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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Evangelho Solenidade de Todos os Santos Mt 5, 1-12a

Continuação dos comentários ao Evangelho Mt 5, 1-12a  Bem aventuranças

O valor do sofrimento diante de Deus
4 “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados”.
À natureza humana decaída repugnam a dor, o sacrifício e mesmo qualquer esforço. Entretanto, na segunda das bem-aventuranças enaltece Nosso Senhor o pranto daqueles que suportam o sofrimento físico e a dor moral por razões sobrenaturais, como em expiação pelos próprios pecados, ou — o que é mais nobre — em reparação pelas culpas alheias. Bem-aventuradas são as santas lágrimas desses aflitos, que tanta consolação lhes podem trazer ao ajudá-los a ver o vazio dos bens passageiros e a merecer os eternos.
Bem-aventurados serão eles também porque Deus nunca deixa de confortar, já nesta Terra, quem aceita a dor e, à imitação de Jesus Cristo, se ajoelha diante da cruz e a oscula antes de tomá-la aos ombros. Seu gozo não será pequeno, pois, como afirma São João Crisóstomo, “quando é Deus quem nos consola, embora caiam sobre nós as dores como os flocos de neve, superamos todas. Ele sempre nos dá uma recompensa superior aos nossos trabalhos”.9
A verdadeira mansidão
5 “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”.
A mansidão elogiada por Cristo neste versículo consiste, sobretudo, em ser o homem constantemente senhor de si mesmo, controlando as próprias emoções e impulsos. Ela lhe impede de murmurar contra as adversidades permitidas por Deus, e o leva a não se irritar com os defeitos dos irmãos, procurando, pelo contrário, desfazer os desentendimentos e desculpar com generosidade as ofensas recebidas.
Os mansos de coração não só evitam a discórdia com o próximo, mas empregam todos os meios para que ela não se estabeleça entre os irmãos. Suportam o peso da vida, conformando-se sempre com a vontade de Deus. Santo Agostinho faz-lhes este elogio: “Quando estão bem, louvam a Deus; quando mal, não blasfemam; nas boas obras que fazem, glorificam a Deus, e nos pecados, acusam-se a si mesmos”.10 E mais uma vez o santo Jó, com sua admirável fidelidade durante a terrível provação, ser-nos-á exemplo dessa virtude.
E qual é a terra que os mansos possuirão? A terra dos vivos: o Céu. Porém, já neste mundo, mesmo em meio a dores e tristezas, desfrutam de uma constante alegria no fundo da alma, antegozo do Reino Eterno.
As leis do espírito diferem das do corpo
6 “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”.
Ter fome e sede de justiça equivale a desejar a santidade. Jesus louva aqui a árdua batalha daqueles que, visando atingir a perfeição moral, lutam para progredir na vida espiritual, examinam com rigor sua consciência e combatem com energia os próprios defeitos.
Ora, as leis do espírito são distintas das do corpo. Quanto mais alimento espiritual recebe a alma, mais aumenta nela a apetência pelos bens eternos, porque Deus infundiu na natureza humana uma aspiração por uma felicidade sem limites. Como, então, poderão ser saciados os que “têm fome e sede de justiça”?
Nosso apetite pelos bens eternos só será perfeitamente satisfeito no Céu, onde o próprio Deus será nossa recompensa. Mas, já nesta terra, bem-aventurados são aqueles que se alimentam com fervor do Pão dos Anjos e bebem com delícias a água do Espírito oferecida por Jesus à samaritana (cf. Jo 4, 14).
Com a medida com que medirdes...
7 “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.
Por vezes, sentimos verdadeiro horror em perdoar, pois consideramos ser conforme à justiça tratar cada um estritamente segundo os seus atos e méritos.
Entretanto, o Bom Pastor nos convida aqui a desculpar as fraquezas de nossos irmãos e nos compadecer de suas misérias. Mais adiante, no próprio Sermão da Montanha, levará Ele essa doutrina até um extremo inimaginável: “Amai os vossos inimigos, e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam. [...] Fazei o bem e prestai ajuda sem esperar coisa alguma em troca. Então a vossa recompensa será grande. Sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bondoso também para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 27-28.35-36).
No dia do Juízo, o Redentor nos tratará da mesma forma como tivermos tratado o nosso próximo: “Com a medida com que medirdes sereis medidos” (Lc 6, 38). Quem tem misericórdia, perdoa as debilidades dos outros com facilidade, e é por sua vez perdoado, segundo o pedido feito no Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12). Porque, acrescenta Jesus, “se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que está nos Céus também vos perdoará. Mas, se vós não perdoardes aos outros, vosso pai também não perdoará as vossas faltas” (Mt 6, 14-15).

Final dos comentários no próximo post

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Evangelho Solenidade de Todos os Santos Mt 5, 1-12a

Vista desde o Monte das Bem aventuranças
Acompanhe os comentários ao Evangelho Mt 5, 1-12a neste blog

No Sermão da Montanha, Nosso Senhor ensinou uma nova forma de relacionamento diametralmente oposta aos princípios e costumes vigentes no mundo antigo. À crueldade e à dureza de trato, veio contrapor a lei do amor, da bondade e do perdão, belamente sintetizada nas oito bem-aventuranças.
“Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 ‘Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de Mim. 12a Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos Céus’” (Mt 5, 1-12a).

Radical mudança de padrões no relacionamento divino e humano
Jesus proclama uma doutrina inovadora
A figura majestosa do Messias e sua surpreendente doutrina ao mesmo tempo intrigavam, impunham respeito e atraíam. Do seu olhar profundo e sereno dimanava ilimitada bondade. Atendia todos os pedidos, curava todos os doentes. Até aqueles que tocavam na orla do seu manto ou eram apenas acariciados por sua sombra, viam-se favorecidos por sua benfazeja onipotência. D’Ele os aflitos recebiam inefável consolo.
Os milagres tornavam-se mais numerosos e uma multidão cada vez maior O seguia com crescente admiração: “O povo todo ficava fascinado quando ouvia Jesus falar” (Lc 19, 48). Jamais se vira em Israel profeta semelhante.
Cativados estavam também os Apóstolos que havia algum tempo acompanhavam esse Taumaturgo dotado de tão extraordinário poder: por sua ação, cegos passaram a ver, coxos a andar, surdos a ouvir, leprosos ficavam limpos e possessos viram-se libertos. Mas julgavam erroneamente os discípulos, em consonância com o geral do povo, que Ele viera para estabelecer o predomínio de Israel sobre as demais nações da Terra. Era-lhes ainda desconhecida a verdadeira fisionomia do Reino pregado pelo Divino Mestre e as regras que deveriam regê-lo, pois, como afirma Fillion, “até então Jesus anunciara a seus compatriotas a vinda do Reino de Deus, instando-os a nele entrar, mas ainda não havia descrito em pormenores as qualidades morais que deviam adquirir para serem dignos de pertencer a ele”.1
Momento oportuno para explicitar a nova doutrina
A passagem do Evangelho aqui comentada corresponde ao momento em que Cristo começa a explicitar sua inovadora doutrina. Vários meses haviam transcorrido desde o início da sua vida pública. Encontrava-se Ele agora nas redondezas de Cafarnaum, junto ao Mar de Tiberíades, aonde tinham ido para ouvi-Lo e serem curadas “pessoas de toda a Judeia, e de Jerusalém, e do litoral de Tiro e Sidônia” (Lc 6, 17).
Acabava Jesus de escolher doze dentre seus discípulos, aos quais dera o nome de Apóstolos (cf. Lc 6, 13-16), preparando assim a fundação da sua Igreja. Era essa a ocasião propícia para apresentar de público uma suma dos ensinamentos que a Esposa de Cristo, ao longo dos séculos, haverá de guardar, defender e anunciar a todos os povos. É o que Nosso Senhor vai fazer no Sermão da Montanha, verdadeira síntese do Evangelho e píncaro da perfeição da Nova Lei. Servem-lhe de exórdio as oito bem-aventuranças, como portal magnífico de um palácio incomparável.
Neste sermão o Messias, “a título de fundador e legislador da Nova Aliança, declara a seus súditos o que lhes pede e o que deles espera, se querem servi-Lo com fidelidade”.2
Violenta ruptura com antigos costumes e preconceitos
Difícil nos é hoje, após dois milênios, compreender a novidade radical contida nessas palavras do Divino Mestre. Trouxeram elas para o mundo uma suavidade nas relações dos homens entre si, e destes com Deus, desconhecida no Antigo Testamento e, a fortiori, pelas religiões dos povos pagãos.
Afirma, a esse propósito, o Cardeal Gomá: “Não estamos hoje em condições de apreciar a transcendência desse discurso de Jesus, pois respiramos na atmosfera cristã produzida no mundo por aqueles divinos ensinamentos. [...] Precisamos remontar aos tempos dos grosseiros erros do paganismo, que os ouvintes de Jesus respiravam naquela ocasião [...] para podermos avaliar o profundo contraste entre os ensinamentos do Mestre e a cultura e sensibilidade de seus ouvintes”.3
Com efeito, as palavras de Nosso Senhor vão provocar uma completa transformação dos costumes da época, marcados pelo egoísmo, pela dureza de trato e até mesmo pela crueldade.
Elas são próprias a determinar também uma violenta ruptura com “os preconceitos dos contemporâneos de Jesus sobre o reino messiânico e o próprio Messias — já que esperavam um Messias forte e poderoso na ordem temporal, formidável guerreiro que deveria subjugar as nações e colocá-las sob a férula de Judá, tendo Jerusalém como capital gloriosa”.4
A felicidade não está no pecado
Afirma o eloquente Bossuet: “Se o Sermão da Montanha é o resumo de toda a doutrina cristã, as oito bem-aventuranças são o resumo do Sermão da Montanha”.5 Elas sintetizam, de fato, todos os ensinamentos morais dados pelo Redentor ao mundo e estabelecem os princípios de relacionamento prevalentes em seu Reino.
Ao praticá-las, o homem encontra a verdadeira felicidade que busca sem cessar nesta vida e jamais poderá encontrar no pecado. Pois, quem viola a lei de Deus no afã de satisfazer suas paixões desordenadas afunda cada vez mais no vício até se tornar insaciável. “Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34), adverte Jesus.
As almas puras e inocentes, ao contrário, desfrutam já nesta Terra de uma extraordinária alegria de alma, mesmo no meio de sofrimentos ou provações.
Passemos agora a analisar cada uma das oito bem-aventuranças, vibrantes verdades cujo enunciado se sucede em majestosa cadência, com um ritmo elevado, digno, imponente, próprio da Pessoa Divina que as proclamava: “Bem-aventurados, Bem-aventurados, Bem-aventurados...”.
Os princípios morais da nova lei
“Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los...”
Para fazer a solene proclamação de sua doutrina, não escolheu Jesus uma sinagoga, nem sequer o Templo. Proferiu essas oito magistrais sentenças ao ar livre, numa pequena meseta situada na margem noroeste do Mar de Tiberíades, perto de Cafarnaum.6
Como sublinha Fillion, “grandiosa era a cátedra da qual ia falar, em consonância com o assunto do próprio sermão”7: por teto tinha o céu; por palco, uma montanha e não existiam paredes... Diante de Si, o vasto panorama dominado pelo Mar da Galileia sugeria a imensidade do globo terrestre como auditório para aquelas palavras que, passando de região em região ao longo dos séculos, levadas pelos lábios dos Apóstolos e seus sucessores, chegaram até nós — dois mil anos depois — tão vivas como se tivessem sido pronunciadas hoje.
Pobreza material e pobreza de espírito
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
A mentalidade própria aos espíritos mundanos em todos os tempos repete: “Bem-aventurados os ricos e os poderosos, porque eles conseguem satisfazer todos os seus caprichos e apetências”. Era essa a máxima de vida dos povos pagãos da Antiguidade, e continua a ser hoje, nos ambientes em que Nosso Senhor Jesus Cristo deixou de ser o centro.
O Divino Mestre, pelo contrário, vai proclamar: “Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). Ou: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” (Lc 18, 25).
Portanto, a contraposição entre a doutrina do Homem Deus e o espírito do mundo não poderia ser mais completa! Assim, bem podemos imaginar o estupor dos que O seguiam, ouvindo-O exaltar o oposto da felicidade, segundo era entendida pela mentalidade daquela época: “Bem-aventurados os pobres em espírito”!
Tanto mais que Jesus era exemplo vivo e modelo insuperável dessa inovadora doutrina. Criador do Céu e da Terra, escolhera como berço uma manjedoura posta numa gruta fria, aquecida apenas pela presença de um boi e um burro. E após trinta anos de existência humilde e oculta, pôde dizer durante sua vida pública: “As aves têm seu ninho, as raposas têm suas tocas, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9, 58).
Cabe ressaltar, entretanto, não estar Nosso Senhor tratando aqui principalmente da pobreza material, como aponta com acuidade o Papa Bento XVI, em seu livro Jesus de Nazaré: “A pobreza da qual aqui se fala nunca é um fenômeno puramente material. A pobreza puramente material não salva, embora os desfavorecidos deste mundo possam seguramente contar de modo muito particular com a bondade divina. Mas o coração das pessoas que nada possuem pode estar endurecido, intoxicado, corrompido — interiormente cheio de cobiça, esquecido de Deus e ávido apenas de bens materiais”.8
Os “pobres de espírito” mencionados pelo Divino Mestre neste versículo não são os carentes de dinheiro, mas os homens desapegados dos bens deste mundo, sejam estes muitos ou poucos, para seguirem a Jesus Cristo.
Em meio à abundância e prosperidade, pode um rico ser pobre de espírito, pela prática da caridade e pela submissão à vontade de Deus, em função da qual administra sua riqueza. O santo homem Jó é disto um dos mais belos exemplos. Por outro lado, um pobre, revoltado com a sua condição, dominado pela inveja, pela ambição ou pelo orgulho, será um “rico de espírito” ao qual o Reino dos Céus jamais poderá pertencer.

Consiste, portanto, a pobreza de espírito na aceitação da própria contingência, na compenetração da nossa total dependência de Deus, a quem tudo devemos, e na certeza de ser a nossa existência um mero caminho para chegar até o Céu. Quem assim procede, é feliz já nesta vida, pois, estando livre de todo apego desordenado e voltado para os bens espirituais, possui de alguma maneira, pela graça, a bem-aventurança eterna.

Continua no próximo post.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52

Final dos comentários ao Evangelho Mc 10, 46-52


O mal da cegueira espiritual
A cegueira, quer seja física, quer espiritual, é um mal indolor. A primeira é involuntária quanto à origem, mas o mesmo não se dá com a outra: nesta ingressamos por culpa própria, sempre que damos largas às nossas paixões, não correspondendo às inspirações da graça e às advertências de nossa consciência. É digno de comiseração alguém que perdeu a vista, como o nosso pobre Bartimeu. Para ele, todas as belezas criadas por Deus não são senão trevas. Muito mais digno de pena é quem sepultou seu coração na obscuridade, rejeitando a luz de Deus. Para este, as verdades eternas não existem. O fogo inextinguível do inferno, as inimagináveis glórias celestes, a implacabilidade do Juízo Particular ou Final, jamais lhe passam pela mente e, portanto, não o impressionam. Poderá assistir a alguma cerimônia representando a Paixão de Nosso Senhor, de um Deus que se encarna e morre na Cruz para nos redimir, sem ocorrer-lhe algum pensamento piedoso de contrição, confiança ou gratidão. O sobrenatural não o comove, pois não passaria de uma invenção humana submersa nas trevas de sua consciência.
A fé não é mais a luz de suas ações
A perda da vista, apesar de nos impedir de nos guiarmos nos espaços físicos segundo nossas próprias deliberações e usando de nossa autonomia, inclina-nos à humildade e submissão aos outros, a confiar em seu auxílio. Por isso, quando bem aceita, ela pode ser um excelente meio de santificação. Muito pelo contrário, a cegueira espiritual priva-nos de elementos fundamentais para nossa salvação — como são as misericórdias que desprezamos — e nos faz correr terríveis riscos, enquanto acumulamos as iras de Deus.
Quantas vezes os mais cegos de Deus são aqueles que se crêem cheios de luzes...
Um cego como este do Evangelho, poderá fazer algo de útil, além de pedir esmolas? Mais uma razão de compaixão!
Entretanto, muitíssimo pior é a situação de um cego espiritual, pois a fé já não é mais a luz de suas ações; sua finalidade última apagou-se aos seus olhos. Ele se atira às inúmeras atividades e projetos de seu dia-a-dia, esfalfando-se em busca de uma reputação que não é senão fumaça, de uma riqueza que outros consumirão, de um prazer ilícito que durará pouco e lhe fará merecer um castigo sem fim, de uma saúde que terminará mal, pois seu corpo apodrecerá no fundo de uma sepultura.
Um cego de Deus ignora o poder de Jesus
A Bartimeu lhe faltava um dos elementos essenciais para enriquecer-se, por isso caiu inevitavelmente na pobreza passando a viver de esmolas. Ao cego de Deus, entretanto, é possível fazer fortuna; porém, debaixo deste ponto de vista, é ele ainda mais digno de pena: quando se fecharem definitivamente para a luz do dia seus olhos carnais, os espirituais de imediato se abrirão, mas quão tarde será, para ele, ver a grande dimensão de sua real miséria em todo o seu horror. E, tomara, não seja essa a hora do desespero.
Como vemos pelo relato de Marcos, o cego, ao saber que por ali passaria Jesus, pôs-se a gritar cheio de alegria e esperança, pois acreditava no poder do Mestre de curá-lo. Um cego de Deus ignora por completo esse poder. Mesmo o fato de, ao longo da História, Jesus ter iluminado estes ou aqueles pecadores, dos mais inveterados, levando-os à conversão, nada significa para as pessoas nas quais a luz da fé se apagou.
“Senhor, que eu veja!”
Se me analisar, com toda a honestidade de consciência, não encontrarei no fundo de minha alma alguma sombra onde a luz do sobrenatural não chega, um ou outro refolho onde não penetra a voz de Deus? Esse é o momento de eu imitar o pobre Bartimeu. O próprio Jesus continua aqui, nos tabernáculos das igrejas. Por que não aproveitar uma ocasião para d’Ele me aproximar e pedir-Lhe o milagre? Devo temer a Jesus que passa e não volta, e bradar continuamente, porque Ele ouve melhor os desejos abrasados...
Imitar a atitude de Bartimeu
Tenhamos por certo este princípio: sempre que um cego de Deus abraça o caminho da conversão, “a multidão” tenta dissuadi-lo de prosseguir, fazendo todo o possível para lhe criar obstáculos. Infelizmente, a essa “multidão” de mundanos se associa a multidão de seus próprios pecados e paixões, para fazê-lo silenciar. Também aqui é oportuno imitar a atitude de Bartimeu, ou seja, não só não ceder às pressões, como até, pelo contrário, redobrar em ardor, esperança e desejos. Dessa forma, não tardará a comprovar a realidade da convicção do Apóstolo: “Tudo posso n’Aquele que me conforta!” (Fl 4, 13).
“Senhor, que eu veja!”, deve ser o pedido de quem esteja imerso na tibieza e, sobretudo, de quem é cego de Deus. Bartimeu não pediu a fé, porque já a possuía. Sua cegueira era simplesmente física. Examinemos nossas necessidades espirituais e peçamos tudo a Jesus. Sem duvidar, aguardemos até mesmo o milagre, pois Ele nos assegura: “Tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Eu o farei” (Jo 14, 13).
A fé vai-se tornando privilégio de minorias
O número dos que sofrem de cegueira física, no mundo, é insignificante, em comparação com os cegos espirituais. A cegueira de coração atinge uma quantidade assustadora de pessoas em nossos dias. A fé vai se tornando privilégio de minorias. Há cegos não só nos caminhos da salvação, mas até mesmo nas vias da piedade. Estes levam uma vida pseudotranqüila, submersos nos perigos da tibieza; cometem faltas, mas conseguem muitas vezes, através de inúmeros sofismas, adormecer suas consciências, não experimentando mais os benéficos remorsos. Confessam-se por pura rotina, comungam sem dar o devido valor à substância do Sacramento Eucarístico, rezam sem devoção...
E — quem diria? — há cegos entre os que abraçaram o caminho da perfeição, mas deixaram de aspirar a ela, contentando-se com uma espiritualidade medíocre, esquálida e infrutuosa. Eles nada fazem para atingi-la, procurando-a onde ela jamais se encontra.
Pureza de coração
Enfim, para não ser cego de Deus, é preciso ser puro de coração. Uma das principais causas da cegueira de nossos dias é a impureza. Nosso Senhor diz no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Não se trata exclusivamente da virtude da castidade, mas, muito, da reta intenção de nossos desejos. Tanto uma quanto a outra vão-se tornando raras a cada novo dia, nesta era de progressiva cegueira de Deus...
São essas algumas das razões pelas quais a humanidade necessita voltar-se urgentemente para a Mãe de Deus, apresentando por meio d’Ela, ao Divino Redentor, o mesmo pedido de Bartimeu: “Senhor, que eu veja!” ²
1 Cfr. São João Crisóstomo, Comment. in Epist. ad Hebraeos, c. 7, lect. 4.
2Cf. Suma Teológica III, q. 22, a.1
3 Suma Teológica II-II q. 64 a.2 ad 3
4 Cf. Exclamaciones del alma a Dios, c. 14, in Obras completas de Santa Teresa de Jesús, Ed. Aguilar, Madrid, 1942, pp. 459-460
5 Cf. Castillo interior o las moradas — Moradas sextas c.10 in op. cit., p. 403
6 S. João Crisóstomo , Hom. 67, in Mt XX, 31 7 ) Apud São Tomás de Aquino, Catena Áurea.
7 Apud São Tomás de Aquino, Catena Áurea.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52

Continuação dos comentários ao Evangelho Mc 10, 46-52
51Tomando Jesus a palavra, disse-lhe: “ Que queres que te faça?” O cego respondeu: “Rabboni, que eu veja!” Então Jesus disse-lhe: “ Vai, a tua fé te salvou”. No mesmo instante recuperou a vista, e seguia-O no caminho.
Mais uma vez o Divino Mestre, para robustecer a fé do cego, apesar de conhecer o grande desejo de sua alma, pergunta-lhe qual era sua demanda. Bartimeu, que tanto clamara pelo Filho de Davi sem obter a visão, responde chamando-O de “Senhor” (conforme dizem Mateus e Lucas), fato suficiente para demonstrar o quanto ele acreditava na divindade de Jesus, e recebe, além de um elogio à sua fé, a recuperação da vista.
Este acontecimento foi extremamente didático e comprobatório da messianidade de Jesus. Justamente no início da sua última subida a Jerusalém, quando Ele se dirigia para a morte, um cego recupera a vista por proclamar o Filho de Davi como sendo seu Senhor...
Assim termina Orígenes os comentários das últimas palavras do Evangelho de hoje: “Também a nós, que estamos sentados próximo ao caminho das Escrituras e sabemos em que consiste nossa cegueira, se pedirmos com todo o empenho, o Senhor nos tocará, abrirá os olhos de nossas almas e afastará de nossos sentidos as trevas da ignorância, a fim de que O vejamos e sigamos, única finalidade que Ele tinha ao nos conceder a vista” (7).
No próximo post as aplicações deste evangelho  para nossa vida.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52


Continuação dos comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B Mc 10, 46-52,



46 Chegaram a Jericó. Ao sair Jesus de Jericó, com os seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, mendigo cego, filho de Timeu, estava sentado junto ao caminho. 47 Quando ouviu dizer que era Jesus Nazareno, começou a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”
Segundo a narração de São Marcos, Jesus encontra-se em viagem rumo a Jerusalém, deixando atrás de si Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia. Como nunca perdia um só segundo nem oportunidade, Ele aproveitará esse percurso para ir instruindo seus discípulos, a fim de torná-los aptos à grande missão que lhes caberá, uma vez fundada a Igreja. Ao iniciar-se essa caminhada, uma grande multidão se junta aos discípulos, sempre desejosa de assistir a mais algum milagre, ou de ouvir as maravilhas transbordantes dos lábios do Mestre. Como primeiro ato desse trajeto, está a cura de um cego. São Mateus (20, 29-34) narra o fato como tendo se passado com dois cegos, e não somente um. São Marcos diz-lhe o nome: Bartimeu, ou seja, “filho de Timeu”. Ademais, à diferença de São Mateus, acrescenta outros dados muito interessantes: o empenho das pessoas do povo em estimular o pobre cego a se aproximar de Jesus, logo após terem ouvido que o chamava. Como também a prontidão deste, ao lançar fora seu manto e saltar procurando acercar-se de Jesus. Mateus, por sua vez, afirma ter-se dado a cura quando Jesus tocou os olhos do cego, e Lucas (18, 35-43) menciona uma forma imperiosa empregada por Ele.
A conjugação das três narrativas nos dá um quadro minucioso do acontecido. O título de “Filho de Davi”, segundo bons autores, deve-se ao fato de já, a essa altura, estar difundida entre todos a noção — e da parte de alguns até a crença — de que Jesus era, verdadeiramente, o Messias. Descarta-se, portanto, a hipótese de que o cego (ou, segundo Mateus, os dois cegos), usando essa expressão, desejasse captar a benevolência de Jesus em favor de sua cura.
Há quem levante a hipótese de serem três os milagres efetuados por Jesus naquela ocasião, inteiramente distintos, cada um deles narrado por um desses três Evangelistas. Outros, porém — e é a quase a totalidade — julgam que os dados em comum idênticos tornam impossível não se tratar de um mesmo e único milagre.
E por que Marcos e Lucas fazem referência a um só cego? Uma boa maioria dos exegetas opina ser provável que os cegos eram dois, conforme Mateus indica, mas um deles devia ser muito conhecido, a ponto de Marcos tê-lo posto em cena com seu nome próprio.
Quanto ao lugar onde se teria dado o milagre, as explicações, se bem que diversas, visam fazer uma aproximação entre os Evangelistas, concluindo em favor de um único acontecimento.
48Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele cada vez gritava mais forte: “Filho de Davi, tem piedade de mim
Quase nunca faltam a essas cenas evangélicas os aspectos carregados de cores, característicos do Oriente. Os costumes, marcados por um temperamento borbulhante e nada retraído, se refletem tanto na atitude do cego Bartimeu como na reação da multidão contra os gritos dele. É interessante percorrer os comentários tecidos a esse respeito pelos santos e padres da Igreja, como São Beda, São Jerônimo, São João Crisóstomo e outros. Este último, por exemplo, assim se exprime: “Permitia Cristo que o repreendessem para que o desejo dele se acendesse mais. Daí podemos concluir que, qualquer que seja a forma de desprezo que caia sobre nós, podemos alcançar o que pedimos, desde que nos aproximemos de Cristo com autêntico desejo” (6).
Seja como for, essa disputa entre os acompanhantes de Jesus e o cego tem um lado pitoresco, muito próprio a uma sociedade orgânica, na qual nem se chegara a sonhar com um mundo dominado pela máquina. Nela, o relacionamento humano é não só intenso, mas constitui até a essência da vida comum e quotidiana. Todos querem tirar partido da presença de um homem incomum, transbordante de sabedoria e que multiplica bondosamente os milagres por onde passa. A multidão não deseja perder a menor oportunidade de vê-lo e ouvi-lo. A comitiva, ao se deslocar, evita ao máximo os empecilhos, para apanhar todos os comentários do Mestre, e a gritaria de um cego torna difícil seguir o fio das exposições. Contudo, para Bartimeu, era a única e exclusiva chance de sua vida. Assim, enquanto uns o repreendem, mais alto ainda ele grita.
Jesus, parando, disse: “Chamai-o”. Chamaram o cego, dizendo-lhe: “Tem confiança, levanta-te, Ele te chama.” Ele, lançando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.
A certa altura, o Salvador interrompe a marcha e manda chamar o cego. Segundo Mateus, Ele mesmo toma sobre si a iniciativa de fazê-lo aproximar-se. Marcos é mais preciso: Jesus, dando ordem à multidão, ao mesmo tempo impede, implicitamente, que continuem repreendendo o pobre Bartimeu. Com tais e tantos gritos, era evidente que Cristo já o ouvira, porém agradava-Lhe aquela insistência. É bem exatamente o que se passa conosco em nossas orações. Deus quer nossa constância. A determinação de Jesus criou uma expectativa na multidão, e essa reação psicológica transformou a anterior acidez em empenho de estimular o cego a encher-se de ânimo. Este — como sói acontecer com quem perde o sentido da visão — por instinto discerniu onde estava Aquele que tinha o poder de curá-lo e, num salto, a Ele se dirigiu, pouco se importando com seu próprio manto, lançando-o de lado.
Continua no próximo post

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52,

Continuação dos Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum Ano B Mc 10, 46-52

Terríveis consequências do pecado
São Tomás, que nunca abandona seu sereno equilíbrio, ultrapassa os limites que nós julgaríamos os do exagero quando trata dos terríveis efeitos do pecado: “Pecando, o homem se afasta da ordem racional. Decai, assim, da dignidade humana, que consiste em ser naturalmente livre e existir para si mesmo. Ele cai, de certo modo, no estado de escravidão dos animais, dispondo-se dele conforme convém à utilidade dos outros. É o que se diz no Salmo: ‘Estando elevado em honra, o homem não entendeu, viu-se nivelado aos animais sem razão e a eles se assemelhou’. E também se lê no livro dos Provérbios: ‘O insensato estará a serviço do sábio’. (...) Pois o homem mau é pior que um animal, e até mais nocivo, como afirma o Filósofo” (3)
Guerra contra Deus
Transpostos para o campo da espiritualidade mística, da grande Doutora da Igreja, Santa Teresa de Ávila, os conceitos se harmonizam: “Oh! não entendemos que o pecado é uma guerra campal de todos os nossos sentidos e potências da alma contra o nosso Deus! O que tem mais poder é o que mais traições favorece contra o seu Rei… Confesso, Pai Eterno, que guardei mal (a jóia preciosa de Cristo); mas ainda há remédio, Senhor, há remédio enquanto vivamos neste desterro” (4).
Essa grande reformadora do Carmelo, que aliás é rica em manifestar seus horrores ao pecado, dirá em outra de suas obras: “Agora, façamos de conta que Deus é como uma morada ou palácio muito grande e belo. Poderá, porventura, o pecador sair desse palácio para praticar o mal? É certo que não. Mas é dentro desse próprio palácio — que é Deus — que nós, pecadores, praticamos abominações, desonestidades e maldades. Oh! como isso é terrível, digno de toda a atenção e muito proveitoso para quem tem poucos conhecimentos e não entende inteiramente essas verdades! [Se pensássemos nisso] não seria possível fazer desaforo tão irresponsável. Consideremos, minhas irmãs, como Deus é enormemente misericordioso e paciente, não nos castigando logo. Devemos dar-Lhe muitíssimas graças e ter vergonha de ficar ressentidas por aquilo que façam ou digam contra nós. É uma enorme maldade ver que Deus, nosso Criador, tem dentro de Si mesmo tanta paciência para com suas criaturas, e ainda assim nós ficarmos ressentidas só porque, alguma vez, alguém disse algo [sobre nós] em nossa ausência e, talvez, sem má intenção” (5).
Cegueira de alma
Misterioso e causa de múltiplos efeitos é o pecado, sendo um deles — e quão terrível! — a cegueira de alma, bem simbolizada pela perda física da visão. A triste situação de quem não vê, move o coração do Sumo Sacerdote: “Ele sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro...” (Hb 5, 2); “dos extremos da terra hei de reuni-los; entre eles, o cego e o aleijado” (Jr 31, 8). Esta é uma das nota a respeito do Evangelho A cura de Bartimeu que será comentado nos próximos posts.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52


Comentários ao Evangelho Mc 10, 46-52 XXX Domingo do Tempo Comum Ano B

46Chegaram a Jericó. Ao sair Jesus de Jericó,  com os seus discípulos e grande multidão,Bartimeu, mendigo cego, filho de Timeu, estava sentado junto ao caminho.  47 Quando ouviu dizer  que era Jesus Nazareno, começou a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” 48 Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele  cada vez gritava mais forte: “Filho de Davi, tem  piedade de mim!” 49 Jesus, parando, disse: “Chamai-o”. Chamaram o cego, dizendo-lhe: “Tem confiança, levanta-te, Ele te chama”. 50 Ele, lançando fora a capa, levantou- se de um salto e foi ter com Jesus. 51 Tomando Jesus a palavra, disse-lhe: “Que queres que te faça?” O cego respondeu: “Rabboni, que eu veja!” 52 Então Jesus disse-lhe: “Vai, a tua fé de salvou”. No mesmo instante recuperou a vista, e seguia-O no caminho  (Mc 10, 46-52).



O Sacrifício de Cristo Sacerdote

A Liturgia de hoje se apresenta de forma simples, sintética e, entretanto, rica de substância, matizes e significado. A segunda Leitura, por exemplo, nos oferece um elevado mirante para apreciar as maravilhas selecionadas e extraídas da Escritura para o texto deste domingo. Todos os seus versículos se fixam no supremo Sacerdócio de Cristo.


Etimologia da palavra sacerdote
Duas são as origens etimológicas da palavra “sacerdote” (sacerdos, do latim): “sacra dos”, ou seja, quem “dá o sagrado”; ou “sacra dans”, aquele que é ungido com “um dote sagrado”. As duas etimologias são válidas, pois o sacerdote é um embaixador de Deus ante os homens e a estes confere as coisas sagradas, como são a verdadeira doutrina e a caridade; muito mais ainda, diviniza a natureza, comunicando-lhe a graça através dos sacramentos. Ademais, pertence também a ele a função de representar a sociedade em suas relações com Deus. Neste caso, ele oferece a Deus dons (orações, oblações, etc.) e sacrifícios pelos pecados. Nesse ofício de “dar coisas sagradas”, evidentemente se exige de quem o exerce a posse de um poder especial (“sacra dos”). Se esse poder não é comunicado por Deus, não há sacerdócio.
Sacerdócio, sacrifício e redenção
Por outro lado, na obra redentora, Deus quis servir-Se especialmente da via do sacrifício e, por este motivo, a graça de Cristo é sacerdotal. Jesus é Sacerdote enquanto homem, e não enquanto Deus. Esta afirmação é feita por São Paulo, na segunda Leitura de hoje: “Porque todo Sumo Sacerdote escolhido de entre os homens é constituído a favor dos homens, nas coisas concernentes a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5, 1).
São inseparáveis as figuras do sacerdócio e do sacrifício. Essa realidade transparece tanto no Novo Testamento quanto no Antigo. Se Deus escolheu a via do sacrifício para operar a Redenção, quis que o Redentor fosse Sacerdote.
Jesus, Sacerdote cheio de compaixão
É ainda São Paulo quem nos ensina: “Tendo, pois, um Sumo Sacerdote que penetrou nos Céus, Jesus, o Filho de Deus, conservemos firme a fé que professamos. Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-Se das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado” (Hb 4, 14-15).
Além do oferecimento do sacrifício, é também ofício do sacerdote interceder pelo povo, impetrando junto a Deus o auxílio, proteção e perdão necessários. E Jesus, ao ter-Se sentado à direita do Pai, continuamente está intercedendo por nós em sua oração sacerdotal. Manifesta ao Pai seu desejo de nos salvar a todos, apresentando-Lhe, ademais, sua humanidade assumida, a qual por si só constitui já uma oração sacerdotal (1). Cristo quis assumir a humanidade com vistas ao sacrifício da Cruz e, estando ressurrecto no Céu, perpetua o oferecimento de seu holocausto. Essa é uma das diferenças entre o sacerdócio de Cristo e o dos sacerdotes da Antiga Lei, conforme afirma São Paulo: “E isso não foi feito sem juramento. Os outros foram instituídos sacerdotes sem juramento, mas Este o foi com o juramento d’Aquele que disse: ‘O Senhor jurou e não se arrependerá : Tu és sacerdote eternamente’. Por isso mesmo, Jesus tornou-Se o fiador de uma aliança superior.
Além disso, existiram numerosos sacerdotes, porque a morte não permitia que permanecessem. Mas Este, porque permanece eternamente, possui um sacerdócio eterno. Por isso, pode salvar perpetuamente os que por Ele se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder em seu favor” (Hb 7, 20-25).
São Tomás de Aquino levanta outros argumentos de peso para provar a grandeza divina do sacerdócio de Jesus Cristo, demonstrando como n’Ele estão preenchidas todas as condições requeridas para a plenitude do sacerdócio (2).
“Ele sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro”, nos diz ainda São Paulo na segunda Leitura de hoje (Hb 5, 2). E qual seriam nosso destino e sorte se, nascendo no pecado e a ele inclinados, não tivéssemos um Sacerdote que, sendo homem, é inteiramente Deus, para oferecer por nós um sacrifício salvífico que nos resgatasse?

Continua nos próximos posts