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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Comentários ao Evangelho XXXII Domingo do Tempo Comum Mc 12, 38-44

38 Jesus dizia, no seu ensinamento a uma grande multidão: ‘Tomai cuidado com os doutores da Lei! Eles gostam de andar com roupas vistosas, de ser cumprimentados nas praças públicas; 39 gostam das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos melhores lugares nos banquetes. 40 Eles devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas oraçðes. Por isso eles receberão a pior condenação’.
41Jesus estava sentado no Templo, diante do cofre das esmolas, e observava como a multidão depositava suas moedas no cofre. Muitos ricos depositavam grandes quantias.
42Então chegou uma pobre viúva que deu duas pequenas moedas, que não valiam quase nada.
43Jesus chamou os discípulos e disse: ‘Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. 44Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver’.

A ALEGRIA DE DAR
Ao analisarmos a natureza, encontramos um fenômeno difundido por toda a criação, desde o reino mineral até o mundo dos seres angélicos.
O Sol está sempre espalhando sua luz e seu calor sobre a Terra, beneficiando todos os seres que precisam dessa irradiação. As águas, no seu constante movimento, se evaporam e constituem nuvens que, depois de carregadas, despejam sobre o solo elementos indispensáveis para a vida. Constatamos a extraordinária variedade e a superabundância de peixes que povoam os mares e os rios para alimentar o homem, ou a riqueza de frutos que a terra lhe oferece ao longo de todo o ano.
Vemos por aí como a natureza, por assim dizer, procura dar de si. Se seus elementos fossem passíveis de felicidade, a árvore frutífera, por exemplo, teria um júbilo enorme pelo fato de produzir frutas e ofertá-las ao homem; o mar se sentiria feliz em entregar-lhe os peixes; e a alegria do Sol consistiria em estar constantemente iluminando e aquecendo a Terra e os que nela habitam. Pois bem, essa generosidade que se verifica no universo inteiro é o princípio sobre o qual se funda a Liturgia de hoje: dar, dar de si, dar-se por inteiro!
CONTRASTE ENTRE EGOÍSMO E GENEROSIDADE
Para entendermos bem o trecho evangélico recolhido pela Igreja para este domingo, de vemos levar em consideração que os Sagrados Evangelhos não foram escritos apenas como um livro comum, uma história para fazer bem às almas piedosas dos primeiros tempos do Cristianismo. Antes de tudo, eram eles uma convocação à culminância espiritual, a uma perfeição como a do Pai do Céu. Mas não só isso: eram também elemento de polêmica, uma vez que os primeiros divulgadores da Boa-nova, na sua ação apostólica, encontravam diante de si obstáculos a vencer. Quando São Marcos elaborou seu Evangelho, um desses entraves provinha de homens versados na Lei de Moisés e nas Escrituras do Antigo Testamento.
Tenhamos em vista também o seguinte: o Evangelista viveu em Roma durante muito tempo, como auxiliar de São Paulo e de São Pedro, e escrevia visando alcançar o público romano, como é opinião comum dos exegetas. Ora, nesse tempo muitos judeus residiam na capital do Império, e bom número deles estava ingressando nas fileiras cristãs. Ora, tanto os que permaneciam na sinagoga quanto os neoconvertidos (antes de terem uma conversão plena, o que não era fácil) queriam a todo o custo fazer prevalecer seus costumes e a Lei de Moisés entre os cristãos, inclusive no meio daqueles provenientes da gentiidade. Podemos comprová-lo pela leitura da Epístola de São Paulo aos Romanos, na qual ele exproba longamente os judeus da Cidade Eterna por tal postura.
Enquanto São Lucas e São Mateus não se mostram tão contundentes perante essa situação, São Marcos polemiza incansavelmente, de modo particular contra os doutores da Lei, pois estes atrapalhavam sua ação apostólica, como fica patente pelas frequentes menções feitas a eles no seu Evangelho.1
Não lhes poupando merecidas críticas, São Marcos dá destaque às discussões que tiveram com Nosso Senhor, e delas tira riquíssimas lições morais para os cristãos de todos os tempos. É o que contemplaremos no primeiro versículo deste Evangelho no próximo post.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Evangelho Solenidade de Todos os Santos Mt 5, 1-12a

Final dos comentários ao Evangelho Mt 5, 1-12a Bem aventuranças

O privilégio de ver a Deus nesta vida
8 “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.
Ao ouvir falar em “puros de coração”, pensa-se logo na virtude angélica. Porém, como explica Fillion, essas palavras “não designam exclusivamente a castidade, mas o afastamento do pecado, a isenção de toda mácula moral. O coração é aqui considerado, à maneira hebraica, como o centro da vida moral”.11
O alcance desta expressão é, portanto, bem mais amplo e profundo. O puro de coração tem todas as intenções e aspirações voltadas para o Altíssimo e para o benefício do próximo. Admirando tudo quanto é santo, nobre e elevado, transborda do desejo de fazer bem aos demais, por amor a Deus.
No esforço de descrever a íntima união dessas almas com seu Criador, recorre Bossuet a sugestivas comparações: “Um cristal perfeitamente límpido, um ouro perfeitamente refinado, uma fonte perfeitamente clara não igualam a beleza e a limpidez de um coração puro. [...] Deus Se compraz em mirar-Se nele como num belo espelho: imprime-Se nele em toda a sua beleza”.12
Seria, entretanto, um equívoco julgar que o prêmio prometido nesta bem-aventurança refere-se exclusivamente à eternidade, exigindo toda uma vida de abnegação e aridez a fim de alcançar a Visão Beatífica. Pelo contrário, como ensina São Tomás, nas bem-aventuranças Nosso Senhor promete também para este mundo a recompensa.13 E Fillion afirma que a pureza de coração confere “já nesta Terra, um começo de visão, um conhecimento mais perfeito do Deus que Se revela às almas puras”.14
Como se dará isto? Sem dúvida, por meio da graça. Pois, enquanto a impureza cega as almas para tudo quanto é elevado, quem tem um coração limpo vê Deus nesta vida através da fé, admirando os reflexos divinos nas criaturas; sobretudo, contemplando a ação da graça nas almas. É esta, aliás, uma das mais belas e altas manifestações de Deus nesta Terra.
Como se tornar um verdadeiro filho de Deus
9“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.
Todos os promotores da verdadeira paz –– que é a tranquilidade da ordem, segundo a célebre definição de Santo Agostinho15 –– serão chamados filhos de Deus.
Ora, para irradiar a paz é preciso começar por desfrutar dela no próprio interior. Isso significa não ter suscetibilidades nem ressentimentos, sabendo ceder oportunamente às exigências do próximo, ainda quando forem ou parecerem injustas, desde que não nos façam incorrer em pecado. À pratica desse princípio do modo mais radical possível nos convidam as palavras pronunciadas mais adiante pelo Senhor, no mesmo Sermão da Montanha: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica” (Lc 6, 29).
Agir assim exige verdadeiro heroísmo. Mas Cristo nos ensina que não devemos poupar meios — mesmo dolorosos — quando se trata de alcançar a harmonia entre os corações e elevá-los até o Criador.
Se quisermos, portanto, ser “filhos de Deus”, aprendamos a ser pacíficos, atendendo à bela exortação de Bossuet: “Tenhamos sempre palavras de reconciliação e de paz, para dulcificar a amargura de nossos irmãos contra nós ou contra os outros; procuremos sempre amenizar as más referências, evitar as inimizades, as friezas, as indiferenças, enfim, reconciliar os que estão em desacordo. Isso é fazer a obra de Deus e mostrar-se filhos seus, imitando sua bondade”.16
A alegria na perseguição
10 “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de Mim. 12a Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos Céus”.
Por amor à justiça, isto é, à santidade, passaremos sem dúvida nesta vida por momentos em que seremos incompreendidos e mesmo perseguidos.
Nessas circunstâncias, não devemos nos deixar abater. Lembremos, pelo contrário, que Deus é o Senhor da História e nada acontece sem sua permissão, por mínimo que seja: “Não se vendem dois pardais por uma moedinha? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai” (Mt 10, 29). O Criador tem tudo contado, pesado e medido. E age sobre os acontecimentos visando sempre, junto com sua própria glória, a salvação dos que são seus. Por isso, afirma São Paulo: “Tudo quanto acontece, concorre para benefício dos justos” (Rm 8, 28).
Em quantas ocasiões não foram os santos objeto das mais injustas perseguições, por amor à verdade? Porém, não perderam a confiança na Providência Divina, nem externaram ressentimento contra os seus perseguidores, aos quais tratavam com caridade e sem ódio pessoal, mas também com a inegável superioridade do homem que pratica a virtude, em relação a quem se deixa arrastar pelo vício.
Por isso, o próprio Deus Se encarregará de recompensá-los muito além do merecido: possuirão o Reino dos Céus, um prêmio eterno, infinitamente superior a todo sofrimento padecido nesta vida.
Convite à radicalidade do bem
A doutrina das bem-aventuranças revelou para todo sempre, como vimos, o vácuo da felicidade fundada na satisfação das paixões desregradas e na posse dos bens materiais. Pois, como ensina magistralmente o Santo Padre, “os critérios mundanos são subvertidos quando a realidade é examinada na perspectiva correta, isto é, sob o ponto de vista da escala de valores de Deus, a qual difere da escala de valores do mundo”.17
Com essas oito sentenças, porém, Cristo indicou a via para alcançar o Céu, onde veremos a Deus face a face e participaremos da própria vida divina, possuindo a mesma felicidade da qual Ele goza. E quem rege sua conduta de acordo com elas começa por antegozar espiritualmente, já nesta Terra, a felicidade eterna.
As bem-aventuranças não são, portanto, frases para serem estudadas apenas com a inteligência, de modo frio, mas sim princípios de vida a serem lidos e meditados com o coração, com o calor de alma de quem quer se pôr a caminho, seguindo os passos de Nosso Senhor.
Com uma suavidade toda divina, elas nos convidam à radicalidade na prática do bem, pois o padrão de virtude que nelas Cristo nos propõe não é outro senão Ele mesmo, o próprio Deus!
1 FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.II, p.94.
2Idem, ibidem.
3GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio Explicado. Barcelona: Casulleras, 1930, v.II, p.158.
4Idem, ibidem.
5BOSSUET. Meditations sur l’Évangile. Versailles: Lebel, 1821, p.4.
6Alguns autores opinam que a Montanha das bem-aventuranças é o monte hoje conhecido também pelo nome de Cornos de Hattin, situado a meio caminho entre Caná e Cafarnaum (cf. GOMÁ Y TOMÁS, op. cit., p.155-156).
7FILLION, op. cit., p.92.
8 BENEDETTO XVI. Gesù di Nazaret. Milano: Rizzoli, 2007, p.100-101.
9 SAN JUAN CRISÓSTOMO. Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 2007, p.275.
10 SAN AGUSTÍN. Obras ­ Homilías. Madrid: BAC, 1955, v.X, p.53.
11 FILLION, Louis-Claude. La Sainte Bible commentée. Paris: Letouzey et Ané, 1912, v.VII, p.43.
12 BOSSUET, op. cit., p.16. “Assim, pois, tudo o que nas bem-aventuranças se [...] afirma como prêmio pode ser ou a própria bem-aventurança perfeita, e nesse sentido pertence à vida futura, ou algum início da bem-aventurança, como ocorre entre os santos, e nesse sentido os prêmios pertencem à vida presente. Com efeito, quando alguém começa a progredir no exercício das virtudes e dos dons, pode-se esperar dele que chegará à perfeição de sua caminhada aqui e na pátria” (SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.69, a.2, resp.).
14 FILLION, La Sainte Bible commentée, op. cit., p.43.
15 “A paz da Cidade Celestial é a ordenadíssima e concordíssima união para gozar de Deus e, ao mesmo tempo, em Deus. A paz de todas as coisas, a tranquilidade da ordem” (De civitate Dei, lib. XIX, c.XIII).
16 BOSSUET, op. cit., p.18-19.
17 BENEDETTO XVI, op. cit., p.95.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Evangelho Solenidade de Todos os Santos Mt 5, 1-12a

Continuação dos comentários ao Evangelho Mt 5, 1-12a  Bem aventuranças

O valor do sofrimento diante de Deus
4 “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados”.
À natureza humana decaída repugnam a dor, o sacrifício e mesmo qualquer esforço. Entretanto, na segunda das bem-aventuranças enaltece Nosso Senhor o pranto daqueles que suportam o sofrimento físico e a dor moral por razões sobrenaturais, como em expiação pelos próprios pecados, ou — o que é mais nobre — em reparação pelas culpas alheias. Bem-aventuradas são as santas lágrimas desses aflitos, que tanta consolação lhes podem trazer ao ajudá-los a ver o vazio dos bens passageiros e a merecer os eternos.
Bem-aventurados serão eles também porque Deus nunca deixa de confortar, já nesta Terra, quem aceita a dor e, à imitação de Jesus Cristo, se ajoelha diante da cruz e a oscula antes de tomá-la aos ombros. Seu gozo não será pequeno, pois, como afirma São João Crisóstomo, “quando é Deus quem nos consola, embora caiam sobre nós as dores como os flocos de neve, superamos todas. Ele sempre nos dá uma recompensa superior aos nossos trabalhos”.9
A verdadeira mansidão
5 “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”.
A mansidão elogiada por Cristo neste versículo consiste, sobretudo, em ser o homem constantemente senhor de si mesmo, controlando as próprias emoções e impulsos. Ela lhe impede de murmurar contra as adversidades permitidas por Deus, e o leva a não se irritar com os defeitos dos irmãos, procurando, pelo contrário, desfazer os desentendimentos e desculpar com generosidade as ofensas recebidas.
Os mansos de coração não só evitam a discórdia com o próximo, mas empregam todos os meios para que ela não se estabeleça entre os irmãos. Suportam o peso da vida, conformando-se sempre com a vontade de Deus. Santo Agostinho faz-lhes este elogio: “Quando estão bem, louvam a Deus; quando mal, não blasfemam; nas boas obras que fazem, glorificam a Deus, e nos pecados, acusam-se a si mesmos”.10 E mais uma vez o santo Jó, com sua admirável fidelidade durante a terrível provação, ser-nos-á exemplo dessa virtude.
E qual é a terra que os mansos possuirão? A terra dos vivos: o Céu. Porém, já neste mundo, mesmo em meio a dores e tristezas, desfrutam de uma constante alegria no fundo da alma, antegozo do Reino Eterno.
As leis do espírito diferem das do corpo
6 “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”.
Ter fome e sede de justiça equivale a desejar a santidade. Jesus louva aqui a árdua batalha daqueles que, visando atingir a perfeição moral, lutam para progredir na vida espiritual, examinam com rigor sua consciência e combatem com energia os próprios defeitos.
Ora, as leis do espírito são distintas das do corpo. Quanto mais alimento espiritual recebe a alma, mais aumenta nela a apetência pelos bens eternos, porque Deus infundiu na natureza humana uma aspiração por uma felicidade sem limites. Como, então, poderão ser saciados os que “têm fome e sede de justiça”?
Nosso apetite pelos bens eternos só será perfeitamente satisfeito no Céu, onde o próprio Deus será nossa recompensa. Mas, já nesta terra, bem-aventurados são aqueles que se alimentam com fervor do Pão dos Anjos e bebem com delícias a água do Espírito oferecida por Jesus à samaritana (cf. Jo 4, 14).
Com a medida com que medirdes...
7 “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.
Por vezes, sentimos verdadeiro horror em perdoar, pois consideramos ser conforme à justiça tratar cada um estritamente segundo os seus atos e méritos.
Entretanto, o Bom Pastor nos convida aqui a desculpar as fraquezas de nossos irmãos e nos compadecer de suas misérias. Mais adiante, no próprio Sermão da Montanha, levará Ele essa doutrina até um extremo inimaginável: “Amai os vossos inimigos, e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam. [...] Fazei o bem e prestai ajuda sem esperar coisa alguma em troca. Então a vossa recompensa será grande. Sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bondoso também para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6, 27-28.35-36).
No dia do Juízo, o Redentor nos tratará da mesma forma como tivermos tratado o nosso próximo: “Com a medida com que medirdes sereis medidos” (Lc 6, 38). Quem tem misericórdia, perdoa as debilidades dos outros com facilidade, e é por sua vez perdoado, segundo o pedido feito no Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6, 12). Porque, acrescenta Jesus, “se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que está nos Céus também vos perdoará. Mas, se vós não perdoardes aos outros, vosso pai também não perdoará as vossas faltas” (Mt 6, 14-15).

Final dos comentários no próximo post

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Evangelho Solenidade de Todos os Santos Mt 5, 1-12a

Vista desde o Monte das Bem aventuranças
Acompanhe os comentários ao Evangelho Mt 5, 1-12a neste blog

No Sermão da Montanha, Nosso Senhor ensinou uma nova forma de relacionamento diametralmente oposta aos princípios e costumes vigentes no mundo antigo. À crueldade e à dureza de trato, veio contrapor a lei do amor, da bondade e do perdão, belamente sintetizada nas oito bem-aventuranças.
“Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 ‘Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. 5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. 6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de Mim. 12a Alegrai-vos e exultai porque será grande a vossa recompensa nos Céus’” (Mt 5, 1-12a).

Radical mudança de padrões no relacionamento divino e humano
Jesus proclama uma doutrina inovadora
A figura majestosa do Messias e sua surpreendente doutrina ao mesmo tempo intrigavam, impunham respeito e atraíam. Do seu olhar profundo e sereno dimanava ilimitada bondade. Atendia todos os pedidos, curava todos os doentes. Até aqueles que tocavam na orla do seu manto ou eram apenas acariciados por sua sombra, viam-se favorecidos por sua benfazeja onipotência. D’Ele os aflitos recebiam inefável consolo.
Os milagres tornavam-se mais numerosos e uma multidão cada vez maior O seguia com crescente admiração: “O povo todo ficava fascinado quando ouvia Jesus falar” (Lc 19, 48). Jamais se vira em Israel profeta semelhante.
Cativados estavam também os Apóstolos que havia algum tempo acompanhavam esse Taumaturgo dotado de tão extraordinário poder: por sua ação, cegos passaram a ver, coxos a andar, surdos a ouvir, leprosos ficavam limpos e possessos viram-se libertos. Mas julgavam erroneamente os discípulos, em consonância com o geral do povo, que Ele viera para estabelecer o predomínio de Israel sobre as demais nações da Terra. Era-lhes ainda desconhecida a verdadeira fisionomia do Reino pregado pelo Divino Mestre e as regras que deveriam regê-lo, pois, como afirma Fillion, “até então Jesus anunciara a seus compatriotas a vinda do Reino de Deus, instando-os a nele entrar, mas ainda não havia descrito em pormenores as qualidades morais que deviam adquirir para serem dignos de pertencer a ele”.1
Momento oportuno para explicitar a nova doutrina
A passagem do Evangelho aqui comentada corresponde ao momento em que Cristo começa a explicitar sua inovadora doutrina. Vários meses haviam transcorrido desde o início da sua vida pública. Encontrava-se Ele agora nas redondezas de Cafarnaum, junto ao Mar de Tiberíades, aonde tinham ido para ouvi-Lo e serem curadas “pessoas de toda a Judeia, e de Jerusalém, e do litoral de Tiro e Sidônia” (Lc 6, 17).
Acabava Jesus de escolher doze dentre seus discípulos, aos quais dera o nome de Apóstolos (cf. Lc 6, 13-16), preparando assim a fundação da sua Igreja. Era essa a ocasião propícia para apresentar de público uma suma dos ensinamentos que a Esposa de Cristo, ao longo dos séculos, haverá de guardar, defender e anunciar a todos os povos. É o que Nosso Senhor vai fazer no Sermão da Montanha, verdadeira síntese do Evangelho e píncaro da perfeição da Nova Lei. Servem-lhe de exórdio as oito bem-aventuranças, como portal magnífico de um palácio incomparável.
Neste sermão o Messias, “a título de fundador e legislador da Nova Aliança, declara a seus súditos o que lhes pede e o que deles espera, se querem servi-Lo com fidelidade”.2
Violenta ruptura com antigos costumes e preconceitos
Difícil nos é hoje, após dois milênios, compreender a novidade radical contida nessas palavras do Divino Mestre. Trouxeram elas para o mundo uma suavidade nas relações dos homens entre si, e destes com Deus, desconhecida no Antigo Testamento e, a fortiori, pelas religiões dos povos pagãos.
Afirma, a esse propósito, o Cardeal Gomá: “Não estamos hoje em condições de apreciar a transcendência desse discurso de Jesus, pois respiramos na atmosfera cristã produzida no mundo por aqueles divinos ensinamentos. [...] Precisamos remontar aos tempos dos grosseiros erros do paganismo, que os ouvintes de Jesus respiravam naquela ocasião [...] para podermos avaliar o profundo contraste entre os ensinamentos do Mestre e a cultura e sensibilidade de seus ouvintes”.3
Com efeito, as palavras de Nosso Senhor vão provocar uma completa transformação dos costumes da época, marcados pelo egoísmo, pela dureza de trato e até mesmo pela crueldade.
Elas são próprias a determinar também uma violenta ruptura com “os preconceitos dos contemporâneos de Jesus sobre o reino messiânico e o próprio Messias — já que esperavam um Messias forte e poderoso na ordem temporal, formidável guerreiro que deveria subjugar as nações e colocá-las sob a férula de Judá, tendo Jerusalém como capital gloriosa”.4
A felicidade não está no pecado
Afirma o eloquente Bossuet: “Se o Sermão da Montanha é o resumo de toda a doutrina cristã, as oito bem-aventuranças são o resumo do Sermão da Montanha”.5 Elas sintetizam, de fato, todos os ensinamentos morais dados pelo Redentor ao mundo e estabelecem os princípios de relacionamento prevalentes em seu Reino.
Ao praticá-las, o homem encontra a verdadeira felicidade que busca sem cessar nesta vida e jamais poderá encontrar no pecado. Pois, quem viola a lei de Deus no afã de satisfazer suas paixões desordenadas afunda cada vez mais no vício até se tornar insaciável. “Todo aquele que comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34), adverte Jesus.
As almas puras e inocentes, ao contrário, desfrutam já nesta Terra de uma extraordinária alegria de alma, mesmo no meio de sofrimentos ou provações.
Passemos agora a analisar cada uma das oito bem-aventuranças, vibrantes verdades cujo enunciado se sucede em majestosa cadência, com um ritmo elevado, digno, imponente, próprio da Pessoa Divina que as proclamava: “Bem-aventurados, Bem-aventurados, Bem-aventurados...”.
Os princípios morais da nova lei
“Naquele tempo: 1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-Se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los...”
Para fazer a solene proclamação de sua doutrina, não escolheu Jesus uma sinagoga, nem sequer o Templo. Proferiu essas oito magistrais sentenças ao ar livre, numa pequena meseta situada na margem noroeste do Mar de Tiberíades, perto de Cafarnaum.6
Como sublinha Fillion, “grandiosa era a cátedra da qual ia falar, em consonância com o assunto do próprio sermão”7: por teto tinha o céu; por palco, uma montanha e não existiam paredes... Diante de Si, o vasto panorama dominado pelo Mar da Galileia sugeria a imensidade do globo terrestre como auditório para aquelas palavras que, passando de região em região ao longo dos séculos, levadas pelos lábios dos Apóstolos e seus sucessores, chegaram até nós — dois mil anos depois — tão vivas como se tivessem sido pronunciadas hoje.
Pobreza material e pobreza de espírito
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
A mentalidade própria aos espíritos mundanos em todos os tempos repete: “Bem-aventurados os ricos e os poderosos, porque eles conseguem satisfazer todos os seus caprichos e apetências”. Era essa a máxima de vida dos povos pagãos da Antiguidade, e continua a ser hoje, nos ambientes em que Nosso Senhor Jesus Cristo deixou de ser o centro.
O Divino Mestre, pelo contrário, vai proclamar: “Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16, 24). Ou: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” (Lc 18, 25).
Portanto, a contraposição entre a doutrina do Homem Deus e o espírito do mundo não poderia ser mais completa! Assim, bem podemos imaginar o estupor dos que O seguiam, ouvindo-O exaltar o oposto da felicidade, segundo era entendida pela mentalidade daquela época: “Bem-aventurados os pobres em espírito”!
Tanto mais que Jesus era exemplo vivo e modelo insuperável dessa inovadora doutrina. Criador do Céu e da Terra, escolhera como berço uma manjedoura posta numa gruta fria, aquecida apenas pela presença de um boi e um burro. E após trinta anos de existência humilde e oculta, pôde dizer durante sua vida pública: “As aves têm seu ninho, as raposas têm suas tocas, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Lc 9, 58).
Cabe ressaltar, entretanto, não estar Nosso Senhor tratando aqui principalmente da pobreza material, como aponta com acuidade o Papa Bento XVI, em seu livro Jesus de Nazaré: “A pobreza da qual aqui se fala nunca é um fenômeno puramente material. A pobreza puramente material não salva, embora os desfavorecidos deste mundo possam seguramente contar de modo muito particular com a bondade divina. Mas o coração das pessoas que nada possuem pode estar endurecido, intoxicado, corrompido — interiormente cheio de cobiça, esquecido de Deus e ávido apenas de bens materiais”.8
Os “pobres de espírito” mencionados pelo Divino Mestre neste versículo não são os carentes de dinheiro, mas os homens desapegados dos bens deste mundo, sejam estes muitos ou poucos, para seguirem a Jesus Cristo.
Em meio à abundância e prosperidade, pode um rico ser pobre de espírito, pela prática da caridade e pela submissão à vontade de Deus, em função da qual administra sua riqueza. O santo homem Jó é disto um dos mais belos exemplos. Por outro lado, um pobre, revoltado com a sua condição, dominado pela inveja, pela ambição ou pelo orgulho, será um “rico de espírito” ao qual o Reino dos Céus jamais poderá pertencer.

Consiste, portanto, a pobreza de espírito na aceitação da própria contingência, na compenetração da nossa total dependência de Deus, a quem tudo devemos, e na certeza de ser a nossa existência um mero caminho para chegar até o Céu. Quem assim procede, é feliz já nesta vida, pois, estando livre de todo apego desordenado e voltado para os bens espirituais, possui de alguma maneira, pela graça, a bem-aventurança eterna.

Continua no próximo post.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52

Final dos comentários ao Evangelho Mc 10, 46-52


O mal da cegueira espiritual
A cegueira, quer seja física, quer espiritual, é um mal indolor. A primeira é involuntária quanto à origem, mas o mesmo não se dá com a outra: nesta ingressamos por culpa própria, sempre que damos largas às nossas paixões, não correspondendo às inspirações da graça e às advertências de nossa consciência. É digno de comiseração alguém que perdeu a vista, como o nosso pobre Bartimeu. Para ele, todas as belezas criadas por Deus não são senão trevas. Muito mais digno de pena é quem sepultou seu coração na obscuridade, rejeitando a luz de Deus. Para este, as verdades eternas não existem. O fogo inextinguível do inferno, as inimagináveis glórias celestes, a implacabilidade do Juízo Particular ou Final, jamais lhe passam pela mente e, portanto, não o impressionam. Poderá assistir a alguma cerimônia representando a Paixão de Nosso Senhor, de um Deus que se encarna e morre na Cruz para nos redimir, sem ocorrer-lhe algum pensamento piedoso de contrição, confiança ou gratidão. O sobrenatural não o comove, pois não passaria de uma invenção humana submersa nas trevas de sua consciência.
A fé não é mais a luz de suas ações
A perda da vista, apesar de nos impedir de nos guiarmos nos espaços físicos segundo nossas próprias deliberações e usando de nossa autonomia, inclina-nos à humildade e submissão aos outros, a confiar em seu auxílio. Por isso, quando bem aceita, ela pode ser um excelente meio de santificação. Muito pelo contrário, a cegueira espiritual priva-nos de elementos fundamentais para nossa salvação — como são as misericórdias que desprezamos — e nos faz correr terríveis riscos, enquanto acumulamos as iras de Deus.
Quantas vezes os mais cegos de Deus são aqueles que se crêem cheios de luzes...
Um cego como este do Evangelho, poderá fazer algo de útil, além de pedir esmolas? Mais uma razão de compaixão!
Entretanto, muitíssimo pior é a situação de um cego espiritual, pois a fé já não é mais a luz de suas ações; sua finalidade última apagou-se aos seus olhos. Ele se atira às inúmeras atividades e projetos de seu dia-a-dia, esfalfando-se em busca de uma reputação que não é senão fumaça, de uma riqueza que outros consumirão, de um prazer ilícito que durará pouco e lhe fará merecer um castigo sem fim, de uma saúde que terminará mal, pois seu corpo apodrecerá no fundo de uma sepultura.
Um cego de Deus ignora o poder de Jesus
A Bartimeu lhe faltava um dos elementos essenciais para enriquecer-se, por isso caiu inevitavelmente na pobreza passando a viver de esmolas. Ao cego de Deus, entretanto, é possível fazer fortuna; porém, debaixo deste ponto de vista, é ele ainda mais digno de pena: quando se fecharem definitivamente para a luz do dia seus olhos carnais, os espirituais de imediato se abrirão, mas quão tarde será, para ele, ver a grande dimensão de sua real miséria em todo o seu horror. E, tomara, não seja essa a hora do desespero.
Como vemos pelo relato de Marcos, o cego, ao saber que por ali passaria Jesus, pôs-se a gritar cheio de alegria e esperança, pois acreditava no poder do Mestre de curá-lo. Um cego de Deus ignora por completo esse poder. Mesmo o fato de, ao longo da História, Jesus ter iluminado estes ou aqueles pecadores, dos mais inveterados, levando-os à conversão, nada significa para as pessoas nas quais a luz da fé se apagou.
“Senhor, que eu veja!”
Se me analisar, com toda a honestidade de consciência, não encontrarei no fundo de minha alma alguma sombra onde a luz do sobrenatural não chega, um ou outro refolho onde não penetra a voz de Deus? Esse é o momento de eu imitar o pobre Bartimeu. O próprio Jesus continua aqui, nos tabernáculos das igrejas. Por que não aproveitar uma ocasião para d’Ele me aproximar e pedir-Lhe o milagre? Devo temer a Jesus que passa e não volta, e bradar continuamente, porque Ele ouve melhor os desejos abrasados...
Imitar a atitude de Bartimeu
Tenhamos por certo este princípio: sempre que um cego de Deus abraça o caminho da conversão, “a multidão” tenta dissuadi-lo de prosseguir, fazendo todo o possível para lhe criar obstáculos. Infelizmente, a essa “multidão” de mundanos se associa a multidão de seus próprios pecados e paixões, para fazê-lo silenciar. Também aqui é oportuno imitar a atitude de Bartimeu, ou seja, não só não ceder às pressões, como até, pelo contrário, redobrar em ardor, esperança e desejos. Dessa forma, não tardará a comprovar a realidade da convicção do Apóstolo: “Tudo posso n’Aquele que me conforta!” (Fl 4, 13).
“Senhor, que eu veja!”, deve ser o pedido de quem esteja imerso na tibieza e, sobretudo, de quem é cego de Deus. Bartimeu não pediu a fé, porque já a possuía. Sua cegueira era simplesmente física. Examinemos nossas necessidades espirituais e peçamos tudo a Jesus. Sem duvidar, aguardemos até mesmo o milagre, pois Ele nos assegura: “Tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Eu o farei” (Jo 14, 13).
A fé vai-se tornando privilégio de minorias
O número dos que sofrem de cegueira física, no mundo, é insignificante, em comparação com os cegos espirituais. A cegueira de coração atinge uma quantidade assustadora de pessoas em nossos dias. A fé vai se tornando privilégio de minorias. Há cegos não só nos caminhos da salvação, mas até mesmo nas vias da piedade. Estes levam uma vida pseudotranqüila, submersos nos perigos da tibieza; cometem faltas, mas conseguem muitas vezes, através de inúmeros sofismas, adormecer suas consciências, não experimentando mais os benéficos remorsos. Confessam-se por pura rotina, comungam sem dar o devido valor à substância do Sacramento Eucarístico, rezam sem devoção...
E — quem diria? — há cegos entre os que abraçaram o caminho da perfeição, mas deixaram de aspirar a ela, contentando-se com uma espiritualidade medíocre, esquálida e infrutuosa. Eles nada fazem para atingi-la, procurando-a onde ela jamais se encontra.
Pureza de coração
Enfim, para não ser cego de Deus, é preciso ser puro de coração. Uma das principais causas da cegueira de nossos dias é a impureza. Nosso Senhor diz no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8). Não se trata exclusivamente da virtude da castidade, mas, muito, da reta intenção de nossos desejos. Tanto uma quanto a outra vão-se tornando raras a cada novo dia, nesta era de progressiva cegueira de Deus...
São essas algumas das razões pelas quais a humanidade necessita voltar-se urgentemente para a Mãe de Deus, apresentando por meio d’Ela, ao Divino Redentor, o mesmo pedido de Bartimeu: “Senhor, que eu veja!” ²
1 Cfr. São João Crisóstomo, Comment. in Epist. ad Hebraeos, c. 7, lect. 4.
2Cf. Suma Teológica III, q. 22, a.1
3 Suma Teológica II-II q. 64 a.2 ad 3
4 Cf. Exclamaciones del alma a Dios, c. 14, in Obras completas de Santa Teresa de Jesús, Ed. Aguilar, Madrid, 1942, pp. 459-460
5 Cf. Castillo interior o las moradas — Moradas sextas c.10 in op. cit., p. 403
6 S. João Crisóstomo , Hom. 67, in Mt XX, 31 7 ) Apud São Tomás de Aquino, Catena Áurea.
7 Apud São Tomás de Aquino, Catena Áurea.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52

Continuação dos comentários ao Evangelho Mc 10, 46-52
51Tomando Jesus a palavra, disse-lhe: “ Que queres que te faça?” O cego respondeu: “Rabboni, que eu veja!” Então Jesus disse-lhe: “ Vai, a tua fé te salvou”. No mesmo instante recuperou a vista, e seguia-O no caminho.
Mais uma vez o Divino Mestre, para robustecer a fé do cego, apesar de conhecer o grande desejo de sua alma, pergunta-lhe qual era sua demanda. Bartimeu, que tanto clamara pelo Filho de Davi sem obter a visão, responde chamando-O de “Senhor” (conforme dizem Mateus e Lucas), fato suficiente para demonstrar o quanto ele acreditava na divindade de Jesus, e recebe, além de um elogio à sua fé, a recuperação da vista.
Este acontecimento foi extremamente didático e comprobatório da messianidade de Jesus. Justamente no início da sua última subida a Jerusalém, quando Ele se dirigia para a morte, um cego recupera a vista por proclamar o Filho de Davi como sendo seu Senhor...
Assim termina Orígenes os comentários das últimas palavras do Evangelho de hoje: “Também a nós, que estamos sentados próximo ao caminho das Escrituras e sabemos em que consiste nossa cegueira, se pedirmos com todo o empenho, o Senhor nos tocará, abrirá os olhos de nossas almas e afastará de nossos sentidos as trevas da ignorância, a fim de que O vejamos e sigamos, única finalidade que Ele tinha ao nos conceder a vista” (7).
No próximo post as aplicações deste evangelho  para nossa vida.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B - Mc 10, 46-52


Continuação dos comentários ao Evangelho XXX Domingo do Tempo Comum - Ano B Mc 10, 46-52,



46 Chegaram a Jericó. Ao sair Jesus de Jericó, com os seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, mendigo cego, filho de Timeu, estava sentado junto ao caminho. 47 Quando ouviu dizer que era Jesus Nazareno, começou a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”
Segundo a narração de São Marcos, Jesus encontra-se em viagem rumo a Jerusalém, deixando atrás de si Cesaréia de Filipe, ao norte da Galiléia. Como nunca perdia um só segundo nem oportunidade, Ele aproveitará esse percurso para ir instruindo seus discípulos, a fim de torná-los aptos à grande missão que lhes caberá, uma vez fundada a Igreja. Ao iniciar-se essa caminhada, uma grande multidão se junta aos discípulos, sempre desejosa de assistir a mais algum milagre, ou de ouvir as maravilhas transbordantes dos lábios do Mestre. Como primeiro ato desse trajeto, está a cura de um cego. São Mateus (20, 29-34) narra o fato como tendo se passado com dois cegos, e não somente um. São Marcos diz-lhe o nome: Bartimeu, ou seja, “filho de Timeu”. Ademais, à diferença de São Mateus, acrescenta outros dados muito interessantes: o empenho das pessoas do povo em estimular o pobre cego a se aproximar de Jesus, logo após terem ouvido que o chamava. Como também a prontidão deste, ao lançar fora seu manto e saltar procurando acercar-se de Jesus. Mateus, por sua vez, afirma ter-se dado a cura quando Jesus tocou os olhos do cego, e Lucas (18, 35-43) menciona uma forma imperiosa empregada por Ele.
A conjugação das três narrativas nos dá um quadro minucioso do acontecido. O título de “Filho de Davi”, segundo bons autores, deve-se ao fato de já, a essa altura, estar difundida entre todos a noção — e da parte de alguns até a crença — de que Jesus era, verdadeiramente, o Messias. Descarta-se, portanto, a hipótese de que o cego (ou, segundo Mateus, os dois cegos), usando essa expressão, desejasse captar a benevolência de Jesus em favor de sua cura.
Há quem levante a hipótese de serem três os milagres efetuados por Jesus naquela ocasião, inteiramente distintos, cada um deles narrado por um desses três Evangelistas. Outros, porém — e é a quase a totalidade — julgam que os dados em comum idênticos tornam impossível não se tratar de um mesmo e único milagre.
E por que Marcos e Lucas fazem referência a um só cego? Uma boa maioria dos exegetas opina ser provável que os cegos eram dois, conforme Mateus indica, mas um deles devia ser muito conhecido, a ponto de Marcos tê-lo posto em cena com seu nome próprio.
Quanto ao lugar onde se teria dado o milagre, as explicações, se bem que diversas, visam fazer uma aproximação entre os Evangelistas, concluindo em favor de um único acontecimento.
48Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele cada vez gritava mais forte: “Filho de Davi, tem piedade de mim
Quase nunca faltam a essas cenas evangélicas os aspectos carregados de cores, característicos do Oriente. Os costumes, marcados por um temperamento borbulhante e nada retraído, se refletem tanto na atitude do cego Bartimeu como na reação da multidão contra os gritos dele. É interessante percorrer os comentários tecidos a esse respeito pelos santos e padres da Igreja, como São Beda, São Jerônimo, São João Crisóstomo e outros. Este último, por exemplo, assim se exprime: “Permitia Cristo que o repreendessem para que o desejo dele se acendesse mais. Daí podemos concluir que, qualquer que seja a forma de desprezo que caia sobre nós, podemos alcançar o que pedimos, desde que nos aproximemos de Cristo com autêntico desejo” (6).
Seja como for, essa disputa entre os acompanhantes de Jesus e o cego tem um lado pitoresco, muito próprio a uma sociedade orgânica, na qual nem se chegara a sonhar com um mundo dominado pela máquina. Nela, o relacionamento humano é não só intenso, mas constitui até a essência da vida comum e quotidiana. Todos querem tirar partido da presença de um homem incomum, transbordante de sabedoria e que multiplica bondosamente os milagres por onde passa. A multidão não deseja perder a menor oportunidade de vê-lo e ouvi-lo. A comitiva, ao se deslocar, evita ao máximo os empecilhos, para apanhar todos os comentários do Mestre, e a gritaria de um cego torna difícil seguir o fio das exposições. Contudo, para Bartimeu, era a única e exclusiva chance de sua vida. Assim, enquanto uns o repreendem, mais alto ainda ele grita.
Jesus, parando, disse: “Chamai-o”. Chamaram o cego, dizendo-lhe: “Tem confiança, levanta-te, Ele te chama.” Ele, lançando fora a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus.
A certa altura, o Salvador interrompe a marcha e manda chamar o cego. Segundo Mateus, Ele mesmo toma sobre si a iniciativa de fazê-lo aproximar-se. Marcos é mais preciso: Jesus, dando ordem à multidão, ao mesmo tempo impede, implicitamente, que continuem repreendendo o pobre Bartimeu. Com tais e tantos gritos, era evidente que Cristo já o ouvira, porém agradava-Lhe aquela insistência. É bem exatamente o que se passa conosco em nossas orações. Deus quer nossa constância. A determinação de Jesus criou uma expectativa na multidão, e essa reação psicológica transformou a anterior acidez em empenho de estimular o cego a encher-se de ânimo. Este — como sói acontecer com quem perde o sentido da visão — por instinto discerniu onde estava Aquele que tinha o poder de curá-lo e, num salto, a Ele se dirigiu, pouco se importando com seu próprio manto, lançando-o de lado.
Continua no próximo post