-->

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014 - Mt 6, 24-34

Conclusão dos comentários ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014
A nossa impotência diante das leis da natureza
“Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?”.
A cada novo argumento, torna-se incontestável nossa impotência diante das leis da natureza e, por outro lado, a onipotência divina no governo do mundo. Por isso nos diz São João Crisóstomo: “Deus é quem faz crescer vosso corpo, cada dia, sem que possais dar-vos conta disso. Se, pois, todos os dias a Providência de Deus trabalha em vós para o crescimento de vosso corpo, como ficará Ela inativa diante de verdadeiras necessidades? Mas, se todos os esforços de vosso pensamento não podem acrescentar a menor parcela a vosso corpo, como podereis vós salvá-lo todo inteiro?” 11.
O afeto de Deus visa também a nossa elegância e pulcritude
“E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo — e não trabalham nem fiam! Eu digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca Fé?”.
Jesus deixa claro serem esses lírios, os “do campo”, ou seja, os que nascem a esmo, sem os cuidados dos homens. Na mesma linha do que anteriormente dissera sobre as aves, ou seja, as “do céu”, e não as domésticas. Chama-nos a atenção, de modo especial, o carinho empregado pelas mães ao providenciarem as roupas para suas crianças, pois procuram sempre vesti-las com beleza. Esse é o afeto de Deus ao cuidar de cada uma de Suas criaturas humanas: visa Ele não só nossa alimentação — como o faz com as “aves do céu” — mas também nossa elegância e pulcritude. Esse esmero de Deus será ainda muito maior nos albores da ressurreição dos corpos: “Pelos lírios, podem-se entender as celestes claridades dos Anjos, que o próprio Deus reveste de uma glória deslumbrante. Eles não trabalham nem fiam, porque a graça que, desde sua origem, assegurou a felicidade dos Anjos, difunde-se sobre todos os momentos de sua existência; e como, após a ressurreição, os homens serão semelhantes aos Anjos, Nosso Senhor, fazendo brilhar aos nossos olhos o esplendor das virtudes celestes, quis nos fazer esperar essa vestimenta de glória eterna” 12.
O exemplo de Salomão, preocupado por vestir-se à altura da sabedoria que lhe havia sido gratuitamente concedida por Deus, é de uma extraordinária eloquência para todos os tempos. Pois, quem com mais arte saberia realizar essa tarefa? São João Crisóstomo sintetiza bem a diferença entre as vestes de Salomão e as criadas por Deus: “das vestiduras de Salomão à flor do campo há a distância da mentira à verdade” 13.
 Consequentemente, duvidar ou, pior ainda, não crer na Providência Divina é suficiente para sermos classificados como “homens de pouca Fé”, pois, se esses são os cuidados de Deus para com ervas a serem queimadas quando murcharem, quanto maiores não serão eles com as almas imortais e os corpos ressurrectos!
Não vos aflijais: Deus vos ama e de vós cuida como Pai
“Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?”.
Vê-se, neste versículo, o empenho do Divino Mestre em nos convencer das verdades anteriormente expostas. “O Senhor repete esta recomendação para nos fazer compreender sua necessidade e gravá-la mais profundamente em nossos corações” 14.
“Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas”.
O sentimento familiar nos tempos do Evangelho era mais sólido e profundo do que nos dias da atual decadência, na qual vai desmoronando essa pilastra de uma sociedade bem constituída. Todos tinham um conceito claro e indiscutível a respeito da paternalidade. Em outro momento, Jesus lhes dirá: “Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que Lhe pedirem” (Mt 7, 11; cf. Lc 11, 13).
Ademais, os judeus tinham como um dos mais elevados pontos de honra o de serem contrapostos às concepções dos gentios. Ao atribuir à mentalidade dos pagãos a excessiva preocupação pelos bens deste mundo, Jesus tornava ainda mais patente Sua enérgica e categórica rejeição à mesma. Ouçamos o famoso Cornélio a Lápide comentar esta passagem: “Não vivais ansiosos sobre o que vestireis, pois Deus o sabe perfeitamente; mais ainda, o vê e intui, porque é Deus; logo, Ele proverá, porque vos ama e cuida de vós como Pai, e pode fazê-lo porque é celestial e, portanto, onipotente. Por que, pois, não Lhe entregais todas as vossas preocupações? Ele sabe, quer e pode socorrer-vos em vossas necessidades; sabe porque é Deus, quer porque é Pai, e pode porque é Rei celestial e impera com pleno direito no Céu e na Terra. Por isso São Francisco não dava aos seus outra provisão a não ser este dito dos Salmos: ‘Deposita no Senhor teus cuidados e Ele te alimentará’” (Sl 54, 23) 15.
 Busquemos, em primeiro lugar, a nossa Santificação
“Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo”.
A síntese de toda a doutrina do Evangelho se encontra nas palavras deste versículo; trata-se de, em primeiro lugar, buscar o Reino de Deus, como também a própria justiça desse mesmo Reino, tal como Jesus o pregou, ou seja, o oposto do almejado pelos fariseus.
O Reino de Deus pode ser considerado debaixo de três diferentes prismas: o da glória dos bem-aventurados, ou seja, o triunfante; o da Santa Igreja, que se evidencia no visível e externo Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo; e, por fim, o da graça santificante em nossas almas ou interno.
Assim, devemos buscar a realização da santidade de Deus em nós, por meio do ódio ao pecado, numa aspiração crescente de Lhe obedecer na prática de todos os Mandamentos, com base num abrasado amor a Ele. Conduzindo, por um dinâmico zelo apostólico, a todos com quem tenhamos alguma relação, às vias dessa santidade, para maior brilho da Santa Igreja e salvação das almas. E, por fim, almejando o Reino eterno na glória.
Já em nosso despertar matutino — quer sejamos pobres, quer ricos — devemos ter a lembrança deste conselho de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça...” Mas, infelizmente, os pobres em sua grande maioria não o fazem e, por isso, são objeto do egoísmo dos outros, vivendo em pobreza neste mundo e ameaçados a nela se lançarem eternamente. E os ricos menos ainda são inclinados a seguir a voz de Cristo, por imaginarem já possuir “todas estas coisas”...
“Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu mal”.
Preocupemo-nos primordialmente em santificar-nos a fim de obtermos o Reino de Deus. Pratiquemos as virtudes e enriqueçamo-nos dos bens do Céu na plena confiança de que, assim, não nos faltarão os da terra. Evitemos a ruína do relativismo moral de nossos dias e cumpramos nossos deveres do dia-a-dia sem as aflições do amanhã.
Não nos é vedado fazer uso de uma sábia e moderada prudência no que tange à nossa manutenção. É-nos proibido, isto sim, uma destrutiva inquietação com o nosso futuro material que nos leve a esquecer as obrigações de maior atualidade e importância, com relação ao Reino de Deus. “A cada dia basta o seu mal”, pois jamais devemos nos esquecer da infinita bondade e carinho do Senhor, conforme transparece na primeira leitura de hoje: “Sião dizia: ‘O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceume’. Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, Eu nunca te esqueceria” (Is 49, 14-15).
1 Os bens espirituais podem ser possuídos ao mesmo tempo por muitos, não, porém, os bens corporais (AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica III, q. 23, a.1, ad. 3; cf. tb. III, q.28, a.4, ad 2).
2 AQUINO, São Tomás de. Liber de perfectione spiritualis vitæ, c. 6.
3 Cf. TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Madrid: BAC, 1964, v. II, p. 156.
4 MALDONADO, SJ, P. Juan de. Comentarios a los cuatro Evangelios. Madrid: BAC, 1950, v. I, p. 303.
5 MALDONADO. Op. cit. id., ibid.
6 O termo é usado no mesmo sentido em Mt 10, 36-37; Lc 14, 26 e Rm 9,  12-13
7 AGOSTINHO, Santo. Confissões. l. X, c. XX.
8 MALDONADO. Op. Cit. pp. 304-305.
9 MALDONADO. Op. cit. id. ibid.
10 In Lc 12, 24.
11 Apud AQUINO. Catena Aurea.
12 Santo Hilário, apud: AQUINO. Catena Aurea.
13 Apud: TUYA. Op. Cit. p. 158.
14 São Remígio, apud AQUINO. Catena Aurea.

15 In Mt 6, 31.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Comentário ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014 - Mt 6, 24-34

Continuação dos comentários ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014
Saibamos hierarquizar as nossas preocupações
“Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestuário? Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas?”.
A natureza puramente animal, assim como a vegetal, com seus instintos respectivos, normais e ordenados, e não possuindo uma alma imortal, não buscam a felicidade infinita. Ademais, as aves não armazenam alimentos em celeiros e os lírios não tecem nem fiam, pois lhes falta a racionalidade para terem essas preocupações.
Ora, o homem — mais do que as plantas buscam o sol, e os animais o alimento —, possui uma alma que, num verdadeiro “teotropismo”, vive à procura do infinito. “Buscar-Vos, ó meu Deus” — clama Santo Agostinho — “é buscar minha felicidade e bem-aventurança: devo buscar-Vos para que minha alma viva, porque sois Vós a vida de minha alma, assim como ela é que dá vida a meu corpo” 7.
O coração do homem só está em paz quando encontra Deus. Essa “felicidade e bem-aventurança” não estão no afã das riquezas, pois, ao desejá-las fora do amor a Deus, pobres ou ricos entregar-se-ão às ânsias voluptuosas de querer sempre mais.
Deve-se procurar os bens materiais, mas sem inquietação
Evidentemente, não exclui o Divino Mestre nossa obrigação em relação ao trabalho. Sobre este particular há numerosos comentários de santos doutores, demonstrando ser o trabalho um excelente meio de santificação. Jesus tem diante de Si todos aqueles que colocam como último limite de seus horizontes os bens materiais, e na obtenção destes aplicam sofregamente toda a sua preocupação. Essa atitude carrega consigo uma boa parcela de culpabilidade, além de ser autodestrutiva. Antes de tudo, por ofender de certa forma a Deus, ao manifestar-Lhe desconfiança de Sua bondade. E ademais, perde o apoio divino ao colocar toda a sua segurança em esforços e planejamentos pessoais. Em síntese, torna-se patente o quanto o homem não pode descuidar dos bens eternos, pelo fato de ir atrás do indispensável à vida.
Deve-se buscar os bens materiais, mas sem inquietação, pois esta implicaria em negar a infinita generosidade de Deus.
Uma fundamental lição sobre como devemos hierarquizar nossas preocupações
Por essa razão, comenta Maldonado: “Quem, a não ser Deus, nos deu a alma e o corpo? Assim, quer Pedro que ponhamos nEle nossa solicitude, certos de que Ele cuidará de nós” (cf. 1 Pd 5, 7)” 8. Claro está que Deus não poderia nos dar o corpo e a vida com o intuito de nos lançar na fome e na miséria. Sua infinita e sábia providência impõe que Ele nos proporcione as condições para sustentar nossa natureza física como também — e principalmente — nossa vida sobrenatural. Assim, Deus que, às vezes, permite nos advenham cruzes e sofrimentos ao longo de nossa existência, derrama graças e forças para tudo suportarmos com vantagem para nós.
O Divino Mestre nos dá uma fundamental lição sobre a devida hierarquização de nossas preocupações. Sendo o homem composto de corpo e alma, e por ser esta mais valiosa, merece maior atenção e cuidado. Portanto, se necessário for desprezar ou abandonar outros interesses em benefício da salvação da própria alma, assim se deve proceder, pois Deus nos dará o secundário.
Insere-se nestes versículos a vocação apostólica e missionária, como por exemplo a de um Beato Anchieta, que abandona familiares, pátria e bens, e ruma para terras desconhecidas com o objetivo de converter e santificar incontáveis indígenas, no Brasil. Os que abraçam essa via recebem o cêntuplo nesta terra e o prêmio da vida eterna (cf. Mt 19, 29).
Se nosso Pai cuida de criaturas inferiores, quanto mais não cuidará de nós?
Quando conseguimos um hiato de calma dentro da febricitada correria dos dias atuais para observar a natureza viva — desde a tenacidade das formigas em busca de alimento, até a agilidade de um colibri, sugando com elegância o conteúdo quase místico de uma flor — num ato contínuo louvamos a Deus, por constatar essa maravilhosa disposição da Divina Providência de oferecer a insetos e animais o necessário para o seu sustento. “Todos esses seres esperam de Vós que lhes deis de comer em seu tempo. Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens” (Sl 103, 27-28).
Ora, o homem é, não só, superior a todas as criaturas terrenas, mas até mesmo seu rei (cf. Gen 1, 28). Sendo assim, é preciso que esse rei supere o exemplo desses súditos seus que com tanta abnegação praticam a pobreza evangélica: as aves do céu. Despojadas de tudo, dependem exclusivamente da benevolência divina. Ademais, como bem comenta Maldonado: “As aves andam no mais alto do ar, estão mais distantes de sua comida e, no entanto, Deus as alimenta”. Jesus usou o exemplo das aves “porque os animais terrestres gastam mais tempo em procurar o alimento e escondê-lo com sua habilidade” 9.
É, de certa forma, curioso referir-se o Divino Mestre às aves “do céu” e não às domésticas, pois estas são alimentadas pelos homens e as outras pelo “vosso Pai celeste”. Ou seja, se nosso Pai cuida de criaturas tão inferiores que não têm nenhum grau de filiação em relação a Ele, quanto mais não cuidará de nós, irmãos de Seu “Filho muito amado” (Mt 3, 17)!
São Lucas nos diz: “Considerai os corvos: não semeiam, nem ceifam, não têm despensa, nem celeiro, e, contudo, Deus os sustenta. Quanto mais valeis vós do que eles?” (Lc 12, 24).

Sobre essa passagem, comenta Santo Ambrósio: “Os corvos, que não trabalham, têm o necessário para seu uso, e o têm em abundância, porque não sabem reduzir a seu domínio particular os frutos que foram dados em comum para todo mundo comer. Nós, porém, perdemos o comum porque nos esforçamos em apropriá-lo; e o perdemos porque não conseguimos fazê-lo nosso, já que não durará perpetuamente, nem conseguimos ter uma abundância certa onde o futuro é sempre incerto. Por que, pois, crês que tuas riquezas são tuas, sendo que Deus quis que tua comida fosse comum com todos os outros que vivem?” 10.
CONTINUA NO PRÓXIMO POST

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Comentário ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014 - Mt 6, 24-34

Continuação dos comentários ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014
Um servo não pode entregar sua vontade a dois senhores
Havendo um apreço desequilibrado pelos bens deste mundo, quem o possua terá conferido a esses bens o caráter de senhorio. Ora, sabemos o quanto a escravidão, em si mesma, é avassaladora. As faculdades do escravo pertencem ao senhor e a este deve ele entregar todo o seu serviço. “Um senhor pode ter muitos servos, mas um servo não pode ter muitos senhores; pois o próprio do senhor é governar o servo, e não precisamente amá-lo; o específico do servo, porém, é amar, e não governar seu senhor; o mando pode dividir-se, mas o amor, não. Com isso, Cristo indica que as riquezas se gastam injustamente não só quando são injustas. Mas, até mesmo, quando não foram adquiridas por maus meios, se são amadas, apartam o homem do amor de Deus. Ninguém pode servir a dois senhores, como disse antes: ‘É impossível que um rico entre no Reino dos Céus’ (Mt 19, 23). Observa o autor da Obra Imperfeita que ninguém pode servir a dois senhores, e não diz que ninguém pode ter dois senhores. Dá o nome de senhor a qualquer coisa a que nos tenhamos entregado em demasia, à qual servimos de alguma maneira: ‘Não sabeis que, quando vos ofereceis a alguém para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer seja do pecado para a morte, quer da obediência para a justiça?’ (Rm 6, 16). E São Pedro: ‘O homem é feito escravo daquele que o venceu’ (2 Pd 2, 19). 5
O verbo “servir” empregado neste versículo refere-se à situação de um servo que, sem restrição alguma, entrega sua vontade a um senhor, figura muito de acordo com a inclinação para os extremos, tão característica dos orientais. Neste caso, torna-se impossível ao servo obedecer a um segundo senhor que lhe dê qualquer incumbência oposta e simultânea à exigida pelo primeiro. Ademais, acabará por amar menos seu autêntico senhor, atitude à qual equivale o significado do termo “odiar” na língua hebraica 6. Na realidade, Deus não quer apenas uma parte de nosso coração, ainda que esta seja grande. Ele o deseja na sua íntegra, e essa entrega deve ser realizada por nós com alegria, generosidade e constância.
Dois senhores rivais: Deus e o dinheiro
Resumindo, o Divino Mestre nos coloca diante de dois senhores diametralmente opostos no que concerne aos seus respectivos interesses: Deus e o dinheiro. O primeiro nos exige a crença nEle e em Suas revelações, a esperança em Suas promessas, com amor total, além da prática da castidade, da humildade, como também do cortejo de todas as virtudes. O dinheiro cobra de nós, e nos inspira ambição, volúpia de prazeres, vaidade, orgulho, menosprezo do próximo, etc. Um nos dá forças para praticar o bem e a este inclina nossas paixões, enquanto o outro nos arrasta para o mal e nele nos vicia. O Céu e sua eterna felicidade constituem o estímulo para os esforços exigidos por um dos senhores. A terra e seus prazeres fugazes são os atrativos oferecidos pelo outro.
Esses dois senhores não admitem rivais. O pior rival do dinheiro é Deus, e vice-versa. Por isso, a desgraça do rico que entrega seu coração aos bens da terra consiste em buscar em vão sua felicidade neles; e a desgraça do pobre, em iludir-se com a pseudofelicidade oferecida pelas riquezas.

É preciso ter sempre diante dos olhos o quanto são opostos entre si, Deus e o mundo. Por isso, não queiramos servir a ambos ao mesmo tempo: “Não vos sujeiteis ao mesmo jugo com os infiéis. Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que sociedade entre a luz e as trevas? E que concórdia entre Cristo e Belial? Ou que de comum entre o fiel e o infiel? E que relação entre o templo de Deus e os ídolos? Porque vós sois templos de Deus vivo” (2 Cor 6, 14-16).
CONTINUA NO PRÓXIMO POST

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Comentário ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum

Comentário ao Evangelho VIII Domingo do Tempo Comum - Ano A - 2014
Evangelho ( Mt 6, 24-34)
“Ninguém pode servir a dois senhores: Porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.
Portanto vos digo: Não vos preocupeis, nem com a vossa vida, acerca do que haveis de comer, nem com o vosso corpo, acerca do que haveis de vestir. Porventura não vale mais a vida que o alimento, e o corpo mais que o vestuário? Olhai para as aves do céu que não semeiam, nem ceifam, nem fazem provisões nos celeiros, e, contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais que se afadigue, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida?
E por que vos inquietais com o vestido? Considerai como crescem os lírios do campo — e não trabalham nem fiam! Eu digo-vos, todavia, que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles. Se, pois, Deus veste assim a uma erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca Fé? Não vos aflijais, pois, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? Os gentios é que procuram com excessivo cuidado todas estas coisas. Vosso Pai sabe que tendes necessidade delas. Buscai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã; o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu mal” (Mt 6, 24-34).
Pobres sempre tereis entre vós” (Jo 12, 8), respondeu Jesus a Judas que, perplexo diante de um grande gasto de Maria Madalena, para ungir os adoráveis pés do Salvador, perguntara: “Por que não se vendeu esse bálsamo por trezentos denários e não se deu o dinheiro aos pobres?” (Jo 12, 5).
Essa é a grande ansiedade que pervade as almas de povos e nações dos últimos tempos, ou seja, a frenética busca dos bens materiais. Ora, segundo os Doutores, tanto mais se dividem os homens, quanto mais se apegam a esses bens. Pelo contrário, tanto mais união, benquerença e paz há entre eles, quanto mais se entregam aos bens espirituais. São Tomás de Aquino se serve várias vezes desse elevado pensamento de Santo Agostinho: “Bona spiritualia possunt simul a pluribus (integraliter) possideri, non autem bona corporalia” 1.
Assim, quanto maior for o número dos que possuem os mesmos bens do espírito, tanto melhor será. Ademais, obtém-se grande progresso no conhecimento da verdade, na medida em que se procure ensiná-la e se deseje aprendê-la nos outros.
Eis a liturgia de hoje a nos indicar uma profunda solução para as crises atuais: a da desgastada questão social e a da ameaçada economia mundial.
 Introdução
Quem nasceu numa gruta, teve uma manjedoura por berço e em sua vida pública não encontrou onde repousar a cabeça, tem absoluta autoridade para discorrer sobre o desprendimento. A experiência humana, ao longo dos milênios, comprova que não devemos amar as criaturas por elas mesmas. Se for conveniente ou até necessário amá-las, é em função do amor a Deus que devemos fazê-lo.
“É claro que o coração humano tanto mais intensamente se entrega a uma coisa quanto mais se aparta de muitas outras” 2. Seguindo essa via, alguns santos alcançaram um alto grau de virtude, sobretudo ao abraçarem o exagero. São Francisco de Assis chega a fazer um conúbio místico com a pobreza, e Santo Inácio de Loyola, ao partir para Jerusalém, depois de sua contemplação em Manresa, deixa na praia de Barcelona tudo quanto lhe haviam dado; leva consigo três companheiras: a Fé, a Esperança e a Caridade.
A outros, porém, São Paulo recomenda serem previdentes: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Te 3, 10). Até onde deve ir a preocupação com nossa subsistência e qual a atitude de alma, equilibrada e santa, face aos bens deste mundo, como, também, a plena confiança em Deus, são os temas tratados pela Liturgia deste VIII Domingo do Tempo Comum.
Dois Senhores que não admitem rivais
“Ninguém pode servir a dois senhores: Porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”.
O presente Evangelho faz parte do famoso Sermão da Montanha, do qual São Mateus transcreve as partes essenciais. Nele transparece a forte advertência do Divino Mestre contra o desvario dos que se afanam pelos tesouros deste mundo e acabam por se perder em meio às aflitivas preocupações da vida presente.
O apego às riquezas constitui uma real escravidão
Neste versículo, é muito sutil e preciso o emprego do verbo servir, e não qualquer outro, pois o problema central não está em ter bens materiais, mas sim no valor que a eles se tributa e, sobretudo, no afeto que se lhes tenha. Em sua substância, encontramos aqui um desdobramento do Decálogo, em particular do Primeiro Mandamento, tal como o próprio Deus o declarou através de Seus profetas: “Não terás outros deuses diante de Mim. Não farás para ti imagem alguma, nem escultura [...]. Não adorarás tais coisas, nem as servirás; Eu sou o Senhor, o teu Deus” (Ex 20, 3-5) 3.

O apego às riquezas constitui, a partir de certo grau, uma real escravidão e “ninguém pode servir a dois senhores quando mandam coisas contrárias, nem mesmo quando ordenam coisas diferentes, porque a própria natureza impede que o amor do servo se reparta para dois senhores diversos” 4.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48

A munificência infinita de Deus
45  Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o Sol sobre os maus e os bons e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.
Assim como o Pai que está nos Céus “faz cair a chuva sobre os justos e injustos”, também derrama as suas graças sobre todos, inclusive sobre os miseráveis e os malfeitores. Deus criou os Anjos e os homens com o intuito de terem parte em sua felicidade absoluta. Tão grande é seu amor por nós e seu desejo de salvar-nos, que enviou seu Filho Unigênito e eterno a fim de Se encarnar e suportar os tormentos da Paixão para redimir o gênero humano e lhe abrir as portas do Céu.
Sendo esta a vontade do Pai, cabe-nos trabalhar com ardor, não apenas pela salvação de todos os que lutam neste vale de lágrimas, mas ainda acelerar, com nossas preces e sacrifícios, a libertação das almas que padecem no Purgatório.
O amor e o sinal distintivo dos cristãos
46 “Porque se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa?”
Para podermos calcular a indignação dos fariseus por serem comparados aos pagãos e cobradores de impostos, considerados tão desprezíveis, basta recordar a oração de um deles no Templo: “Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali” (Lc 18, 11).
A insuperável didática do Divino Mestre nos leva a compreender facilmente através destas duas confrontações que amar os amigos e benfeitores nada tem de extraordinário, O mérito está em querer o bem até dos que nos atacam, roubam ou injuriam.
A esse respeito, esclarece Santo Agostinho: “Só a caridade distingue os filhos de Deus dos do demônio. Persignem-se todos com o sinal da Cruz de Cristo; respondam todos: Amém; cantem todos: Aleluia; batizem-se todos; frequentem a igreja, apinhem-se nas basílicas; não se distinguirão os filhos de Deus dos do demônio a não ser pela caridade. [...] Tens tudo o que quiseres; se te falta só a caridade, de nada te aproveita tudo o que tiveres” 2
Desta forma, ao notarmos a antipatia de alguém por nós, deveríamos pensar: “E por este que vou rezar, para que Nossa Senhora lhe obtenha a graça da salvação eterna. Na aparência, ele é meu inimigo; na realidade, faz um bem enorme à minha alma, pois me ajuda a perceber que, de fato, por causa dos meus defeitos, eu teria de me olhar e de me tratar como ele me olha e me trata. Assim, eu me conheço melhor”.
O heroísmo do perdão
Jesus nos convida a segui-Lo pelas vias heroicas da caridade, da paciência e do perdão máximo, rápido e total. Por este motivo não podemos guardar ressentimento contra ninguém, mas devemos esquecer a priori qualquer ofensa pessoal. Nós, cristãos, precisamos ser um verdadeiro mar de perdão, como ensina o Apóstolo: “Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia. Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou, em Cristo” (Ef 4, 3 1-32).
Essa disposição interior que torna agradável o convívio entre os cristãos, chamava a atenção dos pagãos, nos primórdios da Igreja: “Vede como eles se amam e como estão dispostos a morrer um pelo outro”.3 Ora, passados dois mil anos de Cristandade, seria de se esperar que os ensinamentos do Divino Mestre houvessem penetrado nas instituições, nos costumes e no relacionamento humano, a ponto de ser a sociedade de hoje mais marcada pela caridade e benquerença do que foi outrora, como um vinho cujo sabor se requinta com o correr do tempo.
A meta mais ousada da História
48 “Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!”
Jesus formula, com uma clareza insofismável, a meta e o objetivo de nossa vida: imitar o Pai celeste, modelo absoluto de santidade, adequando a Ele nossa mentalidade, inclinações e desejos. Mas como seremos perfeitos como Deus é perfeito? Por que meio chegaremos até essa suprema perfeição, impossível para nossa débil natureza? Nosso Senhor teria, então, dado um conselho impraticável? Ou seria um exagero didático? Ele poderia ter dito: “Sede perfeitos como Moisés foi perfeito, como Abraão, como Isaac, como Jacó”... Porque reportar a tão elevado modelo? Ocorre que o Filho, a Segunda Pessoa da Trindade, o Verbo incriado, igual ao Pai, assumiu nossa natureza, e, sendo Homem, como Arquétipo da humanidade, reproduziu em Si a perfeição do Pai, instando-nos a fazer o mesmo.
Com o Batismo nos é infundida a graça santificante — participação na vida divina —, acompanhada das virtudes e dos dons, permitindo-nos realizar ao modo divino aquilo que, pelas meras forças humanas, seria totalmente inatingível. Portanto, não nos contentemos em cumprir só os Mandamentos. Muito mais que isso, devemos querer assemelhar-nos a Nosso Senhor, procurando ser perfeitos como Ele, para atender ao altíssimo convite feito no Sermão da Montanha. Este é o sentido da jaculatória que encontramos na Ladainha do Sagrado Coração: “Jesus, manso e humilde de Coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso!”.4
CHAMADOS AO VERDADEIRO HEROÍSMO
A vida sobrenatural em nós é passível de crescimento, na medida em que rezemos, nos esforcemos na prática da virtude evitando as ocasiões de pecado e frequentemos os Sacramentos. Mais que em outras épocas históricas, vivemos cercados de perigos que ameaçam nossa perseverança. Para resistir a todas essas solicitações do demônio, do mundo e da carne, é indispensável alimentar um grande desejo de alcançar o heroísmo da perfeição.
No Céu nos está reservado um lugar que poderemos ocupar com mais ou menos brilho, dependendo da fidelidade com que busquemos ser “perfeitos como o nosso Pai celeste é perfeito”. A conhecida máxima de Paul Claudel, “a juventude não foi feita para o prazer, mas sim para o heroísmo”,5 na realidade está incompleta, pois o heroísmo em matéria de virtude não é uma obrigação exclusiva dos jovens, mas de todos os homens, sem exceção.
Edificantes exemplos
Estas disposições, nós as encontramos em abundância na vida dos Santos. Certa vez, São Francisco de Sales, já sendo Bispo de Genebra, se deparou com um nobre que o cumulou das maiores ofensas, às quais ele nada respondeu, guardando um silêncio cheio de doçura e serenidade. Após a saída do visitante, um sacerdote que presenciara a cena perguntou a São Francisco por que não reprimira o insolente com firmeza. “Meu padre” — respondeu o Santo — “fiz um pacto com a minha língua, pelo qual ela se calará enquanto meu coração estiver tomado e não replicará jamais a nenhuma palavra capaz de me provocar cólera” .6 Como era a sua pessoa que estava em jogo, ele jugulou o amor-próprio e conservou-se impassível. Dias depois, o culpado, comovido com a caridade do Bispo, veio em lágrimas pedir-lhe perdão. 7 E assim que devemos ser!
Disso deu exemplo também o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — aliás, grande admirador de São Francisco de Sales —, com quem o Autor deste artigo conviveu durante quase quarenta anos. Ele se mantinha permanentemente no espírito do Evangelho, mesmo diante de sofrimentos causados por pessoas próximas. Devido à restrição de alguns de seus movimentos, em consequência de um acidente automobilístico, precisava ele de auxílio para alguns atos da vida cotidiana. Seu inteiro desapego levava-o a nem sequer escolher as roupas a serem usadas, deixando a outros tal tarefa. Por vezes a escolha inadequada o levava a usar um terno leve em um dia frio ou um terno de inverno em tempo de calor, o que ele aceitava, enfrentando os incômodos sem jamais deles se queixar.
Não era raro, quando alguém lhe pedia um encontro, que ele não determinasse o lugar da reunião, mas mandasse indagar à pessoa onde gostaria de ser atendida. Em certa ocasião, Dr. Plinio recebeu em sua residência, às seis horas da tarde, alguns visitantes chegados do exterior, e estes ficaram tão entretidos e encantados na conversa com o anfitrião que às onze horas da noite ainda não se haviam retirado. Em nenhum momento Dr. Plinio lhes dava a entender o avançado da hora, pois, se não estava comprometida a Causa Católica, ele, com grande mansidão e cordura, procurava se adaptar aos outros, fazendo-lhes a vontade.
Ao admirar tais fatos, não podemos nos esquecer de que o verdadeiro heroísmo da virtude é inseparável da entrega completa nas mãos de Deus, tendo consciência de que qualquer ato bom vem da graça, e não da natureza humana. Nós também somos chamados a seguir este caminho: ser perfeitos como o deseja o Pai celeste, cujo auxilio para tal não nos há de faltar!
1 Cf CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. In: Revista Arautos. Fev 2011. n.110. p.10-17.
2) SANTO AGOSTINHO. In Epistolam bannis ad Parthos tractatus decem. Tractatus g n.7. In: Obras. Madrid: BAC, 1959, v.XVIII, p.269.
3) TERTULIANO. Apologeticum, XXXIX: ML 1,471.
4) CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM. Compendium Eucharisticum. Città dei Vaticano: LEV 2009, p.411.
5) CLAUDEL, Paul; RIVIERE, Jacques. Correspondance. 1907-1 91 4. Paris: Pion, Nourrit et Cie, 1926, p.13.
 6)HAMON, André-Jean-Marie. Vie de Saint Fran çois de Sales, Evêque et prince deGenève. Paris: Jacques Lecoffre et Cie, 1858, t.II, p.161.
7) Cf. Idem, p.295-296.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48


CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48
Por este prisma, oferecer a outra face suporia induzir o agressor a cometer mais um pecado, em vez de conduzi-lo a cair em si. Ao interpelar seu algoz, na realidade Ele procurava o bem daquela pobre alma, dando-lhe oportunidade de reparar o seu erro. Embora o infeliz provavelmente não tivesse noção de ter esbofeteado o próprio Deus, nem por isso sua censurável brutalidade deixava de ser falta grave contra o bem e a justiça. Com sua resposta serena, Nosso Senhor tentava pôr a consciência do agressor em ordem.
Desapego dos bens materiais
40 “Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!”
Naquele tempo era comum a posse de várias túnicas, mas só um ou dois mantos. Este último era reputado indispensável, o traje por excelência, mais valioso do que a própria túnica. Com efeito, vemos a preocupação de São Paulo em pedir a Timóteo, em uma de suas epístolas, a capa que havia deixado “em Trôade na casa de Carpo” (II Tim 4, 13). Segundo a Lei judaica, quem tomava o manto do próximo como penhor de empréstimo, não podia retê-lo até o dia seguinte e estava obrigado a devolvê-lo antes do pôr do Sol (cf. Ex 22, 26), porque faria muita falta ao proprietário. Assim, ao dizer que entreguemos “também o manto” a quem nos quiser tomar a túnica, Nosso Senhor nos recomenda o mais completo desapego dos bens terrenos e que nossas almas estejam livres de qualquer volúpia de posse.
Combate ao egoísmo
41 “Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!”
Às vezes, os soldados romanos ou outros funcionários do governo requisitavam a ajuda de alguém para lhes servir de guia ou para outro trabalho, como aconteceu a Simão de Cirene, “que voltava do campo, e impuseram-lhe a Cruz para que a carregasse atrás de Jesus” (Le 23, 26). Naturalmente, quando um imprevisto semelhante ocorria, muitos se queixavam e até se recusavam a atender ao pedido. Para nos ensinar o valor da caridade, diz Nosso Senhor: “Caminha dois quilômetros com ele!”. Ou seja, desde que esteja a seu alcance, faça de bom grado até mais do que lhe for solicitado.
O valor da generosidade
42 “Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.
No Antigo Testamento encontramos vários elogios a quem empresta: “jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade” (Sl 36, 25-26); “Feliz o homem que se compadece e empresta” (Sl 111, 5). Jesus, ao lembrar aos seus ouvintes esta verdade, demonstra que, de fato, não veio para abolir a Lei e os profetas, mas para lhes dar pleno cumprimento (cf. Mt 5, 17).
Então, como deve ser interpretado este versículo? É preciso que nós cedamos sempre e demos tudo o que nos pedirem? Se este princípio fosse transformado em lei, a sociedade tornar-se-ia um caos em razão de incontáveis abusos. Não pode ser esta, portanto, a intenção de Nosso Senhor. Deseja Ele que nos esqueçamos de nós mesmos, preocupando-nos com as privações alheias, e que estejamos limpos de qualquer interesse e pragmatismo. Pelo contrário, o egoísta, aquele que vive fechado em si, jamais toma a iniciativa de auxiliar o necessitado, e se alguém lhe implora um favor, logo procura esquivar-se.
O preceito do amor universal
43 “Vós ouvistes o que foi dito: marás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!”
Quando, posto à prova, o Divino Redentor perguntou ao doutor da Lei o que nela estava escrito (cf. Lc 10, 25-26), este logo respondeu de maneira acertada, citando os Livros do Deuteronômio e do Levítico: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5) e a “teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18). Conheciam os judeus perfeitamente o preceito do amor universal, todavia consideravam como “próximos” apenas os seus compatriotas, enquanto os gentios e os pagãos eram tidos como inimigos, merecedores de desprezo e ódio.
Verdadeiro Legislador, Nosso Senhor Jesus Cristo vai retificar as interpretações falseadas da Lei de Moisés, que a alteravam e empobreciam, para dar nova plenitude aos Mandamentos e ensinamentos antigos. Como já tivemos ocasião de comentar,1 ao confrontar a expressão “Vós ouvistes...” com a afirmação “Eu vos digo...”, do versículo seguinte, Ele mostra quão vazia é, em contraposição ao Evangelho, a moral das exterioridades criada pelos fariseus. Falando em primeira pessoa, Ele realmente“ensinava como quem tinha autoridade e não como os escribas” (Mt 7, 29).
44 “Eu, porém vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!”
Segundo a Nova Lei, os discípulos d’Aquele que é “manso e humilde de coração” (Mt 11, 29) não deverão amar menos os que os aborrecem, perseguem e caluniam do que os que os estimam, exaltam e abençoam. Se queremos ser filhos de Deus, precisamos ter uma completa isenção de ânimo em relação aos inimigos e rezar por eles. A glória de Deus exige que procuremos fazer o possível para a conversão de todos, imitando o sublime exemplo de Jesus no alto da Cruz. Qual foi sua primeira palavra, pronunciada em relação aos que O crucificavam? “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Le 23, 34).
Por certo, não se deve ser indolente e permitir aos adversários da Igreja agirem livremente contra Ela, implantando a iniquidade na Terra. Se é obrigação amar os inimigos, é mister também odiar o pecado! Cumpre, pois, pedir a intervenção divina para fazer cessar o mal e empregar todos os meios — sempre conforme a Lei de Deus e a dos homens — para que este não prevaleça no mundo.
Continua no próximo post.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’  Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!  41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado.  Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 1 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o Sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos. 46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? ‘ E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 38-48).
COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 
A IMPORTÂNCIA DO SERMÃO DA MONTANHA
No Evangelho se São Mateus o Sermão da Montanha ocupa três capítulos inteiros — do quinto ao sétimo —, e a Santa Igreja de tal forma valoriza esta pregação do Divino Mestre que lhe destinou seis domingos consecutivos do presente Ciclo Litúrgico, a fim de nos permitir considerá-la com maior profundidade e proveito espiritual. Assim, em domingos anteriores pudemos admirar a beleza das oito Bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-11), recebemos o convite de sermos sal e luz para o mundo (cf. Mt 5, 13-14) e consideramos as palavras de Jesus sobre o pleno cumprimento que Ele veio dar à Lei de Moisés (cf. Mt 5, 17). No próximo domingo veremos a impossibilidade de se servir, ao mesmo tempo, a Deus e às riquezas (cf. Mt 6, 24) e, por fim, no 9 Domingo, Nosso Senhor nos alertará sobre o risco de se construir a casa sobre a areia (cf. Mt 7, 24-27).
É no Evangelho deste 7º Domingo do Tempo Comum, entretanto, que se encontra o cerne de todo o Sermão da Montanha, o qual nos indica a via segura para atingirmos a santidade. No que consiste ser santo? Em alcançar a ousada meta traçada pelo Divino Mestre: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.
A AURORA DE UMA NOVA ERA NO RELACIONAMENTO HUMANO
No Paraíso Terrestre, Adão e Eva possuíam a graça santificante, as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, com os quais participavam intrínseca e formalmente da vida divina. Gozavam, ademais, de um equilíbrio interno perfeito e não tinham apetência alguma desregrada, porque, em virtude do dom preternatural de integridade, suas potências inferiores estavam submetidas à razão, e esta a Deus. Ao pecar eles perderam — e com eles toda a humanidade — esse feliz estado de justiça original.
O homem passou a enfrentar, em consequência, uma tremenda luta interior provocada pela inclinação para o mal. E uma das manifestações dessa desordem é o amor-próprio exacerbado, com o decorrente desejo de vingança, de retaliação diante de qualquer ofensa, como evidencia um antigo dito alemão: Schadenfreude ist die beste Freude — A alegria por ver a desgraça alheia é a melhor das alegrias.
Como veremos neste Evangelho, Nosso Senhor modificou completamente tal sistema cruel e egoísta de encarar o relacionamento humano.
No Cristianismo, a vingança pessoal fica banida
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Vós ouvistes o que  foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado!  Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!”
Já tivemos ocasião de explicar como a lei de talião vigorava na Antiguidade. Podemos encontrá-la no Código de Hamurabi — escrito por volta de 1750 a.C., na Babilônia —, tendo sido, inclusive, incorporada ao Direito Romano. Vale recordar vir o termo talião do latim talis, significando tal ou igual. Ou seja, o revide deveria ser proporcionado à ofensa. Em certo sentido, compreende-se que fossem estabelecidas normas como esta, por se tratar de povos rudes habituados ao uso da força, entre os quais não era fácil fazer prevalecer o direito e a justiça. Na realidade, a lei de talião, ao promulgar a equivalência do castigo em relação ao crime cometido, moderou as vinganças desmesuradas tão frequentes na época.
Também a legislação mosaica a empregava, como lemos no Livro do Exodo: “urge dar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe” (21, 23-25). Se bem que, no início, a aplicação desta lei competisse apenas à legítima autoridade, mais tarde, com a decadência dos costumes, os particulares começaram a fazer justiça pelas próprias mãos e segundo seu critério, praticando atrozes represálias contra os adversários. E, pois, para premunir seus discípulos contra sentimentos de rancor que Nosso Senhor afirma: “se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!”.

Ora, ouvindo estas palavras, uma pergunta aflora ao espírito: como entender tal preceito, uma vez que Ele mesmo agiu de outro modo ao ser esbofeteado por um soldado na casa de Anás? Em vez de oferecer a outra face, replicou: "Se falei mal, prova-o; mas se falei bem, por que Me bates?" ( Jo 18, 23)
O Redentor veio implantar uma mentalidade nova. Ele quer que o egoísmo seja eliminado de nosso interior, a ponto de não reagirmos por amor-próprio quando alguém nos ofender ou esbofetear injustamente, mas considerarmos, antes de tudo, o ultraje feito a Deus pela violação do seus Mandamentos.
Continua no próximo post.