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sábado, 24 de agosto de 2013

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013

 Lc 14, 1.7-14 – Comentário ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 
Delírio farisaico pelos primeiros lugares
7 “Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares”.
Naqueles banquetes dispunham-se as mesas em forma de “u”, para facilitar o serviço, acomodando-se os comensais ao longo da parte externa. O principal lugar, bem ao centro, estava reservado para a autoridade ou a pessoa a quem se desejava homenagear. À sua direita sentava-se o anfitrião, à sua esquerda, o primeiro dos convidados e assim iam se instalando os convivas, por ordem decrescente de importância, até os extremos da mesa.
Naturalmente, nenhum escriba ou fariseu queria ocupar esses últimos lugares; pelo contrário, disputavam sem inibição e com avidez os postos de honra. Os problemas de precedência eram tão vivos entre eles que Nosso Senhor chegara a recriminá-los publicamente por esse defeito: “Ai de vós, fariseus, que gostais das primeiras cadeiras nas sinagogas e das saudações nas praças públicas!” (Lc 11, 43).
Para ilustrar a exacerbada ânsia de prestígio que os dominava, Fillion relata um curioso episódio, extraído do próprio Talmud: “Certo dia, o rei asmoneu Alexandre Janeu dava um banquete a vários sátrapas persas, e entre os convidados estava o rabino Simeão ben Shetach. Logo que entrou no salão, foi ele sentar-se no lugar de honra, entre o rei e a rainha. Ao ser repreendido por essa arrogante intrusão, respondeu de pronto: ‘Não está escrito no livro de Sirac: Honra a sabedoria e ela te honrará’? Chegava a este ponto o enfatuamento dos doutores israelitas naquela época!”.4
Ora, sendo os convidados desse banquete membros da seita dos fariseus, chegando, começavam logo a manobrar para ficar o mais próximo possível do anfitrião, a fim de satisfazer seu incontido orgulho. Tomados pelo delírio de aparecer, disputavam entre si a precedência, sem o mínimo recato, alegando cada qual em seu favor critérios como idade, relevância da sua linhagem ou a própria sabedoria, como acima vimos. Pouco se preocupavam em ouvir algum ensinamento ou admirar a quem quer que fosse; o único critério que lhes interessava era serem objeto dos elogios e da consideração dos presentes.
Assim ofuscados pelo egoísmo, passara-lhes despercebida na sala do banquete a presença de Alguém que, enquanto homem, era de estirpe real, descendente de Davi; e, enquanto Deus, era o Criador do Céu, da Terra, do alimento que ia ser servido e até dos próprios comensais.
Cristo, entretanto, senta-Se despretensiosamente à mesa, sem exigir em nenhum momento uma manifestação do respeito devido à Sua Pessoa.
Modo delicado de repreender
7b “Então contou-lhes uma parábola: 8a “Quando tu fores convidado para uma festa de casamento…”
Talvez tenha de fato ocorrido, nesse banquete, uma cena semelhante à descrita pouco adiante na parábola, motivo pelo qual Jesus preferiu falar em tese, fazendo referência a uma hipotética festa de casamento; dessa forma, evitava constrangimentos para os demais convidados. Assim opina o Cardeal Gomá, o qual qualifica de “delicada maneira de repreender os fariseus” o uso desse recurso literário.5
Segundo Santo Ambrósio, o Salvador os admoesta “com doçura, para que a força da persuasão conseguisse suavizar a aspereza da correção, e objetivando também que a razão ajudasse a persuasão, e a advertência corrigisse o orgulho”.6 Analisando sob outro prisma o fato, observa Fillion: “Jesus imagina de propósito a cena numa festa de bodas porque em tais circunstâncias, nas classes abastadas, observa-se mais rigorosamente a etiqueta”.7 E o padre Tuya acrescenta: “O banquete de casamento ao qual Jesus faz menção é o Reino Messiânico [...]. Ali, os primeiros lugares estão reservados para os que foram mais humildes”.8
“Quem se eleva será humilhado”
8b“...não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar”.
Para realçar os inconvenientes do orgulho, Nosso Senhor começa por mostrar aos fariseus o quanto a ânsia de ocupar os primeiros postos era-lhes contraproducente, mesmo do ponto de vista meramente natural. Porque, conforme ensina São Cirilo de Alexandria, “o elevar-se prontamente a honras que não merecemos, denota que somos temerários e torna nossas ações dignas de vitupério”.9
Melhor entenderemos esta parábola se considerarmos que não vigoravam ainda no convívio social os princípios de cortesia introduzidos pela benéfica influência do Cristianismo. Naquela época, a ausência de bondade fazia-se sentir nas relações humanas, regidas pelos princípios da Lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente”. E o trato entre os homens era, portanto, marcado pelo egoísmo e a dureza, buscando cada um apenas seus próprios interesses.

Se o convidado da parábola tivesse, por precaução, escolhido o último lugar, teria sido honrado pelo anfitrião. Entretanto, a procura imprudente da vanglória, acarretou-lhe ser publicamente humilhado. Aliás, neste sentido, é interessante notar, com o Cardeal Gomá, “o contraste entre aquele que baixa, coberto de confusão, e o que sobe, cheio de honra; e entre as duras palavras ditas ao primeiro e as suaves com as quais o segundo é convidado a ocupar um lugar melhor”.10
Continua no próximo post

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Evangelho XXII Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013

 Lc 14, 1.7-14 – Comentário ao Evangelho 22º Domingo do Tempo Comum – Ano C – 2013 
“Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles O observavam. 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8 ‘Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10
Mas quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11 Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado’. 12
E disse também a quem O tinha convidado: ‘Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. 13 Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. 14 Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos’” (Lc 14, 1.7-14).
Antídoto para a vanglória?
Repetidas vezes nos alerta o Divino Mestre contra o orgulho, de cujos efeitos todos padecemos, infelizmente. Como combatê-lo com eficácia? No que consiste a verdadeira humildade? Muitos, por equívoco, a confundem com mediocridade.
Choque entre dois modos de ser
Nesta terra de exílio, um dos melhores modos de nos comunicarmos com Deus e termos, assim, algum antegozo da visão beatífica é contemplar os símbolos do Criador postos no universo, pois “as perfeições invisíveis de Deus, o Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência, por suas obras” (Rm 1, 20). Ou seja, desde que queiramos, é-nos dado discernir o Invisível no visível, o Infinito no finito, o Criador nas criaturas.
“Eis o Cordeiro de Deus”
Por isso, a Divina Providência dispôs na natureza uma abundância de símbolos de grande expressão, alguns dos quais foram aplicados ao próprio Filho de Deus, a fim de melhor O conhecermos e mais O amarmos. Ele mesmo Se apresenta como a videira cujos ramos produzem muito fruto (cf. Jo 15, 1-5), ou como o Bom Pastor, que dá a vida por Suas ovelhas (cf. Jo 10, 11-16). Também é o Messias chamado de Leão da tribo de Judá (Ap 5, 5), e como tal Se manifesta ao repreender com severidade os fariseus (cf. Mt 23, 13-33), e ao “expulsar os que no templo vendiam e compravam” (Mc 11, 15).
Entretanto, ao longo de Sua vida e, sobretudo, na hora suprema de Sua Paixão e Morte, foi Jesus predominantemente o Divino Cordeiro. Não sem razão, durante a Celebração Eucarística, memorial do Sacrifício do Calvário, o sacerdote apresenta aos fiéis a Hóstia consagrada, antes da Comunhão, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Dentre os inúmeros símbolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, escolheu a Santa Igreja esse como sendo o mais significativo para tão sagrado momento.
Humildade e mansidão
A liturgia, ora comentada, põe em realce esse aspecto da Alma de Nosso Senhor, e a aclamação do Evangelho nos convida a imitá-Lo: “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração” (cf. Mt 11, 29).
Na verdade, Ele é muito mais do que isso, pois essas virtudes, que o homem luta por praticar, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade as possui em essência: Jesus é a humildade e a mansidão.
Quem é verdadeiramente humilde, é também manso, tem flexibilidade de espírito, está disposto a servir ou a obedecer a seu irmão, preocupa-se mais com os outros do que consigo mesmo, aceita qualquer humilhação ou ofensa com alegria, e quando nota um defeito na atitude de outro, reza por ele e procura não deixar transparecer o que percebeu. Pratica, assim, uma elevada e nobre forma de caridade para com o próximo.
Em sentido contrário, o orgulhoso gosta de assumir posição de superioridade, tende a desprezar os demais e deixa-se levar pela inveja, quando percebe uma qualidade nos outros. Com seu temperamento difícil e implicante, acaba tornando-se uma pessoa de convívio problemático, evitada por todos.
Tal era o caso dos fariseus do Evangelho que comentamos. Presunçosos cumpridores de incontáveis preceitos formais, utilizavam-se da Antiga Lei para se sobressair e ocupar os primeiros lugares na sociedade. Entre eles e o resto do povo havia um verdadeiro abismo, todo feito de discriminação e desdém.
“Quem Se humilha, Será elevado”
Num sábado anterior ao episódio referido neste trecho do Evangelho, ou talvez nesse mesmo dia, Nosso Senhor restituíra a saúde a uma mulher que “andava curvada e não podia absolutamente erguer-se” (Lc 13, 11) havia dezoito anos. Essa cura produzira entre os fariseus verdadeira celeuma, pois, na concepção deles, teria Jesus desprezado a Lei, violando o repouso sabático.
Mas o Divino Mestre deu-lhes uma resposta que os encheu de confusão: “Hipócritas! Não desamarra cada um de vós no sábado o seu boi ou seu jumento da manjedoura, para levá-los a beber?” (Lc 13, 15). O povo, ao contrário, se entusiasmava à vista dos milagres por Ele realizados (cf. Lc 13, 17).
Crescia, em consequência, em toda a Palestina, o prestígio de Jesus de Nazaré, e muitos O consideravam um grande profeta, surgido afinal depois de quatrocentos anos de silêncio do Céu.
Convite mal-intencionado

1“Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles O observavam”.
Este Evangelho nos apresenta Nosso Senhor indo almoçar na casa de um dos chefes dos fariseus, certamente a pedido deste. Honroso na aparência, o convite fora feito, porém, com o objetivo de poder analisá-Lo mais de perto para preparar-Lhe uma cilada. “Eles O espreitavam insidiosamente, na esperança de encontrar algo de repreensível em Sua palavra ou em Seu procedimento: convidam-No como quem quer prestar honras, e O espionam como a um inimigo” 1, nota o Cardeal Gomá.
Bem diversa era a atitude do Cordeiro de Deus: aceitou o convite, movido pelo desejo de fazer-lhes bem. Conhecia desde toda a eternidade a cena que lá ia se desenrolar e ansiava por chegar o momento em que pudesse indicar a essas almas, cegas pelo orgulho, o verdadeiro caminho para o Reino dos Céus.2 Como assinala o padre Duquesne, “Jesus teve a terna complacência de comparecer, com intenção de aproveitar a oportunidade para edificar, instruir, convencer e, se possível, conquistar para a verdade aqueles com os quais iria comer”.3
Delírio farisaico pelos primeiros lugares

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Evangelho XXI Domingo do Tempo Comum – Lc 13, 22-30 - Ano C - 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho 21º Domingo do Tempo Comum -  Lc 13, 22-30– Ano C - 2013
A pena dos sentidos
Ao cometer um pecado grave, a alma manifesta uma aversão a Deus e um apego à criatura. À primeira cabe a pena do dano e à segunda, a dos sentidos.
Consideremos de início o menor dos sofrimentos: a pena dos sentidos.
Difícil é compreender a natureza de um fogo que não necessita de combustível. Fogo “inteligente”, que atinge não só a matéria – sem consumi-la – mas também os próprios espíritos, anjos e almas. Ademais, trata-se de um fogo cuja ação aprisiona, coarcta e mantém as almas, a contra-gosto, num lugar específico. Segundo nos comenta o Pe. Antonio Royo Marin, os horrores que alguém poderia enfrentar num calabouço escuro, sem poder mover-se, seriam nada em comparação com o encontrar- se prisioneiro perpétuo de uma criatura inferior, o fogo, que o tiraniza numa asfixiante e intérmina imobilidade.
Será físico o pranto dos condenados? São Tomás comenta ser analógica a afirmação contida neste versículo, a respeito do “choro”. Afirma ele que, após a ressurreição dos corpos, não poderão os condenados exteriorizar suas dores através das lágrimas, pois os ressuscitados não produzirão nenhum tipo de humor.
Pena do dano
O fato de faltar ao homem a agilidade de um felino – o gato por exemplo – ou a força de um leão, não significa uma privação mas sim uma simples carência, pois não é próprio à nossa natureza possuir essas qualidades. Contudo, o ser paraplégico ou cego, faz-nos sofrer uma verdadeira privação. Ora, fomos criados para Deus, por isso temos sede da felicidade infinita de vê-Lo e amá-Lo tal qual Ele é. E a privação eterna desse gozo, na condição de “expulsos para fora”, constitui o maior de todos os tormentos.
Acrescente-se a isso a exclusão da presença de todos os Anjos e Santos, em especial de Jesus e de Maria, além da perda dos bens sobrenaturais (graças, virtudes e dons) e da glorificação do próprio corpo. O ver nossos conhecidos de outrora na plenitude da felicidade, enquanto nós ardemos de indignação no “choro e ranger de dentes”, aumentará ainda mais um castigo, de si, inimaginável.
Ademais, se todas essas angústias fossem passageiras... Não! Serão eternas, ou seja, não terão fim.
29 Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se sentarão à mesa do Reino de Deus.
Será também terrível para um precito ver aqueles que viveram em sucessivas e posteriores épocas históricas ingressando no Reino dos Céus, enquanto ele é expulso de Deus para viver, eternamente imóvel, nas chamas do inferno.
MARIA, PORTA DO CÉU
30 Então haverá últimos que serão os primeiros, e primeiros que serão os últimos
Surpreendente será essa inversão de valores, por isso, não devemos jamais nos sentir seguros devido às nossas qualidades, nem pelas graças recebidas, menos ainda pela riqueza que possa estar em nossas mãos. É necessário servir a Deus com ardor e entusiasmo, entrando “pela porta estreita” que bem poderá ser Maria Santíssima.
Não é sem razão que a Ela foi dado o título de Porta do Céu. Estreita porque exige de nós uma confiança robusta em sua proteção maternal. Invoquemo-La em todas as tentações e dificuldades, a fim de comprovarmos a irrefutável realidade de quanto “jamais se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à sua proteção maternal, implorado sua assistência, reclamado o seu socorro fosse por Ela desamparado”. E, ao chegarmos ao Céu, rendamos eternas graças aos méritos infinitos de Jesus e às poderosas súplicas de Maria.
1 ) Pe. J. M. LAGRANGE, El Evangelio de Nuestro Señor Jesucristo, Barcelona, 1933, p. 289.
2 ) Denzinger, 211
3 ) Fr. Antonio Royo Marín, Teología de la salvación, BAC, Madrid, 1997, p. 117
4 ) Suma Teológica I, q 23, a.7
5 ) S. Basílio: in Psalm. 1.
6 ) Ver: Jdt 16, 17; Ecli 7, 18- 19; Is 33, 14; Dan 12, 2; Mt 13, 49-50; Mt 25, 41-46; etc. Ver tb. CIC, nº 1.035.
7 ) Fr. Antonio Royo Marín, op. cit., p. 304.
8 ) Op. Cit.

9 ) Cf. S. Tomás, Suma Teológica, Suppl., 97,3

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Evangelho XXI Domingo do Tempo Comum – Lc 13, 22-30 - Ano C - 2013

Continuação dos comentários ao Evangelho 21º Domingo do Tempo Comum -  Lc 13, 22-30– Ano C - 2013
Juízo Final - Portal Notre Dame

26 Então começareis a dizer: Comemos e bebemos em tua presença, tu ensinaste nas nossas praças.
É bem verdade. Quantas vezes nós nos aproximamos da mesa da Comunhão e nos beneficiamos dos demais Sacramentos, ouvimos boas pregações sobre o Evangelho, além dos conselhos em particular, no seio da Igreja fundada pelo Redentor. Porém, que proveito tiramos de todos esses privilégios? Eles nos são dados para melhor cumprirmos os Mandamentos. Insensatos são aqueles que se entregam a uma vida de pecado até a hora da morte, arriscando- se a ouvir dos lábios de Jesus a sentença irrevogável de eterna reprovação. Só então entenderão as palavras do Divino Mestre: “Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26).
27 Ele vos dirá: Não sei donde sois; afastai-vos de mim vós todos os que praticais a iniquidade.
Esta resposta contém duas afirmações:
1. “Não sei donde sois...”Não devemos imaginar que somente serão objeto da rejeição de Jesus os não-batizados. Também a nós, batizados, poderá ser ela aplicada se não cumprirmos nossos deveres. Neste caso, Jesus se dirigirá a nós de maneira ainda mais explícita: “Eu vos arranquei das trevas do pecado e vos redimi às custas de meu próprio sangue, elevando-vos à dignidade de filhos da Igreja. Mas vós quisestes as vias do orgulho e, seguindo o conselho de Satanás, obedecer à lei do mundo e entregar-vos às paixões. Não ouvistes a voz da graça e a de meus Ministros”...
2. “... afastai-vos de mim vós todos que praticais a iniquidade”. Ser repelido por Deus é o mais terrível dos tormentos eternos, segundo nos ensina a Teologia. Nós somos criados com vistas à felicidade eterna, ou seja, a conhecer a Deus face a face e amá-Lo como Ele mesmo se ama – sempre guardadas as devidas proporções. Nossa alma tem sede desse convívio com Deus e só n’Ele repousaremos. Ora, o vermo-nos expulsos por Aquele que é a única Causa de nossa alegria, significaria para nós um tormento sem comparação. Que terrível palavra: “Afastai-vos de mim...”
Porta do céu
28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob, e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes expulsos para fora.
Devido à nossa sensibilidade física reforçada pelo instinto de conservação, somos levados a julgar o fogo do Inferno o pior dos tormentos. Na realidade, possui ele uma intensidade fortíssima, a ponto de tornar desprezível qualquer forno de alta combustão na face da terra e, portanto, sua capacidade de infligir sofrimentos é incalculável. Porém, a maior dor se encontra apontada nas últimas palavras do versículo 28: “... serdes expulsos para fora”.
Que o Inferno existe, as Escrituras e o Infalível Magistério da Igreja proclamam como verdade revelada.
A Teologia busca razões claras para ajudar-nos na aceitação fácil desse indispensável dogma de Fé, como explica Pablo Buyse, em sua obra Dios, el alma y la religión: “Focalizemos, por exemplo, o seguinte caso, por desgraça muito frequente na vida passional. Um homem pretende seduzir uma angelical jovem. Ao resistir esta, profere uma ameaça. Em vão. A lâmina de um punhal ameaça o peito da jovem. Não cede apesar de tudo. O grito de raiva do malévolo se confunde com o grito de dor da vítima, que cai agonizante. O sedutor, desesperado, crava em seu próprio peito o punhal banhado ainda no sangue de sua vítima. Vede aí, um ao lado do outro, dois cadáveres: o do verdugo e o de uma mártir. Pode Deus confundi-los num mesmo destino? Não, mil vezes não. É preciso que esse criminoso seja castigado na outra vida e se premie para sempre essa virtude”

sábado, 17 de agosto de 2013

Evangelho XXI Domingo do Tempo Comum – Lc 13, 22-30 - Ano C - 2013

Comentários ao Evangelho 21º Domingo do Tempo Comum -  Lc 13, 22-30– Ano C - 2013
22 Ia pelas cidades e aldeias ensinando, e caminhando para Jerusalém. 23 Alguém Lhe perguntou: Senhor, são poucos os que se salvam? Ele respondeu-lhe: 24 ‘Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão. 25 Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, vós, estando fora, começareis a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos. Ele vos responderá: Não sei donde sois. 26 Então começareis a dizer: Comemos e bebemos em tua presença, tu ensinaste nas nossas praças. 27 Ele vos dirá: Não sei donde sois; “afastai-vos de mim vós todos os que praticais a iniquidade”. 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacob, e todos os profetas do Reino de Deus, e vós serdes expulsos para fora. 29 Virão muitos do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e se sentarão à mesa do Reino de Deus. 30 Então haverá últimos que serão os primeiros, e primeiros que serão os últimos. (Lc 13, 22-30).
A viagem definitiva
Ao se apresentar diante de nós uma possível viagem, nossas atenções começam a dividir-se entre o presente e o futuro, entre o ambiente atual com suas ocupações e o lugar para onde rumaremos. Se nossa ausência for de longa duração, e ainda mais se nosso destino se localizar num país bem distante, entraremos num certo estado de tensão que poderá ser maior ou menor, em função do temperamento e mentalidade de cada um, mas a indiferença total raramente acontecerá.
Passaporte, roupas, objetos, remédios, etc., constituirão um pensamento mais ou menos constante em meio às nossas atividades normais do dia-a-dia, antes de partir. O idioma, os costumes, o clima, a alimentação, etc., excitarão nossa curiosidade, alimentando o sonho de uma experiência nova, meio mitificada quanto às possíveis felicidades. Do amanhecer ao apagar das luzes, nossa imaginação percorrerá as ruas, praças e monumentos daquela cidade onde iremos morar durante um certo tempo. As providências concretas, por menos metódico que se seja, terão prioridade em nossas responsabilidades e afazeres e a tal ponto que provavelmente teremos iniciado nossa viagem muito antes de subir no avião.
No entardecer desta vida, empreenderemos a mais importante e definitiva mudança de nossa existência rumo à... eternidade. Mas será diferente de todas as outras, pois não poderemos levar absolutamente nada de nossos pertences e nem sequer será preciso passaporte. Ela não terá volta atrás e deverá se realizar a sós, sem acompanhantes. A partida é inadiável, desde todo o sempre foi fixada por Deus, e não terá atraso. A chegada tanto poderá dar-se no Inferno, quanto no Céu, e para este último local ainda é possível que haja uma passada pelo Purgatório.
Porém, essa é a viagem por quase todos relegada ao esquecimento. Carreira, dinheiro, prazeres, saúde — em síntese, o mundanismo — é a obsessão que transtorna as mentes desde a saída de Adão do Paraíso, prolongando pelos séculos e milênios os ecos do episódio havido entre Marta e Maria: “Marta, porém, afadigava-se muito na contínua lida da casa. Parou então e disse: ‘Senhor, não Te importas que a minha irmã me tenha deixado sozinha com o serviço da casa? Diz-lhe, pois, que me ajude’. O Senhor respondeu-lhe: ‘Marta, Marta, tu afadigas-te e andas inquieta com muitas coisas, quando uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada.’ ” (Lc 10, 40-42). De fato, só uma coisa é necessária: a salvação eterna. “Pois, que aproveitará a um homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26).
O Evangelho de hoje nos convidará a considerar de perto essa passagem para a eternidade.
22 Ia pelas cidades e aldeias ensinando, e caminhando para Jerusalém.
Jesus quer salvar a todos. E estando a caminho de sua última visita a Jerusalém, não deixava de entrar nas cidades e aldeias a fim de ensinar a cada um. Exemplo para nós: em nosso apostolado, jamais devemos fazer acepção de pessoas ou de lugares, a boa nova é destinada a um âmbito universal.
23 Alguém Lhe perguntou: Senhor, são poucos os que se salvam?
Era evidente tratar-se de uma pergunta feita por um judeu, apesar de estar naqueles tempos generalizada entre o povo a ideia de que todos os filhos de Abraão se salvavam, sem exceção, pelo simples fato de serem tais. Para entender-se melhor o porquê da curiosidade nessa matéria, deve-se notar que, de quando em vez, apareciam afirmações em escritos apócrifos, inflando o número dos que se perdem em relação aos poucos que se salvam. Daí o desejo desse hebreu que acompanhava o Mestre pelo caminho, de obter uma resposta exata, conforme comenta um conceituado exegeta: “É frequente esta preocupação nos rabinos. Pensava-se na salvação eterna, sobretudo na dos israelitas porque os demais haviam merecido sua perdição e quase se alegravam dela” (1).
Aliás, essa é uma questão que passou a ser muito discutida na própria era cristã, debaixo dos mais variados prismas. Por exemplo, em inícios do séc. VI, espalhou-se por certos ambientes da Europa uma heresia sobre a salvação final dos Anjos e homens em sua totalidade, terminando, assim, as penas eternas do inferno. Essa doutrina foi condenada pelo Papa Vigílio, no ano de 543: “Se alguém diz ou sente que o castigo dos demónios ou dos homens ímpios é temporal e que em algum momento terá fim, ou que se dará a reintegração dos demónios ou dos homens ímpios, seja anátema” (2).
Um dos mais delicados estudos talvez seja o teológico, quando as hipóteses levantadas não encontram uma claríssima formulação na doutrina revelada. Esse é justamente o caso em questão, e bem definido pelo famoso e lúcido Pe. Antonio Royo Marin, O.P.:
“Eis aqui um dos problemas mais angustiantes e difíceis que podem oferecer ao teólogo. A pergunta é uma das que, com maior frequência e apaixonado interesse, formula a maioria das pessoas. E, sem embargo, não há outra em toda a Teologia católica que possa responder-se com menos segurança e certeza. A divina Revelação está muito obscura; a Tradição cristã está muito dividida, e a Igreja nada definiu a este propósito. Não podemos mover-nos, por conseguinte, senão no terreno das meras conjecturas e probabilidades.
“Daí a grande diversidade de opiniões, sobretudo entre os pregadores e teólogos. Desde o extremo rigorismo de um Massillon – cujo terrível sermão sobre ‘o pequeno número dos que se salvam’, atormentou tantos espíritos – até o otimismo exagerado e imprudente de tantos outros que salvam quase todo o mundo, há uma grande variedade de opiniões intermediárias” (3).
E com sua concisão sempre clara e luzidia, São Tomás assim se expressa sobre a matéria:
“A respeito de qual seja o número dos homens predestinados, dizem uns que se salvarão tantos quantos foram os anjos que caíram; outros, que tantos como os anjos que perseveraram; outros, enfim, que se salvarão tantos homens quantos anjos caíram e, ademais, tantos quantos sejam os anjos criados. Mas, melhor é dizer que só Deus conhece o número dos eleitos que hão de ser colocados na felicidade suprema” (4).
24 Ele respondeu-lhe: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão.
É imperativo o conselho de Jesus: “esforçai-vos”, indicando- nos o quanto não se deve deixar para “procurar” entrar à última hora. Mas, infelizmente, é assustador o número de pessoas que, ao longo da vida, se despreocupam de saber o que lhes acontecerá após a morte. Muitos estão dispostos a trocar o Céu pelo fugaz prazer de um segundo e agem tal qual o fez Judas Iscariotes face às enganosas delícias deste mundo: “Que quereis dar-me e eu vo-lo entregarei” (Mt 26, 15). Não são poucos os que preferem Barrabás a Jesus, entregando-se às paixões e pecados em detrimento do convívio sem fim, com Deus. São Basílio descreve o modo pelo qual eles fazem essa insensata opção:
“Com efeito, a alma vacila sempre: quando reflete sobre a eternidade se decide pela virtude. Mas, quando olha o presente, prefere os prazeres da vida. Aqui vê a moleza e os deleites da carne; lá, a sujeição, a servidão e o cativeiro da mesma. Aqui a embriaguez, ali a sobriedade. Aqui os risos dissolutos, lá a abundância de lágrimas. Aqui as danças, lá a oração. Aqui o canto, lá o pranto. Aqui a luxúria, lá a castidade”.
Mas, qual é essa porta estreita? Jesus no-la indica: “Nem todos os que dizem Senhor, Senhor, entrarão no Reino dos Céus, senão aquele que faz a vontade de meu Pai” (Mt 7, 21).
Ela consiste, portanto, na obrigação nossa de abater o orgulho, controlar nosso olhar, pensamentos e desejos, guardar nosso coração das afeições desordenadas, viver da fé e da esperança na prática da verdadeira caridade, etc.
25Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, vós, estando fora, começareis a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos. Ele responderá: Não sei donde sois.
Os Evangelistas costumam relatar as aproximações que o Divino Mestre fazia entre o Reino dos Céus e um banquete... Segundo as praxes da época, por medidas de segurança, além de outras razões, ao chegar o último convidado, o anfitrião trancava as portas. E assim, para tornar ainda mais clara a alegoria da porta estreita para se entrar no Céu, Jesus apresenta a parábola do pai de família que se fecha em casa com os seus filhos e amigos. Os que restaram fora pedirão que lhes deixe entrar, e receberão a resposta: “Não sei donde sois”. A razão dessa resposta não vinha do fato de não haver mais lugar, mas sim, por não terem querido entrar pela porta estreita.
Que surpresa para aqueles que julgavam estar salvos devido à prática de umas tantas e poucas obrigações religiosas...

A cena descrita nesta passagem traduz em termos domésticos uma profunda realidade eterna. A família aqui representada é a divina. A ela pertencem todos os batizados que vivem na graça de Deus e, nesta morrendo, gozarão da felicidade perpétua participativa do convívio da Santíssima Trindade. De fora daquela intimidade ficarão todos os que morrerem impenitentes de seus pecados. O Pai os tratará como estranhos desconhecidos.

Continua ...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

EVANGELHO XX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013

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Continuação dos comentários ao Evangelho  - Lc 12, 49-53 - 20º Domingo Tempo Comum - Ano C - 2013
Jesus Se opõe à tranquilidade da desordem
51“Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a Terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão”.
Estamos diante de uma das afirmações mais incisivas proferidas pelo Mestre em todo o Evangelho: “não vim trazer a paz”. Como é que, o “príncipe da paz” profetizado por Isaías (9,5), Ele, que ao invocar a presença do Espírito Santo dirá: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19), prega não ter vindo trazê-la? Eis um versículo que causa perplexidade nos espíritos cartesianos. A explicação, porém, é simples e profunda: sua paz não coincide com a que é entendida a partir de conceitos deturpados: “não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14, 27). A autêntica paz é a tranquilidade da ordem, nos ensina Santo Agostinho.8 A paz rejeitada por Nosso Senhor é a que se estabelece quando as almas estão unidas no pecado, pela cumplicidade que leva os perversos a se protegerem entre si e a viverem em aparente concórdia, numa falsa harmonia fundamentada no mal. Por vezes pode haver dissensões, originadas sempre em interesses pessoais e egoístas, enquanto no campo dos princípios mantêm-se de pleno acordo.
Um adúltero, por exemplo, protege o cúmplice para fruir de seu relacionamento ilícito; os membros de uma quadrilha de salteadores apoiam-se no momento de roubar, para se apropriarem mais facilmente do bem alheio. A aparente paz reinante entre eles é na verdade a conivência no mal, porque o princípio de união que os congrega é o pecado; estão mancomunados numa acomodação de desordem na qual não há a verdadeira paz, por não haver conformidade com a ordem. Poderíamos comparar tal situação ao paradeiro de um infecto pântano onde se encontra todo tipo de germe de doença. Embora as águas sejam calmas, não estão em ordem, porque reina a podridão, proliferam os micróbios maléficos. A origem desse mútuo apoio está no fato de ser o homem dotado de vigoroso instinto de sociabilidade e, por isso, encontrar dificuldade em praticar o mal sozinho, contrariando sua própria consciência. A fim de romper a Lei de Deus, procura sempre uma companhia que o ajude a amortecer suas à rejeição daqueles que O amam pelos parentes mais próximos, quando estes se fecham ao convite da graça.
Não se trata, é claro, de uma regra absoluta, pois, caso todos estejam no caminho da santidade, a família experimenta a verdadeira paz. Não obstante, se a chama do amor divino não penetra o conjunto, deixa de existir o principal fator de coesão, conforme ressalta o ensinamento de Santo Ambrósio: “Se é preciso dar a honra correspondente aos pais, quanto mais ao Criador dos pais, a quem tu deves dar graças por teus próprios pais! E se eles não O reconhecem de modo absoluto como a seu Pai, como podes tu reconhecê-los? Na realidade, Ele não diz que se deva renunciar a tudo o que nos é caro, porém, que se deve dar a Deus o primeiro lugar. [...] Não te é proibido amar teus pais, mas sim antepô-los a Deus; porque as coisas boas da natureza são dons do Senhor”.’°
Como os que vivem em pecado têm graves problemas de consciência, insatisfação e insegurança, desejam perverter ou destruir quem denuncia sua iniquidade. Esse ímpeto maléfico não respeita nem sequer os laços da natureza, de si tão elevados e abençoados por Deus, como vemos no martírio de Santa Bárbara ou na perseguição sofrida por São Francisco de Assis, além do testemunho de incontáveis outros bem-aventurados. Neles cumpriu-se à risca a predição feita neste versículo, pois foram perseguidos pelos próprios pais.
É esse fogo da caridade que Nosso Senhor veio trazer à Terra que desperta a inimizade dos adeptos da pseudopaz, produz um combate interno na vida familiar e gera uma situação na qual a virtude da fortaleza deve ser praticada, tornando inaceitável a união propagada pelos que desprezam a Deus. Não cabe dúvida de que, em certas ocasiões, devemos praticar a prudência e lançar mão de todos os meios para obter de Deus a salvação eterna de nossos parentes, mas tudo isso sem abandonar a firmeza de nossas convicções cristãs, as quais valem mais que qual quer vínculo terreno.
ACENDEI NOVAMENTE O FOGO DO VOSSO AMOR!
Passados dois milênios desta arrebatadora pregação do Salvador, a Liturgia de hoje vem repetir a conclamação feita por Ele, dessa vez voltada a cada um de nós. Com a mesma caridade empregada ao dirigir-Se a seus discípulos, Jesus nos convida a nos deixarmos consumir como uma chama de louvor e adoração a Ele, recebendo o fogo sagrado que viera trazer ao mundo. Abramos nossas almas para essa combustão renovadora que queima os egoísmos, sana os problemas, eleva as mentes ao desejo das coisas celestes e transpõe as barreiras da falta de confiança, de fé e de ânimo. Basta uma leve correspondência de nossa parte a esse amor para que maravilhas se operem, o poder das trevas seja vencido e se consolide o polo do bem. E quando o vento contrário da divisão se abater sobre nós, tenhamos presente que Jesus já o anunciara e não nos negará as forças para a vitória, pois os maus não podem triunfar sobre o fogo da integridade, da inocência, da radicalidade no bem; numa palavra, da santidade.
Com quanto pesar constatamos que a humanidade de nossos dias está precipitada num insondável abismo de pecado e, mais do que nunca, necessita de uma purificação. A gravidade das ofensas cometidas contra Deus e os riscos de salvação eterna pelos quais passam as almas indicam a indiferença de muitos face à mensagem salvífica do Evangelho. Nessa conjuntura cabe-nos fazer uma pergunta, e com ela um exame de consciência: em que medida temos colaborado na reversão desse quadro? Qual tem sido nossa generosidade à vista de tal situação, cuja única solução se encontra numa total entrega de nossa vida a Cristo, para a qual devemos caminhar com santa sofreguidão?
Um exemplo extraordinário de amor desapegado e cheio de fervor é-nos oferecido por Nossa Senhora. Ela estava consumida pela caridade, preocupando-Se com a situação do mundo, com o resgate das almas que se perdiam, desejando cooperar na conversão da humanidade. Ao Se considerar nada, ardia de zelo e foi, por esta razão, visitada pelo Arcanjo São Gabriel, que Lhe trouxe o prêmio por seu fogo de amor: a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em seu seio.
Conforme comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “a principal alegria de Nosso Senhor durante a vida terrena estava numa lâmpada acesa na casa de Nazaré: o Coração Sapiencial e Imaculado de Maria, cujo amor excedia o de todos os homens que houve, há e haverá até o fim do mundo”.11 Peçamos à Virgem Santíssima que Se digne transmitir-nos uma centelha da caridade ardente de seu Coração, a fim de que seu Divino Filho Se utilize de nós como fiéis instrumentos na propagação desse fogo purificador por toda a face da Terra.
 10) SANTO AMBRÓSIO, op. cit., LVII, n.136, p.415.

11) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 7 abr. 1984.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

EVANGELHO XX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013

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Comentários ao Evangelho  - Lc 12, 49-53
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda? Tenho de receber um batismo e estou ansioso até que ele se realize. Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Não. Eu vos digo que vim trazer a divisão. A partir de agora, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. Estarão divididos o pai contra o filho e o filho contra o pai, a mãe contra a filha e a filha contra a mãe, a sogra contra a nora e a nora contra a sogra». Palavra da salvação.( Lc 12, 49-53)
AS MANIFESTAÇÕES DE AMOR DO DIVINO MESTRE
Comoventes e admiráveis são as manifestações de misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo no decorrer de sua vida pública. Sem jamais recusar benefício algum aos infelizes que d’Ele se aproximavam necessitando de auxílio, realizava curas corpóreas e espirituais nunca antes testemunhadas. Certa vez, enquanto caminhava pela estrada que conduzia à cidade de Naim, deparou-se com o funeral de um jovem que falecera deixando a mãe, uma pobre viúva, desamparada e sozinha. Compadecido da triste sorte que a aguardava, Jesus fez o jovem voltar à vida e o restituiu à sua progenitora em excelentes condições físicas, certamente melhores que as anteriores. Noutra ocasião, dez leprosos levantaram a voz a distância, implorando a Ele o fim de seus males. Receberam um olhar benigno do Mestre, seguido da almejada cura, mediante a qual regressaram à vida social, cheios de júbilo. Ainda maiores que estes, porém, eram os benefícios feitos às almas, pelo perdão dos pecados a todos os faltosos compungidos. Incessantes eram os milagres e incomensurável o alcance de seus favores. Por isso, o Apóstolo Pedro sintetizou tais obras afirmando que Ele “pertransivit benefaciendo — passou fazendo o bem” (At 10, 38).
Como ouvimos com frequência palavras cheias de comiseração saídas dos próprios lábios divinos, o ensinamento do Evangelho deste 20° Domingo do Tempo Comum pode causar-nos certa perplexidade por não se coadunar, à primeira vista, com o modo de proceder de Nosso Senhor consignado em outras passagens. Haveria, portanto, uma contradição no ministério de Jesus?
Ou suas palavras sobre o fogo, a divisão e o rompimento dos laços familiares contêm uma profundidade que exige uma análise mais acurada? O texto proposto pela Liturgia deste domingo oferece uma privilegiada oportunidade de compreendermos a verdadeira amplitude da perfeitíssima pregação de Cristo e os seus desdobramentos para a vida de cada um de nós.
UM NOVO FOGO É TRAZIDO  TERRA
Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos:  “Eu vim para lançar fogo sobre a Terra, e como gostaria que já estivesse aceso!”
Ousada é a afirmação do versículo inicial, no qual Nosso Senhor de- - ‘ clara ter assumido a Encarnação com a finalidade de propagar um fogo, sendo tão veemente o seu desejo de vê-lo arder que aguarda com ansiedade a chegada de tal momento. Deveríamos entender tal afirmação num sentido estrito? Teria Ele vindo como uma tocha chamejante, para percorrer todos os quadrantes a fim de produzir um incêndio universal? E evidente que não.
Por outro lado, sabemos que a figura do fogo aparece na Escritura com diversos significados, na maioria das vezes com uma conotação punitiva. No episódio em que uma labareda saída de junto do Senhor devorou os duzentos e cinquenta que tinham se revoltado contra Moisés, tão eficaz foi o efeito produzido que não restaram sequer indícios dos difamadores (cf. Edo 45, 22-24; Num 16, 35). Com um propósito semelhante Elias fez descer fogo do Céu sobre dois capitães, cada qual em companhia de cinquenta soldados, todos imediatamente incinerados (cf. II Re 1, 9-12). 0 Apocalipse prenuncia o fogo que deve ser lançado à Terra na conflagração final para purificá-la (cf. Ap 20, 9-10). Além disso, as menções às penas infernais sempre são acompanhadas pela imagem de um incêndio peculiar, criado por Deus para este fim, cuja energia é Ele próprio, um fogo inteligente que não se apaga.1
Ora, o contexto deste Evangelho denota que o Salvador não alude às passagens antigas já conhecidas pelo público ao qual pregava, nem se refere às chamas do inferno. Suas palavras, envoltas em ar de mistério, versam sobre um fogo novo, preconizado apenas pela pregação de São João Batista.
A humanidade necessitava de uma purificação
À multidão comprimida, ávida por saber se estava ou não diante do Messias, declarou o Precursor em tom solene: “Eu vos batizo na água, mas eis que vem outro mais poderoso do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias; ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Le 3, 16). Era o anúncio do batismo sacramental, incomparavelmente mais profundo, eficaz e perfeito que o de penitência, e acompanhado por um fogo renovador.
De fato, antes do advento de Nosso Senhor, a humanidade estava pervadida e maculada pelos efeitos do pecado original, tendo se tornado verdadeira escrava das paixões desordenadas. Ao longo dos séculos, houve um paulatino enraizamento dessas más tendências com todas as lamentáveis consequências registradas pela História, fazendo-se indispensável uma purificação. Como operar a santificação da sociedade em tais circunstâncias? Pelas vias normais do esforço ou pela prática de uma virtude natural não se atinge tão elevado objetivo; fazia-se imprescindível um fator determinante originado por iniciativa divina, uma vez que o homem não tinha meios de vencer sua própria maldade, sendo este o magnífico remédio que o Redentor nos viera trazer.
O fogo do amor divino
Através da união da natureza humana com a divina em uma só Pessoa, e pelos méritos infinitos da Encarnação, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, desceu à Terra um fogo capaz de purificar o pântano no qual os homens estavam atolados: “Jesus veio do Céu à Terra para pôr fogo nas almas a fim de depurá-las, queimar suas escórias e torná-las pura prata e ouro diante de Deus: é o fogo da santidade, da caridade; é todo o sistema de santificação que Jesus trouxe ao mundo”.2 Com a Redenção, fomos elevados a um patamar espiritual inimaginável, pois foi-nos aberta a possibilidade de sermos agradáveis a Deus e partícipes de sua própria divindade. Conclamados a assumir a mesma perfeição do Pai Celeste (cf. Mt 5, 48), recebemos para isso a efusão do amor de Cristo que acrisola nosso próprio amor, torna-o meritório e fecundo, além de nos oferecer a possibilidade de vencermos o pecado, que embora ainda lance seu aguilhão já não impera mais. A medida que os homens se deixam penetrar pelo fogo da caridade, os obstáculos aos ditames da graça vão sendo transpostos, porque nada pode deter a marcha daqueles que amam. Quem se entrega por inteiro ao amor sobrenatural torna-se capaz de realizar prodígios, tal como fizeram os grandes heróis da Fé.
Santa Joana d’Arc, por exemplo, montou no cavalo, vestiu uma armadura, liderou um exército e conquistou a liberdade de sua nação. Santa Catarina de Sena, grande Doutora da Igreja, conseguiu que o Papa voltasse à Sé de Roma após mais de meio século de exilio em Avignon, e aconselhou com tanta sabedoria os poderosos de seu tempo que ninguém pôde questionar a inspiração divina de suas palavras. Para ambas não houve lei de prudência humana que significasse um impedimento. Movidas por esse fogo abrasador, devotaram-se a uma causa superexcelente, enfrentaram com determinação sobre-humana as maiores adversidades e mudaram os rumos da História.
Essas foram almas que possuíram a plenitude da caridade, para cuja representação Nosso Senhor não encontrou melhor símbolo que o fogo, pois a chama é atraente, bela, eleva seu brilho para o céu e ilumina. Ao mesmo tempo, contudo, queima, e diante desse poder de combustão não há quem cometa a temeridade de julgá-lo inócuo.
O batismo do Calvário
50 “Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra!”
Evidenciando ainda mais quanto a propagação deste fogo depende de seu próprio impulso, o Mestre revela ter necessidade de passar por um batismo, valendo-Se, para isto, da incisiva formulação “devo receber”. Já recebera Ele, nos primórdios da vida pública, o batismo de São João — do qual não precisava, mas quis ser dele partícipe para santificar as águas do universo, entre outras razões  —, o que torna claro não Se referir aqui ao batismo penitencial. Acima deste — e infinitamente mais valioso! — está o doloroso batismo de sangue operado pelos tormentos da Paixão. O autorizado parecer de Maldonado sintetiza a opinião dos exegetas a esse respeito, uma vez que Nosso Senhor deixa a afirmação envolta numa penumbra um tanto misteriosa: “Chama batismo, indubitavelmente, à sua Paixão e morte, como todos os intérpretes admitem [...]. De sorte que ser batizado, que é propriamente submergir-se nas águas, interpreta-se aqui por padecer e morrer; e batismo, por tribulação, paixão e morte”.4 Dada a suprema perfeição de Cristo, compreende-se não redundar esse batismo em um benefício para Ele, que é Deus, mas sim para a humanidade.
Qual seria a razão de estar Ele ansioso para que isto se cumprisse? O resgate do gênero humano a ser operado através dessa entrega, pois seu amor infinito pelas almas O impelia a querer purificá-las quanto antes e fazer com que esse fogo começasse a consumir as misérias humanas, transformando os homens em perfeitos filhos de Deus. Era o “desejo ardente e generoso com que, como Redentor, Jesus queria de alguma maneira antecipar sua Paixão, devido aos frutos de salvação que ela haveria de produzir para a linhagem humana” .
Tal como se verifica em todos os pormenores e ditos da vida do Salvador, um sublime ensinamento dimana desta passagem: Jesus nos mostra o quanto devemos anelar por ver logo realizado o bem que nos cabe fazer. A partir do momento em que a vontade divina a nosso respeito se torna clara, devemos ansiar por cumpri--la sem demora, empenhando nisso todos os nossos esforços, dedicação e sacrifícios, a fim de sermos instrumento da graça para a salvação do próximo. O fogo da caridade não comporta delongas, pois estas significam um esmorecimento de fervor; assim, Jesus, movendo-Se apenas por amor ao Pai e a nós, caminha ávido para o tormento, como sublinha Santo Ambrósio: “Tamanha é a condescendência do Senhor, que testemunha ter um grande desejo em seu coração, de infundir-nos a devoção, de consumar em nós a perfeição e de levar a cabo, em nosso favor, sua Paixão”.6
A dadivosidade do Coração de Jesus
A infinita dadivosidade de tal entrega nos conduz à consideração dos benefícios recebidos de Cristo: Ele quis encarnar-Se, sofrer todas as vicissitudes de uma natureza humana padecente, tais como fome, frio, sede, calor, cansaço, injúrias.., e, além de tudo, receber o batismo de sangue. Realizou o holocausto com o intuito de reparar nossas faltas e oferecer-nos a purificação de todas as manchas do pecado de nossos primeiros pais, Adão e Eva, devolvendo-nos o estado de graça e reintroduzindo-nos, assim, na familiaridade com Ele pela participação da natureza divina, concedendo-nos o privilégio de sermos filhos do Pai por adoção: seus irmãos e coerdeiros, para gozarmos a eternidade junto a Ele. Desse modo entrevemos, ainda que de forma muito imperfeita, as dimensões extraordinárias do Sagrado Coração de Jesus, coração humano unido hipostaticamente a Deus, no qual há inteira conformidade entre o amor que parte da humanidade e o que se origina na divindade. São dois amores coexistentes num mesmo Coração, tornando-se, por isso, incompreensíveis, inatingíveis e inabarcáveis por nosso limitado intelecto.
Depois do ápice de doação desse Coração consumada no Calvário, compreende-se que o desenrolar da História não mais poderia ser como antes.
UMA NOVA ERA PARA A HUMANIDADE
Após ter sintetizado em dois extraordinários versículos o transbordamento de amor com o qual trouxe a salvação à humanidade, Nosso Senhor acentua, nos seguintes, as consequências da adesão à sua Pessoa e doutrina. Com efeito, desde o primeiro pecado cometido por Adão e Eva até a Encarnação, existia uma força predominante na face da Terra que podemos designar como sendo o poio do mal. Embora vigorasse a promessa divina, assegurando a Redenção, e a solicitude do Criador se exercesse de modo constante em favor dos judeus, é patente que entre os demais povos da Antiguidade existia um só consenso humano pelo qual o mal reinava em todos os ambientes, não havendo meios de os bons realizarem obras relevantes para destruírem o império do demônio. Com base naquela pseudo-harmonia produzida pelo pecado — uma unidade enganosamente perfeita —, os poderes infernais estabeleceram a coesão do mal. Era, por assim dizer, proibido ser bom, e todos os homens, com raríssimas exceções, adaptavam-se à mentalidade dominante. Até os que praticavam o bem o faziam quase sempre na surdina, sem se tornarem conhecidos, sob pena de suas boas ações serem aniquiladas com ímpeto avassalador, caso elas adquirissem vulto significativo.
Ora, a vinda de Cristo ateou o fogo do amor divino sobre a Terra e inaugurou o polo do bem, com extraordinária força de expansão. Como observa o padre Manuel de Tuya: “Esse fogo que Ele propaga na Terra exigirá que se tome partido por Ele. Incendiará muitos, e por isso Ele traz a ‘divisão’, não como um objetivo, mas como uma consequência”.7 Uma radical separação torna-se inevitável, pois quem adere ao bem restringe a ação de quem opta pelo mal e impede o seu progresso, abrindo-se, desse modo, um abismo que os distancia.

Continua no próximo post
1) A esse respeito, diz Garrigou-Lagrange: “São Tomás (C. Gentes, IV, c.90; lila; Suppi., q.70, a.3) e seus melhores comentadores admitem que o fogo do inferno recebe de Deus virtude de atormentar os renegados” (GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. O homem e a eternidade. Lisboa: Aster, 1959, p.153). Ver também SAO TOMAS DE AQUINO. Suma Teológica. Suppi., q.97, a.5, ad 3; a.6, ad 2.
2) GOMA Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Años primero y segundo de la vida pública de Jesús. Barcelona: Acervo, 1967, v.11, p.195.
3) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., III, q.39, a.1.
4) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1956, v.11, p.609.
5) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.11, p.385.
6) SANTO AMBROSIO. Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. L.VII, n.133. In: Obras. Madrid: BAC, 1966, v.1, p.411
7) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V p.855.

8) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. LXIX, c.13, n.1. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, v.XVI-XVII, p.1398.