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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013

  Continuação dos comentários ao Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013 - Lc I 7, 5-10
por Mons João Clá Dias

A virtude fundamental da fé
Nosso Senhor já os advertira, em ocasiões anteriores, a respeito do risco do amor desordenado às riquezas – conforme já consideramos nas parábolas do administrador infiel e a do pobre Lázaro -, consequência de uma fé apequenada. Os discípulos foram, pois compreendendo a necessidade dessa fundamental virtude, sem a qual seria impossível perseverar até o fim de sua missão. Ensina São Tomás que essa é a principal virtude para ter-se o desprendimento dos bens materiais, bem como para a prática das outras virtudes, as quais, nas palavras de Royo Marín, “ nela se estribam, como o edifício sobre os seus alicerces […]. Informada pela caridade, dela vivem e, graças a ela, progridem”. 10 É, portanto, indispensável pedi-la a Deus, conforme nos demonstra o Evangelho desta Liturgia.
A fé é passível de crescimento?
Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta nossa fé!”
Mas era preciso pedir esse aumento de fé, se já a possuíam em seu interior? Todavia, o pedido dos Apóstolos tinha fundamento. A virtude infusa da fé é passível de acréscimo ou de diminuição, e tanto pode se fortalecer como enlanguescer-se. Segundo explica ainda são Tomás, 11 ela cresce ou diminui de forma proporcional ao número de verdades conhecidas. Por esse motivo, além dos atos de piedade e devoção praticados -os quais tambén tornam a fé mais robusta -, fortalecerá essa virtude quem estudar a Doutrina Católica, ampliando o quadro de verdades conhecidas pela própria inteligência.
Aumentaremos a fé se adaptarmos nossa vida diária – trabalhos, obrigações e responsabilidades -à fé professada, pois, se houver dicotomia entre esta virtude e a vida prática, entre aquilo que cremos e o que fazemos, a fé terminará por evaporar-se. É necessário, portanto, que a fé coroe todas as nossas atividades, como destaca o padre Royo Marín: “as almas que tiverem progredido na vida cristã, procupar-se-ão com o incremento desta virtude fundamental até conseguir que toda a sua vida esteja informada por um autêntico espírito de fé que as transponha a un plano estritamente sobrenatural, a partir do qual possam ver e julgar todas as coisas”.12 Contudo, tal conduta não é tão fácil de ser mantida. As dificuldades do dia a dia nos fazem chegar a uma conclusão: é indispensável suplicar com fervor o auxilio divino. Agiram, então, muito bem os Apóstolos ao pedir o aumento de sua fé, a qual, segundo podemos julgar pela resposta de Nosso Senhor, era bem frágil...
Era preciso ter fé antes de pedir seu aumento
6 O Senhor respondeu: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como un grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: 'Arranca-te daqui e planta-te no mar', e ela vos obedeceria”.
Sua resposta reveste-se de certa dureza. De fato, a fé de seus escolhidos era ainda menor que o minúsculo grão de mostarda, quase do tamanho de uma partícula de açúcar. Ora, bastava uma fé de diminuta dimensão para mandar uma árvore sólida como a amoreira jogar-se ao mar. Afirmação surpreendente! A amoreira desta passagem de São Lucas provavelmente corresponde ao Shiquemah -sicômoro-, árvore de raízes vigorosas, que se fixam no chão com toda a força. 13 Seria possível que alguém realizar tamanha proeza? Entretanto, não fez o Mestre tal declaração apenas de forma metafórica. A fé é, de fato, capaz de mover montanhas, pois por detrás dela está o poder de Deus, e quando alguém se une à força divina pela robustez de tão valiosa virtude, torna-se forte quanto é forte o próprio Deus.
Ante essa concepção verdadeira da fé, Nosso Senhor contrapõe o conceito errado do mundo a respeito do relacionamento do homem com Deus.
Uma situação humana, imagem do relacionamento sobrenatural
“Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra o cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: 'Vem depressa para a mesa?' 8 pelo contrário, não vai dizer ao empregado: 'Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me, enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber?' 9 Será que vai agradecer ao empregado porque fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vós: Quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”.
O Divino Mestre tem diante de si ouvintes com acentuado senso hierárquico, portanto, sem os igualitarismos dos dias hodiernos, e para quem todas as funções sociais eram muito bem definidas. Por essa razão pôde fazer uso, nesta parábola, da figura do servo, 14 ou seja, daquele homem sem direitos, cujo trabalho consistia em cuidar dos animais e dos campos de seu senhor, sem que jamais alguém se tivesse posto o problema de ocorrer a hipótese por Ele levantada. Embora entre o povo eleito o tratamento dispensado aos escravos fosse incomparavelmente mais compassivo do que entre os povos pagãos, 15 era inconcebível imaginar o próprio servo sentado à mesa do amo. Ao voltar do trabalho do campo, o criado se lavava e cingia os rins para servir o patrão. Só depois tomava sua refeição.
Esta cena, narrada por Cristo com sabedoria infinita, ilustra qual deve ser nosso relacionamento com Deus. Quando conseguimos cumprir inteiramente os Mandamentos ou nossas próprias obrigações, devemos reconhecer não ter sido por esforço próprio, nem como fruto de qualidades ou capacidades pessoais, mas, sim, da graça. Antes mesmo de termos realizado algum ato bom, Nosso Senhor já nos pagou com antecipação, concedendo-nos sua ajuda. Por isso, mesmo tendo feito o bem, não temos o direito, por nós mesmos, de merecimento algum. Com efeito, assim o declara Santo Ambrósio, Padre e Doutor da Igreja: “ninguém se glorie de seu bom proceder, pois por uma justa dependência devemos nosso serviço ao Senhor. […] Ele não pode admitir que te apropries do mérito de uma ação ou trabalho, já que, enquanto estejamos vivos, é dever nosso trabalhar sempre. Portanto, vive de acordo com a convicção de seres um servo ao qual se encomendaram muitos afazeres […] Não te acredites mais do que és pelo fato de te chamarem filho de Deus -deves reconhecer, sim, a graça, mas não podes esquecer a tua natureza -, nem te enchas de vaidade por ter servido com fidelidade, pois esse era teu dever”. 16 Ainda quando cumprimos nossas obrigações, continuamos sendo servos inúteis, ensina-nos hoje Jesus.
Concepçao comercial da religião
Dada a natureza decaída pelo pecado, a tendência geral do homem é não reconhecer que tudo lhe vem do Alto, forjando para si uma religião marcada pela mentalidade comercial. Muitas vezes transferimos o intercâmbio mercantilista de interesses -tão profundo nas relações humanas de todos os tempos- para o trato com Deus, e queremos apresentar-nos diante d'Ele cobrando aquilo que julgamos pertencer-nos pelo fato de termos feito algum bem. Na realidade, ninguém seria capaz de pronunciar sequer uma jaculatória ou fazer um sinal da cruz com mérito sobrenatural se não estivesse unido, e até “enxertado”, em Nosso Senhor Jesus Cristo, que afirmou: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). No campo sobrenatural, todos os nossos méritos estão ligados a Ele e nos são transferidos por Ele. Somos meros servos! D'Ele recebemos o ser, a redenção e o sustento da graça. 17
A imagem desta parábola encontra-se, então, ainda distante da realidade, pois o servo ali figurado conserva alguma liberdade enquanto nós estamos dentro de uma escravidão compulsória -nossa origem é a escravidão-, a qual, após a Redenção, mais se intensificou.
Deus nos premeia por aquilo que Ele mesmo nos concede
O homen deve, pois, considerar-se um ser contingente, dependente dos outros e consciente de que, em relação a Deus, essa dependência deverá ser absoluta. Se existimos, é porque em primeiro lugar Ele existe e, em sua infinita bondade, tirou-nos do nada, sem nosso consentimento, para dar-nos uma alma na qual pudesse ser introduzida a vida da graça. Ele nos redimiu e a cada instante sustenta nosso ser. Tudo é, portanto, gratuito, e quando agimos com perfeição estamos tão só restituindo-Lhe aquilo que d'Ele mesmo recebemos. Con quanta propriedade afirma a Sagrada Liturgia: “na assembleia dos Santos, vós sois glorificado e, coroando seus méritos, exaltais vossos próprios dons!”. 18 De fato, quando as obras humanas merecem algum prêmio da parte de Deus, isso é devido aos dons ou graças dadas com antecipação por Ele mesmo. Sendo Ele a Humildade e a Generosidade, faz-nos trabalhar para sua glória, ajuda-nos a praticar atos de virtude e ainda nos torna merecedores de sua recompensa, escondendo-Se, como se os merecedores fôssemos nós.
Entretanto, tal prodigalidade divina exige de nossa parte reciprocidade: nunca nos apropriemos daquilo que pertence só a Deus. Somos “servos inúteis”, devendo pedir muito a virtude da fé, a fim de compreender que Ele é o único a levar tudo adiante, e a nós cabe apenas o cumprimento de um mandato ou desígnio seu. Assim, não podemos exigir d'Ele, como se fosse nossa, a glória dos nossos pretensos méritos. Só com essas disposições de alma estaremos tomando a atitude perfeita no relacionamento com Ele.
A perfeita contingência em relação a Deus
Uma só criatura soube ter fé ardente e compreender a contingência de modo perfeito, em sua plenitude, tendo sido objeto de um dom insuperável da parte de Deus, “porque olhou para a humilhação de sua escrava”. (Lc 1, 48). Somente Ela teve a noção clara e sublime do seu nada e de sua dependência completa do Altíssimo. A partir desse reconhecimento do próprio nada, Deus se inebriou de amor por Ela, escolhendo-A e constituindo-A um paraíso para Si, superior ao dos próprios Anjos. A estes fora dado o Céu Empíreo, a nós o Paraíso Terrestre, mas para a Santíssima Trindade foi escolhida Aquela que disse “eis aqui a escrava do Senhor” (Lc 1, 38): Maria Santíssima! Belíssimo comentário a esse respeito nos deixou São Luís Maria Grignion de Montfort: “A divina Maria, direi com os santos, é o paraíso terrestre do novo Adão, onde Ele se encarnou por obra do Espírito Santo, para realizar ali maravilhas incompreensíveis; é o excelso e divino mundo de Deus, que encerra belezas e tesouros inefáveis; a magnificência do Altíssimo, onde Ele ocultou, como em seu próprio seio, seu Filho único e, n'Ele, tudo o que há de mais excelente e precioso”. 19
Nunca perder a Fé perante as dificuldades
O Evangelho deste domingo nos ensina o papel fundamental da fé, na gozosa dependência de Deus. As desilusões e dificuldades humanas, imprevistas ao longo da vida, são permitidas pela Providência Divina para marcar em nós o momento culminante no qual Deus ou o demônio se torna vencedor no campo de batalha interior da alma. Ao presenciar o desabamento dos sonhos construídos sobre os fundamentos frágeis de nosso instinto de sociabilidade desregrado, a fé pode diminuir e ficarmos egoístas, procurando a segurança nos bens materiais. Não obstante, se, pelo contrário, mantivermos a confiança -esperança fortalecida pela fé- recomendada por Nosso Senhor neste trecho do Evangelho, teremos a possibilidade de uma vida feliz nesta terra, ainda que sempre acompanhados da cruz, de toda e qualquer circunstância, devido a nosso estado de prova. Só essa fé firme e sem faça nos faz viver, de fato, numa submissão total a Deus, tornando-nos capazes de enfrentar os sofrimentos com ânimo.
Crescer na fé significa, muitas vezes, presenciar ou sofrer um desastre e manter, no fundo da alma, uma confiança inabalável. Cena mais pungente não poderia enfrentar quem, ao chegar ao Calvário, se deparasse com Jesus crucificado entre dois ladrões! No entanto, com a alma partida diante de tal drama, encontraria consolo se soubesse pensar nas maravilhas que daquela Cruz iriam surgir, tal como fazia Nossa Senhora, que ali estava, de pé, sem esmorecer. Sejamos confiantes, pois os desastres são permitidos por Deus para se obter algum bem maior. A fé é o unguento para todas as nossa dores, é o ânimo e a alegria em meio aos sofrimentos deste grande deserto -a existência no exílio terreno- , até atingirmos um dia a felicidade eterna, na glória celestial.
A fé conquistará o mundo!
Vivemos em uma época de ateísmo em que a fé vai cada vez mais se esvaecendo no coração das pessoas. O terrível orgulho predomina em face de Deus, e o mundo não aceita nem adere às suas verdades. Diante de tal humanidade afastada de seu próprio fim, nosso anseio de católicos é o de ver a Boa-nova do Evangelho conquistar a face da Terra, de maneira a produzir os mais belos resultados em matéria de santidade. Temos bem presente o quanto as condições do momento estão longe de tornar isso naturalmente possível. Por isso, nos é pedido um dos maiores atos de fé jamais vistos e exigidos até os dias atuais.
Se os Apóstolos – escolhidos diretamente por Nosso Senhor – pediram um aumento de sua fé, como não o devemos pedir para nós? Peçamos, pois, a Ele, uma fé robustíssima, suplicando: Senhor, Vós sois Todo-Poderoso e criastes o dom da fé para infundi-lo nas almas; Vós tendes a possibilidade de criar essa virtude em grau infinito. Dai-nos, então, a fé de que tanto precisamos! Vinde e concedei-nos um fulgor de fé como nunca existiu na história!

sábado, 28 de setembro de 2013

Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013

Comentários ao Evangelho XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C - 2013 - Lc I 7, 5-10
por Mons João Clá Dias
Naquele tempo, os Apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé!” 6 O Senhor respondeu: “Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria.
 7 Se algum de vós tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por  acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: Vem depressa para a mesa?’ 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepara-me o jantar, cinge-te e serve-me enquanto eu como e bebo; depois disso tu poderás comer e beber?’  Será que vai agradecer ao empregado, porque fez o que lhe havia mandado! Assim também vós quando tiverdes feito tudo o que vos mandaram, dizei: ‘Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc I 7, 5-10).
Como enfrentar as desilusões?
Ao longo da existência nos deparamos com situações imprevistas que podem levar ao desânimo. Só na fé robusta encontraremos força para enfrentá-las.
O SER HUMANO QUER RELACIONAR-SE COM OS DEMAIS
Imaginemos um homem punido com o isolamento, preso na masmorra de uma longínqua torre, convencido de estar inteiramente afastado de tudo e de todos. Nessa triste situação, sem a mínima possibilidade de comunicação com qualquer pessoa, vê passarem-se os dias... Certa tarde de calor, porém, deita-se no chão e ouve, de repente, um rumor de vassoura em plena atividade. Surpreendido, aproxima-se da parede, coloca ali o ouvido e, percebendo pelos ruídos tratar-se da presença de alguém do lado oposto, dá algumas pancadas no muro. A resposta chega de imediato. E outro pobre preso que sofre de igual problema: isolado, deseja entrar em contato com alguém a quem possa transmitir suas aflições e que o entenda naquela infeliz situação. Depois de muitas batidas descobrem que, falando junto ao ralo da cela, conseguem se fazer ouvir um ao outro e, a partir daí, começa um verdadeiro relacionamento entre ambos os cativos, causando-lhes imensa consolação. Pois, o isolamento absoluto que era o maior tormento daquele cativeiro, por ferir o instinto de sociabilidade, de alguma forma, tinha-se rompido com o estabelecimento desse rudimentar modo de comunicação. Essa singela história nos ilustra a necessidade intrínseca ao homem de entrar em contato com seus semelhantes.
Um fenômeno comum ao gênero humano: a “fímbria da insegurança”
Tal anseio natural, consequência do instinto de sociabilidade infundido por Deus em nós, é inerente a todos os homens.1 Cada um conserva em si mesmo um entranhado desejo de obter proteção, de poder apoiar-se em alguém e de sentir-se seguro, pois Deus não criou o homem autossuficiente. Ele tem numerosas carências e debilidades que só consegue suprir vivendo em sociedade e com a entreajuda de seus semelhantes. Por isso, ele tem de ter uma fé humana nos demais. E é compreensível, pois “sem a fé humana, a vida social seria totalmente impossível, e boa parte de nossos conhecimentos — os quais cremos serem certos e seguros — viriam estrepitosamente abaixo”.2 Entretanto, não existe a possibilidade de aplicar essa fé com total segurança a ninguém sobre a face da Terra, pois, “pela natureza, nenhuma pessoa adulta está acima ou abaixo de outra a tal ponto que uma possa elevar-se à frente da outra como autoridade de valor absoluto”.3 Todos sabemos como a natureza humana é falível em decorrência do pecado original e, por isso, somos levados a conferir nossos critérios com a opinião dos demais para diminuir a probabilidade de erro, sobretudo, no que toca à procura da verdade. Não é sem razão que aconselha Santo Agostinho: “Que nenhum de vós pretenda colocar sua esperança no homem. O homem só é alguma coisa enquanto se une Àquele por quem foi feito. Porque, se d’Ele se afastar, nada mais é o homem, ainda quando se una a outros”.4
E como o gênero humano está sujeito ao erro moral e intelectual, o homem com frequência trai a confiança dos outros, ao valer-se tão só de sua própria natureza, pois sem a graça é o egoísmo que prevalece sobre o amor ao próximo. Desencadeou-se assim para a humanidade uma instabilidade fundamental, denominada pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira “fímbria da insegurança”, ou seja, “uma espécie de fímbria do espírito humano, a qual não elimina a possibilidade de conhecermos algumas verdades com certa firmeza porém, apenas crepuscular —, misturada com insegurança”.5 Dessa forma, carregamos dentro de nós mil indecisões, não havendo, nem em nós nem nos outros, a garantia plena de agir com acerto. A medida que os anos e as décadas passam o problema se agrava. A experiência da vida vai contabilizando as desilusões e as decepções. Constatamos um equívoco aqui, um erro ali, um engano acolá... E concluímos que não se pode depositar a confiança no homem. Como resolver, então, esse problema da “fimbria da insegurança” e adquirir certezas firmes?
Ora, se a falibilidade natural do homem torna inconsistente a confiança no seu semelhante, isso, contudo, não acontecerá se houver a ação dessa virtude sobrenatural, em relação a Deus, cuja prática tornar-se-á possível pela graça, e cujo agir não é outro senão o da virtude teologal da esperança fortalecida por firme convicção, como diz São Tomás,6 e como sintetiza o grande tomista padre Santiago Ramírez, seguindo a trilha de seu mestre: “Esperança perfeita e robusta em seu gênero, a qual se chama propriamente confiança [...1. Não é uma esperança qualquer e vacilante, mas uma esperança firme, decidida, certa, segura, sem titubeios de nenhuma classe. Uma esperança que não falha nem defrauda”.7 E a confiança que nos dá a certeza de existir Alguém com o qual podemos nos relacionar, seguros de nunca produzir em nós equívoco, de nunca defraudar nossas esperanças legítimas. Esse é Deus!
É tal confiança, sem dúvida, que será capaz de resolver a questão da “fímbria da insegurança” oculta no interior de todos os homens, libertando-nos da incerteza que atinge quantos se aferram ao mundo material, segundo o ensinamento do Bispo de Hipona: ‘Aproxima-te, pois, de Deus; esse jamais desmerece porque não existe nada de mais formoso. Se as coisas daqui nos aborrecem, é por causa de sua instabilidade, pois elas não são Deus. Ó alma! Coisa alguma poderá saciar-te, se não for Aquele que te criou. Lá onde colocares tua mão, acharás miséria; só poderá saciar-te quem te fez à sua imagem. [...j Só ali, em Deus, pode haver segurança”.8
A fé viva nos Evangelhos
Essa fé, todavia, não pode reduzir-se a um simples princípio teórico e doutrinário. Para ser íntegra, sobretudo em meio a nosso mundo tão conturbado, é preciso aplicá-la a Alguém: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encamada, Nosso Senhor Jesus Cristo! Os fatos narrados ao longo dos Evangelhos nos atestam como essa fé viva era um dom comunicado aos que d’Ele se aproximavam com plena confiança, como, por exemplo, o centurião romano. Tinha ele fé no poder do Redentor de curar um dos seus servos, inclusive à distância, e dele afirmaria o Divino Mestre jamais ter encontrado semelhante fé em Israel (cf. Lc 7, 2-10). A fé daquele comandante, que causara admiração no próprio Jesus enquanto homem, havia-lhe sido infundida por Ele mesmo, enquanto Deus.
Também a persistente cananeia nos deu provas de grande fé ao pedir com tanta insistência a cura da filha (cf. Mt 15, 22-28). Mais uma vez era um dom de Deus concedido à estrangeira, em um grau que nem os próprios judeus possuíam, talvez por não terem querido aceitá-la... Igualmente o pobre leproso, ao ajoelhar-se e suplicar: “Senhor, se vós quereis, podeis curar-me!” (Lc 5, 12), manifestava uma fé profunda, sendo, por isso, imediatamente atendido. Semelhante fé ainda revelou-se na sofrida hemorroíssa, que padecia havia longos anos. Procurava ela, com humildade, um momento oportuno para aproximar-se do Messias, acreditando ficar curada se ao menos conseguisse tocar na orla de seu manto sagrado (cf. Lc 8, 43-48).

Tal era a fé que Cristo desejava infundir em seus Apóstolos, nesta passagem do Evangelho do 27 Domingo do Tempo Comum.
1) Cf. TAPARELLI, SJ, Luis. Ensayo teórico de Derecho Natural. 2.ed. Madrid: San José, 1884, tI, p.154-155.
2) ROYO MARIN, OP, Antonio. Lafe de la Iglesia. 4.ed. Madri& BAC, 1979, p.17.
3) Idem, p.16.
4) SANTO AGOSTINHO.Enarratjo in psalmum LXXV, n.8. In: Obras. Madrid: BAC, 1965, v.XX, p.992-993.
5) CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. Palestra. São Paulo, 29 maio 1965.
6) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-JI, q.129, a.6, ad 3.
7) RAMIREZ, OP, Santiago. La esencia de la esperanza cristiana. Madrid: Punta Europa, 1960, p.120-121.
8) SANTO AGOSTINHO. Sermo CXXV, nil. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1965, v.X, p.531-532.
Continua no próximo post

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

EVANGELHO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 16, 19-31

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS DE MONS JOÃO CLÁ DIAS AO EVANGELHO DO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM -  ANO C - 2013 - Lc 16, 19-31
Invertendo os papéis na Parábola
Pode-se perguntar: vai-se para o inferno pelo simples fato de ser rico? No Céu, só entram os mendigos? Toda riqueza é um mal e toda miséria, um bem?
Neste trecho de Lucas, encontramos a descrição de uma condenação e de uma salvação. As penas eternas aplicadas ao avarento são devidas ao mau uso das riquezas, pois estas, de si, são neutras, nem boas, nem más. Depende do uso que delas se faça. O mesmo se deve dizer da pobreza, não é ela boa, nem má. Para qualificá-la é necessário saber com que disposição interior foi aceita.
Assim, para maior clareza de análise, invertamos os papéis das duas figuras principais da Parábola. Imaginemos o rico cheio de compaixão por Lázaro, a ponto de contratar um médico para curar-lhe as chagas, comprar-lhe os remédios, conseguir-lhe um bom abrigo e proporcionar-lhe deliciosos alimentos. Ademais, procurando cercá-lo de afetuosas atenções, chegando a rezar várias vezes ao dia por sua saúde, como também por sua eterna salvação.
Por outro lado, suponhamos um Lázaro que teria a alma mais ulcerada do que seu corpo, pois se consumiria de inveja dos bens do rico e, revoltado contra tudo, contra todos e contra o próprio Deus, cobriria de injúrias o seu benfeitor, desejando-lhe a desgraça e até a morte. A cada ato de comiseração e estima da parte do rico, corresponderia uma reação mal-educada e ressentida de Lázaro. Este só se acalmaria quando obtivesse toda a fortuna daquele, e, para isto, estaria disposto a instigar seu ódio em muitos outros.
Se, nesse estado de alma, morressem ambos, qual seria o destino eterno de cada um?
Não há a menor dúvida: Lázaro iria para os “tormentos do inferno” e o rico seria “levado pelos Anjos ao seio de Abraão”.
Confirmando esta suposição, ouçamos o comentário feito por São João Crisóstomo: “Os Anjos serviram e levaram o pobre e o colocaram no seio de Abraão, porque ele, apesar de ter vivido desprezado, não havia se desesperado, nem blasfemou dizendo: ‘Este rico goza vivendo na opulência e não padece tribulação, e eu não posso alcançar o alimento necessário’” 6.
Quanto precisamos ter sempre presente diante dos nossos olhos esta Parábola, a fim de bem sabermos nos servir, sem apego, das riquezas e aceitarmos com paciente resignação as dores, provações e contingências da vida!
Essa é a fundamental lição para todos os tempos: o bom relacionamento entre ricos e pobres, e de ambos com Deus, no uso dos bens ou na aceitação das situações constrangedoras pelas quais passem.
Como andará o mundo de hoje nessa matéria? Haverá ainda Lázaros de alma? Existirão ainda os ricos de espírito? E qual será o destino eterno de uns e de outros?
 “PREGAI TODA A VERDADE SOBRE O INFERNO”
O texto evangélico narra-nos a seguir um tal tormento do rico entre as chamas eternas, que uma simples gota de água seria suficiente para lhe refrescar a língua. Um abismo separa os dois mundos, o Céu do inferno. Será real essa tragédia? A Revelação é abundante nessa matéria: “Qual de nós poderá habitar no fogo devorador, nas chamas eternas?” (Is 33, 14). O Evangelho nos fala quatorze vezes sobre o inferno com expressões categóricas como estas: “fogo inextinguível” (Mc 9, 43), “... o seu verme não morre e o fogo não se apaga...” (idem, 48); “...e lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13, 42). E o Apocalipse: “Serão lançados vivos no abismo abrasado de fogo e enxofre para ser atormentados noite e dia por todos os séculos dos séculos” (20, 10).
Por isso, o condenado da parábola roga a Abraão mandar Lázaro à sua casa paterna para convencer os cinco irmãos sobre o “lugar de tormentos”, no qual ele se encontra para todo o sempre. Segundo seu critério, o ideal seria que “alguém do mundo dos mortos fosse ter com eles” para adverti-los sobre os horrores do castigo eterno, pois só assim se converteriam.
Abraão é muito incisivo em sua resposta, declarando que também os outros cinco irmãos acabariam por ser lançados no inferno, se não acreditassem em Moisés e nos profetas.
Segundo pode-se deduzir desses versículos, até o precito da Parábola julga indispensável explicar a existência do inferno. E, de fato, esse é o empenho dos Santos e do próprio Magistério infalível da Igreja, como declarou em certa ocasião o Bem-Aventurado Papa Pio IX: “Pregai muito as grandes verdades da salvação, pregai sobretudo o inferno; nada de meias palavras, dizei, clara e altamente, toda a verdade sobre o inferno. Nada é mais capaz de fazer refletir e de conduzir a Deus os pobres pecadores” 7.
Bem clara é também a linguagem de nosso catecismo atual: “O ensinamento da Igreja afirma a existência e a eternidade do inferno. As almas dos que morrem em estado de pecado mortal descem imediatamente após a morte aos infernos, onde sofrem as penas do inferno, ‘o fogo eterno’. A pena principal do inferno consiste na separação eterna de Deus, o Único em quem o homem pode ter a vida e a felicidade para as quais foi criado e às quais aspira” 8.
Sobre a eficácia da crença nos fogos eternos, um dos grandes escritores do séc. XIX, o Pe. Frederick W. Faber, afirmava: “A mais fatal preparação do demônio para a vinda do anticristo é o esmorecimento da crença dos homens no castigo eterno. Se fossem estas as derradeiras palavras por mim a vós dirigidas, lembrai-vos de que nada eu quereria imprimir tão profundamente em vossas almas, nenhum pensamento de fé — após o do Preciosíssimo Sangue — vos seria mais útil e proveitoso do que sobre o castigo eterno.” 9
Lembremo-nos sempre de como nossa morte pode ser súbita e quão necessário é vivermos nas disposições de alma de Lázaro, na maior resignação face aos infortúnios, desapegados dos bens deste mundo, fortes na oração, na prática da Religião e da virtude, ardorosos devotos da Mãe de Deus, para assim gozarmos da felicidade eterna.
Essas são as reflexões para a liturgia deste XXVI domingo do Tempo Comum.
1) Cf. Suma Teológica, I-II, q 87, a 2-4
2 ) Mt 5, 22; 10, 28; 18, 9; Mc IX, 42, 48; etc.
3 ) Suma Teológica, Supl q 97, a 2, 5 e 6
4 ) Ab. A. Monnin, Espírito do Cura d’Ars, Ed. Vozes, Petrópolis, 1949, 2ª ed., pp. 80-81.
5) Exortação Apostólica post-sinodal de 1984
6) Catena Áurea, in Lucam
7 ) M. de Ségur, L’enfer, Paris, 1875.
 8 ) CIC, nº 1.035
9 ) Pe. Bondeu, Vida e cartas do Pe. Faber, t. 2, c. 7, p. 389.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 16, 19-31

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM  Lc 16, 19-31
O JUÍZO ETERNO
“No entardecer de nossa vida, seremos julgados segundo o amor”, escreveu São João da Cruz.
A cena descrita em seguida é ainda mais dramática e passa-se logo após a morte de ambos.
Sobre o corpo de Lázaro, nenhuma notícia ou comentário. Certamente atirado numa vala comum, própria aos indigentes, sem qualquer cerimônia. Entretanto, enquanto a preocupação dos responsáveis era de se verem livres daquele desprezível cadáver, os Anjos conduziram sua alma ao Céu, pois, de acordo com a literatura rabínica, no Paraíso não se entrava senão pelo auxílio dos puros espíritos.
O rico também morre, pois nem o muito dinheiro nos livra desse fim. Mas sua alma há muito já deixara a vida espiritual, pois as ações próprias a esta, ele não as praticava. De fato, sua dureza de coração e falta de compaixão para com o mendigo, à porta de seu palácio, somadas à suma fruição dos bens terrenos, haviam destroçado qualquer laivo de amor a Deus. A respeito dele, Lucas afirma ter sido sepultado, mas não diz uma palavra sobre quem acompanhou o seu enterro e quais as pompas que o cercaram. Quantos aduladores devem ter rodeado o rico durante a vida, interessados nos seus bens, ou até mesmo para gozar do prestígio de sua amizade e, ao término de sua existência, nem sequer dele se lembraram... Como foi seu juízo particular? Qual a sentença proferida por Deus? Não se ocupa desses detalhes o Evangelho e simplesmente apresenta o rico entre os tormentos do inferno.
Ofensa infinita, castigo eterno
A Doutrina Católica nos ensina claramente que o pecado mortal constitui uma ofensa a Deus, irreparável e de suma gravidade. Quem morre na impenitência final, resistindo até o último momento, fixa-se no pecado mortal enquanto desordem permanente, merecendo um castigo também eterno1.
A gravidade da ofensa se mede sobretudo pela dignidade da pessoa ofendida. Uma agressiva bofetada desfechada por alguém a seu igual, merece uma penalidade muito menor do que uma outra, da mesma intensidade, desferida contra uma grande e representativa personalidade. O castigo sempre deverá ser aplicado em proporção com a categoria do ofendido. Ora, se a pessoa ultrajada é infinita, o castigo só poderá ser eterno; tanto mais que, para reparar o pecado, quis o Verbo de Deus encarnar-se e sofrer todos os tormentos da Paixão.
Mas, como se pode explicar que um pecado, cometido em apenas alguns minutos, mereça uma pena eterna? Segundo nos ensina São Tomás, a perpetuidade dos castigos infligidos por Deus aos condenados está proporcionada, não à duração do pecado atual, mas à sua gravidade. A Justiça humana também usa o mesmo critério, ao condenar à prisão perpétua alguns réus cujos crimes foram praticados em poucos minutos.
Assim se compreende o porquê de ter ido para o inferno aquele rico: morreu na impenitência final de sua grave avareza.
O inferno, consequência do pecado
Lucas nos fala dos “tormentos do inferno”. Sabemos pela Revelação o quanto são eles terríveis. Acima de todos os sofrimentos está a pena de dano: o fato de ter sido criado para participar da felicidade do próprio Deus e ver-se por Ele rejeitado, é o maior dos tormentos. Daí surgem duas reações no condenado: a primeira consiste em querer destruir a Deus para pôr fim às suas angústias; a segunda, em desejar sua própria aniquilação. Ora, como ambas são irrealizáveis, a conseqüência é o desespero eterno.
A esse incomensurável sofrimento se acrescenta o dos sentidos. A Revelação não deixa margem a dúvidas sobre a realidade do fogo do inferno2 e de sua natureza corpórea3. Queimando os corpos sem consumilos, quem o sustenta sempre aceso é o próprio Deus. Os cinco sentidos são atormentados de maneira especial em relação aos pecados correspondentes.
Na sua santidade de modelo sacerdotal, São João Maria Batista Vianney tece algumas piedosas considerações muito úteis para se compreender o porquê foi o rico parar no inferno: “Meus filhos, se vísseis um homem fazer uma grande fogueira, empilhar pedaços de lenha uns sobre os outros e, perguntando-lhe o que estava fazendo, ele vos respondesse: ‘Estou preparando o fogo que me deverá queimar’, que pensaríeis? E se vísseis esse mesmo homem aproximar-se da fogueira já acesa e atirar-se nela... que diríeis? Cometendo o pecado, é assim que fazemos. Não é Deus que nos lança no inferno, somos nós que nele nos lançamos pelos nossos pecados. O condenado dirá: ‘Perdi a Deus, minha alma e o Céu; foi por minha culpa, por minha máxima culpa!’... Elevar-se-á do braseiro para tornar a cair nele... Sentirá sempre a necessidade de se elevar, porque era criado para Deus, o maior, o mais alto de todos os seres, o Altíssimo ... como uma ave num aposento voa até o teto que detém os condenados.
“Adiamos a nossa conversão para a hora da morte; mas quem nos assegura que teremos o tempo e a força nesse momento terrível, receado por todos os Santos, quando o inferno se congrega para desferir-nos o último assalto, vendo que é o instante decisivo?
“Muitos há que perdem a fé, e só crêem no inferno, nele entrando. “Não, sem dúvida, se os pecadores pensassem na eternidade, nesse terrível ‘sempre!’ ... haveriam de se converter imediatamente...” 4.
Quantas e quantas vezes o rico não deve ter sentido, dentro de si, a voz da consciência recriminando-lhe o apego desregrado pelas roupas, pelos prazeres excessivos da mesa e, sobretudo, pelo dinheiro! Lázaro à sua porta era um dom de Deus, estimulando-o à prática da caridade e, ao mesmo tempo, à compreensão do vazio das criaturas. Mas ele preferiu os bens deste mundo a ponto de dar as costas a Deus. Daí entender-se melhor os versículos 22 a 26:
Morreu também o rico, e foi sepultado. Quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. Então exclamou: “Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nestas chamas”. Abraão disse-lhe: “Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida, e Lázaro, ao contrário, recebeu males; agora é ele aqui consolado e tu és atormentado. Além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí podem passar para nós”.
Torna-se patente o empenho do Divino Mestre, tão bem transcrito por Lucas, em alertar os cristãos de todos os tempos para os castigos eternos, como conseqüência de uma vida transcorrida no pecado, e, em extremo oposto, a alegria com que será premiada a virtude após a morte.
 Por isso, o Magistério da Igreja sempre fez eco à voz de Jesus, como, por exemplo, nestas palavras de João Paulo II:
“Até mesmo no campo do pensamento e da vida eclesial, algumas tendências favorecem inevitavelmente o declínio do senso do pecado. Alguns, por exemplo, tendem a substituir posições exageradas do passado, por outros exageros; assim, da atitude de ver o pecado em toda parte, passa-se a não o vislumbrar em parte alguma; da demasiada acentuação do temor das penas eternas, à pregação dum amor de Deus que excluiria toda e qualquer pena merecida pelo pecado; da severidade no esforço para corrigir as consciências errôneas, a um pretenso respeito pela consciência, até suprimir o dever de dizer a verdade. (...)
“Diante do problema do embate de uma vontade rebelde com Deus infinitamente justo, não se pode deixar de nutrir sentimentos de salutar ‘temor e tremor’, como sugere São Paulo” 5.

Assim sendo, a Parábola de hoje tem grande importância para os dias atuais e por isso vale a pena conhecê-la em toda sua substância e profundidade.
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domingo, 22 de setembro de 2013

EVANGELHO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 16, 19-31

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM
O POBRE E O RICO
Estamos, uma vez mais, diante de uma cena evangélica sobre a condenação eterna. O inferno se apresenta nesta parábola com algumas características ainda não conhecidas até então, e em dramático contraste com o prêmio celeste.
O  EVANGELHO Lc 16, 19-31
Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e todos os dias se banqueteava esplendidamente. 20 Havia também um mendigo, chamado Lázaro, que, coberto de chagas, estava deitado à sua porta, 21 desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, e até os cães vinham lamber-lhe as chagas.
22 Sucedeu morrer o mendigo, e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, e foi sepultado. 23 Quando estava nos tormentos do inferno, levantando os olhos, viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio. 24 Então exclamou: “Pai Abraão, compadece-te de mim, e manda Lázaro que molhe em água a ponta do seu dedo para refrescar a minha língua, pois sou atormentado nestas chamas”.
25 Abraão disse-lhe: “Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida, e Lázaro, ao contrário, recebeu males; agora é ele aqui consolado e tu és atormentado. 26 Além disso, há entre nós e vós um grande abismo; de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí podem passar para nós”. 27 O rico disse: “Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à minha casa paterna, 28 pois tenho cinco irmãos, para que os advirta disto, e não suceda virem também eles parar a este lugar de tormentos”.
29 Abraão disse-lhe: “Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos”. 30 Ele, porém, disse: “Não basta isso, pai Abraão, mas, se alguém do Reino dos mortos for ter com eles, farão penitência”. 31 Ele disselhe: “Se não ouvirem Moisés e os profetas, também não acreditarão, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”. (Lc 16, 19-31)
A parábola do Evangelho deste domingo se desdobra em três atos sucessivos. No primeiro, assistimos ao paroxismo de situações opostas, entre o pobre Lázaro e o rico, ainda nesta terra. A seguir, ambos morrem, e são conduzidos a destinos bem diferentes. Lázaro vai para o Céu e o rico para o inferno. Este, em meio aos tormentos do fogo, se dirige a Abraão, rogando um lenitivo. Por último, implora pelos próprios parentes, a fim de evitar que caiam na mesma desgraça.
Tendo em vista a profundidade dos múltiplos significados das palavras e ações do Divino Mestre, procuremos apreciar com amor todas as importantíssimas lições contidas no Evangelho deste domingo.
OS EPISÓDIOS NESTA TERRA
À primeira impressão, o drama nos enche a alma de compaixão pelo pobre Lázaro e nos conduz a uma antipatia pelo avarento. As formas podem ter sido escolhidas pelo Divino Pedagogo com mero intuito didático, entretanto, na sua essência, os fatos narrados são realíssimos e se repetem ao longo de toda a existência humana. Comecemos por analisar o avarento.
O rico avarento
Na literatura judaica, as figuras cheias de posses eram comumente apresentadas vestidas de púrpura. As túnicas e roupas interiores eram confeccionadas em puro linho. Com a maneira refinada de vestir-se, desfrutava o rico em questão também de uma elaborada culinária oriental. Curioso é de se notar que a narração evangélica não menciona amigos ou convidados aos festins diários do personagem em foco. Teria talvez esse rico um tão supino egoísmo, que preferia comer a sós, com o receio de, ao condividir os prazeres da mesa, diminuir seu próprio gozo? Também não aparece nenhuma referência sobre as instalações do tal rico. Terá sido um grande palácio? Não era o costume da época. O luxo naqueles tempos era bem mais fruído nas roupas e nos prazeres da mesa do que nas magnificências dos palácios.
Transparece nesse simples versículo (v. 19) o claro desejo do Divino Mestre de focalizar a figura de um homem abastado e rodeado dos melhores prazeres: dinheiro em quantidade, finos tecidos e excelente comida. Até aqui a descrição não insinua maior desordem na conduta do rico. Sua avareza se evidenciará pateticamente nos detalhes da dolorosa miséria do mendigo deitado à porta de sua opulência.
O pobre Lázaro
Do rico, não sabemos o nome, mas a memória do mendigo se fixou na História. Lázaro, diminutivo popular de Eleazar, cujo significado é “Deus ajuda”. Certamente se tratava de um desses mendigos que se aninhavam em determinados cantos ou entradas de casas para obter uma esmola ou algum alimento. A miséria aliada à sensação de abandono levava-os a uma verdadeira obstinação de se fixarem num posto e ali permanecerem, muitas vezes por décadas. Até hoje em dia, o mesmo fenômeno se repete. Quem de nós não se recorda de pelo menos um caso assim? Dá-se ao mendigo um nome, ou um apelido, e se estabelece uma certa familiaridade entre ele e seus benfeitores. Apesar de sua indigência, de seu aspecto pouco asseado ou da decomposição da fisionomia, ele sempre terá alguns simpatizantes que, além de uns trocados, lhe darão uns dedos de prosa. Ele saberá colocar-se em situações onde possa chamar a atenção sobre si.
Provavelmente, esses elementos somados a outros tantos levaram o bom Lázaro a deitar-se na porta principal do edifício do rico. Ali permanecia silencioso ou desenrolando uma ladainha de pedidos, a fim de implorar — com base em seu miserável aspecto, ou através da pura palavra — o auxílio dos transeuntes. Era seu posto fixo de mendicância, tolerado pelo dono da casa, o qual, dessa forma, manifestava alguma caridade em relação ao mendigo.
Como se não lhe bastasse a penúria dos meios de subsistência, seu corpo estava coberto de chagas. Algumas delas à mostra, sobretudo nas pernas insuficientemente cobertas pela curta túnica — quiçá, não só curta mas também rasgada.
Naqueles tempos, não era incomum, na Palestina, o contraste entre mendigos estropiados e peregrinos de porta em porta à busca de restos de comida a fim de não morrer de fome, e, de outro lado, ricos acomodados em seu fausto. Porém, os pobres não eram revoltados com sua situação de inferioridade e nem desejavam promover uma revolução social para ter parte na fortuna alheia. Eles não almejavam senão viver.
Lázaro desejava se alimentar das migalhas, ou seja, das sobras da mesa do rico, o qual “todos os dias se banqueteava esplendidamente”. A completa indiferença da opulência em relação à extrema miséria do mendigo sentado à sua porta, demonstrava que ao rico faltava o carinho cheio de calor humano para aliviar um pouco o sofrimento de Lázaro. Esse afeto só era concedido ao pobre pelos cães, tão dramático era seu estado. Ele nem forças tinha para os afastar de perto de si.

Assim termina o primeiro ato da parábola: o rico satisfeitíssimo em seu fausto, indiferente ao infeliz pobre, na indigência de sua roupa, saúde e alimentos, vivendo os últimos suspiros de sua existência.
Continua 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

XXV Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Evangelho Lc 16, 1-13

Conclusão dos comentários ao Evangelho 25º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 16, 1-13
Deus é o verdadeiro proprietário de todo o Universo
10 Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não fostes fiéis nas riquezas iníquas, quem vos confiaria as verdadeiras? E, se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? 13 Nenhum servo pode servir a dois senhores, porque, ou odiará um e amará o outro, ou se afeiçoará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.
Alguns autores dão a estes quatro versículos o título de “apêndices parabólicos sobre as riquezas”. As três máximas neles contidas são de fácil compreensão e dispensam longas considerações.
É de se notar que Jesus não condena a propriedade, mas a toma como sendo um bem a ser gerido temporariamente com vistas à vida eterna. Não passa o homem de simples administrador. Deus, sim, é o autêntico proprietário. Se essa distinção é ignorada pelo homem, acaba ele por violar a supremacia de Deus enquanto Senhor de todo o Criado, ingressando, assim, na injustiça.
“As riquezas existentes nesta terra não são de posse absoluta do homem. Ele é administrador desses bens de Deus. Deve, pois, ser-Lhe fiel neles. É a expressão externa de sua fidelidade. Assim receberá os ‘próprios’ que, neste contexto, pela contraposição estabelecida, parecem referir-se a dons espirituais que Deus, em compensação por essa fidelidade requerida para os outros, concede em abundância ao discípulo”.
 As expressões: “riquezas verdadeiras” e “o que é vosso” referem-se aos bens sobrenaturais, os dons da graça, os únicos eternos e absolutos. Quanto ao último versículo , São Mateus o coloca ao longo do Sermão da Montanha e numa formulação quase idêntica: “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro, ou há de afeiçoar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6, 24). Tanto em Lucas como em Mateus, “põe-se a tese e dá-se a razão de não poder servir a dois senhores: a Deus e às riquezas. Naturalmente, entendido num sentido de apego a elas ou numa aquisição ou uso reprovável delas”.

Nestes versículos finais (9 a 13), o Divino Mestre se manifesta como o Arauto do desprendimento de tudo quanto passa. Não é ilícito guardar os bens num cofre, o que não podemos é entesourá-los em nossos corações.
1) Ver box Prudência: Virtude intelectual que aperfeiçoa a razão.
2) Pe. Juan de Maldonado SJ, Comentarios a los cuatro Evangelios, BAC, Madrid, 1951, v. II, p. 673.
3) São João Crisóstomo, apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
4) Teófilo apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
5) Pe. Juan de Maldonado SJ, op. cit, p. 675.
6) São João Crisóstomo, apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
7) Raniero Cantalamessa, Echad las redes — Ciclo C, EDICEP, p. 306.
8) São João Crisóstomo, apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
9) Cf. op. cit.
10) Santo Agostinho, apud São Tomás
de Aquino, Catena Aurea. 11) Cf. Orígenes, apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
12) Pe. Manuel de Tuya OP, Biblia Comentada, BAC, Madrid, 1964, v. II, p. 874.
13) Id., ibid.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

XXV Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Evangelho Lc 16, 1-13

Continuação dos comentários ao Evangelho 25º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 16, 1-13
A pressa para atingir objetivos neste mundo
5 E chamando a cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: ‘Quanto deves ao meu senhor?’ 6 Ele respondeu: ‘Cem medidas de azeite’. Então disse-lhe: ‘Toma o teu recibo, senta-te e escreve depressa: cinquenta’. 7 Depois disse a outro: ‘Tu quanto deves?’ Ele respondeu: ‘Cem medidas de trigo’. Disse-lhe o feitor: ‘Toma o teu recibo e escreve oitenta’.
“Não podeis servir a Deus e ao
dinheiro” (Lc 16, 13)
Sobre quais seriam esses devedores e a transposição dessas medições aos usos desta ou daquela atualidade, pululam entre os autores hipóteses e cálculos. Por que se trata de dois devedores, e nem mais nem menos, para significar que devemos granjear muitos amigos, coincidimos com o célebre Maldonado em que, pela necessidade de uma quase esquematização, era mais adequado usar de uma narração breve. Idem no que tange ao azeite e ao trigo. Poderiam também ser outros produtos.
A respeito da diferença nas reduções ilícitas, mais provavelmente se deve ao senso de oportunidade do administrador, o qual oferecia a cada um dos devedores o suficiente para obter análogos resultados.
Chama a atenção a pressa do administrador em atingir suas metas. Infelizmente, assim também somos muitos de nós, ou seja, elaboramos planos e com rapidez os realizamos para os fins a atingir neste mundo, mas tudo se torna difícil, e até insolúvel, quando o objetivo é a nossa santificação. Nosso fim último é o supremo em relação aos outros, mas nem sempre lhe tributamos a importância devida. Quantos de nós não preferimos — bem ao contrário desse administrador — deixar para amanhã a realização de nossos propósitos de santidade? Na juventude, com fervor sonhávamos concretizá-los na maturidade, já tão próxima. Entrando nesta, jamais nos parece ela caminhar a passos velozes para o seu término definitivo...
Vemos por esses versículos o quanto se empenha o tal administrador em deitar o peso de seus esforços para fazer amigos comparsas de suas fraudes, a fim de ser por eles amparado no futuro. Esse deve ser nosso empenho na busca da amizade de Deus, dos justos, dos castos, dos pobres, etc.
Sagacidade dos filhos deste mundo
8 E o senhor louvou o feitor desonesto, por ter procedido sagazmente. Porque os filhos deste mundo são mais hábeis no trato com os seus semelhantes do que os filhos da luz.”
Surge aqui outro versículo muito discutido entre os autores. O elogio do senhor da parábola não recai sobre os aspectos ilícitos e imorais dos atos praticados por seu administrador, mas tão-somente sobre a esperteza deste. “Denominam-se contraditórias estas parábolas para compreendermos que — se pôde ser louvado pelo seu amo o homem que defraudou seus bens — muito mais devem agradar a Deus os que fazem aquelas obras de acordo com seus preceitos”

Por “filhos deste mundo” devemos entender como sendo aqueles que só se preocupam com os bens temporais. Os “filhos da luz” crêem na vida eterna após a morte, na resurreição final e trabalham por sua salvação. Entretanto, a “prudência” dos primeiros é infatigável, solerte, pertinaz, inteligente, hábil com vistas a obter seus objetivos. Assim devemos ser nós face ao nosso fim último, e nisso consiste o conselho implícito na comparação feita por Jesus. Apenas para ressaltar a clareza de compreensão, é bom frisar que os “filhos da luz” são inferiores muitas vezes em matéria de prudência, mas não em sabedoria.
9 Portanto, Eu vos digo: “Fazei amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando vierdes a precisar, vos recebam nos tabernáculos eternos”.
Este versículo recalca mais a importância da sagacidade e da prudência a serem empregadas com vistas à vida eterna. Trata-se, portanto, de duas considerações diferentes que devem ser analisadas segundo as respectivas essências.
Continua no próximo post.