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quarta-feira, 2 de abril de 2014

EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 11, 1-45 - Ano A

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA - ANO A - Jo 11, 1-45
Ressurreição de Lázaro (vv. 38-45)
Diferentemente de outros túmulos, este de Lázaro era escavado em rocha não no sentido horizontal, mas sim, no chão e verticalmente. Para se chegar ao local onde haviam depositado o corpo de Lázaro, precisava-se descer um bom número de degraus. Ao redor do sepulcro, estavam todos em forte expectativa, pois os antecedentes prognosticavam um portentoso acontecimento.
Com magna autoridade, Jesus ordena, para espanto dos circunstantes: “Tirai a pedra” . Marta, sempre criteriosa, não resiste em ponderar que o cadáver já estaria em decomposição depois de quatro dias. “Senhor, ele já cheira mal...” (v. 39). Magistral a resposta de Jesus: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (v. 40).
Belíssima oração de Nosso Senhor, com o túmulo já aberto, o mau odor ferindo as narinas dos presentes, a atenção não poderia ser mais intensa. Ele reza não por necessidade, “mas falei assim por causa do povo que está em volta de Mim, para que acreditem que Tu me enviaste” (vv. 41-42).
Por um simples desejo seu, a lápide teria voltado ao nada e Lázaro surgiria à porta do sepulcro, rejuvenescido, limpíssimo e perfumado. Era, porém, conveniente constar aos olhos de todos a potência de suas ordens: “bradou em voz forte: “Lázaro, sai para fora!”
Dois portentosos milagres se operam, não só o da pura ressurreição. Lázaro estava atado da cabeça aos pés, impedido de caminhar; entretanto, subiu pela escada que dava acesso à entrada do túmulo, estando até mesmo com um sudário ao rosto. Imaginemos a impressionante cena de um defunto subindo degrau por degrau, sem liberdade de movimentos e sem enxergar, mas já respirando com visíveis sinais de vida.
“Desligai-o e deixai-o ir” (v. 44) é a última voz de comando do Divino Taumaturgo.
Nada mais relata o Evangelista; nenhuma palavra a respeito de Lázaro ou das manifestações de alegria de suas irmãs; somente a conversão de “muitos dos judeus que tinham ido visitar Maria e Marta” (v. 45).
Escapa à Liturgia de hoje a traição de alguns que, certamente indignados, “foram ter com os fariseus” (v. 46) levando o Sinédrio a decretar sua morte (v. 53), matéria esta considerada com quanta profundidade ao longo da Semana Santa.
CONCLUSÃO: UM CONVITE À CONFIANÇA
Aí está o poder de Cristo manifestado em pleno esplendor para alimentar-nos em nossa fé. Esta Liturgia nos convida a uma confiança maior que a do centurião romano; ou seja, é preciso crer em Jesus com um ardor Marial. Se a Santíssima Virgem estivesse ao lado das irmãs, certamente — além de lhes aconselhar a aguardarem com paz de alma a chegada de seu Divino Filho — recomendaria a ambas que procurassem fazer “tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Por maior que sejam os dramas ou aflições em nossa existência, sigamos o exemplo e a orientação de Maria, crendo na onipotência de Jesus, compenetrados das palavras de São Paulo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que, segundo o seu desígnio, foram chamados” (Rm 8, 28).
1) Suma Teológica III, q 43 a 1.
2 ) Suma Teológica, III q 43, a 4.
3 ) Cf. Lc 7, 37-50.


terça-feira, 1 de abril de 2014

EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 11, 1-45 - Ano A

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA
Porém, ao acrescentar: “Nosso amigo, Lázaro, dorme; mas vou despertá-lo” (v. 11), deu aos Apóstolos nova esperança de não ser necessário retornar à Judéia pois, segundo a forte experiência da época, a retomada do sono ao longo de uma enfermidade grave era indício de boa convalescença, e por isso exclamam: “Senhor, se ele dorme, também se há-de levantar” (v. 12).
Diante dessa situação era indispensável falar-lhes às claras, revelando-lhes a morte de Lázaro. Só este particular já seria suficiente para melhor crerem nas propostas de Jesus, pois, até aquele instante, ninguém ali sabia do falecimento de Lázaro, que Ele lhes comunica com toda segurança. E ademais, aproveita para estimular a confiança dos Apóstolos, manifestando sua alegria pelo fato de eles não terem estado em Betânia durante a enfermidade de Lázaro, pois, nesse caso, Jesus se veria na contingência de curá-lo antes de sua morte, diminuindo, assim, a grandeza do milagre da ressurreição que iria operar.
Vê-se pela narração o quanto os próprios Apóstolos estavam sendo formados na fé, passo a passo, através dos milagres, conforme Ele mesmo afirma: “para que acrediteis” (v. 15). Jesus iria selar o término de sua vida pública — os últimos momentos das doze horas do dia — com o mais portentoso milagre. Ele a iniciara com a transformação da água no melhor dos vinhos, em Caná, e agora, antes do anoitecer, traria à vida um morto já em franca decomposição. Nessa ocasião, o mais débil — São Tomé — solta o gemido que estava no fundo da alma de todos: “Vamos nós também, para morrer com Ele” (v. 16). O Espírito Santo ainda não os confirmara na vocação e o instinto de conservação disputava com as virtudes no interior de cada um.
Encontro com Marta e Maria (vv. 17-37)
Betânia, segundo a própria narração (v. 18), ficava a menos de 3 km de distância de Jerusalém. Essa propriedade pertencente à família de Lázaro havia sido utilizada por Jesus com freqüência, quase todas as vezes que devia ir a Jerusalém, não só por sua proximidade, mas até mesmo pelo conforto. Essa é também a razão de ali se encontrarem muitos judeus (v. 19). O luto era observado ao longo de sete dias, sendo os três primeiros reservados para o pranto e os quatro outros para receber as visitas de pêsames. O costume rabínico era estrito e rigoroso, comportando até mesmo o jejum (I Sam 31, 13), em meio às lágrimas (Gen 50, 10). Em essência, ao retornar do enterro — que, aliás, devia ser no próprio dia do falecimento — o ritual ordenava cobrir a cabeça e sentar-se ao chão com os pés descalços. As visitas não pronunciavam nenhuma palavra, pois essa iniciativa cabia somente aos parentes dos falecidos. O convívio, nessas circunstâncias, era silencioso.
Assim permaneceu Maria, por não ter ideia da chegada de Jesus à aldeia, enquanto Marta foi ao seu encontro (v. 20) a fim de Lhe noticiar todo o ocorrido. Uma vez mais os fatos nos revelam as características próprias a cada uma das duas irmãs. Marta é mais dada à administração, às relações sociais, etc., e Maria mais ao fervor amoroso. Por isso Marta não avisa sua irmã, pois seria impossível retê-la junto às visitas enquanto se desenrolasse seu diálogo com o Mestre. Aliás, esse diálogo não poderia ter transcorrido com maior ternura e delicadeza. Não há a menor sombra de queixa da parte de Marta ao afirmar: “Senhor, se estivesses cá, meu irmão não teria morrido” (v. 21), pelo contrário, trata-se da manifestação de um pesaroso sentimento feito de confiança no poder de Jesus.
Maria, por sua vez, repetirá exatamente essa mesma frase (v. 32), permitindo-nos perceber o teor das conversas havidas entre ambas naqueles últimos dias.
Entretanto, a fé de uma e outra ainda não havia atingido sua plenitude, pois não podiam imaginar o grande milagre que iria ser operado por Jesus. Marta não tem noção do poder absoluto de Jesus, e daí o condicionar as ações do Divino Mestre aos pedidos que Ele faça a Deus (v. 22): “Tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá”.
Marta externa sua firme crença na ressurreição final e nessa ocasião espera rever seu irmão em corpo e alma (v. 24), sem jamais imaginar a possibilidade de reencontrá-lo naquele mesmo dia. Jesus, o Divino Didata, vê chegado o momento de proferir uma das mais belas afirmações do Evangelho. Em outros trechos Ele terá revelado: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6); “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12); “Eu sou o pão da vida” (Jo 6, 35), mas nenhuma atinge a altura teológica desta, em questão: “Eu sou a Ressurreição e a Vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; 26 e todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente” (vv. 25-26). E com uma paternalidade comovedora pergunta a Marta: “Crês nisto?”, para movê-la a um ato explícito de fé e fazê-la crescer em méritos.

O diálogo dera seus melhores frutos, era necessário consolar a outra irmã. Marta a avisa “em segredo” (v. 28) que o Mestre chegara. Conforme seu temperamento arrojado, saiu a toda pressa para encontrá-Lo. Seu gesto levou todos os visitantes a imitá-la; imaginando que ela iria chorar junto ao túmulo, seguiram-na (vv. 29-31). 
Especialmente digna de nota é a cena de seu encontro com Jesus. Marta era mais controlada em suas emoções, determinada em seus objetivos e, portanto, capaz de expor em palavras todos os seus sentimentos. Maria, bem diferente de sua irmã, tem arroubos de fervor sensível pelo Mestre, seu amor não conhece fronteiras e nem permite ser freado em suas manifestações, sua alma realmente seráfica a leva a lançar-se aos pés de Jesus, e o máximo que consegue exprimir é sua dor, em breves termos. De resto era chorar, soluçar, e com tal substância que todos se viram tocados por sua reação, acompanhando-a no pranto (vv. 32-33).
Maria era tão carismática em sua fé, no ardor de seus desejos e na comunicação de sua benquerença por Jesus, que Ele próprio “comoveu-Se profundamente e perturbou-Se” (v. 33). Bem dizia Lacordaire: “L´intelligence ne fait que parler; c´est l´amour qui chante!” Nossas palavras podem convencer, mas nosso amor poderá até mesmo tocar o Sagrado Coração de Jesus. Quão humano, sem deixar de ser divino, Ele se mostra nessa ocasião, sobretudo ao derramar, também Ele, suas preciosíssimas lágrimas, santificando, assim, as lágrimas roladas de todos os corações sofredores por amor a Deus, ou arrependidos de suas faltas.
Era essa a maior prova de amor externada pelo Salvador, até aquele instante, em relação ao seu amigo Lázaro. 
Sempre “pedra de escândalo”, os campos se dividem em vista de suas lágrimas. Alguns são tomados de admiração, outros O recriminam por ter deixado morrer Lázaro. Hipocrisia pura, segundo autores clássicos, pois se põem a julgar Jesus antes mesmo de qualquer ação sua. Esse é o efeito de uma antipatia preconcebida, radicada, talvez, no vício da inveja (vv. 36-37).
Continua no próximo post

segunda-feira, 31 de março de 2014

EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 11, 1-45 - Ano A

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA
O retorno de Jesus a Betânia (vv. 1-16)
Para tornar bem claro quem era o enfermo em questão, São João o apresenta como sendo o irmão de Marta e Maria. Ressalta a figura desta última por se tratar de uma pessoa muito conhecida e comentada em toda Israel, devido à sua impressionante conversão e seu belíssimo ato de arrependimento em casa de Simão, o fariseu (3). É interessante notar o acerto do nome “Lázaro” que significa: “ajudado”, ou, “Deus socorreu”.
Fazia muito que Jesus pregava na região da Peréia, à distância de uma jornada de Betânia. Com enorme solicitude e carinho por Lázaro, tal qual costumam ser as irmãs quando de boa índole, Marta e Maria enviam um mensageiro para avisá-lo do estado de saúde do irmão.
Transparece na atitude de ambas um profundo espírito de fé na onipotência do Salvador e, ao mesmo tempo, uma nobre e fraternal dedicação. Tanto mais que a mensagem não era só informativa mas, com enorme polidez, ela continha uma súplica. A fórmula empregada nada tem a ver com a lógica argumentação do centurião romano para obter a cura de seu servo; mais se aproxima ela, em sua essência, da atitude da Virgem Maria nas Bodas de Caná: “Senhor, aquele que amas está doente” (v. 3). Segundo Santo Agostinho, esta simples frase contém uma profunda verdade de fé: Deus jamais abandona aquele a quem ama. Elas não imploram nem pedem explicitamente a cura, quer pudesse ser ela operada de perto, ou de longe; era-Lhe suficiente conhecer o estado de seu amado para, por um simples desejo seu, tornar efetivo o milagre.
E realmente assim teria sido se Jesus não tivesse querido se aproveitar do pretexto da morte de seu amigo “para a glória de Deus, a fim de que o Filho do Homem seja glorificado” (v. 4), conforme Ele próprio o afirma.
Grande perplexidade devem ter tido ambas, ao receberem a resposta do Senhor, dois dias depois do falecimento de Lázaro: “Esta doença não é de morte...” (v. 4). Maior aflição ainda deveuse ao fato de Jesus não se ter movido para se encontrar com o amigo nem com suas irmãs.
Essa é bem a provação pela qual passam as almas aflitas que imploram a intervenção de Deus e julgam não serem atendidas, devido à demora ou a uma aparente inércia da parte do Céu. Quão benfazeja é esta passagem para nos convencer a jamais descrermos da onipotência da oração perfeita! Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância. E aí está o procedimento de Jesus para com aqueles aos quais ama: “Jesus amava Marta, sua irmã Maria e Lázaro” (v. 5). O grande amor de Jesus àquela família tornava ainda mais incompreensível sua como que indiferença, pois, “tendo ouvido que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava” (v. 6).
Que grande vôo de espírito era necessário para seguir o Divino Mestre diante da incompreensibilidade de suas atitudes! Nenhum dos dois lados chegava a atinar com o alcance da meta política do Salvador. As irmãs deviam estar desmontadas em suas esperanças, acompanhando do lado de fora do sepulcro a lenta mas progressiva decomposição do corpo de seu irmão. Os Apóstolos, por sua vez, não podiam entender o porquê da ida de Nosso Senhor à Judéia. Já havia curado tantos necessitados à distância, qual a razão de penetrar numa terra onde era perseguido de morte? E só por causa de um enfermo? “Mestre, ainda há pouco os judeus Te quiseram apedrejar, e Tu vais novamente para lá?” (v. 8), diziam eles. Não seria melhor operar o milagre à distância?
A perspectiva psicossocial na qual os discípulos procuravam delinear a figura do Messias era essencialmente diferente da realidade que se desenrolava diante dos olhos de todos. Neles se encontrava uma constante do espírito humano, a de querer reduzir as ações de Deus às proporções de nossa mentalidade e até mesmo de nossos desejos, sentimentos e emoções. Ora, os princípios pelos quais Deus se move sempre são infinitamente superiores aos atinentes às meras criaturas, por isso nada melhor do que nos abandonarmos aos desígnios e ao beneplácito de sua vontade, nunc et semper.

Segundo nossos critérios, talvez fosse preferível que Jesus expusesse seu plano com total clareza aos Apóstolos para assim retornarem à Judéia com maior confiança, paz e decisão. Pelo contrário, Jesus lhes responde com uma parábola: durante as doze horas do dia, pode-se caminhar sem tropeço, diz Nosso Senhor, bem ao contrário das outras doze da noite. Tratava-se de uma afirmação óbvia, mas trazendo em suas entrelinhas algum significado mais profundo, ou seja, não havia chegado ainda o momento de sua Paixão, portanto não era de se temer nenhum mal. Assim, de forma didática e suave, ia instruindo os Apóstolos sobre os passos a serem dados, exercitando-os na plena confiança que deveriam devotar a seu Divino Mestre. 
Continua no próximo post

sábado, 29 de março de 2014

EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 11, 1-45 - Ano A

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO V DOMINGO DA QUARESMA
EVANGELHO - Jo 11, 1-45 - A ressurreição de Lázaro
RETORNO DE JESUS A BETÂNIA
Estava doente um homem, chamado Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de Marta, sua irmã. 2 Maria era aquela que ungiu o Senhor com perfume e Lhe enxugou os pés com seus cabelos, cujo irmão, Lázaro estava doente. 3 Mandaram, pois, suas irmãs dizer a Jesus: “Senhor, aquele que amas está doente”. 4 Ouvindo isto, Jesus disse: “Esta doença não é de morte, mas é para a glória de Deus, a fim de que o Filho do homem seja glorificado por ela.” 5 Ora, Jesus amava Marta, sua irmã Maria e Lázaro.
6 Tendo, pois, ouvido que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava. 7 Depois disto, disse aos seus discípulos: “Voltemos para a Judéia”. 8 Os discípulos disseram-Lhe: “Mestre, ainda há pouco os judeus Te quiseram apedrejar, e Tu vais novamente para lá?”
9 Jesus respondeu: “Não são doze as horas do dia? Aquele que caminhar de dia não tropeça, porque vê a luz deste mundo; 10 porém, o que andar de noite tropeça, porque lhe falta a luz.” 11 Assim falou, e depois disselhes: “Nosso amigo, Lázaro, dorme; mas vou despertá-lo”.
12 Os seus discípulos disseram-Lhe: “Senhor, se ele dorme, também se há de levantar.” 13 Mas Jesus falava da sua morte; e eles julgavam que falava do repouso do sono. 14 Jesus disse-lhes então claramente: “Lázaro morreu, 15 e Eu, por vossa causa, estou contente por não ter estado lá, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.” 16 Tomé, chamado Dídimo, disse então aos outros discípulos: “Vamos nós também, para morrer com ele”.
ENCONTRO COM MARTA E MARIA
17 Chegou Jesus e encontrou-o já há quatro dias no sepulcro. 18 Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. 19 Muitos judeus tinham ido ter com Marta e Maria, para as consolarem pela morte de seu irmão.
20 Marta, pois, logo que ouviu que vinha Jesus, saiu-Lhe ao encontro; e Maria ficou sentada em casa.
21 Marta disse a Jesus: “Senhor, se estivesses cá, meu irmão não teria morrido. 22 Mas também sei agora que tudo que pedires a Deus, Deus To concederá.” 23 Jesus disse-lhe: “Teu irmão há de ressuscitar.” 24 Marta disse-Lhe: “Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia.” 25 Jesus disse-lhe: “Eu sou a Ressurreição e a Vida.; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; 26 e todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente. Crês nisto?” 27 Ela respondeu: “Sim, Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que vieste a este mundo.” 28 Dito isto, retirou-se e foi chamar em segredo sua irmã Maria, dizendo: “O Mestre está cá e chama-te”. 29 Ela, logo que ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele. 30 Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas estava ainda naquele lugar onde Marta tinha ido ao seu encontro.
31 Então, os judeus que estavam com ela em casa e a consolavam, vendo que Maria tinha se levantado tão depressa e tinha saído, seguiram-na, julgando que ia chorar ao sepulcro.
32 Maria, porém, tendo chegado onde Jesus estava, logo que o viu, lançou-se aos seus pés e disse-Lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido.” 33 Jesus, vendo-a chorar, a ela e aos judeus que tinham ido com ela, comoveu-Se profundamente e emocionou-Se; 34 depois perguntou: “Onde o pusestes?” Eles responderam: “Senhor, vem ver.”
35 Jesus chorou. 36 Os judeus, por isso, disseram: “Vede como Ele o amava”. 37 Porém, alguns deles disseram: “Este, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que este não morresse?”
RESSURREIÇÃO DE LÁZARO
38 Jesus, pois, novamente emocionado no seu interior, foi ao sepulcro. Era este uma gruta com uma pedra colocada à entrada. 39 Jesus disse: “Tirai a pedra”. Marta, irmã do defunto, disse-Lhe: “Senhor, ele já cheira mal, porque está aí há quatro dias.” 40 Jesus disse-lhe: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” 41 Tiraram, pois, a pedra. Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
“Pai, dou-Te graças por me teres ouvido. 42 Eu bem sabia que me ouves sempre, mas falei assim por causa do povo que está em volta de Mim, para que acreditem que Tu me enviaste.” 43 Tendo dito estas palavras, bradou em voz forte: “Lázaro, sai para fora!” 44 E saiu o que estivera morto, ligado de pés e mãos, com as ataduras, e o seu rosto envolto num sudário. Jesus disse-lhes: “Desligai-o e deixai-o ir”. 45 Então, muitos dos judeus que tinham ido visitar Maria e Marta, vendo o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele (Jo 11, 1-45).
A ressurreição de Lázaro
O grande amor de Jesus àquela família de Betânia tornava incompreensível sua aparente indiferença perante a enfermidade de Lázaro. Mas quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância.
PRESSUPOSTOS
O porquê dos milagres
Ao conceder a um taumaturgo a faculdade de realizar milagres — explica São Tomás — Deus tem por objetivo “confirmar a verdade por este ensinada” (1). O motivo principal se encontra na fé, pois a razão humana não tem suficiente altura para acompanhar os horizontes dessa virtude, e por isso muitas vezes é necessário serem as afirmações de caráter sobrenatural confirmadas pelo poder de Deus. Esses atos que excedem as forças da natureza propiciam uma acrescida facilidade em crer na procedência divina de tudo quanto é transmitido a respeito de Deus.
Ademais, através dos milagres, torna-se patente a presença de Deus no taumaturgo.
Ora, era indispensável ficar claro aos olhos de todos que a doutrina proclamada por Jesus procedia do próprio Deus e, muito mais ainda, proporcionar a cada um boas provas para crerem na união hipostática das duas naturezas, divina e humana, numa só Pessoa. Justamente em face dessa luminosa, magna e fundamental impostação se projeta a narração do Evangelho de hoje.
Prova da divindade de Jesus
São João escreveu seus vinte e um capítulos com a preocupação de tornar demonstradas pelos fatos tanto a origem divina da doutrina de Jesus quanto a onipotência de sua Pessoa. E, conforme nos explica São Tomás, os milagres operados pelo Redentor são prova de sua divindade:
“Em primeiro lugar, pela natureza das próprias obras, que ultrapassam todo o poder da virtude criada, e por isso não podiam fazer-se senão por virtude divina.”
“Em segundo lugar, pelo modo de fazer os milagres, isto é, porque os fazia como com próprio poder, e não orando, como outros” (2).
Além de encontrarmos elevados aspectos sobrenaturais através dos quais melhor conhecemos o Salvador em suas duas naturezas, e, assim, mais podemos amá-Lo, nesta narração de São João se confirma seu estro literário. Ela é bela, atraente e comovedora, constituindo-se como única em seu gênero. Consagra historicamente os preciosos detalhes do mais importante milagre de Jesus, que Lhe conferiu uma grande glória — levando à crença um bom número de judeus — e, ao mesmo tempo, produziu o máximo grau de ódio nos seus inimigos, a ponto de apressá-los em seus intentos deicidas. Este episódio tão pervadido de pulcritude divina e humana será a causa imediata da fúria do Sinédrio e conseqüente determinação da morte de Jesus.
A pluma do Evangelista percorre o pergaminho, confirmando em cada versículo o agudo senso de observação do escritor, como também tornando patente ter sido ele uma exímia testemunha ocular, digna de fé, de todo o ocorrido. Quem poderia compor ou imaginar os minuciosos pormenores de veracidade transparente, como, por exemplo, as palavras, a emoção e as próprias lágrimas do Filho de Deus feito Homem, que fluem com leveza da escrita do Autor Sagrado? É escrupulosa sua fidelidade na transmissão da realidade que pode ser dividida em três partes distintas: o retorno de Jesus a Betânia, o encontro e a conversa com Marta e Maria, e a ressurreição de Lázaro.
ANÁLISE DO EVANGELHO

Continua no próximo post

quinta-feira, 27 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A – Jo 9, 1-41

Conclusão dos comentários ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41
Deixemos as trevas deste mundo
O cerne deste Evangelho nos é sintetizado por São Paulo em sua Epístola aos Efésios, também proposta à nossa consideração neste domingo da alegria: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5, 8).
Tendo nascido com o pecado original, de fato estaremos em trevas para compreender o sobrenatural enquanto não recebermos a luz da graça pelo Batismo. Esta é incomparavelmente superior à própria luz solar. “O que é o Sol para o mundo sensível, é-o Deus para o mundo espiritual: a luz da justiça e da verdade eterna, da mais elevada formosura e do amor infinito, da mais pura santidade e da mais perfeita felicidade”,15 afirma o padre Scheeben.
Em nosso apostolado, esforcemo-nos, pois, em ajudar os outros a recuperar a vista espiritual, porque, assim, poderão contemplar os reflexos da luz divina na criação e ordenar sua vida em função desse Luzeiro que é Cristo Jesus e a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
Apresentando-nos esse magnífico Evangelho sobre a luz no 4º Domingo da Quaresma, a Igreja nos proporciona um particular alento para avançarmos com ânimo resoluto na vida espiritual. Às vezes fraquejamos, deixamo-nos arrastar por nossas más inclinações e sentimos periclitar nossa perseverança nas vias da santificação. Nesses momentos, lembremo-nos da cura do cego de nascença e consideremos que, se Deus permitiu que caíssemos numa debilidade, Ele está atento para intervir a qualquer momento e restaurar em nós a vida divina. Com as orações e a mediação maternal de Maria, nos encontraremos purificados para contemplar a luz do Círio Pascal, símbolo também dessa Luz que nos foi dada com a Ressurreição de Cristo e que nos vem através dos Sacramentos.
1ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teología Moral para Seglares. 5.ed. Madrid: BAC, 1979, v.I, p.232.
2CUTTAZ, François Joseph. Nuestra vida de gracia (El Justo). Madrid: Studium, 1962, p.28-29.
3TUYA, OP, Manuel de. Biblia comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.II, p.941.
4 Idem, p.946.
5 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: Rialp, 2000, v.II, p.358-359.
6 Cf. SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilías sobre el Evangelio de San Juan (3060). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.II, p.273.
7 Idem, p.282-283.
8 Idem, p.283-284.
9 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Comentario al Evangelio según San Juan. Buenos Aires: Ágape, 2008, t.V, p.22.
10 TUYA, op. cit., p.1163.

11 FILLION, op. cit., p.362. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A – Jo 9, 1-41

Continuação dos comentários ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41


O cerne deste episódio
35 “Jesus soube que o tinham expulsado. Encontrando-o, perguntou-lhe: ‘Acreditas no Filho do Homem?’. 36 Respondeu ele: ‘Quem é, Senhor, para que eu creia nele?’. 37 Jesus disse: ‘Tu O estás vendo; é Aquele que está falando contigo’. Exclamou ele: 38 ‘Eu creio, Senhor!’. E prostrou-se diante de Jesus”.
O objetivo de São João, ao narrar esse episódio, era, sem dúvida, tornar evidente o seguinte ponto: ao ser curado da cegueira, aquele homem recebeu também a crença na divindade de Cristo.
A pergunta do Mestre é formulada com suprema sagacidade. Em diversas ocasiões Ele Se denomina nos Evangelhos como o Filho do Homem. Essa expressão O protegia da malícia dos fariseus, que procuravam pretexto para condená-Lo, pois podia ser interpretada tanto como “o homem que Eu sou”, quanto como uma denominação do Messias.13 No fundo, Ele dava testemunho da sua divindade por meio de um título do qual os fariseus não poderiam tirar proveito para seus insidiosos ataques.
E quando respondeu ao mendigo com as palavras: “Tu O estás vendo”, fazia menção ao duplo benefício que lhe concedera: a visão natural e o dom de crer na sua divindade. Por isso o miraculado proclamou sua fé prosternando-se diante d’Ele, em atitude de adoração, e provavelmente passou a acompanhar os discípulos.
É razoável considerar ter esse milagre concorrido muito para confirmar na fé os próprios Apóstolos e, ademais, lhes haver dado a possibilidade de ponderar o quanto vale mais a conversão espiritual do que a cura da cegueira material.
A leitura do próximo versículo nos fará entender melhor este aspecto da questão.
A verdadeira visão
39 “Então, Jesus disse: ‘Eu vim a este mundo para exercer um julgamento, a fim de que os que não veem, vejam, e os que veem se tornem cegos’”.
Emprega aqui o Divino Mestre o verbo “ver” em dois sentidos: o físico e o espiritual. Santo Agostinho assim comenta essa passagem: “Embora todos, ao nascer, tenhamos contraído o pecado original, nem por isso nascemos cegos; contudo, considerando bem, nascemos cegos nós também. Com efeito, quem não nasceu cego? Cego de coração. Mas o Senhor, que fizera ambas as coisas, os olhos e o coração, curou tanto uns quanto o outro”.14
40 “Alguns fariseus, que estavam com Ele, ouviram isto e Lhe disseram: ‘Porventura, também nós somos cegos?’. 41 Respondeu-lhes Jesus: ‘Se fôsseis cegos, não teríeis culpa; mas como dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece’”.
À interpelação de alguns fariseus, Nosso Senhor responde com uma impressionante increpação. Com efeito, se, apesar de todas as obras por Ele realizadas, alguém O considera apenas de modo natural e humano, sem reconhecer sua divindade, esse é, de fato, um cego de alma, um cego de coração. Pelo contrário, quem padece de cegueira corporal, mas, por ação da graça, acredita na divindade do Messias, este foi curado da cegueira espiritual, cura incomparavelmente mais importante que a da cegueira física. Pois, como afirma o Apóstolo, “o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (II Cor 4, 17).
Essa é a beleza da liturgia de hoje, ao ressaltar a maravilha da visão sobrenatural.
Continua no próximo post

segunda-feira, 24 de março de 2014

Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Ano A – Jo 9, 1-41

Comentário ao Evangelho – IV Domingo da Quaresma – Domingo Laetare   Jo 9, 1-41
Má vontade diante do milagre patente
8 “Os vizinhos e os que costumavam ver o cego — pois ele era mendigo — diziam: ‘Não é aquele que ficava pedindo esmola?’. 9 Uns diziam: ‘Sim, é ele!’. Outros afirmavam: ‘Não é ele, mas alguém parecido com ele’. Ele, porém, dizia: ‘Sou eu mesmo!’. 10 Então lhe perguntaram: ‘Como é que se abriram os teus olhos?’. 11 Ele respondeu: ‘Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Então fui, lavei-me e comecei a ver’. 12 Perguntaram-lhe: ‘Onde está ele?’. Respondeu: ‘Não sei’”.
Um fato tão extraordinário como este foi motivo de grande sensação, comentários e discussões entre “os vizinhos e os que costumavam ver o cego” pedindo esmolas. O sintético relato evangélico não especifica se houve manifestações de entusiasmo, de incredulidade ou de ódio. Contudo, parece certo que a primeira reação de alguns foi, pelo menos, de “ignorar” a evidência da cura milagrosa. Indício disso é o tom reservado das respostas do feliz beneficiário do milagre.
Má-fé e dureza de coração dos fariseus
13 “Levaram então aos fariseus o homem que tinha sido cego. 14 Ora, era sábado, o dia em que Jesus tinha feito lama e aberto os olhos do cego. 15 Novamente, então, lhe perguntaram os fariseus como tinha recuperado a vista. Respondeu-lhes: ‘Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!’. 16 Disseram, então, alguns dos fariseus: ‘Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado’. Mas outros diziam: ‘Como pode um pecador fazer tais sinais?’. 17 E havia divergência entre eles. Perguntaram outra vez ao cego: ‘E tu, que dizes daquele que te abriu os olhos?’. Respondeu: ‘É um profeta’. 18 Então, os judeus não acreditaram que ele tinha sido cego e que tinha recuperado a vista”.
A par do desentendimento instalado entre os fariseus a propósito do acontecimento, esses versículos tornam patentes dois aspectos do estado de espírito deles. A má-fé: pouco se importando com o favor dispensado por Nosso Senhor ao infortunado cego, proferem contra Ele a desgastada censura de violação do sábado. E a dureza de coração: mesmo diante da evidência, negam-se a acreditar em Jesus e inquirem o mendigo, não para apurar a verdade, mas na esperança de conseguir um testemunho hostil ao Divino Mestre. “Interrogam-no acerca da visão obtida, não para saber, mas para forjar uma calúnia e impor falsidade”,9 comenta São Tomás. O ex-cego, pelo contrário, faz diante deles um ato de fé em Jesus: “É um profeta”.
Como se esquivam os pais do cego
18b “Chamaram os pais dele 19 e perguntaram-lhes: ‘Este é o vosso filho, que dizeis ter nascido cego? Como é que ele agora está enxergando?’. 20 Os seus pais disseram: ‘Sabemos que este é nosso filho e que nasceu cego. 21 Como agora está enxergando, isso não sabemos. E quem lhe abriu os olhos também não sabemos. Interrogai-o, ele é maior de idade, ele pode falar por si mesmo’. 22 Os seus pais disseram isso, porque tinham medo das autoridades judaicas. De fato, os judeus já tinham combinado expulsar da comunidade quem declarasse que Jesus era o Messias. 23 Foi por isso que seus pais disseram: ‘É maior de idade. Interrogai-o a ele’”.
Não tiveram dificuldade os pais do cego em perceber a malícia e o ódio que imperavam nesse inquérito dos fariseus. E tinham motivos de sobra para temê-los, pois a expulsão da sinagoga poderia ter graves consequências no campo civil, como o desterro e o confisco dos bens. Por isso preferiram cortar qualquer possibilidade de fazer algum pronunciamento a respeito de Jesus: Não sabemos, perguntai ao nosso filho, ele é maior de idade.
Contraste entre o ódio dos fariseus e a sabedoria do mendigo
24 “Então, os judeus chamaram de novo o homem que tinha sido cego. Disseram-lhe: ‘Dá glória a Deus! Nós sabemos que esse homem é um pecador’. 25 Então ele respondeu: ‘Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo’. 26 Perguntaram-lhe então: ‘Que é que ele te fez? Como te abriu os olhos?’. 27 Respondeu ele: ‘Eu já vos disse, e não escutastes. Por que quereis ouvir de novo? Por acaso quereis tornar-vos discípulos d’Ele?’. 28 Então insultaram-no, dizendo: ‘Tu, sim, és discípulo d’Ele! Nós somos discípulos de Moisés. 29 Nós sabemos que Deus falou a Moisés, mas esse, não sabemos de onde é’. 30 Respondeu-lhes o homem: ‘Espantoso! Vós não sabeis de onde ele é? No entanto, ele abriu-me os olhos! 31 Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade. 32 Jamais se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. 33 Se este homem não viesse de Deus, não poderia fazer nada’. 34 Os fariseus disseram-lhe: ‘Tu nasceste todo em pecado e estás nos ensinando?’. E expulsaram-no da comunidade”.

Grande era a contumácia dos dirigentes da sinagoga. Nota-se nesses versículos, mais uma vez, sua malévola insistência na tentativa de obter do miraculado uma declaração contra o Senhor. “Os fariseus procuravam em sua resposta somente um motivo para desvirtuar os fatos e negar que Cristo o havia curado”, observa o padre Tuya.10 Mas, assistido pelo Espírito Santo, o mendigo respondeu-lhes com acerto, tal como o próprio Jesus teria feito em iguais circunstâncias. “Que contraste entre o ódio, a astúcia e a violência dos fariseus, reprimida no início, mas logo depois declarada, e, de outro lado, a calma, a habilidade e a fina ironia do mendigo que, embora aparentemente vencido, conseguirá a vitória!”,11 comenta bem a propósito Fillion. Prevaleceu a sabedoria do homem simples fiel à graça sobre a pretensiosa ciência dos fariseus, ficando patente que o milagre beneficiara mais profundamente a visão da alma do que a visão do corpo.
Quanto aos fariseus, estes reagiram de acordo com sua obstinação: após insultar grosseiramente o homem que uma autoridade justa deveria tratar com toda a benevolência, decretaram contra ele a sentença de excomunhão.

Uma razão a mais para Jesus o atrair a Si com sua divina bondade. Comenta, a esse respeito, Santo Agostinho: “Depois de muitas coisas, foi excluído da sinagoga dos judeus aquele que era cego e agora enxergava. Enfureceram-se contra ele e o expulsaram. E era isso que temiam seus pais, conforme foi declarado pelo Evangelista. [...] Temiam, pois, eles serem enxotados da sinagoga; ele não temeu e foi enxotado; os pais permaneceram nela. Mas ele é acolhido por Cristo e pode dizer: ‘Porque meu pai e minha mãe me abandonaram’. Que acrescentou? ‘O Senhor, porém, tomou-me sob a sua proteção’. Vem, ó Cristo, e recebe-o; eles o excomungaram, acolhe-o tu. Tu, o Enviado, acolhe o excluído”.12
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