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segunda-feira, 5 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
Os ladrões de almas...
8”Todos aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram”.
Neste versículo, Jesus estabelece uma distinção muito clara entre o que Ele faz pelas ovelhas e o modo de agir dos bandidos. Através dos patriarcas e dos profetas, Deus revelara ao povo eleito a Religião verdadeira. No entanto, quando o Redentor veio ao mundo, seus representantes — perdido o desejo de salvar as almas — a desviaram daquele rumo inicial, só se preocupando em manter sua posição de prestígio na sociedade. Tais eram os fariseus, verdadeiros mercenários que, ao invés de proteger o rebanho, o oprimiam, transmitindo-lhe uma doutrina deturpada e egoísta, pela qual exigiam o cumprimento dos atos exteriores e desprezavam “os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade” (Mt 23, 23). Ora, o Divino Mestre expunha a verdade e mostrava como deveria ser o autêntico trato entre os ministros de Deus e o povo, contrário ao que os fariseus preconizavam com suas práticas. Cada palavra de Nosso Senhor soava como uma acusação à atitude que eles tomavam, recusando-se a aceitar sua mensagem e a Redenção que lhes oferecia. Assim, os fariseus não só desempenhavam o papel de ladrões, como também fechavam a porta do redil às ovelhas: “Vós fechais aos homens o Reino dos Céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar” (Mt 23, 13).
É possível que também nós nos deparemos com quem se diga pastor, mas na realidade não o seja. São mercenários gananciosos, que vivem à busca de dinheiro, mais preocupados com sua subsistência e com o acúmulo de riqueza do que com o bem das almas. Cabe-nos rezar para estarmos concernidos no exemplo das ovelhas que são dóceis à voz do pastor e não escutam os bandidos. Permaneçamos sempre atentos para saber o que a graça quer de nós, procuremos afastar-nos dos perigos e nunca nos desgarremos da grei de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao mesmo tempo, o demônio e as paixões também agem com relação a nós como um salteador. Todos nascemos com a Lei de Deus gravada no coração, a qual nos impulsiona a buscar a verdade, o bem, o belo, o unum, e a repelir seus opostos.5 Em consequência, para abraçarmos o mal e optarmos pelo erro somos obrigados a deformar a consciência, construindo uma doutrina falsa que justifique nossa escolha. Deste modo, aceitamos sem obstáculos o ladrão — ou seja, o demônio, o pecado — que entra no aprisco, e a ele nos entregamos.
É Cristo que robustece o senso moral
9 “Eu sou a Porta. Quem entrar por Mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem”.
Em sentido contrário ao apontado no versículo anterior, o Divino Mestre Se apresenta como a Porta que dá acesso à pastagem, porque é Ele quem nos leva a robustecer o senso do ser, o senso moral que o pecado enfraquece.6 A voz de Nosso Senhor Jesus Cristo nos convida à inocência, à prática da virtude; nela reconhecemos o timbre da santidade. Ao dizer: “Eu sou a Porta”, Ele Se declara o Messias, o único caminho para a salvação, o único que possui o direito de conduzir o rebanho.
Uma aplicação à Igreja
Esta ideia se coaduna inteiramente com a promessa de imortalidade da Igreja, feita por seu Divino Fundador ao Príncipe dos Apóstolos: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). A voz de Jesus Cristo é inconfundível para as ovelhas que de fato aderiram a Ele, e ninguém as ilude. Por mais que os meios de comunicação ou os inimigos da Igreja tentem desviá-las, fazendo propaganda daquilo que é alheio a Ele, quem segue o Bom Pastor sente no fundo da alma onde está a verdade. E Ele sempre concede ao rebanho graças especiais para dispersar seus adversários.
Deus quer nos dar tudo em abundância
10 O “O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.
Ainda em linguagem parabólica, Ele indica o pecado daqueles que desviam os outros da Religião verdadeira: matam as almas, afastando-as de Nosso Senhor, que é a vida. E a missão d’Ele, ao contrário, é dar aos homens essa vida, a qual é muito superior à que anima a formiga, o colibri, o esquilo, o homem e até mesmo os Anjos, pois é a vida do próprio Deus! Ele a introduz em nossa alma no Batismo e a confirma quando recebemos a Crisma.
Mas... que vida tem Deus? Parece tão simples e nossa inteligência não consegue alcançá-la, porque Ele é eterno, infinito, onipresente, onipotente, onisciente! E é tão rico que o Pai, ao pensar em Si mesmo, gera uma Segunda Pessoa, igual a Si, que é a Palavra d’Ele, o Filho. Os dois Se olham e Se amam tanto, que do encontro desses dois amores procede o Espírito Santo, a Terceira Pessoa, idêntica ao Pai e ao Filho. Eis a vida de Deus: desde toda a eternidade e por toda a eternidade, os três Se contemplam, Se entendem e Se amam mutuamente. A criação do universo foi como um transbordamento do que há em Deus, mais ou menos à maneira de um champagne que extravasa da garrafa e se derrama em taças. Ele quis nos criar para nos tornar partícipes da felicidade d’Ele, e por isso “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Ele Se fez Pastor, Ele Se fez Porta, para que todos nós recebêssemos “da sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1, 16), e tivéssemos a vida “em abundância”.

Se Deus põe à nossa disposição essa vida com tal generosidade, basta pedir que Ele no-la dará. E não aos pouquinhos, porque Deus não é como uma pobre mãe a quem só resta um pouco de farinha e de azeite com que preparar um pão para o filho que quer comer um bolo. Ele possui tudo o que nós precisamos! Não podemos ter horizontes estreitos, ser medíocres na oração, mas devemos ser pessoas de grandes desejos, que imploram coisas ousadas na linha da perfeição. E como todos somos chamados à santidade, se rezarmos com decisão e energia, por meio da Santíssima Virgem, é certo que Ele nos atenderá.
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domingo, 4 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
As ovelhas só conhecem a voz do seu pastor
2 “Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3 A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4 E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. 5 Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”.
Em certa ocasião, o Autor teve oportunidade de assistir a cenas semelhantes a esta, ficando surpreso ao constatar como, de fato, o pastor conversa com suas ovelhas. Ainda que sejam bastante numerosas, ele as identifica pelo nome, sabe qual é o comportamento de cada uma e distingue as que necessitam de maiores cuidados. Porém, o que mais impressiona é ver como as ovelhas conhecem a voz de quem as apascenta. As vezes, basta um assobio ou um mero gesto para todas se juntarem ao seu redor e permanecerem ali quietas, olhando-o atentas como se estivessem entendendo suas palavras. E quando ele nomeia alguma, esta reage, movimentando-se. Se, pelo contrário, é um estranho que tenta imitar o pastor, elas não lhe dão atenção, O ladrão poderá levar uma ou outra ovelha, mas nunca conseguirá roubar o rebanho inteiro, pois este só se move ao comando do pastor.
A situação descrita por Nosso Senhor nestes versículos ocorria a cada manhãs quando o pastor ia buscar os animais no redil. A tal ponto se criava uma como que intimidade entre o pastor e suas ovelhas, que estas adquiriam certo instinto pelo qual o reconheciam com precisão e, saindo do meio das outras, se colocavam diante dele, que as conduzia para fora. Reunido todo o rebanho, iniciava-se a marcha rumo aos campos, com o pastor sempre à frente, para fazer face aos que pretendessem assaltá-lo.
Tal imagem é lindíssima, e muito apropriada para o Divino Mestre ser compreendido. E, ao longo da História, quantos lobos, ladrões e mercenários vêm tornando esta parábola cada vez mais clara!
Mas eles não entenderam...
6 Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que Ele queria dizer.

Quem ouvia esta pregação de Nosso Senhor? Os fariseus, que não queriam admitir o recente milagre da cura de um cego de nascença (cf. Jo 9, 1-41). Em meio à celeuma provocada, Jesus iniciou este discurso procurando explicar-lhes o porquê de seu divino empenho em fazer o bem. Ele narra a parábola de um modo diferente do que Lhe era habitual, pois, à medida que a compõe, vai aplicando-a a Si. Contudo, para entendê-la era preciso ter fé e o coração aberto à ação do Espírito Santo, o que faltava aos fariseus. Como eram “guias espirituais de Israel, não podiam suspeitar que eles mesmos fossem ‘assaltantes’ espirituais do rebanho”.2
Jesus é a única Porta
7 Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade digo. Eu sou a Porta das ovelhas’.
Embora a figura do pastor seja a mais conhecida desta parábola, Jesus primeiro Se apresenta como Porta do redil. Qual o seu simbolismo? Deus criou Adão em graça e, ao introduzi-lo no Paraíso, sujeitou-o a uma prova: “não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás” (Gn 2, 17). Bastava ter obedecido ao mandado divino que o homem nunca experimentaria a morte, pois sua alma inocente “possuía uma força dada sobrenaturalmente por Deus, graças à qual podia preservar o corpo de toda corrupção”.3 Sua existência transcorreria feliz naquele local de delícias, “durante todo o tempo de sua vida animal, para ser transferido depois disso ao Céu, quando tivesse obtido a vida espiritual”.4 Em determinado momento a alma passaria a gozar da visão beatífica — em virtude da qual o seu corpo se tornaria glorioso —, dando início ao eterno convívio com Deus. No entanto, com o pecado original o Céu se fechou para toda a humanidade e ninguém entraria jamais nele se não nos tivesse sido outra vez aberto por Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro imolado, o Bom Pastor e a Porta do redil, nossa Páscoa, ou seja, passagem deste mundo para a bem-aventurança. Só aqueles que O aceitarem habitarão nessa sublime morada, porque Ele é o caminho seguro para atingir a perfeição. Sem Ele não há santidade, sem Ele não há salvação.
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sábado, 3 de maio de 2014

EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO – IV DOMINGO DA PÁSCOA – Jo 10, 1 - 10 – ANO A
EVANGELHO Jo 10, 1 - 10
Naquele tempo, disse Jesus: “verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. 2 Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3 A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4 E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”.
6 Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que Ele queria dizer Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, Eu sou a Porta das ovelhas. 8 Todos aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a Porta. Quem entrar por Mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. 10 O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 1 - 10).
O redil só tem uma Porta
O Céu, fechado para a humanidade depois do Pecado original, nos foi aberto para sempre por Aquele que é o Cordeiro, o Bom Pastor e a Porta do redil.
OS GRAUS DE PERFEIÇÃO NA OBRA DA CRIAÇÃO
Quem contempla a natureza criada percebe facilmente uma gradação em que verdade, bondade e beleza se tornam mais intensas e nobres à medida que se sobe na escala dessa magnífica obra de Deus.
Basta observar, por exemplo, no reino animal, uma formiga transportando alimento para o formigueiro. Manifesta ela tal tenacidade e retidão no cumprimento de seu objetivo, que se fosse tomada como modelo de disposicão para o trabatho levaria qualquer país à prosperidade Ou, então, um colibri quando paira no ar e bate as asas com encantadora elegância, de modo tão rápido que nem  é possível distingui-las com nitidez, Ou ainda o esquilo, animal tão ordenado que, além de ser monogâmico, é dotado de certo instinto de propriedade pelo qual defende energicamente seu terreno, não permitindo que ninguém o invada.
No reino humano, por sua vez, existe a hierarquia das diferentes qualidades individuais, e, ultrapassando os limites da mera natureza, destacam-se figuras extraordinárias, como a de São Pedro ou de São Pio X, representantes de Nosso Senhor Jesus Cristo na Terra. No ápice do universo está o próprio Jesus, com duas naturezas, a humana e a divina. E o Criador unido à criação. Portanto, tudo quanto há de verdadeiro, bom e belo nas criaturas encontra n’Ele sua arquetipia. Em Cristo “foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas Visíveis e as invisíveis” (Col 1, 16). A esse respeito, São Tomás propõe uma interessante comparação: “O artesão produz sua obra segundo uma forma por ele concebida interiormente revestindoa, de alguma maneira, de uma matéria exterior; do mesmo modo, o arquiteto constrói a casa conforme o modelo por ele idealizado. E é assim que dizemos de Deus: que Ele tudo fez em sua sabedoria, porque a sabedoria divina com relação às criaturas é como a arte do construtor em relação ao edifício. Ora, esta forma e esta Sabedoria é o Verbo”.1 Eis a razão pela qual podemos vislumbrar reflexos das sublimes perfeições do Homem-Deus em todos os seres criados. Tal pressuposto nos ajudará a entender o Evangelho deste domingo, o qual recolhe a primeira parte do discurso do Bom Pastor.
A PORTA DO VERDADEIRO REDIL
Devemos compreender a presente parábola dentro do quadro político-social e econômico de Israel na época de Nosso Senhor, o que corresponde a uma realidade bem diferente da civilização industrial e globalizada em que vivemos. O pastoreio do qual poucos terão uma noção exata em nossos dias constituiu uma das principais atividades do povo eleito no Antigo Testamento, tendo penetrado profundamente na psicologia, na cultura e nos costumes judaicos. Por conseguinte, as imagens tiradas do cotidiano pastoril eram muito acessíveis aos ouvintes do Divino Mestre. Ele as empregou para referir-se a algo tão elevado que é impossível de ser traduzido a não ser por símbolos: Deus feito Homem cuida com toda a perfeição de cada um de nós, como de uma ovelha muito querida. Nosso Senhor Jesus Cristo Se sente representado por um Pastor ideal, zeloso e dedicado. Em consequência, a figura heroica do pastor adquiriu um cunho sagrado e, com o tempo, passou a adornar paredes de catacumbas, objetos litúrgicos, túmulos, monumentos sacros, entre outros, como designação corrente d’Aquele que veio ao mundo para salvar suas ovelhas.
O redil, exigência do cuidado do rebanho
Naquele tempo, disse Jesus: l “Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante”.
Muitas vezes os pastores tinham de arriscar a própria vida para defender as ovelhas, pois, além de não existirem armas eficazes como as atuais, em geral eles eram pessoas pobres, dispondo apenas de um cajado para enfrentar os lobos e os ladrões. Tão frequentes eram os assaltos aos rebanhos, que os pastores costumavam se congregar para terem maior segurança e, à noite, recolhiam todas as ovelhas num grande redil. Um deles ficava de vigília, à entrada, e se revezavam ao longo das horas. Esta era a única passagem para entrar e sair do aprisco, sendo usada tanto pelos animais quanto pelos donos.

Os ladrões, entretanto, nunca transpunham a porta para realizar seus intentos, mas faziam um rombo na cerca, por onde penetravam e levavam as ovelhas.
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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Evangelho III Domingo da Páscoa – Lc 24, 13-35 – Ano A

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 3º DOMINGO DA PÁSCOA - Lc 24, 13-35 - ANO A
Ora, nós esperávamos que Ele fosse o que havia de libertar Israel; depois de tudo isto, é já hoje o terceiro dia, depois que estas coisas sucederam.
O verbo “esperar”, empregado no passado, dá bem ideia da decepção na qual se encontravam ambos. Suas atenções estavam concentradas, sobretudo, na possível libertação do domínio dos romanos. Ademais, julgando Jesus destinado a ser um Rei deste mundo, não podiam admitir que Ele não tivesse poder para libertar-se da sentença de morte que Lhe fora infligida. Entretanto, se bem estivessem com a virtude da fé um tanto abalada, restava-lhes ainda uma esperança, era a promessa proferida por Jesus em várias ocasiões sobre sua ressurreição ao terceiro dia.
É verdade que algumas mulheres, das que estavam entre nós, nos sobressaltaram porque, ao amanhecer, foram ao sepulcro 23 e, não tendo encontrado seu corpo, voltaram dizendo que tinham tido a aparição de anjos que disseram que Ele está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam que era assim como as mulheres tinham dito; mas a Ele não O encontraram.
É patente o quanto a tristeza, a perplexidade e até a perturbação, penetravam o âmago de suas almas. A narração é toda ela hipotética, nada feita de certeza. De fato, o povo eleito sempre foi privilegiado por uma robusta lógica, e, diante da pura inteligência humana, como explicar aqueles acontecimentos todos?
Segundo os cânones do pensamento humano, com a trágica morte do Divino Mestre, todas as esperanças haviam terminado, por mais que as melhores testemunhas afirmassem ter desaparecido seu corpo. O próprio São Paulo diria mais tarde: “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé” (I Cor. 15,14). Mas, a prova de sua ressurreição ainda não se havia consumado oficialmente. Assim sendo, quais os elementos para crerem? Só as palavras dos profetas e do próprio Jesus? Sendo afirmações e promessas feitas pela Verdade Absoluta, era preciso admiti-las como reais. Entretanto, longe dos acontecimentos é sempre mais fácil o exercício da virtude da fé, e a proximidade dos mesmos lhes turvava a compreensão e dificultava a inteira adesão da inteligência e da vontade. Apesar de discípulos, ambos haviam se olvidado do que lhes tinham dito seus ancestrais na Religião.
Então Jesus disse-lhes: “Ó estultos e lentos do coração para crer tudo o que anunciaram os profetas! 26 Porventura não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas, para entrar na sua glória?”
Sim, era-lhes necessário crer na Escritura, como São Pedro diria mais tarde: “Atendei antes de tudo a isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Com efeito, a profecia nunca foi proferida por vontade humana, mas, movidos pelo Espírito Santo, certos homens falaram da parte de Deus” (II Ped 1, 20-21). Por isso, mais vale crer no testemunho dos profetas do que em nossos sentidos. Aqueles não falham, estes porém, não raras vezes nos enganam. Para crer, não lhes era indispensável ter acompanhado ao túmulo as santas mulheres, nem Pedro e João, bastava-lhes recordarem as assertivas das Escrituras sobre a Ressurreição, tanto mais que as da Paixão já se haviam cumprido tais quais. E, sobretudo, não podia pairar a menor fímbria de dúvida na palavra do Salvador. “Verbum Domini manet in aeternum” (I Pd 1, 24), a palavra de Deus permanece eternamente.
Em seguida, começando por Moisés e discorrendo por todos os profetas, explicava-lhes o que d’Ele se encontrava dito em todas as Escrituras.
Pode-se, às vezes, conhecer as Escrituras todas de cor, mas, nem por isso, saber conjugar seus trechos a fim de melhor entender sua aplicação aos casos concretos. Quanto às citações, nada era novo aos dois discípulos. Quanto à interpretação das mesmas, porém, as explicações de Jesus constituíram certamente uma atraentíssima e magistral aula de exegese. Quem não desejaria assistir a ela? Que grande privilégio o daqueles dois! Certamente, o Divino Mestre deve ter-lhes mostrado, através de luminosas palavras e de especiais graças, o quanto era errôneo o conceito unânime no povo eleito a respeito de um Messias triunfante, restaurador de seu poder político-social e instaurador de uma influente e prestigiosa supremacia sobre as outras nações. A Escritura Lhe serviu de argumento irrefutável para os objetivos da formação que desejava dar-lhes.
Aproximaram-se da aldeia para onde caminhavam. Jesus fez menção de ir para mais longe. 29 Mas os outros insistiram com Ele, dizendo: “Fica conosco, porque faz-se tarde e o dia já declina”. Entrou para ficar com eles.
A delicadeza e a didática em substância se unem nesse gesto do Salvador ao “fazer menção” de ir adiante. Assim, incentiva-os não só a convidá-Lo a permanecer com eles, como também a conferir à sua companhia o devido valor. Eles O convidam e até insistem, apresentando como argumento a hora tardia. Exemplo para nós: quando rezamos, trata-se de usar de pertinácia, pois, dessa forma, “Jesus entrará para ficar conosco”. Caso contrário, Ele seguirá adiante.
Estando com eles à mesa, tomou o pão, abençoou-o, partiu e lho deu. 31 Abriram-se os seus olhos e reconheceram-No; mas Ele desapareceu da vista deles.

Terá Jesus, nessa hora, operado a transubstanciação? Eis uma questão muito debatida nos séculos XVI e XVII entre duas correntes teológicas. Uma conclusão clara a esse respeito ainda está por fazer-se, entretanto, por mais que não se tivesse dado a consagração eucarística, estava ela ali figurada. E é indiscutível ser esse Sacramento fundamental para nos fortalecer na fé e fazê-la crescer, sobretudo no tocante ao mysterium fidei que enfeixa a Paixão e a Ressurreição do Redentor. A Eucaristia nos dá a vida sobrenatural que tem seu fundamento na fé. Crer na ressurreição de Cristo é absolutamente necessário para nossa salvação e, sem essa crença, é impossível nosso próprio progresso na vida espiritual. Quanto mais se torne efetiva e robusta nossa fé em Cristo ressurrecto, maior será nosso afervoramento e união com o Redentor, como também mais superabundantes serão os frutos dessa belíssima festa instituída pela Santa Igreja.
Disseram então um para o outro: “Não é verdade que nós sentíamos abrasar-se-nos o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” 33 Levantando-se no mesmo instante, voltaram para Jerusalém. Encontraram juntos os onze e os que estavam com eles, 34 que diziam: “Na verdade o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. 35 E eles contaram também o que lhes tinha acontecido no caminho, e como O tinham reconhecido ao partir o pão.
Os versículos finais nos retratam com muita viveza e piedade os efeitos dessa primeira aparição de Jesus a dois fiéis da Igreja nascente, sendo especialmente digno de nota o testemunho da ação da graça mística nas almas de ambos, enquanto Jesus lhes discorria sobre as Escrituras (v. 32).
É tal o apreço de Deus por sua própria Palavra que Ele sempre faz acompanhar de generosos auxílios o estudo, interesse e piedade aplicados ao conhecimento amoroso dos textos sagrados.
1 ) Cf. Mt 18, 20.
2 ) Cf. Jo 20, 14-17.
3 ) Cf. Jo 21, 4-22.
4 ) Teología de la Salvación, BAC, Madrid,
1997, p. 486.
5 ) Cf. Is 49,10; Ap 7, 15; Mt 21, 43; São Tomás de Aquino, Suma contra os Gentios, IV, 86.
6 ) Cf. Pe. Royo Marín, OP, op. cit., p. 507.
7 ) Professores de Salamanca, Bíblia Comentada, Vol. II, BAC, Madrid, 1994, p. 930.
8 ) Apud Catena Áurea, in Lucam.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Evangelho III Domingo da Páscoa – Lc 24, 13-35 – Ano A

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 3º DOMINGO DA PÁSCOA - Lc 24, 13-35 - ANO A
Os seus olhos, porém, estavam como que fechados, de modo que não O reconheceram.
São Lucas nos fornece a hipótese de estarem os olhos dos dois discípulos impedidos de reconhecer o Salvador devido a uma virtude sobrenatural semelhante àquela que havia agido sobre Santa Maria Madalena no Sepulcro (2).
Entretanto, São Marcos afirma que Jesus “apareceu sob outra forma” (Mc 16, 12), ou seja, com fisionomia e talvez até roupas diferentes das que costumava usar. Estas duas versões parecem ser contraditórias à primeira vista e se prestaram durante muito tempo a duas interpretações diferentes.
Hoje, porém, os exegetas são unânimes em atribuir a um efeito do corpo glorioso de Jesus o fato de — tanto nesses dois casos quanto no da aparição aos Apóstolos junto ao Mar de Tiberíades (3) — Ele não ter sido reconhecido.
E por quê? Detenhamo-nos um pouco sobre este particular para melhor entender o que realmente se passou.
“A glória do corpo não é mais do que uma conseqüência e redundância da glória da alma”, diz-nos o grande teólogo Pe. Antonio Royo Marin, OP (4). Em Jesus, esta lei ficou misteriosamente suspensa até o momento da Ressurreição, pois queria Ele ter padecente seu corpo, a fim de poder sofrer.
Desde sua criação, a alma do Salvador sempre esteve na visão beatífica e, portanto, também seu Corpo Sagrado deveria encontrar-se no estado de glória. Ele criou a lei e impediu que se Lhe fosse aplicada. Ora, ao ressurgir dentre os mortos, Ele assumiu seu Corpo glorioso.
É essencial ao homem, a fim de gozar a bem-aventurança eterna, que tanto a alma quanto o corpo sejam glorificados. E assim como nesse novo e último estágio a alma se torna ainda mais semelhante a Deus, o corpo adquire as características da alma.
Ele será impassível, ou seja, não terá a menor enfermidade, dor ou incômodo, nem sequer do mais abrasador dos fogos, ou do mais rigoroso frio, ou até mesmo em meio à impetuosidade das águas; será, portanto, imortal (5). Gozará de sutileza, obedecendo sem resistência aos mínimos anseios da alma, sem sentir o próprio peso nem sofrer a ação da gravidade. Terá agilidade, deslocando-se com a velocidade da imaginação. Por fim, o dom que mais especialmente nos interessa para compreender este versículo, a claridade, devida aos efeitos resplandecentes da suprema felicidade da alma sobre o corpo: “Os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai” (Mt 13, 43).
Ora, como a alma exercerá um domínio absoluto sobre o corpo, suspenderá segundo seu desejo a manifestação deste ao exterior de modo que possa ser visto ou não, tocado ou não, segundo ela determine (6).
Eis aí as razões pelas quais os dois discípulos não reconheceram Jesus ao longo de todo o percurso. “Alguns autores pensam que uma ação sobrenatural era que lhes impedia reconhecer Cristo. Mas a frase do Evangelho [“seus olhos, porém, estavam como que fechados”], não exige que tenha se dado uma ação desse gênero. Aconteceu simplesmente que Cristo ressuscitado apareceu-lhes em corpo glorioso, sob uma forma não mais comum e corrente” (7). Ou então, segundo o comentário de Teófilo: “Apesar de ser o mesmo corpo que havia padecido, já não era visível para todos, senão unicamente para aqueles que Ele quisesse que o vissem; e para que não duvidassem que doravante já não viveria entre a gente, porque seu modo de vida depois da ressurreição já não era humano, mas mais bem divino, uma pré-figura da futura ressurreição, na qual viveremos como anjos e filhos de Deus” (8).
Ele disse-lhes: “Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?” Eles pararam cheios de tristeza.
Pode-se falar em senso psicológico humano ao analisar o relacionamento de Jesus, mas como entender a fundo um Varão que só possui personalidade divina? Seu discernimento dos espíritos é absoluto e, enquanto Pessoa, Ele conheceu desde toda a eternidade não só aqueles dois discípulos, como também o recôndito de suas almas e até mesmo o conteúdo da conversa de ambos; por isso, Ele pergunta apenas para dar início ao diálogo e, assim, ter oportunidade de mais diretamente animá-los.
Quantas vezes em nossa vida, não terá Jesus se aproximado de nós para nos reanimar!...
Um deles, chamado Cléofas, respondeu: “Serás tu o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que ali se passou nestes dias?”
Era de fato incompreensível que um judeu vindo de outras províncias não se inteirasse, ao passar por Jerusalém, dos últimos grandes acontecimentos ali sucedidos. A ressurreição de Lázaro, a expulsão dos vendilhões do Templo, um número incontável de milagres, as arrebatadoras pregações de Jesus e sobretudo sua prisão, condenação e crucifixão, o escurecimento do céu, o tremor da terra, o véu do Templo cindido, o passeio dos justos que haviam saído de seus túmulos — esses eram fatos suficientes para convulsionar a opinião pública. Não havia outro tema para se considerar senão esse, daí a perplexidade manifestada por Cléofas.
Ele disse-lhes: “Que foi?” Responderam: “Sobre Jesus Nazareno, que foi um profeta, poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo”;
Segundo alguns autores, esta resposta tem sua origem na falta de fé dos dois discípulos, como também no medo de serem presos. Não poderia o forasteiro se escandalizar ouvindo a proclamação da divindade de Jesus?
e de que maneira os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte, e O crucificaram.

Eles narram os fatos com o coração nos lábios e, apesar de extremamente chocados com as atitudes das autoridades religiosas e civis, em nenhum momento manifestam desrespeito ou revolta contra as mesmas. Era um dos resultados obtidos pela ação apostólica de Jesus. O possessivo: “os nossos”, na voz desses discípulos, demonstra claramente a disposição de submissão e até de veneração face aos detentores do poder. Eles não se separam, e menos ainda injuriam. Essa sempre foi a nota distintiva do verdadeiro Cristianismo.
CONTINUA NO PRÓXIMO POST

sábado, 26 de abril de 2014

Evangelho III Domingo da Páscoa – Lc 24, 13-35 – Ano A

COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Lc 24, 13-35: 
OS DISCÍPULOS DE EMAÚS
No mesmo dia, caminhavam dois deles para uma aldeia, chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. 14 Iam falando sobre tudo o que se tinha passado. 15 Sucedeu que, quando eles iam conversando e discorrendo entre si, aproximou-Se deles o próprio Jesus e caminhou com eles. 16 Os seus olhos, porém, estavam como que fechados, de modo que não O reconheceram. 17 Ele disse-lhes: “Que palavras são essas que trocais entre vós pelo caminho?” Eles pararam cheios de tristeza. 18 Um deles, chamado Cléofas, respondeu: Serás tu o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que ali se passou nestes dias?” 19 Ele disse-lhes: “Que foi?” Responderam: “Sobre Jesus Nazareno, que foi um profeta, poderoso em obras e em palavras diante de Deus e de todo o povo; 20 e de que maneira os príncipes dos sacerdotes e os nossos chefes O entregaram para ser condenado à morte, e O crucificaram. 21 Ora nós esperávamos que Ele fosse o que havia de libertar Israel; depois de tudo isto, é já hoje o terceiro dia, depois que estas coisas sucederam. 22 É verdade que algumas mulheres, das que estavam entre nós, nos sobressaltaram porque, ao amanhecer, foram ao sepulcro 23 e, não tendo encontrado seu corpo, voltaram dizendo que tinham tido a aparição de anjos que disseram que Ele está vivo. 24 Alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam que era assim como as mulheres tinham dito; mas a Ele não O encontraram”. 25 Então Jesus disse-lhes: “Ó estultos e lentos do coração para crer tudo o que anunciaram os profetas! 26 Porventura não era necessário que o Cristo sofresse tais coisas, para entrar na sua glória?” 27 Em seguida, começando por Moisés e discorrendo por todos os profetas, explicava-lhes o que d’Ele se encontrava dito em todas as Escrituras. 28 Aproximaram-se da aldeia para onde caminhavam. Jesus fez menção de ir para mais longe. 29 Mas os outros insistiram com Ele, dizendo: “Fica conosco, porque faz-se tarde e o dia já declina”. Entrou para ficar com eles. 30 Estando com eles à mesa, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o, e lho deu. 31 Abriram-se os seus olhos e reconheceram-nO; mas Ele desapareceu da vista deles.
32 Disseram então um para o outro: “Não é verdade que nós sentíamos abrasar-se-nos o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” 33 Levantando-se no mesmo instante, voltaram para Jerusalém. Encontraram juntos os onze e os que estavam com eles, 34 que diziam: “Na verdade o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. 35 E eles contaram também o que lhes tinha acontecido no caminho, e como O tinham reconhecido ao partir o pão (Lc 24, 13-35).
Jesus, exemplo do equilíbrio dos instintos
Desde o primeiro instante de nossa criação, Deus dotou-nos de instintos. Eram eles ordenados sob os influxos do dom de integridade até o momento em que Adão e Eva pecaram. A partir de então, só com auxílio da graça nos é possível utilizar cada um deles de acordo com a Lei de Deus, de maneira estável.
Um dos mais excelentes entre todos é o instinto de sociabilidade, e talvez até, por isso mesmo, um dos mais perigosos fora da atmosfera sobrenatural. Daí ter afirmado Sêneca: “Quanto mais vezes estive entre os homens, menos homem retornei”; e Thomas Hobes: “O homem é um lobo para outro homem”. Sim, o extremo de horrores a que podem chegar os homens no seu relacionamento à base do egoísmo é simplesmente inimaginável e assustador.
Mas, se mal conduzido esse instinto, os resultados podem vir a ser catastróficos, no extremo oposto assistimos às maravilhas da graça atuando sobre o convívio humano e enriquecendo qualquer hagiografia, a começar pela do Varão por excelência, o Filho do Homem.
Por sua sociabilidade divinizada, desde o primeiro instante de sua existência desejou reparar os pecados cometidos por seus irmãos e, para salvá-los, entregou-se à morte de cruz. Assim teria procedido se fosse para redimir um só pecado e salvar uma só alma. E como se isso não bastasse, deixou-se em Corpo, Sangue, Alma e Divindade até o fim do mundo, como alimento nosso sob as Espécies Eucarísticas. N’Ele encontramos o perfeitíssimo exemplo e, ao mesmo tempo, o próprio equilíbrio de todos os nossos instintos.
Foi d’Ele que nasceram os hospitais, os orfanatos, os asilos, as universidades, etc. Quando os homens se resolvem a colaborar com sua graça, daí nascem os esplendores de realizações capazes de tornar fulgurante toda uma era histórica. Pelo contrário, ao se fecharem ao seu apelo, os crimes, os roubos, a desonra, a mentira, os suicídios, as calúnias etc., proliferam como praga por toda parte.
Sociabilidade virtuosa dos discípulos de Emaús
É com vistas a nos ensinar quão benéficos são os efeitos da hospitalidade — qualidade de alma própria àquele que ordenadamente usa de seu instinto de sociabilidade — que a Liturgia nos propõe considerar a beleza da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús. Nesta narração, ambos deixam entrever o quanto possuem um coração afetuoso, caritativo e generoso para com um desconhecido que os alcança pelo caminho. Eles não têm a menor fímbria de respeito humano em explicar ao forasteiro os principais aspectos da vida, paixão e morte de Jesus, como o próprio desaparecimento de seu Sagrado Corpo, sempre levados por uma sociabilidade virtuosa tão rara nos dias de hoje e tão indispensável para um convívio agradável.
Consideremos o grande respeito usado pelos três entre si nesse episódio, como também a elevação do tema por eles tratado e o tônus da conversa. Como seria altamente formativo o poder-se reconstituir tal qual se deu esse convívio dos dois com o Divino Mestre ressurrecto! De imediato, configurarse-ia diante de nossos olhos o grande contraste com os encontros tão comuns e correntes na atualidade. Quanto teríamos a aprender desse sacrum convivium!
No mesmo dia, caminhavam dois deles para uma aldeia, chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. 14 Iam falando sobre tudo o que se tinha passado.
Pelo seu estilo e delicadeza de narração, este é um dos mais belos relatos do terceiro Evangelho. De outro lado, contém ele uma excelente prova da ressurreição de Jesus. Quanto à cidadezinha de Emaús, há uma dezena de hipóteses sobre sua real localização, e não se têm elementos para saber qual a verdadeira. Retenhamos apenas a distância de sessenta estádios que equivale a 11,5 km.
Provavelmente esses dois discípulos, como também outros israelitas, haviam se deslocado para Jerusalém a fim de cumprir os primeiros ritos pascais e, depois de visitarem os Apóstolos, retornavam à sua cidade de origem, no próprio dia da Ressurreição do Senhor.
Alguns Padres da Igreja levantam a hipótese de ser o próprio São Lucas um dos dois, e assim se entenderia melhor o motivo pelo qual ele não quis mencionar o nome do segundo discípulo.
Sucedeu que, quando eles iam conversando e discorrendo entre si, aproximou-Se deles o próprio Jesus e caminhou com eles.
O Divino Mestre havia prometido, em vida, estar presente quando dois ou mais estivessem reunidos em seu nome (1), eis aqui o cumprimento de suas palavras. Foi a conversa entre ambos o fator que atraiu o Redentor a se agregar a eles.

É interessante notar o agrado de Jesus junto aos dois, assim como o recíproco intuito apostólico de lado a lado. Um dos intentos do Divino Mestre era o de robustecer a fé de seus discípulos. Por isso, operando de maneira oculta, “aproximou-Se e caminhou com eles”.
Continua no próximo post

quinta-feira, 24 de abril de 2014

EVANGELHO II DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A – Jo 20, 19-31

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 2º DOMINGO DA PÁSCOA – ANO A – Jo 20, 19-31
O testemunho de São João
30 Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos que não estão escritos neste livro. 31 Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
São João escreveu seu Evangelho, que é o último, no fim do primeiro século, muitos anos depois de concluídos os outros três. Dir-se-ia não ser necessário redigi-lo, porque a história de Jesus já estava contada nos sinópticos. No entanto, o Discípulo Amado tinha aos seus cuidados as comunidades cristãs da Asia Menor, nascidas sob o influxo do apostolado de São Paulo, e compôs o quarto Evangelho com o objetivo de proteger os fiéis das heresias que começavam a grassar naquela época, criando confusão a respeito de Jesus Cristo. Sobretudo, visava combater a doutrina gnóstica, que negava a Encarnação do Verbo, bem como a união hipostática, e considerava apenas a humanidade de Cristo.7 São João quis corrigir essa visualização humana — a qual tantas vezes se repetiu ao longo da História —, deixando consignada uma verdadeira exposição doutrinária sobre a divindade de Jesus. Impossível seria narrar tudo o que o Divino Mestre fez, pois a vida d’Ele foi um sinal permanente. Por esta razão, o Evangelista selecionou os episódios mais adequados à finalidade que tinha em vista, dentre os quais os dois encontros de Jesus com os discípulos, mencionados neste Evangelho. Com efeito, eles nos levam a concluir facilmente que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus Vivo e que n’Ele devemos ver mais o lado divino do que o humano.
SOMOS CHAMADOS À BEM-AVENTURANÇA!
Em função de São Tomé, o Salvador declarou que todos os que O seguissem, a partir de sua Ascensão aos Céus, precisariam crer na palavra daqueles que Ele escolheu como suas testemunhas. E há mais ou menos dois mil anos a Igreja vive desta fé. E o que vemos na cena descrita na primeira leitura (At 2, 42-47), extraída dos Atos dos Apóstolos. A comunidade dos fiéis nasce pequena, mas dá origem a todas as demais comunidades, porque “eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42). A Igreja germina alicerçada nessa fé, a qual constitui um valioso elemento para mover as almas à conversão e que deve existir entre nós. Se assim for, o apostolado se fará por si, e seremos meros instrumentos para a atuação do Espírito Santo.
Tenhamos sempre presente que, se não nos coube a graça de conviver com Nosso Senhor, nem ver e tocar suas divinas chagas, nos foi reservada, conforme a afirmação do Divino Mestre, uma bem-aventurança maior do que a deles: crer na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Bem se poderiam aplicar a nós as palavras de São Pedro na segunda leitura (I Pd 1, 3-9) deste domingo: “Sem ter visto o Senhor, vós O amais. Sem O ver ainda, n’Ele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (I Pd 1, 8-9).
1) Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. L ‘éternelle vie et la profondeur de l’âme. Paris: Desclée de Brouwer, 1953, p.333.
2) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.76, al.
3) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO. Suma contra os gentios. L.Ig c.86, n.5.
4) SÃO LEÃO MAGNO. De Resurrectjone Domini. Sermo I, hom.58 FLXXII, n.5. In: Sermons. Paris: Du Cerf, 1961, vIII, p.126.
5) SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in Evangelia. L,II, hom.6 [XXVII], n.4. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p.663.
6) SÃO GREGÓRIO MAGNO, op. cit., 11.7, p.665.
7) Cf. LA POTTERIE, SJ, Ignacio de. La verdad de Jesús. Madrid: BAC, 1979, p.283; JAUBERT, Annie. El Evangelio según San Juan. Estella: Verbo Divino, 1987, p.8.