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terça-feira, 30 de junho de 2015

Evangelho XIV Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 6, 1-6

Continuação dos comentários ao Evangelho – XIV Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 6, 1-6
II – Reação do espírito humano diante da Superioridade
“Naquele tempo, 1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos O acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga”.
Em Nazaré, Nosso Senhor viveu por cerca de trinta anos, desde a volta do Egito, após a morte de Herodes (cf. Mt 2, 15.23), até o início de sua vida pública com o Batismo no Jordão (cf. Mt 3, 13-17). Nessa cidade, nunca Se manifestara enquanto Deus, mas apenas como o filho de José e de Maria; uma pessoa comum, portanto.
Ora, em certo momento, Ele desapareceu e nessa Nazaré apenas chegavam os ecos de seus grandiosos milagres. A Galileia estava certamente em alvoroço pelas repercussões relativas aos feitos de Jesus, como a ressurreição da filha de Jairo e a cura da hemorroíssa, realizadas havia pouco conforme relata São Marcos (5, 22-42), e tantas outras ações extraordinárias. E deveriam também ouvir falar das maravilhosas doutrinas inéditas pregadas pelo Divino Mestre, bem como das encantadoras parábolas que tanto entusiasmavam os homens de boa fé.
Não obstante, podemos supor, por um lado, ser o ceticismo uma reação não incomum diante desses relatos, pois à natureza humana custa a dar crédito a algo de notável relacionado com quem participa de nosso convívio diário. Mas, por outro lado, os habitantes de Nazaré sentiam um certo orgulho, porque sua cidadezinha ia adquirindo celebridade em razão do Nazareno.
Nessas circunstâncias, chega Jesus à sua terra. Podemos imaginar o burburinho provocado ao verem-No entrar na sinagoga, onde nunca havia pregado, e começar a comentar a Escritura de um modo jamais ouvido.
Admiração, primeiro movimento diante da superioridade
2b “Muitos que O escutavam ficavam admirados...”.
São Lucas acrescenta importantes pormenores relativos a este episódio. Convidado a falar, Jesus abriu o livro do profeta Isaías onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, pois Ele Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres”. A seguir, afirmou: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. E o Evangelista conclui: “Todos testemunharam a favor d’Ele, maravilhados com as palavras cheias de graça que saíam de sua boca” (cf. Lc 4, 18-22).
A primeira reação, portanto, foi de admiração geral, tão ricas, densas e originais devem ter sido as palavras proferidas pelo Salvador, certamente não registradas em sua totalidade pelo Evangelista. De fato, é este o primeiro movimento de toda criatura humana no seu relacionamento social, ao encontrar alguém que se sobressai a algum título. Em seguida, contudo, em razão do instinto de sociabilidade que nos impele a entrarmos em contato com os demais, a inevitável tendência natural é a comparação: “Seríamos também capazes de realizar o mesmo?”. O teor afirmativo ou negativo da resposta determinará como consequência imediata uma reação interna de alegria ou de tristeza.
No caso afirmativo, ficamos satisfeitos por nos julgarmos aptos para igualar, ou até superar, o outro. E podemos tomar duas atitudes. Uma boa, de compreender que se trata de dom gratuito de Deus — pois o Espírito Santo “distribui a cada um seus dons conforme quer” (I Cor 12, 11) —, e temos o dever de utilizá-lo para ajudar os outros a se santificarem, conforme ensina o Apóstolo: “A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem de todos” (I Cor 12, 7). E uma outra ruim, de orgulho, desprezando aquilo que os outros possuem.
No caso negativo, sentiremos tristeza ao constatar nossa inferioridade. E aqui também são possíveis duas atitudes. A primeira, boa, consiste em passar por cima dessa instintiva tristeza e admirar a qualidade do outro, nos encantando com a sua superioridade. A segunda, má, de ter um certo ressentimento, consequência da inveja perante o valor alheio.
As duas atitudes boas nos trazem paz de alma, pois propiciam reconhecer a grandeza do Criador através de seus reflexos nas pessoas. Assim procede quem se habitua a considerar os aspectos da vida cotidiana elevando-se a partir deles a superiores cogitações. São aqueles que, no passo seguinte à admiração, sempre estão desejosos de louvar, estimar e servir aquilo que é bom, verdadeiro e belo.
Ora, dada a natureza humana decaída, sem auxílio da graça, as reações posteriores à comparação são ordinariamente ruins. Arquetípico exemplo disto, encontramos nos versículos seguintes, nos quais o Evangelista resume a reação dos nazarenos diante da pregação de Jesus.
A consequência do egoísmo
2b “... e diziam: ‘De onde recebeu Ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? 3 Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’. E ficaram escandalizados por causa d’Ele”.
Na cidade de Nazaré, excetuando Nossa Senhora, não houve provavelmente quem tomasse a atitude correta de admirar a superioridade de Jesus. Depois da primeira reação boa, passaram eles a considerar apenas os aspectos humanos, e logo surgiram as dúvidas de má fé, seguidas de inveja.
Uns se perguntavam de onde vinha tanto conhecimento, uma vez que o Pregador não estudara com nenhum dos mestres conhecidos na região. Dentre estes, alguns até poderiam estar presentes na sinagoga naquele momento, e considerassem intolerável Jesus sobrepujá-los no saber, justamente eles que tanto haviam estudado.
E, quiçá, se perguntavam quais as artimanhas empregadas pelo jovem Mestre para adquirir tão grande conhecimento em tão breve espaço de tempo.
Misturava-se neles a inveja com um fundo de falta de fé, ao quererem julgar as coisas pelas suas aparências primeiras. Não souberam transcender a figura do filho do carpinteiro, que ali havia vivido tantos anos exercendo um trabalho artesanal, numa situação inteiramente ordinária e que, de repente, surge como Sábio, Taumaturgo e Exorcista.
Ao mesmo tempo, não podiam negar serem verdadeiros os retumbantes milagres atribuídos ao Redentor, mas, em sua cegueira espiritual, preferiam fechar os olhos para a realidade superior, e se refugiar numa explicação natural, que não lhes cobrava uma mudança de vida.
Assim, “ficaram escandalizados por causa d’Ele”. É o desprezo a consequência necessária da falta de amor e da inveja. Com severidade, São Basílio invectiva esse defeito de alma: “A inveja é um gênero de ódio, o mais feroz, porque os benefícios aplacam quem por alguma outra causa é inimigo nosso, mas o bem que se faz ao invejoso irrita-o mais; e quanto mais ele recebe, mais se indigna, se entristece e se exacerba. Isso porque o desgosto que sente pelo poder do benfeitor é maior que a gratidão pelos bens que dele recebe. [...] Os cães tornam-se mansos se alguém lhes dá de comer; os leões se domesticam, quando se cuida deles; mas os invejosos se enfurecem mais com os benefícios”.3
O perigo de não ver o sublime
4 “Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares’”.
Anteriormente, relata São Marcos estarem alguns parentes de Jesus envergonhados d’Ele, a ponto de, em certa ocasião, irem à sua procura “para detê-Lo, pois diziam: ‘Está ficando louco’” (Mc 3, 21).
Sem dúvida, encontravam-se na assembleia vários de seus familiares, máxime considerando ser pequenina a cidade. E talvez eles próprios se comparassem com Jesus, imaginando serem a Ele equivalentes dada a consanguinidade. Constatando, porém, sua evidente inferioridade, nascia a inveja e o desejo de destruir o bem visto no outro, por julgar que este lhes fazia sombra. Tal é a natureza humana que, em geral, a pessoa não tem inveja de um desconhecido, mas sim do amigo, daquele com quem convive.
Por isso, à semelhança de Nosso Senhor, quem abraça as vias da virtude pode ser muito bem considerado em alguns ambientes, mas nem sempre o será entre os seus íntimos.
A divindade de Nosso Senhor deveria transparecer
Assueta vilescunt — a rotina pode acabar envilecendo até as coisas mais grandiosas. Ora, Jesus, Deus e Homem verdadeiro, encontrava-Se onde vivera tanto tempo como pessoa comum, desejoso de fazer bem a seus mais próximos.
Não podemos crer, entretanto, que o convívio com Ele não tivesse dado margem a transparecer algo de incomum em incontáveis ocasiões. Em virtude da íntima união entre a natureza humana e a divina em Cristo, por debaixo dos véus de sua Perfeitíssima Humanidade, deveria com frequência transluzir de alguma forma a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ultrapassando em tudo qualquer capacidade humana de perfeição, de modo a ficar patente tratar-Se Jesus de um Ente completamente fora do comum. “Enquanto em seu puríssimo Corpo a natureza evoluía devagar para a plenitude, ‘a sabedoria divina enchia sua santa alma e a graça aí esgotava todos os seus dons’. [...] Ele temperava as manifestações exteriores de suas perfeições ocultas, como a árvore nova que desdobra pouco a pouco seus brotos, suas folhas e flores antes de formar seus frutos; como o Sol que, depois de clarear ligeiramente o horizonte, colore-o com os vermelhos crescentes da aurora antes de inundar o espaço com seus raios vitoriosos e mostrar sua face resplandecente” 4, comenta Monsabré.
Nosso Senhor deveria ser a perfeição nos gestos, nas atitudes e até no caminhar. E o que dizer de sua voz incomparável? A beleza de sua alma espelhava-se maravilhosamente em sua face e, sobretudo, em seu olhar. Dotado de todas as qualidades humanas possíveis, Ele era belo, nobre e distinto no mais alto grau. Tudo n’Ele transluzia uma misteriosa e inefável superioridade.

Por que não viram: egoísmo e mediocridade
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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Evangelho XIV Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 6, 1-6

Comentário ao Evangelho – XIV Domingo do Tempo Comum – Ano B – Mc 6, 1-6
“Naquele tempo, 1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos O acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que O escutavam ficavam admirados e diziam: ‘De onde recebeu Ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? 3 Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?’. E ficaram escandalizados por causa d’Ele. 4 Jesus lhes dizia: ‘Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares’. 5 E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6 E admirou-Se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando” (Mc 6, 1-6).
Admirar, essa alegria!
Iludido, busca o homem a felicidade nas sendas do egoísmo, julgando ser tão mais feliz quanto mais pensar em si. Ignora ele que a verdadeira alegria de alma se encontra somente na admiração, no voltar-se enlevado ao que é superior.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – O profeta, homem que comove as consciências
Ao nos criar, Deus teve em vista nossa participação em sua felicidade eterna. E para esse fim, em nenhum instante nos abandona, sempre velando sobre cada um como se fosse seu filho único. O cuidado da zelosa mãe em relação à criança, por exemplo, que a todos comove, não passa de um belo, mas pálido símbolo do amor divino.
Assim, criados para uma eternidade bem-aventurada, temos gravada em nossa alma a Lei Natural — que nos ordena fazer o bem e evitar o mal — e estamos à procura constante de Deus, como as plantas, pelo heliotropismo, sempre buscam a luz do Sol. Para nos auxiliar neste “teotropismo”, Deus, através de uma pessoa ou de alguma circunstância, nos estimula a procurá-Lo com mais zelo e amor. Tal papel desempenharam desde a Antiga Lei os profetas.
A voz do profeta, auxílio de Deus para atingirmos nossa finalidade
A noção corrente de profeta limita-se à de alguém com capacidade de prever o futuro. Entretanto, é importantíssimo frisar que, embora com frequência seja este um dos seus traços distintivos, contudo não é o principal e nem constitui a essência da sua missão. O principal múnus profético consiste em ser o guia do povo de Deus, indicando os caminhos para a salvação.
Historicamente, tendo quase toda a classe sacerdotal judaica sido infiel à sua missão, “tornou-se necessária a irrupção, na sociedade israelita, desses colossos da espiritualidade denominados profetas — procedentes, em sua maioria, do elemento secular da nação — para sanear religiosamente Israel. [...] Os valores espiritualistas da Lei adquirem então seu verdadeiro relevo, e foi tal a altura moral da pregação profética que só o ideal evangélico a superou”.1
É o que vemos na primeira leitura deste domingo: Deus envia Ezequiel como profeta para alertar aqueles homens de cerviz dura e coração empedernido que se desviaram do reto caminho: “Filho do homem, Eu te envio aos israelitas, nação de rebeldes, que se afastaram de Mim. A esses filhos de cabeça dura e coração de pedra. Quer te escutem, quer não — pois são um bando de rebeldes —, ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (Ez 2, 3-5).
Ou seja, Israel rebelara-se contra Deus. E, em vez de castigo, por misericórdia, a esse povo é enviado um profeta, porta-voz que transmite a vontade divina advertindo contra os desvios cometidos e chamando à penitência. Por isso, não poderão os israelitas alegar a atenuante do desconhecimento, da inadvertência, pois “houve entre eles um profeta”.
Diante do profeta, submissão ou revolta
Ensina-nos a doutrina católica que, pelo Batismo, todos participamos do sacerdócio de Cristo e de sua missão profética e régia.2 Assim, enquanto batizados, somos profetas perante a sociedade, pois devemos, pelo exemplo de vida, testemunhar a verdadeira Fé, indicando o caminho para a salvação eterna e, se preciso, alertando contra os erros. Se isto se aplica a todo fiel leigo, a fortiori, o sacerdote que fala do púlpito, lembrando as verdades eternas, exerce a missão profética.
Ora, assim como, muitas vezes, por nossas misérias não somos dóceis à voz da consciência — que atua dentro de nós, como um profeta a nos lembrar o dever — e criamos sofismas para sufocá-la, também pode ser que nos irritemos com quem em relação a nós exerce o papel profético e nos invectiva justamente. Pois salvo uma graça, a tendência em geral do homem ao ser admoestado é a revolta interior.
É o que ocorre quando ao ouvir um sermão ou fazer uma leitura espiritual sentimos o aguilhão da consciência contra algum vício ou defeito e, por apego a este, não queremos dar ouvidos nem assentimento à voz da graça.
Esta triste situação de alma, mais comum do que se pode pensar, encontra sua arquetipia no Evangelho recolhido pela liturgia deste domingo: é o Profeta por excelência, Jesus Cristo, o qual veio anunciar a Boa Nova e indicar o Caminho que é Ele mesmo, “causa de queda e elevação de muitos em Israel” e “um sinal de contradição” para serem “revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 34-35).
II – Reação do espírito humano diante da Superioridade

“Naquele tempo, 1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos O acompanharam. 2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga”.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Evangelho – Solenidade de São Pedro e São Paulo

Comentário ao Evangelho – Solenidade de São Pedro e São Paulo
Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”14 Eles responderam: “Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.15 Então Jesus lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”16 Simão Pedro respondeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.17 Respondendo, Jesus lhe disse: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. 19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”. (Mt 16, 13-19).
A Pedra Inabalável
Um simples pescador da Betsaida proclama que o filho de um carpinteiro é realmente o Filho de Deus, por natureza. Ali é plantado o grão de mostarda, do qual nasceria a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.
Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
I – Considerações iniciais
Difícil é encontrar alguém que nunca tenha comprovado a consonância da sonoridade obtida através de cristais harmônicos. Basta um simples golpe, em um só deles, para os outros ressoarem em concomitância. É, até, uma prova para se conhecer a autenticidade destas ou daquelas taças.
Assim, também, no campo das almas. Discernimos a que é entranhadamente católica e com facilidade a diferenciamos da tíbia, atéia ou herética, quando fazemos “soar” uma simples nota: o amor ao Papado, seja quem for o Papa. Tornam-se encandescidas as almas fervorosas, indiferentes as tíbias, indispostas algumas, etc.
Pois esta é a matéria do Evangelho de hoje. A fim de nos prepararmos para contemplar as perspectivas que ele nos manifesta, ocorreu-nos reproduzir as considerações transcritas a seguir. Poderemos, assim, ter uma noção da qualidade do “cristal” de nossa alma:
“Tudo quanto na Igreja há de santidade, de autoridade, de virtude sobrenatural, tudo isto, mas absolutamente tudo sem exceção, nem condição, nem restrição, está subordinado, condicionado, dependente da união à Cátedra de São Pedro. As instituições mais sagradas, as obras mais veneráveis, as tradições mais santas, as pessoas mais conspícuas, tudo enfim que mais genuína e altamente possa exprimir o Catolicismo e ornar a Igreja de Deus, tudo isto se torna nulo, maldito, estéril, digno do fogo eterno e da ira de Deus, se separado do Romano Pontífice. Conhecemos a parábola da videira e dos sarmentos. Nessa parábola, a videira é Nosso Senhor, os sarmentos são os fiéis. Mas como Nosso Senhor Se ligou de modo indissolúvel à Cátedra Romana, pode-se dizer com toda segurança que a parábola seria verdadeira entendendo-se a videira como a Santa Sé, e os sarmentos como as várias Dioceses, Paróquias, Ordens Religiosas, instituições particulares, famílias, povos e pessoas que constituem a Igreja e a Cristandade. Isto tudo só será verdadeiramente fecundo na medida em que estiver em íntima, calorosa, incondicional união com a Cátedra de São Pedro.
“‘Incondicional’, dissemos, e com razão. Em moral, não há condicionalismos legítimos. Tudo está subordinado à grande e essencial condição de servir a Deus. Mas, uma vez que o Santo Padre é infalível, a união a seu infalível magistério [só] pode ser incondicional.
“Por isto, é sinal de condição de vigor espiritual, uma extrema susceptibilidade, uma vibratilidade delicadíssima e vivaz dos fiéis por tudo quanto diga respeito à segurança, glória e tranqüilidade do Romano Pontífice. Depois do amor a Deus, é este o mais alto dos amores que a Religião nos ensina. Um e outro amor se confundem até. Quando Santa Joana d’Arc foi interrogada por seus perseguidores que a queriam matar, e que para isto procuravam fazê-la cair em algum erro teológico por meio de perguntas capciosas, ela respondeu: ‘Quanto a Cristo e à Igreja, para mim são uma só coisa’. E nós podemos dizer: ‘Para nós, entre o Papa e Jesus Cristo não há diferença’. Tudo o que diga respeito ao Papa diz respeito direta, íntima, indissoluvelmente, a Jesus Cristo”1.
II – O Evangelho: “Tu es Petrus”
Pergunta de Jesus e circunstância em que foi feita
Naquele tempo, 13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”

domingo, 21 de junho de 2015

Evangelho Solenidade do Nascimento de São João Batista - Lc 1,57-66.80

Comentário ao Evangelho Solenidade do Nascimento de São João Batista
57Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho. 58Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela. 59No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. 60A mãe, porém disse: “Não! Ele vai chamar-se João”.
61Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” 62Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. 63Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “João é o seu nome”. E todos ficaram admirados. 64No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. 65Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia. 66E todos os que ouviam a notícia ficavam pensando: “O que virá a ser este menino?” De fato, a mão do Senhor estava com ele. 80E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel. Lc 1,57-66.80
Sem honra não há verdadeira glória
O povo de Israel ansiava pela glória mundana e por isso rejeitou João Batista, que veio restaurar a verdadeira honra, a fim de preparar a vinda do Messias.
I- Honra e glória: conceitos correlatos
“Nous avons assez de gloire, Monseigneur, mais venez nous rendre l’honneur” (1). Esta frase com a qual Talleyrand saudou e incentivou o Conde d’Artois, que aguardava indeciso, em Nancy, o momento oportuno de dirigir-se a Paris para a restauração da dinastia dos Bourbons, passados os fulgores napoleônicos, foi aureolada de fama. Com ela se encerrava a carta escrita por ele ao irmão do novo rei da França, enviada através de Vitrolles.
Os seus termos, e as circunstâncias históricas que a cercaram, fazem-nos lembrar a situação psicológica e moral na qual se encontrava o povo judeu ao se deparar com o Precursor, às margens do Jordão.
O povo judeu estava pervadido de glória
As miraculosas intervenções de Deus desde o nascimento da nação eleita tinham-na tornado célebre ao longo dos séculos, destacando-a entre todas as outras. As discussões com o Faraó do Egito e as subsequentes dez pragas, a travessia do Mar Vermelho, o maná no deserto, as Tábuas da Lei, a tomada de Jericó, os Juízes, os Reis, etc. — essas realidades grandiosas pervadiram de glória os descendentes de Abraão. Tratava-se, entretanto, mais especialmente de uma glória extrínseca, no seguinte sentido: a fama alcançada pelo povo devido às ações do Onipotente estava muito acima da esquálida virtude de seus beneficiados.
Ora, depois de tantos séculos de correspondência, não só insuficiente, mas até defectiva face a tamanha prodigalidade divina, a mentalidade do povo em geral estava deformada. Justamente, esse distorcido mirante, ao mesmo tempo moral e psicológico, constituía uma das razões pelas quais eles esperavam um Messias de cunho marcadamente político, um novo Davi ou quiçá um outro Moisés, adaptado às necessidades daquela época, para lhes conferir a supremacia sobre todas as gentes. Eles queriam a grandeza para satisfazer seus próprios interesses, inclusive financeiros.
Cristo veio trazer a suprema honra

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Evangelho — 12º Domingo do Tempo Comum - Ano B

Comentário ao Evangelho — 12º Domingo do Tempo  Comum - Ano B 
Mons João Clá Dias 
35 Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” 36 Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele. 37 Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. 38 Jesus estava na parte detrás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” 39 Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. 40 Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41 Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” Mc 4, 35-41
A borrasca: um castigo ou uma graça?
É bem paradigmática — não só para cada alma, mas também para a Igreja — essa tempestade pela qual passaram os Apóstolos: após as borrascas, a Igreja ergue-se sempre mais forte, mais jovem e com a sua beleza incomparavelmente acrescida.
I – Um pouco de História
Entre os grandes sermões sobre o Reino (o da Montanha e o das Parábolas) deu-se a viagem narrada no Evangelho de hoje, tendo como ponto de partida a famosa cidade de Cafarnaum, à qual Jesus e seus discípulos ainda retornariam.
Sempre rodeado de muita gente, conseguia ser mais visto e ouvido por todos quando utilizava a natural inclinação da praia e os momentos de calmaria das águas, ao pregar de dentro de uma barca no Lago de Tiberíades. Esse “mar” de Genesaré, ou da Galiléia, como costumeiramente é chamado, e que se localiza ao nordeste da Palestina, com o tempo passou a ser a fronteira oriental da Galiléia. Tem um tamanho considerável, sobretudo para as diminutas concentrações populacionais daqueles tempos, pois chega a ter 12 quilômetros de largura e 21 de comprimento, com uma superfície de 170 km2, e 12 a 18 metros de profundidade em certas partes.
É junto às margens desse lago que se encontra a famosa cidade de Mágdala, na qual Maria, irmã de Lázaro, decaíra moralmente. Ali viveu durante anos, num castelo à beira das águas, antiga propriedade de sua família. Cidade, naqueles tempos, de grande circulação de mercadorias, de refinado luxo e, como conseqüência, de costumes corrompidos. É nas proximidades desse lago que, além de Cafarnaum, encontramos as outras duas cidades que mais assistiram aos milagres do Senhor, sem se converter: Corozaim e Betsaida.
Nessas regiões Nosso Senhor atuou seguidamente, realizando retumbantes milagres como a multiplicação dos pães e dos peixes, e empreendendo uma de suas mais famosas viagens.
II – O acontecimento
A multidão se espremia a cada instante para melhor acompanhar as maravilhas saídas dos lábios do Salvador. De fato, dissera Ele: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4). Todos estavam presos àquela adorável voz. Queriam aproveitar as nesgas de luz solar que ainda restavam, para se alimentar daqueles manjares eternos. Por outro lado, em meio ao cansaço daquela ininterrupta jornada, Jesus planejava lançar mão de um de seus refúgios, assim classificados por São Remígio: “Lê-se que o Senhor teve três refúgios, a saber: o barco, o monte e o deserto. Sempre que a multidão O assediava, refugiava-se em um deles” (1).

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 4, 35-41

Conclusão dos comentários ao Evangelho — 12º Domingo do Tempo  Comum
O “sono” de Jesus em nossa alma
38 Jesus estava na parte detrás, dormindo sobre um travesseiro.
Tal como a tempestade, o sono de Jesus naquele momento parecia ser preconcebido segundo uma finalidade que Ele tinha em vista. Era altamente formativo para seus discípulos sentirem a própria contingência e, assim, serem estimulados a recorrer a Ele em última instância. Com isso estariam criadas as condições para a manifestação de seu poder divino. A esse respeito nos diz São João Crisóstomo: “Se Ele tivesse estado acordado, ou eles não tivessem temido nem tivessem rogado que os salvasse quando a tempestade se levantou, não teriam pensado que pudesse fazer tal milagre” (6).
Com muito acerto, fazem os autores uma aproximação entre esse fato ocorrido com os Apóstolos e o mistério do “sono” de Jesus, que às vezes se repete durante a tempestade pela qual passam nossas almas. Esse “sono” de Jesus poderá ser real ou aparente.
Quando nós nos afastamos de Jesus: “sono real”
Se, por desgraça, abraçamos o pecado mortal, nós nos afastamos de Jesus. Este é o mais terrível dos “sonos”, pois somos nós que O obrigamos a distanciar-Se de nós, além de perdermos a graça santificante. Logo em seguida arma-se a tempestade de nossas más tendências e paixões desordenadas, e submerge nosso senso moral. E se, nessa situação, somos apanhados pela morte, Deus dormirá em relação a nós o “sono eterno” de nossa terrível condenação ao inferno. Não haverá jamais, neste caso, meios de despertá-Lo.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 4, 35-41

Continuação dos comentários ao Evangelho — 12º Domingo do Tempo  Comum
Levantou-se uma grande tempestade
37 Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher.
Essa tempestade não se armou por acaso. Não poucas vezes, por causa de uma preocupação naturalista, quer-se atribuir aos elementos a causa, a força e a glória dos milagres. Essa simplória tendência chama a atenção de certos autores de fama, como, por exemplo, Fillion: “Em cada uma das categorias dos milagres evangélicos já ficaram indicadas as objeções mais comuns e mais recentes do racionalismo, e os princípios que ajudam a refutá-las. Não é, pois, necessário ocupar-nos das elucubrações da crítica liberal acerca dos milagres do Salvador, considerados isoladamente. (3). E, a seguir, o conceituado autor expõe o pensamento de vários dos racionalistas contemporâneos.
Infelizmente, os limites deste artigo não permitem discorrer sobre esse recalcitrante racionalismo, um mal muito mais difundido do que parece. Contra seu dogmatismo, lembremo-nos de que “pela palavra do Senhor foram feitos os céus; e pelo sopro de sua boca [formaram-se] todos os seu exércitos. Ele junta como num odre as águas do mar; Ele põe as ondas como em reservatórios” (Sl 32, 6-7). Esse é o poder de Deus, muito acima do poder da razão humana, também por Ele criada.
“Começou a soprar uma ventania muito forte”. Alguns autores admitem ter sido essa tempestade ordenada pelo próprio Senhor, e foi ela grande para que grande também fosse o prodígio. Ademais, quanto maior fosse o medo dos seus discípulos, maior seria o alívio de, por Ele, terem sido salvos.
As tormentas interiores