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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48

A munificência infinita de Deus
45  Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o Sol sobre os maus e os bons e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”.
Assim como o Pai que está nos Céus “faz cair a chuva sobre os justos e injustos”, também derrama as suas graças sobre todos, inclusive sobre os miseráveis e os malfeitores. Deus criou os Anjos e os homens com o intuito de terem parte em sua felicidade absoluta. Tão grande é seu amor por nós e seu desejo de salvar-nos, que enviou seu Filho Unigênito e eterno a fim de Se encarnar e suportar os tormentos da Paixão para redimir o gênero humano e lhe abrir as portas do Céu.
Sendo esta a vontade do Pai, cabe-nos trabalhar com ardor, não apenas pela salvação de todos os que lutam neste vale de lágrimas, mas ainda acelerar, com nossas preces e sacrifícios, a libertação das almas que padecem no Purgatório.
O amor e o sinal distintivo dos cristãos
46 “Porque se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa?”
Para podermos calcular a indignação dos fariseus por serem comparados aos pagãos e cobradores de impostos, considerados tão desprezíveis, basta recordar a oração de um deles no Templo: “Graças Te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como o publicano que está ali” (Lc 18, 11).
A insuperável didática do Divino Mestre nos leva a compreender facilmente através destas duas confrontações que amar os amigos e benfeitores nada tem de extraordinário, O mérito está em querer o bem até dos que nos atacam, roubam ou injuriam.
A esse respeito, esclarece Santo Agostinho: “Só a caridade distingue os filhos de Deus dos do demônio. Persignem-se todos com o sinal da Cruz de Cristo; respondam todos: Amém; cantem todos: Aleluia; batizem-se todos; frequentem a igreja, apinhem-se nas basílicas; não se distinguirão os filhos de Deus dos do demônio a não ser pela caridade. [...] Tens tudo o que quiseres; se te falta só a caridade, de nada te aproveita tudo o que tiveres” 2
Desta forma, ao notarmos a antipatia de alguém por nós, deveríamos pensar: “E por este que vou rezar, para que Nossa Senhora lhe obtenha a graça da salvação eterna. Na aparência, ele é meu inimigo; na realidade, faz um bem enorme à minha alma, pois me ajuda a perceber que, de fato, por causa dos meus defeitos, eu teria de me olhar e de me tratar como ele me olha e me trata. Assim, eu me conheço melhor”.
O heroísmo do perdão
Jesus nos convida a segui-Lo pelas vias heroicas da caridade, da paciência e do perdão máximo, rápido e total. Por este motivo não podemos guardar ressentimento contra ninguém, mas devemos esquecer a priori qualquer ofensa pessoal. Nós, cristãos, precisamos ser um verdadeiro mar de perdão, como ensina o Apóstolo: “Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia. Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou, em Cristo” (Ef 4, 3 1-32).
Essa disposição interior que torna agradável o convívio entre os cristãos, chamava a atenção dos pagãos, nos primórdios da Igreja: “Vede como eles se amam e como estão dispostos a morrer um pelo outro”.3 Ora, passados dois mil anos de Cristandade, seria de se esperar que os ensinamentos do Divino Mestre houvessem penetrado nas instituições, nos costumes e no relacionamento humano, a ponto de ser a sociedade de hoje mais marcada pela caridade e benquerença do que foi outrora, como um vinho cujo sabor se requinta com o correr do tempo.
A meta mais ousada da História
48 “Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito!”
Jesus formula, com uma clareza insofismável, a meta e o objetivo de nossa vida: imitar o Pai celeste, modelo absoluto de santidade, adequando a Ele nossa mentalidade, inclinações e desejos. Mas como seremos perfeitos como Deus é perfeito? Por que meio chegaremos até essa suprema perfeição, impossível para nossa débil natureza? Nosso Senhor teria, então, dado um conselho impraticável? Ou seria um exagero didático? Ele poderia ter dito: “Sede perfeitos como Moisés foi perfeito, como Abraão, como Isaac, como Jacó”... Porque reportar a tão elevado modelo? Ocorre que o Filho, a Segunda Pessoa da Trindade, o Verbo incriado, igual ao Pai, assumiu nossa natureza, e, sendo Homem, como Arquétipo da humanidade, reproduziu em Si a perfeição do Pai, instando-nos a fazer o mesmo.
Com o Batismo nos é infundida a graça santificante — participação na vida divina —, acompanhada das virtudes e dos dons, permitindo-nos realizar ao modo divino aquilo que, pelas meras forças humanas, seria totalmente inatingível. Portanto, não nos contentemos em cumprir só os Mandamentos. Muito mais que isso, devemos querer assemelhar-nos a Nosso Senhor, procurando ser perfeitos como Ele, para atender ao altíssimo convite feito no Sermão da Montanha. Este é o sentido da jaculatória que encontramos na Ladainha do Sagrado Coração: “Jesus, manso e humilde de Coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso!”.4
CHAMADOS AO VERDADEIRO HEROÍSMO
A vida sobrenatural em nós é passível de crescimento, na medida em que rezemos, nos esforcemos na prática da virtude evitando as ocasiões de pecado e frequentemos os Sacramentos. Mais que em outras épocas históricas, vivemos cercados de perigos que ameaçam nossa perseverança. Para resistir a todas essas solicitações do demônio, do mundo e da carne, é indispensável alimentar um grande desejo de alcançar o heroísmo da perfeição.
No Céu nos está reservado um lugar que poderemos ocupar com mais ou menos brilho, dependendo da fidelidade com que busquemos ser “perfeitos como o nosso Pai celeste é perfeito”. A conhecida máxima de Paul Claudel, “a juventude não foi feita para o prazer, mas sim para o heroísmo”,5 na realidade está incompleta, pois o heroísmo em matéria de virtude não é uma obrigação exclusiva dos jovens, mas de todos os homens, sem exceção.
Edificantes exemplos
Estas disposições, nós as encontramos em abundância na vida dos Santos. Certa vez, São Francisco de Sales, já sendo Bispo de Genebra, se deparou com um nobre que o cumulou das maiores ofensas, às quais ele nada respondeu, guardando um silêncio cheio de doçura e serenidade. Após a saída do visitante, um sacerdote que presenciara a cena perguntou a São Francisco por que não reprimira o insolente com firmeza. “Meu padre” — respondeu o Santo — “fiz um pacto com a minha língua, pelo qual ela se calará enquanto meu coração estiver tomado e não replicará jamais a nenhuma palavra capaz de me provocar cólera” .6 Como era a sua pessoa que estava em jogo, ele jugulou o amor-próprio e conservou-se impassível. Dias depois, o culpado, comovido com a caridade do Bispo, veio em lágrimas pedir-lhe perdão. 7 E assim que devemos ser!
Disso deu exemplo também o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — aliás, grande admirador de São Francisco de Sales —, com quem o Autor deste artigo conviveu durante quase quarenta anos. Ele se mantinha permanentemente no espírito do Evangelho, mesmo diante de sofrimentos causados por pessoas próximas. Devido à restrição de alguns de seus movimentos, em consequência de um acidente automobilístico, precisava ele de auxílio para alguns atos da vida cotidiana. Seu inteiro desapego levava-o a nem sequer escolher as roupas a serem usadas, deixando a outros tal tarefa. Por vezes a escolha inadequada o levava a usar um terno leve em um dia frio ou um terno de inverno em tempo de calor, o que ele aceitava, enfrentando os incômodos sem jamais deles se queixar.
Não era raro, quando alguém lhe pedia um encontro, que ele não determinasse o lugar da reunião, mas mandasse indagar à pessoa onde gostaria de ser atendida. Em certa ocasião, Dr. Plinio recebeu em sua residência, às seis horas da tarde, alguns visitantes chegados do exterior, e estes ficaram tão entretidos e encantados na conversa com o anfitrião que às onze horas da noite ainda não se haviam retirado. Em nenhum momento Dr. Plinio lhes dava a entender o avançado da hora, pois, se não estava comprometida a Causa Católica, ele, com grande mansidão e cordura, procurava se adaptar aos outros, fazendo-lhes a vontade.
Ao admirar tais fatos, não podemos nos esquecer de que o verdadeiro heroísmo da virtude é inseparável da entrega completa nas mãos de Deus, tendo consciência de que qualquer ato bom vem da graça, e não da natureza humana. Nós também somos chamados a seguir este caminho: ser perfeitos como o deseja o Pai celeste, cujo auxilio para tal não nos há de faltar!
1 Cf CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. In: Revista Arautos. Fev 2011. n.110. p.10-17.
2) SANTO AGOSTINHO. In Epistolam bannis ad Parthos tractatus decem. Tractatus g n.7. In: Obras. Madrid: BAC, 1959, v.XVIII, p.269.
3) TERTULIANO. Apologeticum, XXXIX: ML 1,471.
4) CONGREGATIO DE CULTU DIVINO ET DISCIPLINA SACRAMENTORUM. Compendium Eucharisticum. Città dei Vaticano: LEV 2009, p.411.
5) CLAUDEL, Paul; RIVIERE, Jacques. Correspondance. 1907-1 91 4. Paris: Pion, Nourrit et Cie, 1926, p.13.
 6)HAMON, André-Jean-Marie. Vie de Saint Fran çois de Sales, Evêque et prince deGenève. Paris: Jacques Lecoffre et Cie, 1858, t.II, p.161.
7) Cf. Idem, p.295-296.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48


CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48
Por este prisma, oferecer a outra face suporia induzir o agressor a cometer mais um pecado, em vez de conduzi-lo a cair em si. Ao interpelar seu algoz, na realidade Ele procurava o bem daquela pobre alma, dando-lhe oportunidade de reparar o seu erro. Embora o infeliz provavelmente não tivesse noção de ter esbofeteado o próprio Deus, nem por isso sua censurável brutalidade deixava de ser falta grave contra o bem e a justiça. Com sua resposta serena, Nosso Senhor tentava pôr a consciência do agressor em ordem.
Desapego dos bens materiais
40 “Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!”
Naquele tempo era comum a posse de várias túnicas, mas só um ou dois mantos. Este último era reputado indispensável, o traje por excelência, mais valioso do que a própria túnica. Com efeito, vemos a preocupação de São Paulo em pedir a Timóteo, em uma de suas epístolas, a capa que havia deixado “em Trôade na casa de Carpo” (II Tim 4, 13). Segundo a Lei judaica, quem tomava o manto do próximo como penhor de empréstimo, não podia retê-lo até o dia seguinte e estava obrigado a devolvê-lo antes do pôr do Sol (cf. Ex 22, 26), porque faria muita falta ao proprietário. Assim, ao dizer que entreguemos “também o manto” a quem nos quiser tomar a túnica, Nosso Senhor nos recomenda o mais completo desapego dos bens terrenos e que nossas almas estejam livres de qualquer volúpia de posse.
Combate ao egoísmo
41 “Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele!”
Às vezes, os soldados romanos ou outros funcionários do governo requisitavam a ajuda de alguém para lhes servir de guia ou para outro trabalho, como aconteceu a Simão de Cirene, “que voltava do campo, e impuseram-lhe a Cruz para que a carregasse atrás de Jesus” (Le 23, 26). Naturalmente, quando um imprevisto semelhante ocorria, muitos se queixavam e até se recusavam a atender ao pedido. Para nos ensinar o valor da caridade, diz Nosso Senhor: “Caminha dois quilômetros com ele!”. Ou seja, desde que esteja a seu alcance, faça de bom grado até mais do que lhe for solicitado.
O valor da generosidade
42 “Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado”.
No Antigo Testamento encontramos vários elogios a quem empresta: “jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade” (Sl 36, 25-26); “Feliz o homem que se compadece e empresta” (Sl 111, 5). Jesus, ao lembrar aos seus ouvintes esta verdade, demonstra que, de fato, não veio para abolir a Lei e os profetas, mas para lhes dar pleno cumprimento (cf. Mt 5, 17).
Então, como deve ser interpretado este versículo? É preciso que nós cedamos sempre e demos tudo o que nos pedirem? Se este princípio fosse transformado em lei, a sociedade tornar-se-ia um caos em razão de incontáveis abusos. Não pode ser esta, portanto, a intenção de Nosso Senhor. Deseja Ele que nos esqueçamos de nós mesmos, preocupando-nos com as privações alheias, e que estejamos limpos de qualquer interesse e pragmatismo. Pelo contrário, o egoísta, aquele que vive fechado em si, jamais toma a iniciativa de auxiliar o necessitado, e se alguém lhe implora um favor, logo procura esquivar-se.
O preceito do amor universal
43 “Vós ouvistes o que foi dito: marás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!”
Quando, posto à prova, o Divino Redentor perguntou ao doutor da Lei o que nela estava escrito (cf. Lc 10, 25-26), este logo respondeu de maneira acertada, citando os Livros do Deuteronômio e do Levítico: ‘Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5) e a “teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 18). Conheciam os judeus perfeitamente o preceito do amor universal, todavia consideravam como “próximos” apenas os seus compatriotas, enquanto os gentios e os pagãos eram tidos como inimigos, merecedores de desprezo e ódio.
Verdadeiro Legislador, Nosso Senhor Jesus Cristo vai retificar as interpretações falseadas da Lei de Moisés, que a alteravam e empobreciam, para dar nova plenitude aos Mandamentos e ensinamentos antigos. Como já tivemos ocasião de comentar,1 ao confrontar a expressão “Vós ouvistes...” com a afirmação “Eu vos digo...”, do versículo seguinte, Ele mostra quão vazia é, em contraposição ao Evangelho, a moral das exterioridades criada pelos fariseus. Falando em primeira pessoa, Ele realmente“ensinava como quem tinha autoridade e não como os escribas” (Mt 7, 29).
44 “Eu, porém vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem!”
Segundo a Nova Lei, os discípulos d’Aquele que é “manso e humilde de coração” (Mt 11, 29) não deverão amar menos os que os aborrecem, perseguem e caluniam do que os que os estimam, exaltam e abençoam. Se queremos ser filhos de Deus, precisamos ter uma completa isenção de ânimo em relação aos inimigos e rezar por eles. A glória de Deus exige que procuremos fazer o possível para a conversão de todos, imitando o sublime exemplo de Jesus no alto da Cruz. Qual foi sua primeira palavra, pronunciada em relação aos que O crucificavam? “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Le 23, 34).
Por certo, não se deve ser indolente e permitir aos adversários da Igreja agirem livremente contra Ela, implantando a iniquidade na Terra. Se é obrigação amar os inimigos, é mister também odiar o pecado! Cumpre, pois, pedir a intervenção divina para fazer cessar o mal e empregar todos os meios — sempre conforme a Lei de Deus e a dos homens — para que este não prevaleça no mundo.
Continua no próximo post.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48

EVANGELHO VII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - 2014 - Mt 5, 38-48
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Vós ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’  Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! 40 Se alguém quiser abrir um processo para tomar a tua túnica, dá-lhe também o manto!  41 Se alguém te forçar a andar um quilômetro, caminha dois com ele! 42 Dá a quem te pedir e não vires as costas a quem te pede emprestado.  Vós ouvistes o que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!’ Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 1 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o Sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e injustos. 46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? ‘ E se saudais somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 38-48).
COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 
A IMPORTÂNCIA DO SERMÃO DA MONTANHA
No Evangelho se São Mateus o Sermão da Montanha ocupa três capítulos inteiros — do quinto ao sétimo —, e a Santa Igreja de tal forma valoriza esta pregação do Divino Mestre que lhe destinou seis domingos consecutivos do presente Ciclo Litúrgico, a fim de nos permitir considerá-la com maior profundidade e proveito espiritual. Assim, em domingos anteriores pudemos admirar a beleza das oito Bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-11), recebemos o convite de sermos sal e luz para o mundo (cf. Mt 5, 13-14) e consideramos as palavras de Jesus sobre o pleno cumprimento que Ele veio dar à Lei de Moisés (cf. Mt 5, 17). No próximo domingo veremos a impossibilidade de se servir, ao mesmo tempo, a Deus e às riquezas (cf. Mt 6, 24) e, por fim, no 9 Domingo, Nosso Senhor nos alertará sobre o risco de se construir a casa sobre a areia (cf. Mt 7, 24-27).
É no Evangelho deste 7º Domingo do Tempo Comum, entretanto, que se encontra o cerne de todo o Sermão da Montanha, o qual nos indica a via segura para atingirmos a santidade. No que consiste ser santo? Em alcançar a ousada meta traçada pelo Divino Mestre: “Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”.
A AURORA DE UMA NOVA ERA NO RELACIONAMENTO HUMANO
No Paraíso Terrestre, Adão e Eva possuíam a graça santificante, as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, com os quais participavam intrínseca e formalmente da vida divina. Gozavam, ademais, de um equilíbrio interno perfeito e não tinham apetência alguma desregrada, porque, em virtude do dom preternatural de integridade, suas potências inferiores estavam submetidas à razão, e esta a Deus. Ao pecar eles perderam — e com eles toda a humanidade — esse feliz estado de justiça original.
O homem passou a enfrentar, em consequência, uma tremenda luta interior provocada pela inclinação para o mal. E uma das manifestações dessa desordem é o amor-próprio exacerbado, com o decorrente desejo de vingança, de retaliação diante de qualquer ofensa, como evidencia um antigo dito alemão: Schadenfreude ist die beste Freude — A alegria por ver a desgraça alheia é a melhor das alegrias.
Como veremos neste Evangelho, Nosso Senhor modificou completamente tal sistema cruel e egoísta de encarar o relacionamento humano.
No Cristianismo, a vingança pessoal fica banida
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 38 “Vós ouvistes o que  foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ 39 Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado!  Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!”
Já tivemos ocasião de explicar como a lei de talião vigorava na Antiguidade. Podemos encontrá-la no Código de Hamurabi — escrito por volta de 1750 a.C., na Babilônia —, tendo sido, inclusive, incorporada ao Direito Romano. Vale recordar vir o termo talião do latim talis, significando tal ou igual. Ou seja, o revide deveria ser proporcionado à ofensa. Em certo sentido, compreende-se que fossem estabelecidas normas como esta, por se tratar de povos rudes habituados ao uso da força, entre os quais não era fácil fazer prevalecer o direito e a justiça. Na realidade, a lei de talião, ao promulgar a equivalência do castigo em relação ao crime cometido, moderou as vinganças desmesuradas tão frequentes na época.
Também a legislação mosaica a empregava, como lemos no Livro do Exodo: “urge dar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe” (21, 23-25). Se bem que, no início, a aplicação desta lei competisse apenas à legítima autoridade, mais tarde, com a decadência dos costumes, os particulares começaram a fazer justiça pelas próprias mãos e segundo seu critério, praticando atrozes represálias contra os adversários. E, pois, para premunir seus discípulos contra sentimentos de rancor que Nosso Senhor afirma: “se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda!”.

Ora, ouvindo estas palavras, uma pergunta aflora ao espírito: como entender tal preceito, uma vez que Ele mesmo agiu de outro modo ao ser esbofeteado por um soldado na casa de Anás? Em vez de oferecer a outra face, replicou: "Se falei mal, prova-o; mas se falei bem, por que Me bates?" ( Jo 18, 23)
O Redentor veio implantar uma mentalidade nova. Ele quer que o egoísmo seja eliminado de nosso interior, a ponto de não reagirmos por amor-próprio quando alguém nos ofender ou esbofetear injustamente, mas considerarmos, antes de tudo, o ultraje feito a Deus pela violação do seus Mandamentos.
Continua no próximo post.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Evangelho – VI Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014 – Mt 5, 17-37

Continuação dos comentários ao Evangelho  6º Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014

Uma concessão temporária em desacordo com a Lei Natural
31 Foi dito também: ‘Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio’. 32 Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério”.
 Moisés estabeleceu no Deuteronômio que “se um homem toma uma mulher e se casa com ela, e esta não lhe agrada, porque descobriu nela algo inconveniente, ele lhe escreverá um atestado de divórcio e assim despedirá a mulher” (Dt 24, 1). Ora, as interpretações laxistas dessa passagem bíblica deram margem a escandalosos abusos, a ponto de ser o divórcio, segundo o Cardeal Gomá, “um mal gravíssimo do povo judeu, no tempo de Jesus”.18
Com efeito, explica Fillion: “As palavras ‘algo inconveniente’, utilizadas pelo Deuteronômio, eram de si vagas. Mas tinham recebido de Hillel e dos de sua escola um interpretação escandalosa, que abria de par em par as portas para a paixão. Admitiam que a mulher, mesmo fidelíssima, podia ser despedida por qualquer motivo ou, digamos melhor, por qualquer frívolo pretexto: um prato mal preparado, a vista de uma mulher mais formosa — atreviam-se a dizer os rabinos — eram razão para o divórcio”.19
Acrescia-se a isto o fato de o divórcio não ser conforme à Lei Natural.20 Como mais adiante afirmará o próprio Nosso Senhor, tratava-se de uma concessão temporária feita por Moisés devido à dureza de coração dos hebreus, “mas não foi assim desde o princípio” (Mt 19, 8).
Comenta a este propósito São Cromácio de Aquileia: “Com razão, nosso Senhor e Salvador, eliminada aquela permissão, restaura agora os preceitos de sua antiga constituição. Ordena, pois, conservar como lei indissolúvel a união do matrimônio casto, mostrando que a lei conjugal estava instituída originariamente por Ele”.21
A fé elimina o mau costume de jurar
33 “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. 34 Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela terra, porque é o suporte onde apoia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. 36 Não jures tampouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo”.
A Lei de Moisés, afirma o padre Tuya, “proibia expressamente o falso juramento, mas, ressalvado isso, a casuística rabínica fez um prodígio de subtilezas e distinções para justificar os juramentos”.22 No tempo de Jesus, o abuso de jurar a qualquer propósito alcançara um grau inacreditável, e isso O levou a condenar expressamente, neste Sermão da Montanha, todo tipo de juramento: “Não jureis de modo algum”. Os três versículos do sintético texto de São Mateus, acima transcritos, indicam bem a gravidade desse mal.
Ocorria que, levados pelo orgulho, julgaram os fariseus haver maior honra e mérito em “fazer todas as coisas por Deus, obrigando-se por juramento”; e do preceito “não tomarás o nome de Deus em vão” deduziram, por uma interpretação forçada: “logo, tomarás o nome de Deus sempre que seja como garantia de algo que não seja falso”.23
Entre os cristãos, pelo contrário, devem reinar a sinceridade e a confiança, fruto da retidão de almas habitualmente em estado de graça, conforme ensina Santo Hilário de Poitiers: “A fé elimina o costume de jurar. Fundamenta na verdade a atividade de nossa vida e, rechaçando a inclinação para mentir, prescreve a lealdade tanto no falar como no ouvir. [...] Portanto, quem vive na simplicidade da fé não precisa recorrer a juramentos”.24
“Aprendei a chamar de pecado o pecado”
37 “Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno”.

Nossa vida deve ser um perpétuo “sim” a tudo quanto Cristo espera de nós, e um firme “não” às propostas e sugestões do demônio. A isso nos convida o Papa João Paulo II: “Aprendei a pensar, a falar e atuar segundo os princípios da simplicidade e da clareza evangélica: ‘Sim, sim; não, não’. Aprendei a chamar de branco ao branco, e preto ao preto – mal ao mal, e bem ao bem. Aprendei a chamar pecado ao pecado, e a não lhe chamar libertação e progresso, ainda que a moda e a propaganda fossem contrárias”.25
Conclusão no próximo post.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Evangelho – VI Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014 – Mt 5, 17-37

Continuação dos comentários ao Evangelho  6º Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014
JESUS CONDENA A MORAL FARISAICA
Nos versículos seguintes, Nosso Senhor utiliza várias vezes as expressões “Vós ouvistes...” e “Eu vos digo...” para confrontar a moral de exterioridades, praticada pelos fariseus, com a verdadeira moral. Cristo, Ele mesmo, é a Palavra eterna, posta aqui em contraposição à palavra dos fariseus. A Lei antiga e imutável vai ser levada agora até as últimas consequências, denunciando as interpretações errôneas daqueles que se apresentavam diante do povo como “mestres” infalíveis.
Participação no pecado de homicídio
21 “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’. 22 Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: ‘patife!’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de ‘tolo’ será condenado ao fogo do inferno. 23 Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e aí te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa a tua oferta aí diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta”.
Os fariseus consideravam o homicídio um pecado gravíssimo, mas não reputavam ser falta moral encolerizar-se com o irmão, ou dizer-lhe toda espécie de desaforos.
Nosso Senhor mostra-lhes que quem assim procede também será réu no dia do Juízo, pois, ao se deixar levar deste modo pelo ódio, ele já encetou as vias conducentes ao homicídio, participando em certa medida desse crime e merecendo por isso análogo castigo.
Mais ainda. Com sua palavra e exemplo, ensinou Jesus que na Nova Aliança o relacionamento entre os homens deve, pelo contrário, pautar-se pelo respeito, consideração e estima de forma a não dar ocasião a qualquer queixa recíproca.
Preparemo-nos para o dia do Juízo
25 “Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão.
26 Em verdade Eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo”.
O “adversário” de que fala Nosso Senhor neste versículo simboliza, sob certo prisma, Ele mesmo: o Bem substancial do qual nos tornamos inimigos ao pecar.17 O mais necessário e urgente, portanto, é procurar primeiro nos reconciliar com Ele, reconhecendo as nossas faltas, pedindo perdão por elas e fazendo firme propósito de doravante não nos desviarmos das retas vias do Redentor. Pois, cedo ou tarde, terminará nossa peregrinação terrena e compareceremos diante do Supremo Juiz, que pronunciará uma sentença justíssima e inapelável. Se nesse dia nosso divino Adversário ainda tiver algo a declarar contra nós, a dívida será saldada, na melhor das hipóteses, no fogo do Purgatório, do qual não se sai sem pagar até o último centavo.
Trata-se, portanto, de agir com total integridade no caminho rumo ao derradeiro julgamento. De nada valerão racionalizações com as quais burlamos nossa consciência, porque jamais será possível ludibriar a Deus. Ele está dentro de nós e nós estamos dentro d’Ele. Tudo se faz em sua presença, e todos os nossos atos virão à tona no dia do Juízo Final para serem conhecidos pela humanidade e pelos anjos.
Vigilância e fuga das ocasiões
27 “Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. 28 Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração.
29 Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30 Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno”.
A Lei de Moisés condenava o adultério e castigava-o com a morte (cf. Lv 20, 10). Mas a moral farisaica, fundada em ritos e exterioridades, em nada se importava com a lascívia dos olhares ou dos maus desejos.
“Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”: refere-Se aqui Nosso Senhor ao nono Mandamento do Decálogo, o qual condena também o pecado interior: “Não cobiçaras a mulher do teu próximo” (Dt 5,21).

Logo a seguir, o Divino Mestre frisa a radicalidade com que devem ser praticados os Mandamentos, exortando-nos a levar até os últimos extremos o princípio da fuga das ocasiões de pecado. “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), dirá Ele no Horto das Oliveiras. A oração é indispensável, mas não suficiente: é também necessário vigiar e afastar-se completamente daquilo que conduz ao pecado, sobretudo em matéria de castidade.
Continua no próximo post

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Evangelho – VI Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014 – Mt 5, 17-37

Continuação dos comentários ao Evangelho  6º Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014


Cristo é a plenitude da Lei
17 “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”.
De tal forma Jesus abstraia de algumas normas farisaicas, que muitos poderiam imaginar ter vindo Ele revogar a Lei mosaica, substituindo-a por outra.
Os Doutores da Lei, por exemplo, proibiam o contato com os pecadores e publicanos, enquanto o Divino Mestre ia jantar em casa deles. Rompia também os preceitos farisaicos do sábado, permitia que seus discípulos omitissem as abluções rituais antes da refeição e afirmava não estar a impureza nos alimentos, mas sim no coração. Tudo isso poderia dar a impressão de ser Ele um laxista disposto a abolir as antigas práticas, excessivamente rigorosas.
O Decálogo é um reflexo do Criador
Sem ignorar essa objeção dos seus ouvintes, começa Jesus por mostrar-lhes não ser a Boa Nova “uma doutrina de facilidades e uma religião a preços promocionais, menos ainda uma anarquia ou um rompimento revolucionário com o passado de Israel”.9 Pelo contrário, Ele vai edificar o Evangelho “sobre os antigos fundamentos, e da Lei divina nada passará, a menos que se diga que um botão de rosa acaba quando a flor desabrocha, ou que um esboço traçado a lápis é suprimido quando a pintura definitiva vem completá-lo, fixá-lo para sempre”.10
Em que consiste, então, o “pleno cumprimento” anunciado pelo Messias?
A antiga Lei era, segundo São Tomás, a “da sombra”, pois apenas “figurava com alguns atos cerimoniais e prometia por palavras” a justificação dos homens.11 A nova, entretanto, é a “da verdade”, porque realiza em Cristo tudo quanto a Lei antiga prometia e figurava. Ou seja, a Lei nova realiza a antiga enquanto supre o que faltara a esta.12
Nosso Senhor não é só o Autor da Lei, mas também a Lei viva. Assim como dizemos que “o Verbo de Deus Se fez carne”, podemos afirmar que “a Lei de Deus Se fez carne e habitou entre nós”. No Divino Mestre se encontram os Dez Mandamentos no estado de divindade, pois, por exemplo, o que fez Ele na sua vida terrena senão praticar a todo o momento o Primeiro Mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas”?
Nessa perspectiva, fácil é vermos no Decálogo um reflexo do Criador, compreendermos a beleza que existe nos seus preceitos e acatá-los com amor, de modo a criar em nossa alma a aspiração de cumpri-los com integridade, como meio de nos aproximarmos de Deus.

Decálogo e moral de situação
18 “ Em verdade, Eu vos digo; antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra”.
Os adeptos da chamada “moral de situação” defendem a mutabilidade dos princípios éticos em função do contexto no qual são eles aplicados. Assim, segundo essa filosofia, se os costumes evoluem ao longo dos tempos, o mesmo deve ocorrer com as normas morais. Ou então, mesmo admitindo serem elas universais e perenes, deve-se evitar sua aplicação de forma absoluta nas situações concretas, reduzindo seu valor ao de meras orientações a serem ponderadas em função das circunstâncias do momento.13
Ora, a Lei sintetizada nos preceitos do Decálogo é absoluta e permanente, conforme ensina o Catecismo da Igreja Católica: “Visto que exprimem os deveres fundamentais do homem para com Deus e para com o próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, obrigações graves. São essencialmente imutáveis, e sua obrigação vale sempre e em toda parte. Ninguém pode dispensar-se deles”.14

Portanto, aquilo que era pecado quando Adão e Eva saíram do Paraíso, sê-lo-á também até o último dia, quando for morto o Anticristo e vier o fim do mundo.
O pecado de escândalo
19 “Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino dos Céus”.
Ora, pior que desobedecer aos preceitos da Lei divina é criar ou propagar uma doutrina que convide a transgredi-los. Quem assim procede perde, sem dúvida, a graça de Deus e, caso não se emendar, “será considerado mínimo no momento do Juízo; ou seja, será reprovado, será o último. E o último cairá inexoravelmente no inferno”.15
A “justiça” dos fariseus
20 “Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”.
Os escribas e fariseus conheciam perfeitamente a Lei e sabiam pesar cada ato em função dela. Apresentavam-se como a “lei viva”, mas era justamente isto o que não se podia afirmar deles.
Como já foi dito acima, sua justiça fundava-se nas exterioridades. “Quanto ao repouso sabático, haviam eles multiplicado as interdições, entrando nos mais ínfimos detalhes. Sobre a questão das impurezas, deram livre curso à imaginação e acrescentaram à legislação mosaica as mais minuciosas prescrições”.16

Jesus nos adverte aqui ser indispensável, para entrar no Reino dos Céus, praticar uma virtude “maior” que a dos fariseus e mestres da Lei. Ou seja, não se prender às exterioridades, nem fazer enganosas racionalizações, mas cumprir de fato em sua integridade, amorosamente, os Dez Mandamentos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Evangelho – VI Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014 – Mt 5, 17-37

Comentário ao Evangelho – 6º Domingo do Tempo Comum – Ano A – 2014
 Evangelho Mt 5, 17-37
“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 17 ‘Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18 Em verdade, Eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra.
19 Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino dos Céus. 20 Porque Eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21 Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal’. 22 Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: ‘patife!’ será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de ‘tolo’ será condenado ao fogo do inferno. 23 Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e aí te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa a tua oferta aí diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. 25 Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26 Em verdade Eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.
27 Ouvistes o que foi dito: ‘Não cometerás adultério’. 28 Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. 29 Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30 Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno.
31 Foi dito também: ‘Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio’. 32 Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério.
33 Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso’, mas ‘cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. 34 Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela terra, porque é o suporte onde apoia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei.
36 Não jures tampouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. 37 Seja o vosso ‘sim’: ‘Sim’, e o vosso ‘não’: ‘Não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno’” (Mt 5, 17-37).



O verdadeiro cumprimento da Lei está no que dizem os fariseus?
A Liturgia deste domingo nos mostra que o Messias não veio abolir nem diminuir a Lei, mas sim dar-lhe pleno cumprimento. Ora, diz-nos São Paulo que ninguém se justifica pela prática da Lei, mas só pela fé em Jesus Cristo. Como resolver essa aparente contradição?

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP

O pecado e a lei
No Paraíso Terrestre, o homem refletia de modo admirável o Criador na perfeita harmonia reinante entre Fé e razão, vontade e sensibilidade. A Fé iluminava o entendimento, e este governava uma vontade inteiramente equilibrada, contra a qual a concupiscência não se revoltava, pois no primeiro homem — ensina São Tomás — “a alma estava submetida a Deus, seguindo os preceitos divinos, e também a carne estava submetida em tudo à alma e à razão”.1
Gozavam ainda nossos primeiros pais do dom de integridade, pelo qual sua alma tendia ao mais elevado e tinha propensão para escolher o bem. A ausência de conflitos entre as diversas partes desse microuniverso chamado homem — mineral, vegetal, animal e espiritual — outorgava-lhe a felicidade e lhe proporcionava toda a facilidade para cumprir a Lei Natural.
Ora, com o pecado, Adão e Eva perderam esse dom, a harmonia na qual se encontravam, estabelecida graças à justiça original, foi destruída; e rompeu-se o domínio das faculdades espirituais sobre o corpo.2 A carne, afirma São Tomás de Aquino, “passou a ser desobediente à razão”,3 e cada uma das partes que compõem o homem quis fazer valer sua própria lei. A desordem introduziu-se em nosso interior.
Necessidade de preceitos claros e insofismáveis
Deus implantou na alma humana uma luz intelectual pela qual o homem conhece que o bem deve ser praticado e o mal, evitado. Essa luz — denominada sindérese pela Escolástica — não se apagou com o primeiro pecado, mas permanece em nossa alma. Conforme afirma o Concílio Vaticano II, o homem “tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus”,4 a Lei Natural.
E como nosso espírito é governado por uma lógica monolítica, não conseguimos praticar qualquer ação má sem procurar justificá-la de alguma maneira. Por isso, para poder pecar, o homem recorre a falsas razões que sufocam sua reta consciência e levam o entendimento a apresentar à vontade o objeto desejado como um bem. É essa a origem dos sofismas e doutrinas errôneas com os quais procuramos dissimular nossas más ações.
À vista disso, tornou-se indispensável — além do selo impresso por Deus no mais íntimo das nossas almas — a existência de preceitos concretos a lembrar-nos de forma clara e insofismável o conteúdo da Lei Natural.5 São eles os Dez Mandamentos entregues por Deus a Moisés no monte Sinai.6
Com efeito, de forma muito sintética, compendia o Decálogo as regras postas por Deus na alma humana. Deus “escreveu em tábuas” o que os homens “não conseguiam ler em seus corações”, afirma Santo Agostinho.7 E o fato de ter sido gravado em pedra — elemento firme, estável e duradouro — simboliza o caráter perene da sua vigência.
Os fariseus deturpam a Lei de Moisés
Face a toda norma jurídica, há sempre duas correntes: a dos laxistas que, em nome da “moderação”, justificam sua inobservância com todo gênero de ardis e racionalizações; e a dos exagerados, apreciadores da lei pela lei, abstraindo do seu verdadeiro espírito e do seu vínculo com o Legislador.
Na segunda categoria estavam os escribas e fariseus. Negligenciavam o cumprimento dos mais fundamentais preceitos do Decálogo, mas acrescentaram à Lei mosaica, ao longo dos tempos, numerosas obrigações e regras, levando sua prática a extremos ridículos. Ora, essa Lei, escreve Fillion, “deveria ser para os israelitas um privilégio, e não um fardo; entretanto, por obra dos fariseus e das numerosas prescrições coligidas por eles, pesava de modo opressivo sobre os ombros dos judeus”.8

Julgando-se os únicos donos da verdade, os Doutores da Lei serviram-se de sua autoridade para criar uma moral baseada nas exterioridades, enquanto o orgulho, a inveja, a ira e outros vícios borbulhavam sem freio em seus corações. Mereciam, portanto, a terrível censura de Nosso Senhor: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, e deixais de lado os ensinamentos mais importantes da Lei. Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais o copo por fora, mas por dentro estais cheios de roubo e cobiça. Serpentes! Víboras que sois! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23, 23.25.33).
Continua no próximo post.