jogado nos terríveis tormentos do Inferno, sobre os quais, por falta de espaço, deixamos para falar em outra ocasião.
Medita nos teus novíssimos
Meditar sobre a parábola dos talentos leva-nos, como vimos, a reflectir a respeito da seriedade com que devemos conduzir todas as nossas ações. Salta aos olhos como isto traz para nós benefícios extraordinários.
Mas, nesta parábola, Nosso Senhor nos ensina também a jamais nos apropriarmos de nada. Quer se trate de um dom gratuito, quer se trate de um benefício conquistado pelo próprio esforço, tudo é de Deus; dEle tudo recebemos e a Ele pertence tudo quanto fazemos, porque até as nossasncapacidades pessoais e nosso próprio trabalho foram criados para sua glória.
A parábola dos talentos nos convida, e muito também, a voltarmos constantemente os olhos para o nosso fim último, que é Deus, assim como para o dia em que por Ele seremos julgados. “Em tudo o que fizeres, lembra-te dos teus novíssimos e jamais pecarás” (Eclo 7, 40), diz a Sagrada Escritura. Se assim procedermos, teremos abraçado uma via segura para a nossa salvação eterna!

domingo, 11 de setembro de 2011

Parábola dos talentos - II

Continuação dos comentários de Mons João sobre a parábola dos talentos
Ausência do senhor
“Logo em seguida, o que recebeu cinco talentos negociou com eles; fê-los produzir, e ganhou outros cinco. Do mesmo modo, o que recebeu dois, ganhou outros dois. Mas, o que recebeu apenas um, foi cavar a terra e escondeu o dinheiro de seu senhor”.
O senhor parte e, “logo em seguida”, o primeiro servo se põe em ação, indicando-nos claramente que nunca devemos perder tempo no serviço do Senhor. A partir do recebimento do uso da razão, devemos entregar-nos à causa de Deus e trabalhar unicamente por ela. E, assim que cada um de nós se dá conta de qual é sua missão específica e quais as responsabilidades a ela inerentes, deve começar a agir sem demora, utilizando todos os dons que a Providência lhe deu para cumpri-la nesta vida.
Amor à autoridade que dá a tarefa
É necessário — como anteriormente vimos — que, ao assumirmos uma função ou ao sermos incumbidos de qualquer tarefa, desempenhemo-nos com senso de responsabilidade, com seriedade e diligência. Mas não só.
Por cima do objetivo concreto do nosso trabalho, considerado em si mesmo, devemos amar a legítima autoridade que nos deu o encargo, sobretudo quando se trata de um superior religioso. Neste caso, a nossa responsabilidade deixa de ser meramente material para elevar-se a um nível mais alto, dentro do qual o amor ao superior deve ser o motor eficazmente dinâmico na execução da tarefa. O bom andamento do serviço e a própria realização do objetivo proposto estarão em função desse amor.
Afastemos de nós o equívoco de julgar que apenas os monges, os sacerdotes ou as religiosas de um instituto de vida consagrada se encontram nessa situação. Qualquer simples fiel, ao obedecer ao Papa, ao Bispo ou ao pároco, ou a qualquer outro legítimo superior, na família ou na sociedade, deve ser movido primordialmente pelo amor à autoridade, instituída pelo próprio Deus.
Retribuir a Deus por dever de amor e de justiça
Quando quem nos impõe uma obrigação não é uma autoridade terrena, mas o Senhor por excelência, o próprio Deus, o amor com que a executemos toma o caráter de suprema importância.
Por amor e por dever de justiça, a Ele devemos toda obediência. É dEle que provêm nosso ser, inteligência, vontade, sensibilidade e todos os dotes naturais. E, sobretudo, de Nosso Senhor Jesus Cristo nos vem a Redenção, de um preço infinito, e com ela a Graça, dom que nenhum talento humano é capaz de merecer.
O senhor passou muito tempo fora
“Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e pediu-lhes contas”.
Nas parábolas do Divino Mestre, nenhum detalhe é casual. As circunstâncias, e até os mínimos matizes da narração, são dispostos pela sua absoluta Sabedoria, para o nosso bem. Assim, detenhamo-nos um instante na análise do fato de Jesus ter assinalado que o senhor passou muito tempo fora.
Durante essa prolongada viagem, os servos que mais receberam não foram tomados pela preguiça nem pelo desamor. Pelo contrário, mantiveram plena fidelidade durante a ausência de seu senhor, perseverando de forma ótima e fazendo frutificar, tanto quanto lhes era possível, os talentos que ele lhes entregara.
Quais as conseqüências deste ensinamento?
Imaginemos que cada um de nós estivesse chamado a viver durante apenas seis meses com inteiro uso da razão. Em vista dessa brevidade, faríamos todo o possível para apresentarmo-nos ao Tribunal Divino com o máximo de frutos, provenientes dos dons recebidos. Planejaríamos cuidadosamente a recepção dos sacramentos, tomaríamos todas as medidas cabíveis para nos afastar das ocasiões de pecado, procuraríamos crescer em zelo e piedade durante esse curto período de progresso rumo à eternidade.
Entretanto, a maioria dos homens é chamada a viver nesta terra um tempo relativamente longo, ou que lhes parece longo. E por isso, o fervor inicial com que o homem empreende a via do Reino do Céu tende a não ser duradouro.
Recebemos uma graça e o entusiasmo nos pervade, empreendemos uma obra com toda a energia para coroá-la, assumimos uma função fazendo os mais belos propósitos... mas esse primeiro impulso, muitas vezes, não perdura. Chega o momento em que o fervor inicial começa a retirar-se. A ausência do senhor, por assim dizer, se torna consciente no dia-a-dia; e começamos a nos dar conta de quão distante se encontra aquele que partiu.
A essa altura dos acontecimentos, desaparece a força que o senhor irradia com sua mera presença. No cumprimento das obrigações que ele nos deixou, já nem sequer nos estimula a consideração de um retorno dele de forma repentina e imediata. Essa sensação de demora nos coloca em grave risco de esquecê-lo.
Assim acontece com quem abraça a vida religiosa. No início, sente um entusiasmo capaz de derrubar todos os obstáculos e vencer qualquer dificuldade; esse é o “fervor de noviço”, assim chamado por ser característico de quem acaba de entrar nas vias da perfeição. Algum tempo depois — mais longo para uns, menos longo para outros —, afasta-se lentamente a visão primaveril que encantou o religioso no início de sua vocação, e aquele entusiasmo primeiro começa a diminuir. Surgem então as dificuldades. Imerso no labor cotidiano, pesa-lhe a monotonia do dia-a-dia. Se ele não lutar contra essa provação, acabará por esquecer-se da glória de Deus, dos interesses da Igreja, à qual entregou sua vida, e do benefício da própria alma.
Mas esse fenômeno não se dá só com as almas consagradas. O mesmo, quantas vezes, se passa também com quem acaba de receber a Primeira Comunhão, ou a Crisma, ou conclui algum período de formação religiosa! Nessas ocasiões, não poucos podem se sentir pervadidos de um fervor semelhante ao do noviço. Para estes, a perspectiva de uma vida longa bem pode vir a ser grave obstáculo para o fervor inicial continuar aceso!

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A parábola dos talentos

Publicaremos em 3 posts os comentários de Mons João Clá Dias a respeito da parábola dos talentos
Seriedade de todos os nossos atos
Na parábola dos talentos — assim como na das virgens prudentes, que a antecede, formando com ela um conjunto — Jesus nos ensina o caminho da felicidade eterna. Ambas têm o seu início em uma analogia: “O reino de Deus é semelhante a…”. De fato, parábola, na língua grega, significa: comparação.
Precedendo estas duas passagens do Evangelho, o capítulo anterior de São Mateus nos traz a descrição do fim do mundo, saída dos lábios do próprio Salvador. A conclusão também se faz através de uma parábola, a do “servo mau”, demitido e lançado no lugar onde “haverá choro e ranger de dentes”.
Novo prisma para a parábola dos talentos
 No fim da vida, cada um de nós deverá prestar contas a propósito dos “talentos” recebidos de Deus.
Os ensinamentos de Jesus, porém, são de uma riqueza inesgotável, e podem ser contemplados sob uma infinitude de prismas, sendo um deles — e muito importante — a seriedade com que todo homem deve procurar cumprir a tarefa ou exercer a função da qual foi incumbido. Sobretudo, se elas são encomendadas, não por um senhor terreno, mas pelo próprio Deus.
Seriedade no ver, julgar e agir
A rapidez frenética da modernidade torna difícil a reflexão sobre os acontecimentos cotidianos. Daí o fato de o homem contemporâneo tender à superficialidade de pensamento e não analisar em profundidade as consequências, boas ou más, de seus próprios atos.
Ora, tudo nesta vida é sério, pois somos criaturas de Deus e “é n’Ele que temos a vida, o movimento e o ser” (At 17, 28). Assim, o mais trivial dos nossos atos tem relação com realidades altíssimas, e pode nos acarretar graves consequências ou colocar-nos diante de onerosas responsabilidades, se não for devidamente executado.
Por isso, essa seriedade no exercício de uma função exige de nós, em primeiro lugar, uma inteira objectividade. É preciso ver a realidade como ela é, sem véus nem preconceitos, e sem permitir que seja distorcida por ansiedades ou frenesis. Dessa coerência no ver e no julgar, emanará a seriedade no agir. O que se tem a fazer deve ser começado logo, executado por inteiro, sem perda de tempo e sem interrupções desnecessárias.
Somos árvores cujos frutos são pobres, pecos e, frequentemente, podres
Não esqueçamos, entretanto, que, sem o auxílio da graça, a natureza humana é incapaz de praticar estavelmente a própria Lei Natural, e até de fazer algo meritório para a salvação eterna. Por nossa natureza decaída, somos árvores cujos frutos são pobres, pecos e, frequentemente, podres. Só quando a seiva da graça circula com força no caule e nos galhos dessa árvore, alcançando até mesmo as folhagens mais distantes da raiz, produzimos frutos abundantes e bons.
O senhor distribui seus bens e parte
“O Reino dos Céus será também como um homem que, tendo de viajar, reuniu seus servos e lhes confiou seus bens. A um deu cinco talentos; a outro, dois; e a outro, um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu”.
Os três servos da parábola nada possuíam e, ao partir de viagem, seu senhor põe-lhes nas mãos todos os bens que lhe pertencem: oito talentos no total. Tratava-se de uma fortuna considerável, pois o talento não era propriamente uma moeda, mas uma medida ideal de valor equivalente a um lingote de prata de, mais ou menos, 30 quilos. O conjunto desse tesouro comportava, portanto, cerca de 240 quilos do precioso metal.
Tudo o que temos vem de Deus
Sobre este aspecto da parábola cabe já uma aplicação para nossa vida espiritual.
Cada um de nós é um servo de Deus que, de si mesmo, nada tem. Na ordem da natureza, recebemos do Criador o ser que Ele ideou para nós desde toda a eternidade, munido de determinados atributos e dons. Junto com a existência, Ele nos deu também todos os bens necessários, tanto materiais quanto espirituais.
De nossos pais recebemos a geração humana, mas não a alma, a qual nos é infundida pelo próprio Deus e elevada à vida sobrenatural pelo Batismo. A partir desse momento, o rico legado de Cristo para sua Igreja fica direta e imerecidamente à nossa inteira disposição: sua doutrina, os sacramentos, as graças, os benefícios decorrentes dos seus méritos, etc.
Os dons são distribuídos de forma desigual
Cabe também salientar que, ao distribuir os talentos entre os servos, o senhor da parábola o faz de forma desigual: para um dá cinco; para outro, dois; para o terceiro, um. Sendo o dono, ele pode repartir sua própria fortuna do modo que achar melhor, e, neste caso, distribuiu “de acordo com a capacidade de cada um”.
Perante essa diferença, os três servos agem bem. Os dois últimos não reclamam pelo fato de ter sido dado mais ao primeiro; os que têm menos não ficam com inveja do que recebeu mais, e este não despreza os outros dois. Sabem claramente que tudo é do senhor. São meros administradores, e cada qual deverá prestar contas na proporção do valor que lhe foi confiado. Não há, portanto, motivo para inveja, queixa ou, menos ainda, revolta.
Assim devemos fazer também nós que somos servos do Senhor Nosso Deus. Ao receber d’Ele dons, não nos cabe perguntar se outros receberam menos ou mais, mas aplicar-nos em retribuir-Lhe da forma mais completa, segundo as nossas próprias aptidões, estando sempre prontos a prestar contas desses talentos, e perguntando-nos frequentemente: “O que faço com os benefícios que de Deus recebi?”.
Deus outorga os dons em função de sua própria glória
Deus, ao distribuir seus dons entre nós, seus servos, não se atém a critérios humanos, mas o faz segundo seu beneplácito, visando sua própria glória.
Os dons naturais ou espirituais que Ele nos outorga não vêm pautados pelos nossos desejos, aptidões ou méritos. Pelo contrário, Deus nos dota de qualidades em função da glória que para nós reservou no Céu. Assim, nossa inteligência, vontade e sensibilidade, nossa mentalidade e nosso carácter nos são dados com vistas ao trono que devemos ocupar na eternidade. Nossa natureza e nosso espírito são por Ele preparados para receber os dons sobrenaturais com que quer nos ornar, e todas as graças e benefícios com os quais Ele nos enche ao longo da vida estão orientados nesse mesmo sentido.
Deus, ao fazer-nos filhos adoptivos seus, nos chama a sermos manifestações d’Ele próprio, assim como a participarmos de sua glória. Por isso, diz São Paulo aos Coríntios: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum. A um é dada pelo Espírito uma palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, por esse mesmo Espírito, a outro, a fé, pelo mesmo Espírito; a outro, a graça de curar as doenças, no mesmo Espírito; a outro, o dom de milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, por fim, a interpretação das línguas.Mas um e o mesmo Espírito distribui todos esses dons, repartindo a cada um como lhe apraz” (I Cor 12, 7-11).
Somos membros de um só corpo
Logo a seguir, o Apóstolo acrescenta: “Como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (I Cor 12, 12).
A Igreja, com efeito, forma um corpo no qual cada membro tem uma função diferente. Deus adapta as graças às diversas funções e exige que cada um se aplique, na sua finalidade específica, dentro desse Corpo Místico. Diz São Paulo: “A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do corpo de Cristo” (Ef 4, 11-12).
E São Pedro exorta: “Como bons dispensadores das diversas graças de Deus, cada um de vós ponha à disposição dos outros o dom que recebeu” (I Pd 4, 10).
Cada um de nós tem, portanto, uma missão específica. E não podemos querer — por egoísmo, ou por ambicionar uma função que não nos foi atribuída — prejudicar a harmonia desse conjunto criado por Deus em sua infinita Sabedoria.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Evangelho segundo São Lucas

Reconstituir o fio cronológico dos acontecimentos e, a partir daí, reestruturar ordenadamente as circunstâncias que cercaram a vida do Salvador, mesmo antes de seu nascimento como também depois de sua morte, tem sido uma tarefa de grande alcance e levada a cabo com êxito por numerosos autores, ao longo dos séculos.
Mas, quem seria capaz de revelar as sábias e especialíssimas intervenções de Deus no curso da História, para criar o clima psicológico e preparar os espíritos com vistas à magna obra redentora? Quiçá somente no dia do Juízo possamos ter uma visão global e minuciosa desse mais belo agir da Providência.
“Lucas, o médico querido” (Col 4, 14), sob esse ponto de vista, foi o escritor sagrado mais bem-sucedido. A tal respeito, encontramos interessantes considerações na obra Comentários a la Bíblia Litúrgica (1):
“A atitude de Lucas é diferente. Não é como Marcos e Mateus, um simples pastor que recolhe o ensinamento da Igreja e o transmite num outro contexto. Sendo pastor, Lucas é também um erudito que conhece as leis da história de seu tempo; vive ancorado na tradição cultural do helenismo e pensa que os fatos da vida de Jesus e o Cristianismo podem ser apresentados dentro das exigências próprias à cultura grega, e por isso escreve seu Evangelho e o livro dos Atos.
“Por mover-se na confluência destas duas tradições (helenista e judeu-cristã), Lucas foi capaz de formular uma visão nova e esplêndida do significado de Jesus e de sua obra. A característica fundamental dessa visão é o sentido ou ritmo da História, com seu passado (Antigo Testamento), seu centro (vida de Jesus) e seu futuro (tempo da Igreja). (...)
“Lucas é o evangelista do Espírito. O laço de união do Velho Testamento, de Jesus e da Igreja, é o Espírito de Deus que realiza sua ação entre os homens. O Espírito agia sobre os profetas da Antiga Aliança e se mostrou de uma forma decisiva no surgimento de Jesus; no tempo de sua vida, Jesus realizou a missão escatológica do Espírito de Deus sobre a terra e o deixou à Igreja como herança. Tal é a tríplice epifania do Espírito na História (Antigo Testamento, Jesus e Igreja).”
Dentre as testemunhas oculares, a própria Virgem Maria!
É fácil compreender que muitos tentassem “pôr em ordem a narração das coisas” (v. 1). Porém, nem sempre atingiram esse objetivo com pleno acerto. São Lucas, com polidez, insinua isso ao afirmar: “muitos já empreenderam”, ou seja, numerosos autores não haviam conseguido lograr o necessário êxito.
Por isso conclui Beda (2): “Cita outros muitos, não tanto pelo número, quanto pela multidão de heresias que encerram; porque, como seus autores não estavam inspirados pelo Espírito Santo, fizeram um trabalho inútil, uma vez que teceram a narração a seu gosto, sem preocupar-se com a unidade histórica.”
Numa época muito distante da máquina fotográfica e do vídeo, nada poderia melhor comprovar a veracidade de um acontecimento do que a presença de observadores.
O relato feito por estes, sobretudo quando coincidentes em seu cerne e também nos seus detalhes, indicava altíssimo grau de credibilidade. Assim, Lucas se reporta às “coisas (...) como no-las referiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e vieram a ser ministros da palavra”. Como bom historiador e escritor, Lucas demonstra especial zelo em deixar claro tratarem-se de testemunhas que presenciaram os acontecimentos “desde o princípio”, e levanta a ponta de um véu que nos coloca diante de bela perspectiva: quem teria sido “testemunha ocular” da Anunciação, do Nascimento e da Infância de Jesus?
Realmente, não poderia ser outra pessoa senão a própria Santíssima Virgem. De onde se conclui ter ele ouvido santas e maternais narrações feitas por Maria, com base nas quais redigiu os primeiros capítulos de seu Evangelho.
Lucas atesta sua objectividade enquanto historiador: “depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde o princípio”, decide escrever “por ordem a sua narração”, compilando os relatos orais e escritos, frutos de sua escrupulosa investigação. Ele deseja fazer uma obra que sirva de referência a outros tantos arautos da vida de Jesus, incluindo o período da infância, levando em conta, porém, o ambiente cultural daqueles tempos. Ou seja, mesclando a cronologia histórica com algo da psicologia humana.
Dedica o livro ao “excelentíssimo Teófilo”, certamente alta personalidade de sua época, pois dessa forma conferiria maior valor a sua obra. Esse era, aliás, um costume muito em voga naqueles tempos: oferecer a pessoas de escol, os trabalhos intelectuais.