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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 4, 35-41

Comentário ao Evangelho — 12º Domingo do Tempo  Comum
Mons João Clá Dias
35 Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36 Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37 Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38 Jesus estava na parte detrás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” 39 Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40 Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41 Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” Mc 4, 35-41
A borrasca: um castigo ou uma graça?
É bem paradigmática — não só para cada alma, mas também para a Igreja — essa tempestade pela qual passaram os Apóstolos: após as borrascas, a Igreja ergue-se sempre mais forte, mais jovem e com a sua beleza incomparavelmente acrescida.
I – Um pouco de História
Entre os grandes sermões sobre o Reino (o da Montanha e o das Parábolas) deu-se a viagem narrada no Evangelho de hoje, tendo como ponto de partida a famosa cidade de Cafarnaum, à qual Jesus e seus discípulos ainda retornariam.
Sempre rodeado de muita gente, conseguia ser mais visto e ouvido por todos quando utilizava a natural inclinação da praia e os momentos de calmaria das águas, ao pregar de dentro de uma barca no Lago de Tiberíades. Esse “mar” de Genesaré, ou da Galiléia, como costumeiramente é chamado, e que se localiza ao nordeste da Palestina, com o tempo passou a ser a fronteira oriental da Galiléia. Tem um tamanho considerável, sobretudo para as diminutas concentrações populacionais daqueles tempos, pois chega a ter 12 quilômetros de largura e 21 de comprimento, com uma superfície de 170 km2, e 12 a 18 metros de profundidade em certas partes.
É junto às margens desse lago que se encontra a famosa cidade de Mágdala, na qual Maria, irmã de Lázaro, decaíra moralmente. Ali viveu durante anos, num castelo à beira das águas, antiga propriedade de sua família. Cidade, naqueles tempos, de grande circulação de mercadorias, de refinado luxo e, como conseqüência, de costumes corrompidos. É nas proximidades desse lago que, além de Cafarnaum, encontramos as outras duas cidades que mais assistiram aos milagres do Senhor, sem se converter: Corozaim e Betsaida.
Nessas regiões Nosso Senhor atuou seguidamente, realizando retumbantes milagres como a multiplicação dos pães e dos peixes, e empreendendo uma de suas mais famosas viagens.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Evangelho XI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 4,26-34

Comentários ao Evangelho XI Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 4,26-34
Mons João Clá Dias
Naquele tempo: 26 Jesus disse à multidão: ‘O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. 27 Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. 28  A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. 29 Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou’. 30 E Jesus continuou: ‘Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? 31 O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. 32  Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra’. 33 Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. 34 E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo. (Mc 4,26-34)
Comentários
Não passa de pálido símbolo da íntima, enérgica e perseverante ação do Espírito Santo sobre os fiéis, o dinamismo existente numa semente. Em consequência, a força triunfante daquela que foi chamada a ser o Reino de Deus — a Santa Igreja — deverá em certo momento conquistar o mundo inteiro.
O Mestre por excelência
“Ninguém jamais falou como este homem” (Jo 7, 46) — foi a resposta dos guardas aos sinedritas, quando estes, após tê-los enviado para prender Jesus, os interrogaram: “Por que não O trouxestes?” (Jo 7, 45). De fato, que mestre houve na História à altura do único e verdadeiro Mestre? Se Nosso Senhor é o Bem, a Verdade e a Beleza absolutas, por que não deveria ser também a Didática em essência? Não podemos nos esquecer que Ele é Deus, enquanto segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e, portanto, Sua didática só pode ser também substancial.
Ademais, a alma de Jesus foi criada na visão beatífica, e possuía, pois, o conhecimento conferido àqueles que contemplam toda a ordem da criação no próprio Deus. Se isso não bastasse, lembremo-nos de que a Ele foi concedida também a ciência infusa no seu mais elevado grau; e, acrescentado a essas insuperáveis maravilhas, havia também o conhecimento experimental. Ora, esses tesouros todos fazem, de Quem os possui, o Mestre por excelência. Assim, Cristo Nosso Senhor ensinava a verdade como ninguém e com eminentes qualidades pedagógicas que pessoa alguma teve desde Adão, nem terá até o fim do mundo.
Daí o fato de os próprios soldados que foram prendê-Lo, por ordem do Sinédrio, verem-se num complexo dilema: ou desobedeciam às ordens recebidas, ou eram obrigados a agir contra a própria consciência. Tal era a grandeza manifestada por Nosso Senhor Jesus Cristo no Seu ensinamento, que os soldados foram constrangidos a optar pelo risco de perder o cargo e de até mesmo serem lançados na prisão.

domingo, 7 de junho de 2015

Evangelho – Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Comentários ao Evangelho – Solenidade do Sagrado Coração de Jesus
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
“Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz.
32 Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. 33 Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas; 34mas um soldado abriu-Lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.
35 Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. 36 Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: ‘Não quebrarão nenhum de seus ossos’. 37 E outra Escritura ainda diz: ‘Olharão para Aquele que transpassaram’” (Jo 19, 31-37).
O Coração que nos amou até o fim
Único e inesgotável, o amor do Sagrado Coração a cada um de nós foi levado até extremos inimagináveis. Como não ter, em consequência, uma confiança absoluta na misericórdia divina, apesar de nossas misérias? Ou, talvez, até por causa delas?
I – Filhos únicos e muito queridos
Ao considerar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, corremos o risco de ficar muito aquém do tesouro de bondade e misericórdia que essa forma de piedade coloca à disposição dos fiéis. Porque o Coração de Jesus é o tabernáculo mais autêntico e substancial das três Pessoas da Santíssima Trindade e, em consequência, não há melhor meio de adorar o Pai, o Filho e o Espírito Santo do que através d’Ele.
Com efeito, o Sagrado Coração de Jesus, invocado na ladainha que Lhe é dedicada como “unido substancialmente ao Verbo de Deus”, abarca de maneira insondável ambas as naturezas de Cristo: a humana e a divina. Assim, com toda propriedade, é por seu intermédio que Deus entra em contato conosco, respeitando as nossas proporções e apresentando-Se ao nosso alcance de maneira a nos inspirar confiança. E reciprocamente, adorando a Deus através do Sagrado Coração, utilizamo-nos do altar mais privilegiado, supremo até, para nossas orações ascenderem ao Céu de maneira a serem aí recebidas com absoluta complacência.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

EVANGELHO X DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B – Mc 3,20-35

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 10º DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B – Mc 3,20-35
Mons João Clá Dias
Naquele tempo, 20 Jesus voltou para casa com seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer. 21 Quando souberam disso os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si. 22 Os mestres da lei, que tinham vindo de Jerusalém diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios. 23 Então Jesus os chamou e falou em parábolas: "Como é que satanás pode expulsar a satanás? 24 Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. 25 Se uma família se divide contra si mesma , ela nos poderá manter-se. 26 Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído. 27 Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens,  sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa.28 Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. 29 Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno."
30 Jesus falou isso, porque diziam: "Ele está possuído por um espírito mau." 31
Nisso chegaram sua mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo.32 Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: Tua mãe e teus irmãos estão la fora à tua procura." 33 Ele respondeu: Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? 34 E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: "Aqui estão minha mãe e meus irmãos. 35 Quem faz  a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe." (Mc 3,20-35)
A consanguinidade sobrenatural
Ser parente do Messias seria, pelos nossos critérios, uma honra igualável. Para o Filho de Deus, ao contrário, mais importante fazer a vontade do Pai Celeste do que ser parte de sua genealogia humana.
I - OS SEGREDOS DA VIDA OCULTA DE JESUS
Ao meditarmos nos mistérios da vida de Nosso Senhor, nossa imaginação é solicitada de modo especial quando nos detemos nos anos transcorridos no apagamento Nazaré, a contemplar aqueles caminhos que em tantas ocasiões Ele percorreu; aquele panorama com o Monte Tabor ao fundo e a planície que avança até o mar, inúmeras vezes por Ele divisado; aquela casa na qual Ele habitou desde o momento em que retornou do Egito, tão humilde, porém quão impregnada presença sobrenatural... Ali Ele viveu numa atmosfera de pobreza e esquecimento, mas de grandeza; de amor, de paz, de um descanso suave, e ao mesmo tempo de trabalho intenso. Ali Ele “crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52), sendo preparado por uma ação divina para sua grande missão.
Um véu cobria Jesus aos olhos dos seus
Como se pode explicar que em Nazaré o Homem-Deus passasse despercebido? Como parentes, vizinhos e amigos não vislumbraram em Jesus a divindade? Como não viram n’Ele, pelo menos, o Messias? O plano divino, por uma alta sabedoria, exigia que Nosso Senhor atravessasse esse longo espaço de trinta anos sem Se distinguir, aos olhos dos seus, do jovem comum: honrando o trabalho, exaltando a humildade, dando-nos exemplo em tudo. A Providência queria — além de uma glória completa para o Filho de Deus Encarnado — conferir maior mérito a Maria Santíssima e submeter todos aqueles que com Ele conviviam a uma prova: a do esforço e da delicadeza de atenção para descobrir que em Jesus havia algo de mais importante em relação a qualquer outro homem. Para isso, lançou Deus um véu sobre suas qualidades humanas e sobre sua natureza divina.
Mas Ele causava admiração

terça-feira, 2 de junho de 2015

EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI) - ANO B

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI) - Mc 14, 12-16.22-26
A tibieza dos Apóstolos
6 Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa.
São Pedro e São João executaram com toda a presteza a missão que o Mestre lhes confiara. Além de providenciar o cordeiro sem defeito, de um ano — o qual se imolava no Templo, depois do meio-dia, com um rito apropriado à Páscoa —, prepararam também os outros alimentos prescritos pela Lei, tais como os pães ázimos e as ervas amargas, as quais representavam os sofrimentos do povo hebreu durante o cativeiro no Egito.6
Analisemos, nesta passagem, outro aspecto da atitude dos dois Apóstolos. Ao encontrar “tudo como Jesus havia dito”, ambos puderam comprovar quanto suas palavras eram densas de significado e sabedoria. Seria de se esperar que, impressionados por tal constatação — certamente acompanhada de graças especiais —, eles indagassem de Nosso Senhor a razão exata da escolha daquele lugar e o simbolismo do que iria acontecer ali. Nada no Evangelho, todavia, indica esta iniciativa da parte dos Apóstolos, por não estarem habituados a refletir sobre a transcendência do que o Divino Mestre lhes dizia, bem como de seus exemplos, atitudes e gestos. Quão diferente era a postura de Nossa Senhora que, dotada de ciência infusa, conferia todas essas coisas no seu coração (cf. Lc 2, 51)!
E nós? Quantas oportunidades nos são oferecidas para aprofundarmos nossos conhecimentos sobre a doutrina católica, penetrarmos em algum aspecto da Fé ou um ponto da moral, e não manifestamos interesse! Não será isto uma falta? Peçamos hoje perdão a Jesus, por intercessão de sua Mãe Santíssima, por nossas negligências nessa linha.
Por outro lado, qual era o estado de alma dos demais Apóstolos? No trecho do Evangelho selecionado para esta Solenidade omitem-se alguns versículos intermediários, os quais narram o início da Ceia e o momento em que o Salvador revelou aos Doze que um deles O trairia. A pergunta que então Lhe fizeram, um após o outro — “Porventura sou eu?” (Mc 14, 19) —, pode ser interpretada como um sintoma do estado de tibieza no qual se encontravam. As palavras de Jesus tocaram-lhes a alma a fundo, e cada um, cônscio de sua própria falta de fervor, se pôs o problema: “Não será um recado para mim?”. E também um indício desta situação espiritual o fato de não desconfiarem de Judas. Conviviam com ele, sabiam que “era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam” (Jo 12, 6), mas não suspeitaram que ele fosse capaz de infâmia maior.
Em tal atmosfera de entibiamento geral e, pior ainda, com a traição aninhada no coração de um dos Apóstolos, é que Nosso Senhor Jesus Cristo vai instituir o Sacramento do Amor.

domingo, 31 de maio de 2015

EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI) - ANO B

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (CORPUS CHRISTI)
12 No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?”
13 Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: “ide à cidade, Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o  e dizei ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?’  Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Aí fareis os preparativos para nós!”
16 Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa. 22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes. dizendo: “Tomai, isto é o meu Corpo”. 23 Em seguida, tomou o cálice, deu graças entregou-lhes e todos beberam dele. 24 Jesus lhes disse: ‘Isto é o meu Sangue, o Sangue da Aliança, que é derramado em favor de muitos.
25 Em verdade vos digo, não beberei mais do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus”. 26 Depois de terem cantado o hino, foram para o Monte das Oliveiras (Mc 14, 12-16.22-26).
A justa medida do fervor eucarístico
Considerar a magnitude da generosidade divina manifestada na Eucaristia ajuda a medir qual deve ser nosso ardor por este inigualável Sacramento.
I - O HOMEM-DEUS DÁ-SE EM ALIMENTO AOS HOMENS
A luz da fé e imprescindível para contemplar, ainda que por poucos instantes, a elevação e beleza do mistério da Encarnação do Verbo, pois o entendimento humano, abandonado à sua mera capacidade, não chega a alcançá-lo. Se não fosse o auxílio da graça, jamais seria possível admitir que Deus quis Se manifestar ao mundo desta forma, promovendo a união da natureza divina com a humana na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Jesus é verdadeiramente Homem, com inteligência, vontade e sensibilidade — além de ter assumido um corpo padecente, cuja origem foi miraculosa, mas que se desenvolveu de modo normal, conforme as leis da natureza — e, ao mesmo tempo, Ele é plenamente Deus. Deus reclinado numa manjedoura; Deus a discutir no Templo com os doutores da Lei; Deus que mora com seus pais em Nazaré; Deus que abraça a vida pública; Deus que é crucificado... Quantos atos de adoração e gratidão deveríamos fazer cada vez que consideramos este mistério, e com quanto fervor conviria pedir a Nosso Senhor o aumento de nossa fé n’Ele!
Ora, se tal é nossa admiração ante a grandeza do Verbo que “Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14), não menos ardorosa deve ser a nossa atitude perante a Sagrada Eucaristia, o mistério que resume todas as maravilhas realizadas por Deus para a nossa salvação.1 Como bem observa o padre Monsabré, “a Encarnação é a obra-prima de Deus. Mas esta mesma obra-prima, pessoal e viva, Jesus Cristo, Filho de Deus Encarnado, não se contenta em proclamar, à maneira das obras-primas humanas, a glória do sublime Artista que a criou. Soberanamente inteligente, bom e poderoso, Ele também quis produzir uma obra capital entre todas aquelas que seu Pai celeste O mandou executar. Esta obra é a Eucaristia”.2
Assim, na Encarnação, o Filho eterno de Deus Se vela na carne; na Eucaristia, Jesus oculta não só sua Pessoa Divina, mas sua humanidade, sob as espécies de pão e vinho. Na Encarnação, Ele passou a viver e a agir como nós, do interior da santidade menada, substancial e infinita de Deus. Na Eucaristia, Ele quer, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade, habitar em nosso interior. Na Encarnação, a comunicação e a união foram somente com uma natureza singular, a humanidade santíssima de Cristo; na Eucaristia, Jesus Se une a todo aquele que O recebe, conforme Ele mesmo disse: “Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim e Eu nele” (Jo 6, 56). Tal união entre Deus e o homem é a mais íntima que se possa imaginar, inferior apenas à união hipostática. E algo tão grandioso que causa assombro!
O Evangelho de hoje, trazendo à nossa consideração o relato da instituição deste Sacramento, “entre todos o mais importante e o que remata os demais”,3 convida a meditar sobre sua inesgotável riqueza e a crescer na devoção a ele. O próprio Salvador ansiava por este momento, como o manifestou aos discípulos, no início da Santa Ceia: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer” (Lc 22, 15).
II - O MISTÉRIO DA FÉ POR EXCELÊNCIA
Encontrava-Se o Divino Mestre a caminho de Jerusalém quando, pela terceira vez, anunciou aos discípulos sua Paixão (cf. Mt 20, 17-19; Mc 10, 32-34; Lc 18, 31-34). Mais tarde, já depois do Domingo de Ramos, Ele lhes revelou a data exata deste acontecimento: “Sabeis que daqui a dois dias será a Páscoa, e o Filho do Homem será traído para ser crucificado” (Mt 26, 2).
Entrementes, os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, reunidos na casa de Caifás, conspiravam contra Jesus e deliberavam sobre os meios de O prender com astúcia e O matar. Mas, como temiam provocar tumulto na multidão, decidiram agir só após o término da festa (cf. Mt 26, 4-5). Foi então que Judas Iscariotes foi ter com eles, oferecendo-lhes sua pérfida contribuição para o crime. Prometeram-lhe trinta moedas de prata, “e desde aquele instante, procurava uma ocasião favorável para entregar Jesus” (Mt 26, 16).
A Ceia que inaugurou a verdadeira Páscoa
12 No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal os discípulos disseram a Jesus: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?’
As comemorações da Páscoa, principal festividade judaica se estendiam ao longo de uma semana, sendo o primeiro dia reservado à ceia solene em que se comia o cordeiro pascal, seguindo as indicações dadas por Deus aos israelitas na época da saída do Egito (cf. Ex 12, 1-14). Como o pão fermentado era proibido durante este período consumiam-se pães sem levedura, e daí a solenidade ser designada também como festa dos Ázimos.
Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro Cordeiro Pascal, “o Cordeiro imaculado e sem defeito algum, aquele que foi predestinado antes da criação do mundo” (I Pd 1 1, 19). Portanto, a cerimônia que os Apóstolos se empenhavam em preparar seria o início da realização de tudo o que a Páscoa israelita prefigurava, pois na Santa Ceia daquela noite Ele consagraria “o princípio de seu sacrifício, ou seja, de sua Paixão, entregando-se a seus discípulos nos mistérios de Corpo e Sangue”.4
Um suave convite a Judas
13a Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: “ide à cidade”.
Sendo Judas Iscariotes o responsável pela logística do Colégio Apostólico, cabia-lhe tomar as providências para a celebração. Porém, a narração de outro Evangelista indica terem sido Pedro e João os discípulos que Nosso Senhor encarregou deste trabalho (cf. Lc 22, 8). Com divina delicadeza e bondade, o Mestre deixava transparecer a Judas que tinha conhecimento do crime por ele tramado com os sinedritas. Se houvesse no traidor um resquício de amor a Deus e de bom senso, o proceder de Jesus lhe teria aguilhoado a consciência, levando-o a dar-se conta da imensa gravidade daquele pecado e a desistir de seu intento. Entretanto, nada disso ocorreu, pois seu coração estava completamente endurecido no mal.
Podemos fazer aqui uma aplicação à nossa vida espiritual. As vezes, pessoas com quem convivemos — seja um superior, um colega ou até um inferior — nos dão a entender que percebem em nós um defeito mal combatido ou nos alertam para uma situação má na qual nos encontramos. Em face desses convites, teremos fechado nossa alma, imitando a perversidade de Judas?
O Divino Mestre quis evitar perturbações durante a Ceia
13b “Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o 14 e dizei ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?’ ‘ Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Aí fareis os preparativos para nós!”
O recinto escolhido pelo Redentor, como cenário do ato de suma importância que iria realizar, era uma ampla sala decorada com distinção e categoria (cf. Le 22, 12). Belos tapetes, tecidos, cortinas e requintada mobília compunham agradavelmente o ambiente. De acordo com o costume do tempo, nos banquetes as mesas eram dispostas em forma de “U” e os comensais não comiam sentados como hoje, mas reclinados em divãs distribuídos no lado externo da mesa. O lado interno ficava livre a fim de permitir o serviço, O lugar de honra — que na ocasião deveria ser ocupado por Nosso Senhor — ficava ao centro.

Judas, ávido por se informar a respeito das circunstâncias e do local da ceia pois julgava ser este um momento oportuno para entregar Nosso Senhor —, decerto ouvia atento estas indicações. Mas Jesus desejava celebrar a Páscoa sem nenhuma interrupção; “não queria ser perturbado por seus inimigos antes que chegasse ‘sua hora’ e, sobretudo, antes da doação e do amoroso legado da Sagrada Eucaristia que queria deixar à sua Igreja”.5 Por isso instruiu os dois Apóstolos de modo a tornar impossível ao traidor descobrir com antecedência onde seria a refeição, demonstrando-lhe ainda, indiretamente e de maneira majestosa, que estava a par de tudo. Ante esta nova lição, Judas mais uma vez recalcitra e sua maldade recrudesce.
Continua no próximo post

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Evangelho da Solenidade da Santíssima Trindade - Mt 28, 16-20 - Ano B

Conclusão dos comentários ao Evangelho da Solenidade da Santíssima Trindade - Mt 28, 16-20 - Ano B
Jesus-Homem,autoridade suprema
18 Então Jesus aproximou-se e falou: 'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra.
Evidentemente, não se refere Jesus neste trecho à sua natureza divina, pois, por esta tem poder absoluto desde todo sempre, sendo coeterno com o Pai. Trata-se, aqui, de uma comunicação da divindade à carne, do Filho de Deus ao Filho da Virgem: a autoridade suprema, absoluta e infinita é conferida à humanidade santíssima de Jesus.
São Paulo, escrevendo aos Colossenses, tornou clara a essência desse poder: “Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a criação. N’Ele foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e as invisíveis. Tronos, Dominações, Principados, Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele. Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem n’Ele. Ele é a Cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o Princípio, o primogênito dentre os mortos e por isso tem o primeiro lugar em todas as coisas. Porque aprouve a Deus fazer habitar n’Ele toda a plenitude e por seu intermédio reconciliar consigo todas as criaturas, por intermédio daquele que, ao preço do próprio sangue na Cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na Terra e nos Céus(22).”