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sábado, 20 de setembro de 2014

Evangelho XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 21, 28-32

Comentário ao Evangelho – 26º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Mt 21, 28-32
“Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Aproximando-se do primeiro, disse-lhe: Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha. 29 Ele respondeu: Não quero — mas, depois, arrependeu-se e foi. 30 Dirigindo-se em seguida ao outro, falou-lhe do mesmo modo. E ele respondeu: Eu vou, senhor — mas não foi. 31 Qual dos dois fez a vontade do pai?” Eles responderam: “O primeiro”. Disse-lhes Jesus: “Na verdade vos digo que os publicanos e as meretrizes vos precederão no Reino de Deus. 32 Porque veio a vós João pelo caminho da justiça, e não crestes nele; e os publicanos e as meretrizes creram nele. E vós, vendo isto, nem assim fizestes penitência depois, crendo nele” (Mt 21, 28-32).

Os dois filhos da Parábola, e os dois outros
Atuando de forma muito pior que a dos dois filhos da parábola, os sacerdotes e os anciãos do povo não só se negaram a trabalhar na vinha do Senhor, como de fato, não o fizeram. Esta seria a atitude de um terceiro filho, extremo do mau comportamento em relação ao Pai! Mas há também um quarto filho: aquele que ouve com entusiasmo o convite do Pai e entrega sua vida por Ele!
I – Introdução: inocência e inerrância
Como aparece bela a vida reta, em todos os seus estágios, quando se é capaz de analisá-la com olhos límpidos, desinteressados e inocentes! Na ancianidade, ela se apresenta penetrada de fragilidade, mas robusta e enriquecida de experiência. Forte, decidida e ousada é ela na juventude, ao passo que, ao ingressar pelas portas da maturidade, vai florescendo em reflexão, explicitações e prudência. Porém, nada atrai tanto a atenção de nosso olhar, nesse curso da existência humana, quanto o desenvolvimento dos instintos primordiais numa criança, desde seus primeiros vagidos até chegar à idade da razão. Percebe-se como a alma infantil, ao efetuar pouco a pouco os atos da inteligência ou da vontade, vai-se tornando possuidora de um substancioso tesouro de experiências com base nos primeiros princípios inatos.
A alma humana está à procura da verdade
Encanta-nos ver a certeza com a qual os animais — e até os próprios insetos — buscam os alimentos que lhes convêm. Não é difícil discernir a mão de Deus por trás dessas atividades, mesmo sabendo que Ele, evidentemente, não as está orquestrando de forma direta a todo momento. Deus cria os seres viventes com instintos próprios de acordo com as necessidades e conveniências de cada um. Também o homem, ser racional, nasce com estímulos iniciais e espontâneos que vão lhe dar segurança na procura dos objetivos para os quais foi destinado. A esse propósito, explica-nos o Tomismo, com sua invariável clareza, que a alma, ao ser criada e infundida no momento da concepção, já está enriquecida pelo senso do ser.
Aproximemo-nos do berço de uma criança e lhe apresentemos algumas belas bolas de diferentes cores. Suas reações demonstrarão a maravilha desses instintos humanos, agindo muito antes do uso da razão. Ela escolherá uma bola da coloração que mais lhe agrada; depois de certo tempo passará a brincar com uma outra, e assim sucessivamente. Trata-se da busca instintiva do bem, do belo e do verdadeiro que acabará por levar à eleição de uma das bolas como a principal dentro daquele conjunto. Esses são reflexos que antecedem a constituição da capacidade de julgar de forma claramente racional, conforme princípios bem estabelecidos.
O pecado faz perder a capacidade de bem julgar
Excelente nessa matéria é a afirmação de um grande teólogo do século passado, Frei Santiago Ramírez OP, segundo o qual a alma humana é essencialmente aristocrática, pois sempre está à busca do melhor.
Se os homens têm esses instintos, como explicar a existência do erro, da maldade e da feiúra? Talvez em um futuro artigo se possa desenvolver mais a fundo essa tão essencial questão. Por hoje basta dizer que a inerrância desses instintos só se mantém pela conservação da inocência, ou seja, é o pecado a causa da perda da capacidade de bem julgar. É o próprio São Tomás de Aquino quem nos ensina ser o senso da verdade, do belo e da bondade um instinto aristocrático, porque só os inocentes o possuem de modo tão robusto. Ora — conclui o Doutor Angélico — poucos são os inocentes no mundo, portanto poucos são os que gozam dele de modo integral.
É em torno dessa maravilhosa problemática que gira o presente Evangelho.
II - Acirramento dos Sinedritas contra Jesus
Uma civilização atraída por enigmas e parábolas
Para melhor entendermos a Liturgia, devemos remontar aos hábitos do tempo do Divino Mestre. Encontraremos uma civilização mais campesina, pastoril e orgânica do que a nossa, sem os progressos da tecnologia atual. Ademais, a prática da reflexão não fora substituída pela máquina. Naquele tempo sem rádio, TV, telefone, computador e outros aparelhos do gênero, uma das mais fortes atrações do relacionamento humano era a conversa, e nesta o uso de enigmas e parábolas. Era corrente então valer-se de axiomas éticos para a resolução dessas ou daquelas questões concretas da vida de todos os dias. Lançar mão de metáforas para fins didáticos não era, portanto, uma inovação implantada pelo Messias. Ele não fez senão servir-se dos costumes vigentes.

As Sagradas Escrituras estão embebidas de casos nos quais as disputas se realizavam tomando como base enigmas (1). Assim se aprimorava a inteligência, como também o senso moral, racional e estético.
Inveja e arrogância dos sinedritas
A parábola dos dois filhos, que surge de dentro de um quadro de acirramento contra Jesus, deu-se logo após o Domingo de Ramos. Na lembrança dos escribas, anciãos do povo, príncipes dos sacerdotes e outros, estava toda a fama angariada pelo Divino Mestre ao longo de sua vida pública, incluindo o recentíssimo episódio da entrada triunfal em Jerusalém. Quando viram “Jesus Cristo entrar no Templo com grande pompa, agitaram-se por inveja; e assim, não podendo sofrer em seu coração o ardor da inveja que os acossava, levantaram a voz” (2) e com grande arrogância resolveram interromper a pregação, perguntando-Lhe: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem Te deu tal direito?” (Mt 21, 23).
A seguir se estabelece um diálogo entre Jesus e as autoridades religiosas. Recordá-lo nos será útil para penetrarmos a fundo em todo o significado da parábola da qual nos ocupamos aqui.
À procura de uma ocasião para desacreditá-Lo
Como comenta Frei Manuel de Tuya OP (3), grande exegeta de Salamanca, os sinedritas agiam com má intenção, uma vez que secretamente já haviam condenado Jesus à morte. Apenas andavam à procura de uma ocasião oportuna para executar essa sentença. Queriam comprometê-Lo e desacreditá-Lo ante o público, o que facilitaria seu intento. Era idéia aceita no ambiente rabínico que seria preciso pedir sinais ao Messias, a fim de que este fosse reconhecido como tal. Era verdade que ninguém podia ensinar no Templo sem antes haver recebido a imposição de mãos de outro rabino. Entretanto, ao indagarem a Jesus sobre quem Lhe havia dado autoridade para pregar, a intenção deles era pedir satisfação também pelos eventos do Domingo de Ramos, pelas aclamações messiânicas com as quais fora recebido no próprio Templo e até pelos milagres realizados ali. A pergunta era, portanto, sobre seus poderes messiânicos.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
A inveja, “cárie dos ossos”
Como vimos, Fillion recrimina a inveja nascida no coração de alguns trabalhadores da vinha. Com efeito, esta parábola traz um ensinamento a propósito da inconsistência, ilogicidade e malícia da inveja.
No que consiste esse vício? Na tristeza por causa do bem alheio. Tanquerey, no seu Compêndio de Teologia Ascética e Mística, salienta que o despeito causado pela inveja é acompanhado de uma constrição do coração, que diminui a sua atividade e produz um sentimento de angústia. O invejoso sente o bem de outra pessoa “como se fosse um golpe vibrado à sua superioridade”. Não é difícil perceber como esse vício nasce da soberba, a qual, como explica o famoso teólogo .rei Royo Marín, O.P., “é o apetite desordenado da excelência própria”. A inveja “é um dos pecados mais vis e repugnantes que se possa cometer”, faz questão de sublinhar o dominicano.
São Tomás destaca, na Catena aurea, o fato de os trabalhadores da vinha não se queixarem por considerar-se defraudados na recompensa à qual tinham direito, mas porque os outros haviam recebido mais do que mereciam. Vemos por aí a insensatez do invejoso, a ponto de sofrer mais com o sucesso dos outros do que com suas perdas.
Da inveja nascem diversos pecados, como o ódio, a intriga, a murmuração, a difamação, a calúnia e o prazer nas adversidades do próximo. Ela está na raiz de muitas divisões e crimes, até mesmo no seio das famílias (basta lembrar a história de José do Egito). Diz a Escritura: “Por inveja do diabo, entrou a morte no mundo” (Sb 2, 24). Aqui está a raiz de todos os males de nossa terra de exílio. O primeiro homicídio da História teve esse vício como causa: “... e o Senhor olhou com agrado para Abel e para sua oblação, mas não olhou para Caim, nem para os seus dons. Caim ficou extremamente irritado com isso, e o seu semblante tornou-se abatido” (Gn 4, 4-5).
Na parábola em questão, a inveja é o motivo da murmuração dos operários da primeira hora contra o dono da vinha. Este mesmo afirmará: “Ou me olhas com inveja por eu ser bom?” Pecado de conseqüências funestas, tornou amargurados muitos anjos, logo no primeiro dia da criação, que por essa razão foram precipitados do alto dos céus ao mais profundo dos infernos. Não suportaram a infinita superioridade de Deus e, quiçá, a divindade de Jesus e a predestinação de sua Mãe à maternidade divina.
Os Evangelhos transbordam ao narrarem a perfídia dos escribas e fariseus contra o Messias. Qual a causa desse ódio deicida? “Porque sabia que O tinham entregado por inveja” (Mt 27, 18).
Com propriedade afirma o livro dos Provérbios (14, 30): “Um coração tranqüilo é a vida do corpo, enquanto a inveja é a cárie dos ossos”.
Esse vício comporta graus. Quando tem por objeto bens terrenos (beleza, força, poder, riqueza, etc.), terá gravidade maior ou menor, dependendo das circunstâncias. Mas se disser respeito a dons e graças concedidas por Deus a um irmão, constituirá um dos mais graves pecados contra o Espírito Santo: a inveja da graça fraterna.
“A inveja do proveito espiritual do próximo é um dos pecados mais satânicos que se pode cometer, porque com ele não só se tem inveja e tristeza do bem do irmão, mas também da graça de Deus, que cresce no mundo”, comenta Frei Royo Marín.
Todas essas considerações devem gravar-se a fundo em nossos corações, fazendo-nos fugir desse vício como de uma peste mortal. Alegremo-nos com o bem de nossos irmãos, e louvemos a Deus por sua liberalidade e bondade. Quem agir assim notará, em pouco tempo, como o coração estará sossegado, a vida em paz, e a mente livre para navegar por horizontes mais elevados e belos. Mais ainda: tornar-se-á ele mesmo alvo do carinho e da predileção de nosso Pai Celeste.
De passagem, parece-nos oportuno notar que essa regra se aplica não somente a cada católico, mas também às numerosas famílias espirituais existentes na Igreja. Entre elas deve reinar sempre e de modo crescente a atmosfera expressa pelo Apóstolo nestas palavras: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).
Onde impera o amor a Deus, desaparece a inveja.
A recompensa demasiadamente grande
Aqui nesta terra estamos só de passagem. Nosso destino é a visão beatífica na eternidade: “In lumine tuo videbimus lumen” (Sl 35, 10) — “Na vossa luz veremos a luz”. Nossa inteligência participará do “lumen gloriae” (luz da glória) de Deus e será através desta que O veremos, face a face. Ele será o mesmo para todos, daí, na nossa parábola, ser “o salário o mesmo” para cada um dos “operários da vinha”.

Mas um salário que cumulará a todos de indizível felicidade, pois, como disse Deus: “Tua recompensa será demasiadamente grande” (Gn 15, 1). Porém, a condição essencial para todos lá chegarmos está fixada na verdadeira caridade, e jamais na inveja. 

terça-feira, 16 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
A figura da vinha
Ao contrário do que geralmente se supõe, a região na qual hoje se incluem a Palestina e Israel era, no tempo de Nosso Senhor, extremamente fértil. O panorama muitas vezes árido e desolador de nossos dias é resultante de dois mil anos de lutas e arrasamentos. Mas ali de fato era um país onde, além de “correr o leite e o mel” e produzir ótimo azeite, cultivavam-se excelentes vinhas, conforme no-lo atestam as Sagradas Escrituras (Nm 13, 24), certamente sinal de bênção de Deus.
No trabalho da vinha, utilizavam-se dois períodos do ano: o começo da primavera e o outono. O primeiro para deixá-la pronta para o florescimento e o outro para a colheita. Para ambas as ocasiões se necessitava um bom número de trabalhadores extras, pois poucos eram permanentes. Por isso vemos, na parábola em questão, o pai de família ir à procura dos operários, contratando uns por necessidade e outros pelo puro desejo de lhes oferecer um meio de ganhar algo.
As horas de trabalho eram divididas em quatro partes de sol a sol, ou seja, de três em três horas, das seis da manhã às seis da tarde. Entretanto, na parábola dos vinhateiros, os últimos trabalharam tão-só das 17 às 18h, constituindo um quinto grupo. O salário, como é óbvio, era o contratado.
A explicação
Uma boa explanação sobre essa parábola, dada com a clareza, concisão e objetividade próprias ao estilo francês, é de autoria do conhecido exegeta L. Cl. Fillion, na Vie de N. S. Jésus-Christ. Segundo ele, de modo geral os comentaristas dos Evangelhos são concordes em que, nas parábolas, há circunstâncias cuja função é apenas de ornamento. No presente caso, muitos comentadores tropeçam na análise, ao forçar uma interpretação de cada detalhe.
Tendo isto em vista, Fillion procura apontar a idéia dominante na parábola: “Parece ser que Deus, figurado no proprietário rico, cumpre fielmente suas promessas para os que O servem, e que a todos dá, sem exceção, em qualquer ponto da vida em que tenham começado seu trabalho, uma justa recompensa de todas as suas fadigas.”
Contudo, esse homem reparte seus dons na proporção que lhe apraz. Para vários exegetas, aqui reside a principal dificuldade da parábola: à primeira vista, pareceria uma injustiça o senhor da vinha pagar o mesmo salário tanto para os que trabalharam mais, como para os que menos o fizeram.
Fillion ressalta que, na narrativa, ninguém foi esquecido na hora da distribuição, de modo que não há motivo para queixas. São Tomás é do mesmo parecer: “Naquilo que é dado gratuitamente, uma pessoa pode dar mais ou menos, conforme lhe agradar (desde que não prive ninguém do que lhe é devido), sem de modo algum infringir a justiça” (Summa, 1 q. 23 a. 5). Voltando a Fillion, completa ele seu raciocínio com uma sentença da maior importância, sobre a qual voltaremos adiante: “Cada um deve se satisfazer com o recebido e demonstrar reconhecimento, sem olhar com vista invejosa os que ganharam mais”.
O chamado de Deus
Ao terminar o comentário, o autor francês aponta outra relevante lição da parábola: “Não são todos que começam a trabalhar em sua salvação e santificação na mesma época de sua vida. Alguns o fazem na primeira hora, a infância; outros, na juventude; outros ainda, na idade madura; e alguns iniciam quando já se manifestam os sinais precursores da morte. Felizes os operários da primeira hora, que só tenham vivido para Deus! Felizes também aqueles que, tendo ouvido em qualquer época da vida o chamado da graça, correspondem a ele e acorrem para junto de seu Salvador, a fim de trabalhar com Ele e para Ele!”

Conforme dizíamos no princípio deste artigo, Jesus preparava com suas pregações, nesta fase, o chamado a seus seguidores futuros. Deus, tal como consta nesta parábola, chama todos à perfeição, apesar de o fazer em horas e circunstâncias diversas da vida. Ninguém deve desanimar, se tiver deixado para muito tarde o preocupar-se com sua salvação, pois para todos a misericórdia de Deus reserva um prêmio. Mas também é necessário atender logo à convocação de Jesus, de modo decidido. Nenhum dos chamados ao trabalho, nesta parábola, chegou a propor um horário mais tardio, mas imediatamente se pôs a trabalhar. Nenhum também recusou. Assim devemos proceder nós: não devemos retardar o nosso “sim” ao chamado do Mestre.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a

COMENTÁRIO AO EVANGELHO DO 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A - Mt 20, 1-16a
 O verme roedor da inveja
Veneno que corrói as almas, a inveja ainda é pior quando se revolta contra os favores espirituais concedidos por Deus ao próximo. A este vício moral se dá o nome de inveja da graça fraterna.
Naquele Tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: 1O reino dos céus é semelhante a um pai de família que, ao romper da manhã, saiu para contratar trabalhadores para sua vinha. Acertado com eles o preço da diária, mandou-os para sua vinha. Saiu pelas nove horas da manhã e viu outros na praça sem fazer nada. E lhes disse: “Ide também vós para a vinha e eu vos darei o que for justo”. E eles foram. Saiu de novo, por volta do meio-dia e das três horas da tarde, e fez o mesmo. E, ao sair por volta das cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam desocupados e lhes disse: “Como é que estais aqui sem fazer nada o dia todo?” Eles lhe responderam: “Porque ninguém nos contratou”. Ele lhes disse: “Ide também vós para a vinha”. Pelo fim do dia, o dono da vinha disse ao seu feitor: “Chama os trabalhadores e paga os salários, a começar dos últimos até os primeiros contratados”. Chegando os das cinco horas da tarde, cada um recebeu um denário. E quando chegaram os primeiros, pensaram que iam receber mais. No entanto, receberam também um denário. Ao receberem, reclamavam contra o dono, dizendo: “Os últimos trabalharam somente uma hora e lhes deste tanto quanto a nós, que suportamos o peso do dia e o calor”. E ele respondeu a um deles: “Amigo, não te faço injustiça. Não foi esta a diária que acertaste comigo? Toma pois o que é teu e vai embora. Quero dar também ao último o mesmo que a ti. Não posso fazer com os meus bens o que eu quero? Ou me olhas com inveja por eu ser bom?” Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos (Mateus 20, 1-16a).
Não raras vezes, o trecho do Evangelho a ser comentado ganha em perspectiva, quando o situamos no seu contexto de tempo e lugar, observando o comportamento do público e as repercussões psicológicas dos protagonistas.
O ambiente no qual Jesus expôs a parábola
A parábola dos operários da vinha foi proferida pelo Divino Mestre em sua última viagem, quando retornava a Jerusalém. Era um momento crucial. Atingindo o ápice de seus milagres, prova inequívoca de sua divindade, Jesus havia ressuscitado Lázaro e, por razões prudenciais (tendo em vista as reações iradas de seus inimigos), resolvera retirar-se de Jerusalém. Passado algum tempo, retomou o caminho da Cidade Santa, onde entraria solenemente no Domingo de Ramos. E é neste último itinerário que vamos encontrá-Lo.
Naquela época, muito anterior a Guttenberg, não existia evidentemente a imprensa, e menos ainda se podia pensar em rádio, televisão e internet. Acostumados como estamos a todos esses meios de comunicação, custa-nos imaginar como as notícias podiam se difundir. Na verdade, embora fossem transmitidas de boca a ouvido, nem por isso era lenta sua divulgação, sobretudo se revestidas de um caráter espetacular. Assim, por exemplo, as novas sobre a intensa atividade de São João Batista, cuja atuação pouco antecedera a de Jesus, haviam corrido por todo o país e até além-fronteiras, causando grande burburinho entre o povo e profunda preocupação no Sinédrio. Havia sido só o começo. Desde os dias nos quais o Precursor batizara seus primeiros penitentes, Israel não mais deixara de ser sobressaltado por uma crescente onda de acontecimentos inusitados e abaladores. E essa sucessão de fatos culminaria na ressurreição de uma pessoa falecida havia quatro dias.
Todavia, tanto quanto os milagres — e até mais que eles —, eram surpreendentes os ensinamentos do Divino Mestre. Suas palavras caíam como refrescante chuva num arenal sedento, como era o mundo de então, incluindo o povo eleito. Encontramo-nos ali numa perspectiva psicológica plena de curiosidade e inquietação, que levava as pessoas a se interessarem pelos mínimos detalhes dos sermões de Jesus de Nazaré. Daí o grande número dos que se reuniam ao redor d’Ele, chegando ao ponto de os evangelistas falarem às vezes de “grande multidão”, como aconteceu na travessia do Jordão (Mt 19, 1-2), quando da volta da Galiléia à Judéia. De outro lado, a doutrina de Jesus e suas movimentações eram motivo de grande intranqüilidade para escribas, fariseus e doutores da lei. A progressiva fama do Divino Mestre os levara a Lhe apresentar questões aparentemente insolúveis e cada vez mais capciosas, mas o único resultado de suas investidas era dar-Lhe oportunidade de expor os seus divinos ensinamentos, que constituem o fundamento da Doutrina Católica. E o ensino de uma doutrina nova criava clima para a explicação de outra, num encadeamento natural extraordinário.
Doutrinas concatenadas
Vemos isto ocorrer na referida viagem de volta a Jerusalém, antecedente ao Domingo de Ramos. Nessa ocasião dá-se o pronunciamento de Nosso Senhor sobre a indissolubilidade do vínculo matrimonial e a beleza da virgindade (Mt 19, 3-12). Com isto, ficava criada a ambientação favorável para Jesus chamar a todos a fazer parte de sua futura Igreja.
Na sequência da narrativa evangélica, depara-se-nos o encontro d’Ele com as crianças: “Deixai vir a Mim os pequeninos, e não os queirais impedir, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 19, 14).
Logo depois, Nosso Senhor diz que o primeiro no Reino dos Céus será o que se fizer como um menino, indicando a necessidade de os homens se assemelharem às crianças para entrar no Reino dos Céus.
Segue-se o episódio do moço rico. Por ele, torna-se patente para toda a História um dos maiores obstáculos para a adesão plena e total à Igreja: o apego aos bens deste mundo (Mt 19, 16-26). .oi o ensinamento de Jesus, decorrente da recusa do jovem em atender ao chamado do Mestre, que provocou uma intervenção de Pedro. Por seu caráter em extremo comunicativo, não resistiu ele em perguntar: “Eis que abandonamos tudo e Te seguimos; qual será a nossa recompensa?” (Mt 19, 27). Pela resposta a essa interrogação, vemos como estava Jesus preparando a opinião pública para receber seu chamado. E Ele responde com divina clareza: “Todo aquele que deixar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as terras, por causa do Meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt 19, 29). Como o “cêntuplo” se refere à vida presente, a frase de Nosso Senhor nos conduz à fácil conclusão de ser-nos prometidos dois prêmios diferentes: um na terra, outro na eternidade. Trata-se de um grande encorajamento a todos os seguidores de Cristo, ajudando-os a permanecerem inabaláveis no caminho a ser trilhado.

Precisamente neste ponto do Evangelho se inicia a parábola dos operários da vinha, com a qual Jesus faz uma espécie de remate de mais uma fase de instrução para seus seguidores, incluindo os do futuro.

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Evangelho Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Continuação dos comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

O Filho desceu do Céu para abraçar a Cruz
Qual foi a via escolhida por Deus para consumar a entrega de seu Filho ao mundo? A mais perfeita de todas — pois Ele não pode desejar para Si nada que seja inferior — mas causa espanto: a morte de Cruz! Nós preferiríamos que Ele triunfasse sobre o mal desde o início e não sofresse os tormentos da Paixão. Na verdade, se Jesus oferecesse ao Pai um simples fechar de olhos, um gesto, uma palavra ou um ato de vontade, seria suficiente para reparar nosso pecado. Contudo, segundo ensina São Paulo na segunda leitura de hoje (Fl 2, 6-11), “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas Ele esvaziou-Se a Si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-Se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, humilhou-Se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2, 6-8). Sendo Deus, o Filho possui a alegria eterna e poderia ter dado à sua natureza humana uma vida terrena cheia de deleites. Não obstante, a natureza divina comunicou a Cristo-Homem o gozo de abraçar a Cruz, ser nela pregado e morrer, cumprindo a vontade d’Aquele que O enviara (cf. Jo 5, 30), para salvar os homens da morte eterna.
Símbolo da perfeição do universo
17 “De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”.
Ao ouvir estas palavras, Nicodemos entendeu, decerto — ainda que de modo um tanto nebuloso —, que se iniciava um novo regime na história do povo eleito: a era da justiça inclemente estava terminada e começava a era da misericórdia. E esta, tão mais forte do que aquela! A tal ponto, que o irretorquível ímpeto da justiça, capaz de levar suas determinações até as últimas consequências, se rende quando encontra a misericórdia. Porque a misericórdia é como a água, e a justiça, como o fogo. Este queima, destrói e consome, mas no contato com a água, ele se extingue, desaparecendo as chamas, as brasas e todo o ardor. À humanidade que gemia sob a ameaça de um castigo, a Providência mandou o oxigênio da misericórdia, do qual vivemos há mais de dois milênios.
Em suma, foi com o intuito de nos salvar que a Santíssima Trindade promoveu a vinda do Filho ao mundo. Desde toda a eternidade a Cruz esteve na mente de Deus, com um papel central na História, como instrumento para a realização da perfeição das perfeições do universo, sua maior honra e sua excelsa beleza: a Redenção. Diante deste panorama é possível, inclusive, entender porque Deus permitiu o pecado. No plano da criação, a suprema glória não é a inexistência deste mal, mas o Homem-Deus, que Se deixou prender e crucificar, por amor a nós.
IV – A CRUZ, FONTE DE GLÓRIA
À primeira vista, então, pareceria contraditório o que comemoramos nesta festa: a Exaltação da Santa Cruz. No entanto, a Cruz, outrora considerada como o pior dos desastres na vida de alguém, um símbolo de ignomínia que serviu para a execução de tantos criminosos, é hoje exaltada pela Igreja porque Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo mostrando o quanto ela Lhe é própria. É “o sinal do Filho do Homem” (Mt 24, 30) e Ele a transformou em sinal de triunfo! Por isso, a Cruz triunfa no alto das catedrais, na ponta das coroas e no centro das mais importantes medalhas.
A Cruz é a via da glória. Com quanta razão se diz: “Per crucem ad lucem — É pela cruz que se chega à luz”. E é este o princípio que a Liturgia de hoje oferece para nosso benefício espiritual: se queremos atingir a santidade, nada é tão central quanto saber sofrer. O traço comum de todos os Santos é justamente sua atitude diante da Cruz. De fato, o momento decisivo de nossa perseverança não é aquele em que a graça sensível nos toca e damos passos vigorosos na virtude, mas, sim, a hora da provação, quando as tentações nos assaltam e experimentamos nossa debilidade. Não foi sem motivo que, ao ensinar o Pai Nosso, o Divino Mestre disse “livrai-nos do mal”; mas Ele não empregou o mesmo verbo no pedido referente às tentações: “não nos deixeis cair em tentação”. Ser tentado é algo inevitável e necessário depois do pecado original. Nessa hora, devemos resistir abraçados à cruz, certos de que nela se encontra nossa única esperança: “Ave Crux, spes unica!”. E quando cometemos uma falta ou nossa vida interior parecer encalhada, dando-nos a impressão de não sermos amados por Deus, lembremo-nos de que esta sensação é contrária à revelação feita por Nosso Senhor no Evangelho que acabamos de considerar; pensemos que Deus nos ama tanto, que o Filho teria Se encarnado e sofrido a Paixão de Cruz para salvar a cada um de nós, individualmente.
Glorifiquemos transbordantes de júbilo, nesta festa, o sinal de nossa salvação e o penhor da ressurreição futura, e saibamos carregar sempre a própria cruz com amor e veneração, tal como o fez nosso Salvador antes de começar a Via-Sacra.
1) Cf. SAO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.25, a.4. Tal adoração não se presta só à Cruz na qual Nosso Senlior foi crucificado, mas também às imagens desta, como explica o Doutor Angélico neste mesmo artigo: “Se falamos da imagem da Cruz de Cristo, feita de qualquer outra matéria, por exemplo, de pedra, madeira, prata ou ouro, a Cruz é venerada só como imagem de Cristo, com uma adoração de latria”.
2) Cf. Idem, I, q.25, a.6, ad 4.
3) Cf. Idem, ad 3.
4) Cf. COLUNGA, OP, Alberto; GARCIA CORDERO, OP, Maximiliano. Biblia Comentada. Pentateuco. Madrid: BAC, 1960, v.1, p.847.
5) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., T-II, q, a.2.
6 COLUNGA; GARCIA CORDERO, op. cit., p.847.
7 Cf. CCE 1472-1473.
8 SÃO JUSTINO. Diálogo con Trifón, 94, 2. In: RUIZ BUENO, Daniel (Org.). Padres Apologetas Griegos (s.II). 2.ed. Madrid: BAC, 1979, p.470.
9 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XXIV, n.1. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (1-29). 2.ed. Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.I, p.289.

10 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., III, q.52, a.5, ad 1.
Continua no próximo post

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Evangelho Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Continuação dos comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Um fariseu simpático ao Messias
Toda essa doutrina está bastante vincada na conversa noturna de Nosso Senhor com Nicodemos, da qual este Evangelho recolhe um curto trecho que se conjuga de maneira extraordinária com a primeira leitura. Além de suculentíssima em conteúdo, essa conversa deve ter durado várias horas. Infelizmente São João a sintetiza em escassos parágrafos, de per si repletos de maravilhas.
Segundo São João Crisóstomo, Nicodemos “estava já bem disposto em relação a Cristo, se bem que sua fé fosse ainda débil e tão rude como a de todos os judeus”.9 Sendo fariseu e membro do Sinédrio, ele sabia do mau conceito que este tinha acerca de Jesus, e não queria manifestar sua adesão a Ele para não ter de enfrentar o próprio ambiente. E por tal razão “foi ter com Jesus, de noite” (Jo 3, 2), deslocando-se de modo sorrateiro pelas ruas, as quais, naquela época, eram iluminadas somente pelo brilho da Lua e das estrelas. Talvez ele tenha esperado uma noite de Lua nova ou de céu enevoado, a fim de evitar que sua silhueta se projetasse nos caminhos e, aproveitando-se da queda noturna da temperatura, tenha se acobertado bem, até a cabeça.
Este bom fariseu vai à procura de Nosso Senhor não só pela curiosidade de ver de perto aquele Mestre, cuja fama se espalhava por todos os recantos de Israel, como também porque desejava descobrir de onde vinha o poder de operar milagres, a força de expressividade de Jesus e a capacidade de penetração de seus ensinamentos, e se perguntava se não seria Ele um profeta precursor do Messias. Nicodemos tinha a mente repleta de interrogações, pois era um homem de espírito lógico, de princípios doutrinários muito sólidos e exímio conhecedor da Lei e das Escrituras, constante objeto de seu estudo. E ele queria conferir seu saber com a novidade trazida por Cristo. Aos poucos, no decorrer da conversa, o Divino Mestre irá trabalhando sua alma e abrindo-lhe os olhos para a Fé.
Uma alusão à união hipostática
“Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 13 ‘Ninguém subiu ao Céu, a não ser Aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem’”.
Como Nicodemos era fariseu convicto, o Divino Mestre usa um método muito didático e prudente para lhe falar da Encarnação. Se Ele lhe revelasse o mistério da união hipostática, dizendo: “Eu sou Deus, sou a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e assumi a natureza humana”, seu interlocutor não entenderia e até julgaria tal afirmação uma blasfêmia. É por meio de uma linguagem figurada que Jesus conversa a esse respeito, de forma a permitir que a graça, criada por Ele próprio, atue na alma de Nicodemos. Eis um princípio para o apostolado: quando nos encontramos num ambiente hostil à Fé ou despreparado para receber a Boa-nova, o melhor modo de evangelizar é através de figuras. Por isso, a arte, toda feita de símbolos, é um estupendo meio de tirar do pecado as gerações mais pervertidas e levá-las à santidade.
De início, Nosso Senhor diz que “ninguém subiu ao Céu”, referindo-Se à situação dos homens depois do pecado original, que ali estavam impedidos de entrar. Todos os justos do Antigo Testamento se encontravam no Limbo, onde não havia fogo, nem escuridão ou tormentos, mas o anseio de felicidade eterna, inerente a toda criatura humana, permanecia insaciado.10 Entretanto, quando o Filho “desceu do Céu”, encarnando-Se, Ele não abandonou o Céu, pois é Deus. E como sua Alma humana foi criada na visão beatífica desde o primeiro instante de sua existência, Jesus podia dizer com propriedade que “subiu ao Céu”. Logo, “ninguém” subiu ao Céu antes da Redenção, a não ser Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta afirmação levanta uma interrogação na cabeça de Nicodemos, enquanto Nosso Senhor prosseguia o discurso, remontando ao episódio das serpentes no deserto.
A realização da pré-figura
14 “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15 para que todos os que n’Ele crerem tenham a vida eterna”.
Assim como aqueles animais peçonhentos se propagaram pelo acampamento dos hebreus, o mal penetrou na face da Terra com o pecado de Adão. E não há outra salvação para os homens senão olhar para a verdadeira serpente de bronze, Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado.
A pré-figura da serpente, porém, é nada em comparação com o que se verificou de fato, porque a realidade sempre é muito mais rica do que o símbolo. Nosso Senhor poderia perdoar apenas nossa culpa, de maneira que, com a alma em ordem, tivéssemos uma eternidade feliz do ponto de vista natural. Mas Ele, além de nos curar do pecado, oferece a possibilidade de participarmos de sua própria vida divina, que jamais obteríamos pelos nossos esforços. Somos convidados a crer n’Ele, acolhendo tudo quanto nos trouxe ao vir ao mundo, quer sua doutrina, quer sua graça, recebida, sobretudo, através dos Sacramentos. Numa palavra, aceitar a Igreja e viver em união com ela. Para isso, era necessário que o Filho do Homem fosse levantado no Madeiro, como Jesus revela aqui a Nicodemos. Nesta afirmação também transparece a divina didática de Nosso Senhor, que toma o cuidado de não usar o termo crucifixão, mas emprega a expressão “ser levantado”, que poderia significar também sua Ascensão aos Céus, dependendo de como Nicodemos a interpretasse. No apostolado, muitas vezes, devemos agir desta forma, de proche en proche, a fim de predispor as almas a aceitar a verdade plena, sem lhe pôr obstáculos.
O infinito amor do Pai pelos homens
16 “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que não morra todo o que n’Ele crer, mas tenha a vida eterna”.
Para aproveitarmos a imensa riqueza teológica deste versículo, pensemos, em primeiro lugar, que o Pai celeste não pode Se esquecer de nenhuma de suas criaturas. Se, por absurdo, isso acontecesse, elas voltariam ao nada no mesmo instante, pois é Ele quem tudo sustenta no ser. Lembremo-nos também de que Deus não pode criar algo que não seja para Si, para seu proveito e sua glória. Sendo assim, Ele nunca deixará de ter apreço pelos seres aos quais deu a existência. E tão grande é esse amor que Ele dá ao mundo seu Filho Unigênito, para que todos tenham vida e “a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

Sem essa oblação, nós — na melhor das hipóteses — estaríamos destinados a passar a eternidade no Limbo, à luz de nossa própria inteligência, o que não pode ser chamado de verdadeira vida. Nosso Senhor Jesus Cristo nos oferece a vida eterna no Céu, onde receberemos a luz do próprio Deus para contemplá-Lo por todo o sempre, como diz o Salmo: “in lumine tuo videbimus lumen — na vossa luz veremos a luz” (35,10), a luz da visão beatífica.
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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Evangelho Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

Continuação dos comentários ao Evangelho da Festa da Exaltação da Santa Cruz - Jo 3, 13-17

O povo eleito se revolta contra Deus e contra seu profeta
Humanamente falando, a revolta seria uma reação compreensível na conjuntura em que os israelitas se encontravam. Entretanto, o texto relata que o povo não manifestou apenas inconformidade com a precariedade material, mas “se pôs a falar contra Deus e contra Moisés” (Nm 21, 5a). Dirigindo-se ao profeta, cobravam-the aquilo que exigiriam do próprio Deus, caso O encontrassem: “Por que nos fizestes sair do Egito para morrermos no deserto? Não há pão, falta água e já estamos com nojo desse alimento miserável” (Nm 21, 5b). Ora, o maná era um milagre renovado por Deus todos os dias! Imaginemos essas palavras sendo ditas pelo convidado de um banquete ao seu anfitrião... Não deve ter sido muito diferente a vociferação que Lúcifer lançou contra Deus quando se rebelou no Céu, tal é a falta de generosidade e de amor que esta queixa encerra! Foi um pecado contra o Primeiro Mandamento: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5).
O povo é castigado
Deus, porém, não tolera que haja revolta contra seus mediadores, a ponto de tomar as murmurações do povo como reclamações feitas a Si próprio. Também nós O provocamos de forma análoga quando não aceitamos os reveses, provações e dores da vida, pois essa atitude é, no fundo, um protesto contra Deus.
Para castigar os filhos de Israel, o Senhor mandou terríveis serpentes — “ardentes”,6 segundo o original hebraico —, que infestaram o acampamento. Não está dito que Deus as tenha criado naquele instante; decerto Ele as reuniu, em grande quantidade, e soltou-as ali. Sua venenosa picada causava febre altíssima que matava em pouco tempo, tendo sido grande o número de vítimas.
Depois de ter morrido “muita gente em Israel” (Nm 21, 6), o povo reconheceu nessa calamidade um castigo divino e, afinal, o medo, que nem sempre propicia a conversão, os levou ao arrependimento. E era este o objetivo de Deus. Foram eles pedir a intercessão de Moisés, admitindo que o pecado cometido tinha duplo alcance, pois ofendera o Altíssimo e seu representante: “Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti” (Nm 21, 7).
A serpente de bronze
Deus respondeu aos rogos de Moisés com a seguinte recomendação: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela, viverá” (Nm 21, 8). E não eliminou as serpentes, permitindo que elas continuassem suas investidas contra os hebreus. Já perdoados por Deus — livres, portanto, da pena eterna daquele pecado —, os israelitas expiavam desse modo a pena temporal, à qual o pecador fica sujeito em virtude do apego desordenado aos bens terrenos, que todo pecado, seja mortal ou venial, acarreta.7
Moisés cumpriu a determinação divina, estabelecendo-se a partir de então uma situação de milagre permanente e incontestável diante de quantos haviam assistido a inúmeras mortes produzidas pelas abrasadoras serpentes. Quem era picado sabia que não existia remédio para o seu mal, e a única chance de sobrevivência estava junto a Moisés, pois o profeta sempre levava consigo o cajado em cuja extremidade fixara a serpente de bronze. Assim, Deus manifestava empenho em manter o princípio de mediação e fazia os israelitas comprovarem não só sua onipotência e bondade, como também os benefícios de ter um profeta que os guiasse e interviesse em favor deles.
A consequência de não aceitar o sofrimento
A narração presente no Livro dos Números chama a atenção para algo muito importante: a atitude dos homens perante a dor. O povo eleito, livre da escravidão dos egípcios e conduzido à Terra Prometida, já presenciara portentosos milagres realizados por Deus através de Moisés, como, por exemplo, a abertura do Mar Vermelho. Não obstante, quando se viram obrigados a enfrentar uma situação difícil, imediatamente culparam o profeta, seu libertador — e também o próprio Deus, por ter posto aquele varão no seu caminho —, acusando-o de ser a causa do infortúnio deles. Pretendendo suprimir todo e qualquer sofrimento, revoltaram-se eles contra Deus e caíram numa atribulação muito maior: o Senhor Se retraiu e castigou-os com as serpentes.
Cabe a nós extrair daí uma lição: nunca procurarmos fugir da cruz, pois, além de ser uma tentativa inútil, ela se tornará maior e mais pesada, como aconteceu aos hebreus no deserto.
III – A VERDADEIRA SERPENTE LEVANTADA NA HASTE
Á luz do Evangelho de São João proposto pela Liturgia desta festa, a imagem da serpente de bronze se reveste de novo colorido, apresentando-se como pré-figura da ação redentora de Jesus Cristo na Cruz. Deus quis que este mesmo animal, por cuja sugestão o pecado e a morte se introduziram no mundo, se transformasse em sinal de cura para os filhos de Israel, representando o Divino Redentor, que nos traria a verdadeira vida, como se lê no Livro da Sabedoria: “Quem se voltava para ele era salvo, não em vista do objeto que olhava, mas por Vós, Senhor, que sois o Salvador de todos” (16, 7). Explicando essa pré-figura, São Justino assevera que nela “Deus anunciava um mistério, por meio do qual haveria de destruir o poder da serpente, autora da transgressão de Adão, e, ao mesmo tempo, a salvação para os que cressem em quem era simbolizado por este sinal, ou seja, n’Aquele que haveria de ser crucificado e de livrá-los das picadas da serpente, que são as más ações, as idolatrias e demais iniquidades”.8
Apesar de nos causar certo choque, essa imagem da serpente é rica em simbolismo. Com efeito, trata-se de um animal perigoso e que, curiosamente, sempre esteve relacionado à medicina, sendo emblemático do poder curativo. Seu veneno é letal, mas também possui propriedades terapêuticas que, uma vez trabalhadas, são utilizadas como remédio. Eis a vida e a morte sintetizadas num mesmo animal, qual pedra de escândalo: quem sabe aproveitá-lo, obtém elementos para a restauração da saúde; quem se descuida, é picado e morre.
Ao contrastarmos a figura com a realidade, veremos que Deus também poderia ter operado a Redenção eliminando para sempre o pecado e seus efeitos, por uma simples deliberação, sem o concurso de nenhum intercessor. Todavia, permitiu que os homens continuassem pecáveis, deixando à disposição de todos a possibilidade de encontrar o perdão junto ao “mediador da Nova Aliança” (Hb 12, 24), Nosso Senhor Jesus Cristo. Por aí se entende porque Simeão, quando recebeu nos braços o Menino Jesus, proclamou que Ele seria pedra de escândalo, pois serviria para a salvação ou condenação de muitos (cf. Lc 2, 34). Ele é, de fato, divisor. Quem é tocado pelo pecado e O olha, encontra o remédio para seus males. Mas, ai de quem procura a solução fora d’Ele!
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