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sábado, 31 de maio de 2014

Evangelho Vigília Pentecostes - Jo 7, 37-39 - Ano A

Continuação dos comentários ao Evangelho da Missa da Vigília de Pentecostes - Jo 7, 37-39
II - A PROMESSA DA ÁGUA VIVA
Ora, a solução para o problema do orgulho só a encontraremos na promessa feita por Nosso Senhor no Evangelho escolhido para esta Liturgia.
37a No último dia da festa, o dia mais solene...
O Divino Mestre tinha subido a Jerusalém para a festa dos Tabernáculos, a mais jubilosa de todas as festividades judaicas, cuja duração era de oito dias. Celebrava-se em memória do amparo dispensado por Deus ao povo de Israel, ao longo dos quarenta anos de peregrinação pelo deserto, bem como em ação de graças pelo término da colheita.5
Já nessas alturas de seu ministério público, os ânimos estavam acirrados contra Jesus, sobretudo na Judeia; por este motivo Ele chegara a Jerusalém de maneira despercebida, e só Se manifestou no Templo quando os festejos já iam avançados. Os fariseus, porém, procuravam prendê-Lo, acusando-O de violar o sábado, mas entre o povo as opiniões a seu respeito estavam divididas (cf. Jo 7, 10-32).
37b ...Jesus, em pé, proclamou em voz alta;
Naqueles tempos, quem pregava, explicando a Escritura nas sinagogas, normalmente o fazia sentado (cf. Lc 4, 20) en quanto os ouvintes permaneciam de pé.6 O fato de Nosso Senhor falar em pé — e ainda proclamando em voz alta — denota que Ele ia dizer algo de grande importância e queria Se fazer escutar por todos.
A sede do sobrenatural e a humildade
37c “Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. 38 Aquele que crê em Mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior”.
Entre os diversos ritos da festa dos Tabernáculos estava o da água: ao longo dos oito dias, um sacerdote ia até a fonte de Siloé para retirar um pouco de água, que em seguida era misturada ao vinho das libações no altar do Templo, enquanto o coro cantava a célebre passagem de Isaías: “Vós tirareis com alegria água das fontes da salvação” (12, 3). Esta cerimônia comemorava o milagre operado por intermédio de Moisés, que fez brotar uma fonte do rochedo (cf. Nm 20, 11), mas revestia-se também de caráter messiânico, referente à salvação anelada pelos israelitas, com a chegada do Redentor. Já o nome Siloé — em hebraico siloah —, ou seja, enviado, aludia ao Messias, que haveria de trazer torrentes de bênçãos para o povo eleito.7
Dadas as peculiaridades próprias àquela ocasião, compreende-se que Nosso Senhor as tenha aproveitado para revelar — ainda que de modo um tanto velado — sua missão de verdadeiro Salvador. Ao usar o termo “sede”, o fez no sentido mais elevado da palavra, isto é, sede do sobrenatural, da eternidade, da santidade, da graça. Quem tem sede do sobrenatural é aquele que foge do orgulho e tem a alma aberta para acreditar no Redentor. Em virtude desta fé, nascerá em seu interior uma fonte de água viva.
A água material, um mero símbolo
A água é um elemento criado por Deus com um papel essencial na vida. Sabemos que quase três quartos do nosso planeta são cobertos de água e múltipla é sua utilidade: irrigar as plantações, dessedentar os animais e, sobretudo, manter a saúde do homem. Experimentamos os benefícios da água ao nos ser oferecida para saciar a sede ou quando, após um dia de muito trabalho, proporcionamos ao corpo o alívio de uma ablução; ou se, inclusive, temos a possibilidade de conviver com os peixes — ainda que por pouco tempo — ao mergulhar nas águas do mar... A água limpa, a água lava, a água purifica.
A água material, no entanto, é apenas um símbolo de realidades sobrenaturais que nos são propostas pela fé, como veremos a seguir.
Um milagre infinito!
39a Jesus falava do Espírito, que deviam receber os que tivessem fé n’Ele...
É tão profunda esta doutrina que para melhor ser exposta, podemos usar uma alegoria.
Imaginemos um camponês dos remotos tempos da Idade Média, habitando numa singela casa rural. Certo dia um emissário real lhe anuncia que o soberano resolveu adotá-lo como filho, tornando-o assim irmão de seu primogênito, e também herdeiro. Após o primeiro instante de estupefação de seu interlocutor, ante perspectiva de honra tão extraordinária, o mensageiro continuaria: “O monarca, entretanto, quer transformar tua casa num palácio e vir morar aqui, a fim de estabelecer um relacionamento estreito e diário contigo”. De todos os privilégios enumerados, este seria, sem dúvida, o mais excelente, pois, se grande é a vantagem de pertencer à família real e ser possuidor de inúmeras riquezas, muito maior é a de ser contado entre os íntimos de Sua Majestade!
A história desse homem simples, subitamente mudado em príncipe, é uma pálida imagem do milagre infinito que ocorre em uma criatura humana ao ser qualificada pela graça. Quando as águas ‚ do Batismo são vertidas sobre a cabeça de alguém, o pecado original é apagado, bem como todas as faltas anteriormente cometidas, e lhe é infundida a graça santificante, com as virtudes e os dons. Nesse momento, o Pai, o Filho e o Espírito Santo penetram na alma e fazem dela sua morada. Deus, que já estava na pessoa por essência, por presença e por potência,8 passa a inabitá-la como Pai e Amigo, e a vida sobrenatural passa a borbulhar no interior dela, que se torna templo da Santíssima Trindade!
Não se trata de um templo à maneira do tabernáculo, objeto material inerte onde se conservam as Espécies Eucarísticas, num relacionamento passivo com Nosso Senhor Jesus Cristo ali realmente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Nossas almas, pelo contrário, são templos vivos, nas quais o Espírito Santo sempre age por meio de um convívio íntimo, a fim de nos santificar. Com efeito, por tratar-se de uma manifestação do incomensurável amor de Deus por nós, tal inabitação atribui-se em particular ao Espírito Santo, Amor substancial.
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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Evangelho Vigília Pentecostes - Jo 7, 37-39 - Ano A

Comentários ao Evangelho da Missa Vigília Pentecostes - Jo 7, 37-39
37 No último dia da festa, o dia mais solene, Jesus, em pé, proclamou em voz alta: Se alguém tem sede, venha a Mim, e beba. 38 Aquele que crê em Mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior”. 39 Jesus falava do Espírito, que deviam receber os que tivessem fé n’Ele; pois ainda não tinha sido dado o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado (Jo 7, 37-39).
Jesus glorioso nos precede!
A restauração da humanidade corrompida pelo orgulho só é possível por uma generosa efusão do Espírito Santo.
A Paixão e consequente glorificação do Homem-Deus a conquistaram para nós.
I - JESUS E MARIA, CENTRO DA CRIAÇÃO
Jesus é a Verdade, a Bondade e a Beleza absolutas e, portanto, a Perfeição. Ele visa, ao agir, o mais elevado e excelente em tudo. Desta forma, o universo — essa magnífica obra dos seis dias preferida por Ele dentre os infinitos mundos possíveis — “não pode ser melhor do que é, se o supomos como constituído pelas coisas atuais, em razão da ordem muito apropriada atribuída às coisas por Deus e em que consiste o bem do universo”,1 comenta São Tomás de Aquino.
Na criação, Nosso Senhor Jesus Cristo é a pedra angular, rejeitada pelos construtores, mas centro da atenção do próprio Deus (cf. I Pd 2, 4-5); pedra em função da qual tudo se estrutura. Com efeito, desde toda a eternidade, na mente divina esteve em primeiro lugar a figura majestosa e insuperável de Cristo, Deus feito Homem e, inseparável dela, a da Santíssima Virgem. Pois, tal é a relação existente entre ambos, que a maioria dos teólogos defende a tese de terem sido Jesus e Maria predestinados num único e mesmo decreto divino.2 Eles são o ponto de referência essencial para a criação de todo o universo. Por isso, pode-se afirmar que tanto um quanto outro estão, em algo, representados em todas as criaturas.
A glória das demais criaturas se fará em função de seus modelos
Por conseguinte, antes destas serem libertadas “do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8, 21), antes de nós recebermos um extraordinário surto de nova vida, isto é, “a adoção filial e a libertação para o nosso corpo” (Rm 8, 23) — como ressalta a segunda leitura de hoje (Rm 8, 22-27) —, era indispensável que primeiro fossem glorificados Jesus e Maria, modelos de toda a criação.
A Liturgia da Vigília desta Solenidade de Pentecostes nos ilustra tal verdade e nos prepara não só para assimilá-la intelectivamente, como também para bem acolhermos a ação do Espírito Santo.
O orgulho leva a querer destronar a Deus
Construção da Torre de Babel
por Bruno Spinello Museo dell’Opera del Duomo, Pisa (Itália)
A primeira leitura (Gn 11, 1-9) relata o episódio, tão repleto de simbolismo, da Torre de Babel, no qual vemos os homens se organizando para um grande empreendimento. Tomados, sem dúvida, pelo prazer de produzir — constante tendência humana no decorrer da História —, aprenderam a fabricar tijolos e se perguntaram que proveito tirar desta nova invenção: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus” (Gn 11, 4).
Mas “o Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os homens estavam construindo” (Gn 11, 5). Estas palavras são figurativas — pela necessidade que tem a natureza humana de tornar mais próximo de si um Deus infinito e compreender melhor suas ações —, porque Ele não precisa inclinar-Se para conhecer os acontecimentos: desde sempre Deus tudo sabe! Significa isso que o Onipotente analisa o coração dos orgulhosos, conforme está escrito: “seu olhar perscruta os soberbos” (Si 137, 6). Disse, pois, o Senhor: “Eis que eles são um só povo e falam uma só língua. E isso é apenas o começo dos seus empreendimentos” (Gn 11, 6a). Desponta ali a sofreguidão do homem pelo progresso egoísta, a volúpia e o afã da realização pessoal, os quais, uma vez desatados, não mais se detêm. Primeiro será um tijolo, depois muitos outros tijolos, a seguir uma cidade, por fim uma torre que atinja o céu... até, em certo momento, a ambição de querer derrubar Deus do seu trono.
O Criador, para formar Adão, fez um boneco de barro e soprou em suas narinas. Não só converteu o barro em carne, ossos, sangue e lhe infundiu a vida humana (cf. Gn 2, 7), como também lhe outorgou a participação na vida divina, pela graça. Em contraposição, o homem experimenta a colossal tentação de utilizar-se desse mesmo barro para se equiparar a Deus.
“O orgulho” — escreve o piedoso padre Beaudenom — “tende a privar Deus de sua glória, isto é, de seu próprio papel. Ele ocupa seu lugar, se não intencionalmente — o que seria monstruoso —, ao menos na prática, o que já é bastante detestável”.3 O fim do orgulho é sempre este; e embora queiramos insistir com o presunçoso mostrando-lhe as consequências de seus atos, se não houver um especial auxílio da graça nada o demoverá, como sublinha o texto bíblico: “Agora, nada os impedirá de fazer o que se propuseram” (Gn 11, 6b).
Deus não permite a realização do orgulhoso
Por tal razão, Deus determinou: “Desçamos e confundamos a sua língua, de modo que não se entendam uns aos outros” (Gn 11, 7). Além de ocasionar os piores desastres na vida particular e no relacionamento com os demais, o orgulho traz, sobretudo, a confusão; é uma terrível ferrugem que corrói as verdades sobrenaturais, pois o orgulhoso passa a não mais acatá-las, preferindo discuti-las com raciocínios estranhos a Deus, e a fé vai se esvaindo, por vezes até desaparecer. Eis a tragédia da natureza humana concebida no pecado original.
“A estima de si” — continua Beaudenom — “[...] tende a obscurecer a noção da necessidade de Deus, do recurso a Deus, e mais do que um erro, mais do que uma simples falta, é um imenso perigo, porque esta atitude implica na negação implícita da graça. Sob a influência desta disposição, o orgulhoso não pensa em consultar a Deus e em implorar seu socorro tão necessário. [...] Esse extravio, que nasce de um sentimento viciado, é responsável pelos desastres que às vezes acarreta” .

“E o Senhor os dispersou daquele lugar por toda a Superfície da Terra, e eles cessaram de construir a cidade. Por isso, foi chamada Babel, porque foi aí que o Senhor confundiu a linguagem de todo o mundo, e daí dispersou os homens por toda a Terra” (Gn 11, 8-9). Vemos como aqueles que abraçaram a impiedade na planície de Senaar, querendo dar à Terra um caráter paradisíaco, divorciado de Deus, foram humilhados, segundo a palavra do Salvador: “todo o que se exaltar será humilhado” (Lc 18, 14). Não obstante, o castigo enviado ainda foi uma graça, pois, se lograssem executar seu intento, seria para sua perdição.
II - A PROMESSA DA ÁGUA VIVA
Ora, a solução para o problema do orgulho só a encontraremos na promessa feita por Nosso Senhor no Evangelho escolhido para esta Liturgia.
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segunda-feira, 26 de maio de 2014

EVANGELHO SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Mt 28, 16- 20 - ANO A

De Deus viemos, a Ele devemos retornar
No Evangelho de São João encontramos as palavras do Divino Mestre que sintetizam a trajetória de sua vida terrena, e devem também ser o resumo da nossa: “Saí do Pai e vim ao mundo.
Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai” (Jo 16, 28). Elas podem se aplicar com toda razão aos homens, pois nenhum de nós criou a própria alma. Apenas o corpo foi formado pelo concurso dos pais e mesmo estes não o engendrariam sem a força de Deus —, mas a alma provém d’Ele, que a cria no instante da concepção para que anime o corpo. Se fomos constituídos por Deus, é preciso que nosso desenvolvimento se faça com vistas a este retorno a Ele, como se deu com Jesus. Eis a extraordinária dignidade de nossa origem e de nossa finalidade: Deus!
No entanto, para atingirmos este fim é indispensável fazer como Nosso Senhor, que viveu com a atenção voltada para o Pai, conforme testemunhou em seu discurso de despedida: “Eu Te glorifiquei na Terra” (Jo 17, 4a). Nisto consiste a missão, o dever moral de cada homem. E não pensemos que tal meta se contrapõe às nossas obrigações no estado familiar ou em qualquer outro, pois se as cumprimos por amor a Deus, em função d’Ele e para Ele, realizamos o nosso chamado e poderemos dizer: “Terminei a obra que Me deste para fazer” (Jo 17, 4b). Com a Encarnação, Jesus revelou à humanidade o Deus Uno e Trino, Pai, Filho que é Ele — e Espírito Santo, e mostrou que a única Religião verdadeira, o único caminho que nos fortalece e nos dá paz é este que Ele trouxe, com o perdão dos pecados, a instituição dos Sacramentos e a felicidade do estado de graça. Por isso pôde afirmar: “Manifestei o teu nome aos homens” (Jo 17, 6). Quanto a nós, devemos continuar a sua obra e, para isso, contar com a força do Espírito Santo que nos é prometida. Se estivermos compenetrados de que somos membros de seu Corpo Místico, chamados a participar da herança de sua glória, e seguirmos a via por Ele aberta, nossos corpos ressuscitarão gloriosos no último dia.
Glorificação da natureza humana
A Ascensão de Cristo é o preâmbulo do que nos aguarda, como Ele anunciou: “vou preparar-vos um lugar” (Jo 14, 2). Ao subir, abre para nós as portas do Céu e, ao cântico dos Anjos, Se estabelece em seu trono ao lado do Pai, representando toda a humanidade, como belamente entoamos nos versos do hino de Laudes desta Solenidade: “Demos graças a tal defensor / que nos salva, que vida nos deu / e consigo no Céu faz sentar-se / nosso corpo no trono de Deus”.12 De fato, no momento em que a humanidade santíssima de Jesus Se assenta no “trono da Majestade divina nos Céus” (Hb 8, 1) e recebe a glória devida, todo o gênero humano é também elevado.
Sabemos, todavia, que só no Juízo Final teremos essa glória, pois antes disso todos morreremos e o corpo não será poupado da decomposição, servindo de alimento aos vermes até se desfazer. Enquanto não o recuperarmos a alma estará, sob certo aspecto, em estado de violência, como explica o padre Royo Marín: “Se é contrário à natureza qualquer mutilação do corpo humano, [...] é evidente que muito mais contrário à natureza humana é que o corpo inteiro se destaque e se separe de sua alma”.’3 Contudo, o período que permeia entre o instante em que fechamos os olhos para esta vida e o da ressurreição no último dia é ínfimo se comparado à eternidade. No fim do mundo comprovaremos o extraordinário poder de Deus pois, assim como criou nossa alma do nada, Ele reconstituirá os corpos a partir do que deles ainda restar; e, se tivermos morrido em graça, os restituirá em estado glorioso, para subirmos ao Céu tal como Nosso Senhor Jesus Cristo em sua Ascensão, comemorada liturgicamente nesta Solenidade.
Ele intercede por nós junto ao Pai
À vista disso, a Oração do Dia adquire especial significado ao recordar que a Ascensão do Senhor “já é a nossa vitória”.14 E prossegue: “Fazei-nos exultar de alegria e fervorosa ação de graças, pois, membros de seu Corpo, somos chamados na esperança a participar da sua glória”.’5 Ele está sentado no trono de Deus, à direita do Pai, como Intercessor, Mediador e Sacerdote, apresentando-Lhe sua humanidade! Sem dúvida, basta-nos isto para obtermos tudo o que necessitamos. E Ele não só oferece sua humanidade, como o faz depois de ter passado por todas as vicissitudes de um corpo padecente, pela Paixão e pela Morte. O padre Monsabré, célebre pregador dominicano, tece algumas considerações sobre este tema: “Lá, Vós concluís a obra de nossa salvação. Lá, Vós fazeis um apelo à nossa fé, à nossa esperança, ao nosso amor, às nossas adorações; lá, precursor diligente e devotado, nos preparais um lugar, mostrando-nos a via que seguistes e as gerações bem-aventuradas que haveis livrado do poder de satanás. Lá, Pontífice misericordioso, Vós mostrais as vossas chagas e aplicais, em nosso favor, os sofrimentos e os méritos de vossa Paixão e de vossa Morte; de lá, derramais sobre nós todos os vossos dons. De lá, enfim, Vós vireis um dia, lei subsistente e viva, Sabedoria Encarnada, Senhor de toda criatura, exemplar de toda vida, plenitude de toda graça, de lá vireis, revestido de grande poder e de grande majestade, para julgar os vivos e os mortos”.16
Deste modo, temos ao lado do Pai alguém que participa de nossa natureza, de nossa carne e de nossos ossos a advogar por nós, acompanhado por Maria Santíssima, que sempre vela com incansável maternalidade pelos homens.
Peçamos a Eles a graça de não serem tisnadas nossas almas pelas ilusões que levaram os Apóstolos a procurarem uma felicidade meramente humana. Esteja nossa atenção sempre voltada para as coisas do alto, buscando restituir a Deus tudo quanto d’Ele recebemos ao longo da vida. E assim como estamos neste mundo para imitar Nosso Senhor, que Se encarnou para ser o Modelo Supremo, assim também devemos nós ser exemplo para os outros. Eis a verdadeira perspectiva neste estado de prova: manter sempre a esperança de que, em determinado momento, estaremos em corpo e alma nos Céus, num eterno e sublime convívio com Deus!
1) Cf. CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. De rejeitado a onipotente. In: Arautos do Evangelho. São Paulo. N.18 (Jun., 2003); p.6-11; Comentário ao Evangelho da Solenidade da Santíssima Trindade — Ano B, no Volume III desta coleção.
2) Cf. TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, vV, p.605.
3) SÃO RÁBANO MAURO, apud SÃO TOMAS DE AQUINO. Catena Aurea. In Matthæum, c.XXVIII, v.16-20.
4) SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.IV (22,41-28,20), c.28, n.64. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.11, p.419.
5) SAO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XC, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (46-90). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.11, p.729.
6) Idem, ibidem.
7) SAO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. Suppl., q.89, a.1.
8) Cf. Idem, III, q.53, a.4.
9) Idem, q.57, a.3.
10) Idem, a.6.
11) SAO JOAO CRISÓSTOMO, apud SAO TOMAS DE AQUINO. Catena Aurea In Lucam, c.XXIV v.50-53.
12) SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR. Hino de Laudes. In: COMISSAO EPISCOPAL DE TEXTOS LITURGICOS. Liturgia das Horas. Petrópolis: Ave Maria; Paulinas; Paulus; Vozes, 2000, vIl, p.830.
13) ROYO MARIN, OP, Antonio. Teología de la salvación. 4.ed. Madrid: BAC, 1997, p.174.
14) SOLENIDADE DA ASCENSAO DO SENHOR. Oração do Dia. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.313.
15) Idem, ibidem.
16) MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. Le Triomphateur. In: Exposition du Dogme Catholique. Vie de Jésus-Christ. Carême 1880. 9.ed. Paris: Lethielleux, 1903, v.VIII, p.327-329.


domingo, 25 de maio de 2014

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Ano A - Mt 28, 16- 20

Confusão entre a primeira e a segunda vinda do Messias
2ob “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.
Jesus em breve partiria para junto do Pai. Antes, porém, faz a promessa de permanecer com os homens até a consumação dos tempos. São João Crisóstomo ressalta que Ele aqui Se refere a todos os membros da Igreja, pois “não disse que estaria somente com eles, mas também com todos os que creriam depois deles. [...] 0 Senhor fala com seus fiéis como a um só Corpo”.5
Além disso, comenta ainda o Santo que Ele chama a atenção dos discípulos para “o fim do mundo, a firn de atraí-los mais e para que não olhem apenas para as dificuldades presentes, senão também para os bens vindouros, que não têm termo”.6
Os Apóstolos, evidentemente, não podiam acompanhá-Lo na Ascensão, pois, quem tem forças para subir ao Céu, “senão aquele que desceu do Céu” (Jo 3, 13)? Entretanto, quando Ele desapareceu envolto em uma nuvem, aproximaram-se dois Anjos vestidos de branco e perguntaram: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o Céu? Esse Jesus que vos foi levado para o Céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o Céu” (At 1, 11).
As palavras dos mensageiros celestes são muito expressivas, pois vinham confirmar as promessas de Jesus, abrindo a compreensão dos Onze para começarem a entender que a glória e o aparato desejado para o Messias, e para a instauração do Reino de Deus na Terra, não correspondiam aos planos divinos naquela circunstância, e estavam reservados para o seu regresso. Na realidade, eles confundiam a segunda vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo com a primeira, julgando que esta deveria ser pomposa, tonitruante, cheia de magnificência, brilho e esplendor. Não obstante, Ele nasce numa Gruta, abraça a pobreza a ponto de não ter onde repousar a cabeça (cf. Mt 8, 20), e até os milagres que opera têm um caráter muito sereno, sem grandes ribombos, pois Ele não queria chamar demasiada atenção e até proibia, às vezes, que se fizesse propaganda deles (cf. Mt 12, 15-16; Mc 1, 43-44). Só na segunda vinda — em que “virá do mesmo modo como o vistes partir para o Céu” — Se manifestará com imponência e majestade.
Com efeito, então o Rei dos reis descerá seguido pelo cortejo dos exércitos celestes, montados em cavalos brancos e vestidos de linho de brancura resplandecente (cf. Ap 19, 14). 0 Doutor Angélico defende a tese de que, antes de chegar à Terra, a meia altura, o Salvador será recebido por uma plêiade de cojuízes que irão a seu encontro, como costumam fazer as autoridades de um lugar quando acolhem outra de maior dignidade. São eles varões perfeitos, escolhidos para julgar a humanidade junto com Ele, pois “neles estão contidos os decretos da divina justiça”.7 Só depois, em meio a uma apoteose, será dado início ao Juízo Final, que separará o trigo do joio (cf. Mt 13, 30), os da direita dos da esquerda (cf. Mt 25, 33), e se concluirá com a subida dos bons para o Céu, na companhia do Filho de Deus, enquanto os maus serão precipitados nas trevas.
III - A ASCENSÃO DO SENHOR, PENHOR DA NOSSA
Aquele que hoje Se eleva aos Céus é o mesmo que foi humilhado, açoitado, coroado de espinhos, crucificado entre dois ladrões e depositado num sepulcro. Seu Corpo estava chagado da cabeça aos pés, tal como a respeito d’Ele profetizara o salmista: “sou um verme, não sou homem, [...] poderia contar todos os meus ossos” (Sl 21, 7.18); mas, antes de sua carne começar a sofrer a corrupção (cf. Sl 15, 10), ressuscitou-Se a Si próprio com seu poder divino,8 passou quarenta dias na Terra e voltou para o Pai.
São Tomás se pergunta que força O teria feito subir, e explica que, sendo Ele a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, nesse instante exerceu sua onipotência, pelo que a causa primeira foi sua virtude divina. Baseando-se também em Santo Agostinho, acrescenta que, no momento da Ressurreição, a glória da Alma de Cristo redundou na glorificação do Corpo, com seus atributos próprios, dentre os quais a agilidade, que confere a capacidade de se movimentar segundo o pensamento e o desejo, de maneira que onde está o espírito, lá esteja também o corpo. Ora, não convinha que Ele permanecesse na Terra, uma vez que ela é um local de decomposição, e era preciso que seu Corpo imortal estivesse no lugar apropriado, isto é, o Céu Empíreo. Assim, conclui o Santo Doutor, a segunda causa de sua Ascensão, foi “pelo poder da Alma glorificada que movia o Corpo como queria”.9
Uma promessa feita a toda a humanidade
Nosso Senhor Jesus Cristo alçou-Se por seu próprio poder, e teve a delicadeza de deslocar-Se lentamente, ascendendo não à velocidade do pensamento, mas conforme a admiração dos que presenciavam o milagre. Foi-Se distanciando com calma, sorrindo e abençoando, até Se tornar um ponto cada vez menor e desaparecer. A vista da exaltação do Mestre, todos os circunstantes transbordaram de alegria e “voltaram para Jerusalém com grande júbilo” (Lc 24, 52).
Também para nós a Ascensão é motivo de gozo, de esperança e de fé. Por quê? Usemos de um exemplo para facilitar a compreensão deste mistério e sua implicação na espiritualidade dos fiéis. Seria impossível, e até monstruoso, imaginar que no dia de Páscoa só a Cabeça do Redentor voltasse à vida, enquanto seu Corpo sagrado jazesse chagado no túmulo. Ressuscitando a Cabeça, também todo o Corpo tinha de o fazer! Pois bem, a Igreja é o Corpo Místico de Cristo; e Ele, ressuscitando como Cabeça da Igreja, dá aos batizados o penhor da ressurreição, pois “cada um, de sua parte, é um dos seus membros” (I Cor 12, 27). O mesmo se pode dizer da Ascensão: subindo aos Céus em Corpo e Alma, o Redentor concede a garantia de nos conduzir à eternidade da mesma forma, pois “Ele é nossa Cabeça, mister se faz que os membros vão para onde ela se dirigiu”.’0 A este respeito comenta São João Crisóstomo: “Observe-se que o Senhor nos faz ver suas promessas. Havia prometido ressuscitar os corpos; ressuscitou-Se a Si mesmo dos mortos e confirmou seus discípulos nesta fé, durante quarenta dias. Prometeu que seremos arrebatados ao Céu, e também o provou por meio das obras”.11

Quando o Filho de Deus assumiu nossa carne, quis Ele viver entre nós para dar o exemplo da plenitude e da perfeição em todas as virtudes, atos e gestos que devemos praticar, inclusive na nossa futura partida para o Céu, como esperamos. A Ascensão do Senhor é, pois, para nós, um ponto de imitação. Como será, então, a nossa?
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sábado, 24 de maio de 2014

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR - Ano A - Mt 28, 16- 20



Naquele tempo, 16 os Onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante d’Ele. Ainda assim alguns duvidaram.
18 Então Jesus aproximou-Se e falou: “Toda a autoridade Me foi dada no Céu e sobre a Terra. 19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 16- 20)



O penhor da nossa vitória
Ao assumir nossa carne, quis o Filho de Deus viver entre nós para nos dar o exemplo da plenitude da perfeiçõo a que deseja nos elevar A subida do Senhor aos Céus é também um ponto de imitação. Como será, então, a nossa?
I - A HORA DA PARTIDA DE JESUS CRISTO
Igreja celebra na Quinta-feira da 6ª Semana do Tempo Pascal a Solenidade da Ascensão do Senhor, transferida no Brasil para o 7 Domingo da Páscoa, por razões pastorais. Houve épocas em que esta festividade era realizadacom grande brilho. Assim como se comemora à meia-noite do dia 24 de dezembro o nascimento do Menino Jesus e às três horas da tarde da Sexta-Feira Santa a sua Morte, a Ascensão o era ao meio-dia. Na Idade Média costumava-se realizar uma procissão para representar o trajeto feito por Nosso Senhor, acompanhado pelos Apóstolos e discípulos, de Jerusalém ao Monte das Oliveiras, de onde Ele ascendeu para junto do Pai (cf. At 1, 12). Durante a Missa, o diácono apagava o Círio Pascal logo após o
cântico do Evangelho, simbolizando o último episódio da existência visível do Redentor na Terra.
Hoje, ao contemplarmos sua subida aos Céus, tenhamos presente que Jesus não nos abandonou, mas, pelo contrário, continua conosco, conforme a promessa feita no Evangelho: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”. E nós, enquanto filhos, também desejamos permanecer com Ele, uma vez que veio a este mundo trazer-nos a participação na sua natureza divina.
II - QUANDO SERÁ RESTAURADO O REINO?
Ao longo de seus escritos, os evangelistas procuram expor os acontecimentos centrais da vida terrena de Nosso Senhor, na maior parte da qual Ele assumiu um corpo padecente como o nosso. No entanto, com exceção de São Lucas, quase nada dizem a respeito da Ascensão (cf. Mc 16, 19), evento de suma importância. Apenas no terceiro Evangelho encontramos alguns versículos dedicados a este mistério (cf. Lc 24, 50-51), além de um relato mais pormenorizado, no início dos Atos dos Apóstolos, em que, dando sequência a seu primeiro livro, o mesmo autor descreve a ação mística de Jesus após sua partida para os Céus, ou seja, o desenvolvimento e expansão da Igreja em seu nascedouro.
Por tal razão, e por ter sido o término do Evangelho de São Mateus objeto de outros comentários,’ será ele analisado à luz da narrativa da Ascensão feita por São Lucas — primeira leitura desta Solenidade (At 1, 1-11) —, já que o texto evangélico não se refere propriamente ao fato histórico da despedida de Nosso Senhor, mas sim a uma de suas aparições ocorrida durante os quarenta dias em que, ressuscitado, conviveu com os Apóstolos e lhes transmitiu seus últimos ensinamentos.
Errônea concepção a respeito do Messias
Naquele tempo, 16 os Onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante d’Ele. Ainda assim alguns duvidaram.
Várias destas manifestações de Nosso Senhor nesse período deram-se na Galileia. Ao escolher uma região afastada de Jerusalém tornava-se patente que o verdadeiro culto a Deus não se prendia mais ao Templo, mas à sua Pessoa Divina. O primeiro versículo do Evangelho recorda também sua predileção pelos lugares elevados, tantas vezes demonstrada durante sua vida pública. Alguns acreditam que este episódio tenha ocorrido no Tabor, outros em um dos montes situados nas proximidades do Lago de Genesaré.2 O certo é que o local foi determinado pelo próprio Jesus por razões sapienciais, como comenta São Rábano Mauro: “O Senhor apareceu-lhes num monte para dar a entender que o Corpo que havia tomado da terra ao nascer — como sucede a todos os homens — já estava elevado acima de todas as coisas terrenas quando ressuscitou, e ensinava aos fiéis que, se desejassem ver como Ele a magnificência da ressurreição, deviam esforçar-se por passar das mais baixas paixões às mais elevadas aspirações”.3
Ao reconhecerem Jesus, os Onze prostraram-se diante d’Ele para adorá-Lo. Bem podemos cogitar que nesses encontros durante sua permanência visível entre nós antes de subir aos Céus, os Apóstolos sentiam no fundo da alma que algo grandioso estava para acontecer. Entretanto, apesar de O haverem acompanhado em sua pregação, de terem passado pelo terrível trauma de vê-Lo preso, flagelado, coroado de espinhos, morto na Cruz e sepultado, tendo inclusive constatado o milagre da Ressurreição e presenciado suas aparições já em Corpo glorioso ao longo de quarenta dias, não souberam interpretar bem aquela promessa imponderável feita pela graça em seu interior, porque lhes faltava a descida do Espírito Santo. Deduziram eles, equivocadamente, ter chegado a hora do triunfo social de Cristo.
Conforme crença comum entre os judeus, aguardavam eles a restauração da soberania política de Israel, levada a uma nova plenitude em que, finalmente, o povo eleito estivesse acima de todas as nações, sem precisar pagar impostos aos romanos. E imaginavam Jesus como o rei ideal segundo essa perspectiva. Em consequência, a divulgação do Evangelho, como Ele havia recomendado que fizessem, seria feita ao mesmo tempo com a palavra nos lábios, a espada na mão direita e uma bolsa na esquerda.
Embora eles, enquanto membros do povo judeu, estivessem já por vários anos sofrendo a perseguição e o ostracismo, não entendiam o motivo pelo qual Deus permitia esses infortúnios, o que na verdade visava instruí-los a não depositar a esperança no poder, na política ou no dinheiro, e sim no sobrenatural, na Religião verdadeira, na Redenção operada por Cristo e na Revelação feita por Ele. Surpreende-nos comprovar que essa errônea concepção tenha perdurado por tanto tempo entre os Apóstolos, mas a realidade é que nas aparições de Nosso Senhor ressuscitado, e até no momento da Ascensão, eles ainda pensavam numa glória humana, a ponto de chegarem a indagar: “Senhor, é agora que vais restaurar o reino em Israel?” (At 1, 6). A explicação mais corrente dos exegetas a essa passagem centra-se na mentalidade deformada dos que a formularam, e poucos se detêm na significativa resposta do Divino Mestre.
Cristo reina por meio da Igreja
Com efeito, é de se notar como, nessa ocasião, Ele não contradiz os discípulos, não refuta de forma violenta seu anseio de um poderio ostensivo na face da Terra. Ao invés disso, lhes diz: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade” (At 1, 7). E uma clara alusão a que algo na linha do que desejavam de fato se realizaria, mas no tempo estabelecido pela vontade divina. Momentos, portanto, em que a onipotência de Deus tem de se manifestar com todo o seu vigor na obra d’Ele chamada Santa Igreja Católica Apostólica Romana, verificando-se os efeitos do preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, de valor infinito, derramado no Calvário. Haverá então um só rebanho, sob a égide de um só pastor, e a autoridade de Cristo se exercerá de modo refulgente, inclusive com reflexos na vida social.
Essa mesma perspectiva, descortinada pelo Senhor no dia de sua Ascensão, nós a encontramos nos subsequentes versículos deste Evangelho:
18 Então Jesus aproximou-Se e falou: “Toda a autoridade Me foi dada no Céu e sobre a Terra”.
Tal autoridade “no Céu e sobre a Terra” Nosso Senhor a possui desde todos os séculos, enquanto Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Filho Unigênito de Deus. Porém, enquanto Homem Ele a recebeu por direito de conquista através do sacrifício de sua Paixão e Morte, como observa São Jerônimo: “Foi dado o poder Aquele que pouco antes havia sido crucificado, sepultado num túmulo, que jazia morto e depois ressuscitou. Foi-Lhe dado o poder no Céu e na Terra para que o que antes reinava no Céu agora reine em toda a Terra, por meio da fé dos que creem”.4
Muitas vezes, contudo, a Igreja enfrenta terríveis tribulações nas quais seus inimigos empreendem todos os esforços para arrebatar a sua autoridade. A análise da História nos leva a comprovar que Deus permite, em certas circunstâncias, até mesmo um triunfo aparente do mal. E quando este está prestes a atingir o seu auge e a ponto de cravar o estandarte da vitória absoluta, Deus reverte o curso dos acontecimentos. Assim, dado que nunca houve uma crise tão grave como a de nossos dias, em que o progresso do mal se encontra num estágio avançado e vislumbra seu êxito total, é necessário que, em determinado momento, este mesmo mal seja acuado, aterrorizado, humilhado e jugulado, e a Igreja brilhe com novo fulgor. Esta vitória, como acima dissemos, não se limita à santidade no campo das almas, que ela sempre suscitou desde que foi fundada, mas abarca inclusive a sacralização da ordem temporal.
Ensina São Paulo que a própria criação, com a “esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, [...] geme e sofre como que dores de parto” (Rm 8, 21-22), pois, se foi “sujeita à vaidade” (Rm 8, 20), também deve ser beneficiada pela Redenção. Da mesma maneira, pode-se afirmar que a sociedade civil, a qual está na base da espiritual e lhe oferece elementos, foi fortemente atingida pelo pecado e precisa receber neste mundo — pois ela não passará para a eternidade — a sua glória, pelos méritos do Salvador. A assembleia celeste, todavia, formada pelos Santos, é perpétua e seu prêmio consiste no convívio com Deus, na visão beatífica.
A nós, como outrora aos discípulos, não nos “cabe saber os tempos e os momentos”, mas temos certeza de que essa glorificação virá, pois Nosso Senhor possui pleno domínio sobre todas as coisas e, por mais que os homens queiram impedir o cumprimento de seus desígnios, Ele os realizará quando for de sua vontade.
A necessidade de evangelizar
19 “Portanto, Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20a e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!”

Abandonando o futuro nas mãos de Deus, o que deveriam fazer os Apóstolos? Pôr em prática a recomendação de Jesus neste versículo, sem pensar em qualquer restauração segundo seus critérios deturpados, preparando-se para serem testemunhas da Boa-nova em todo o orbe, sem contar com qualquer recurso militar, político ou financeiro, e sim com a força do Espírito Santo, como Ele lhes garantiu antes de deixá-los: “descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da Terra” (At 1, 8). Com este irresistível poder eles começariam a divulgar os ensinamentos do Divino Mestre e o Reino de Deus se implantaria de forma impalpável, muito mais através da fé do que pelos meios concretos, tal como o grão de mostarda que, ao ser semeado, vai se desenvolvendo quase imperceptivelmente até alcançar vigorosa expansão (cf. Mt 13, 3 1-32).
Continua no próximo post

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Comentário ao Evangelho – VI Domingo da Páscoa – Ano A – Jo 14, 15-21

Conclusão dos comentários ao Evangelho – VI Domingo da Páscoa – Ano A – Jo 14, 15-21
Uma ideia equivocada de teofania
21b “Ora, quem Me ama, será amado por meu Pai, e Eu o amarei e Me manifestarei a ele”.
Os Apóstolos, ainda por demais influenciados pela falsa concepção messiânica vigente em Israel, esperavam uma manifestação extraordinária de Nosso Senhor para o mundo inteiro, como se deram por vezes no Antigo Testamento. Imaginavam assim uma glorificação terrena de Jesus, o qual seria reconhecido pelo povo como o Messias libertador.
Meros interesses mundanos nesses homens, entretanto, chamados a serem as pilastras, os fundamentos da Santa Igreja Católica Apostólica e Romana!
Ora, uma demonstração inequívoca da divindade de Jesus tornaria a Fé menos meritória. Escutar, em meio a tremores de terra, nuvens de fumaça evolando-se da montanha, toques de trombetas, uma voz proclamando: “Eu sou o Deus de Israel...”, levaria a uma aceitação do Messias mais pela evidência do que pela Fé, o que acabaria sendo inútil. Com efeito, já não haviam bastado os incontáveis milagres feitos pelo Divino Mestre diante de multidões? Quantos cegos passaram a ver, quantos paralíticos a andar, quantos leprosos ficaram limpos! Sem contar as multiplicações dos pães e dos peixes. A tudo o povo assistira de coração endurecido. Por acaso, na suprema hora da Paixão, algum desses miraculados por Jesus — e foram muitos! — levantou-se para defender seu grande Benfeitor?
Era necessária uma conversão, uma mudança de mentalidade daquele povo. Quando Nosso Senhor disse que Se manifestaria a quem guardasse sua palavra e O amasse, causou surpresa nos Apóstolos, como nos é revelado pela pergunta feita logo a seguir por Judas Tadeu: “Senhor, como se explica que Te manifestarás a nós e não ao mundo?” (Jo 14, 22). E a voz desse Apóstolo não passava de um eco do pensamento dos demais, conforme ouvimos pouco antes Filipe pedir: “Mostra-nos o Pai” (Jo 14, 8), e Tomé indagar: “Mas, Senhor, não sabemos para onde vais, como é que vamos saber o caminho?” (Jo 14, 5).
A manifestação de Jesus a quem O ama
Preocupados em presenciar algo retumbante, não viam os Apóstolos a grandiosa sublimidade que se passava diante deles. Comenta Royo Marín: “Ao revelar-nos sua vida íntima e os grandes mistérios da graça e da glória, Deus nos faz ver as coisas, por assim dizer, do seu ponto de vista divino, tal como Ele as vê. Faz-nos perceber harmonias de todo sobrenaturais e divinas que nenhuma inteligência humana, nem mesmo angélica, teria jamais conseguido perceber naturalmente”.12
Descortinava-se pela fé uma maravilhosa realidade espiritual. “A fé infusa” — comenta Garrigou Lagrange —, “pela qual cremos em tudo quanto Deus nos revelou, porque Ele é a Verdade, é como um sentido espiritual superior que nos permite ouvir uma harmonia divina, inacessível a qualquer outro meio de conhecimento. A fé infusa é como uma percepção superior do ouvido, para a audição de uma sinfonia espiritual que tem Deus por Autor”.13
Nosso Senhor nos promete aqui a maior das recompensas, que Ele explicita mais ainda no versículo seguinte: “Se alguém Me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e Nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23).
De fato, que mais se poderia dar ao homem, além de transformá-lo em morada do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Mais do que isso, impossível. Diz São Tomás que tudo Deus poderia ter criado de forma mais bela, mais excelente, com exceção de três criaturas: Jesus, em sua humanidade santíssima; Maria, em sua humanidade e santidade perfeitíssima, e a visão beatífica.14 Ora, aqui nos diz Jesus que já nesta Terra começamos a ser morada do Pai, do Filho e do Espírito Santo, tendo portanto uma vida incoativa, semente de glória posta em nossa alma, que se desabrochará por inteiro na eternidade.
Nisso consiste a manifestação de Nosso Senhor a quem amar e guardar sua palavra: será transformado num tabernáculo da Santíssima Trindade! Sem fenômenos extraordinários, no silêncio, no recolhimento, algo indizível se passará entre as Três Pessoas da Santíssima Trindade e a alma. Quantas vezes não sentimos no fundo da alma a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo, por exemplo, quando por amor a Ele resistimos à tentação e evitamos o pecado?
IV – Peçamos a Maria a vinda do Seu Divino Esposo
A Liturgia do 6º Domingo da Páscoa, insistindo na necessidade do amor para o cumprimento da Lei, nos convida a estarmos sempre abertos às inspirações do Defensor e, em consequência, seremos mais mansos e bondosos, inteiramente flexíveis e desejosos de fazer bem a todos.
Ainda a Divina Providência, por misericórdia, nos concede uma incomparável Intercessora que jamais Se cansará de ajudar-nos: “Maria é a porta oriental de onde sai o Sol de Justiça, a porta aberta ao pecador pela misericórdia [...] Ela será aberta e não será fechada. O povo se aproximará sem temor. Glorificando a Mãe do Senhor, ele O adorará. Recorrendo a Maria e prestando-Lhe suas homenagens, colherá os frutos do holocausto oferecido por Jesus”.15
Peçamos à divina Esposa do Paráclito, Mãe e Senhora nossa, que nos obtenha a graça da vinda o quanto antes deste Espírito regenerador a nossas almas, conforme suplica a Santa Igreja: “Emitte Spiritum tuum et creabuntur, et renovabis faciem terræ” — “Enviai o vosso Espírito e tudo será criado, e renovareis a face da Terra”.
Tudo, portanto, está ao nosso alcance para sermos o que devemos ser, e assim recebermos o prêmio imerecido do convívio eterno com a Santíssima Trindade.
1SANTO AGOSTINHO. Sermão 268, 2: PL 38, 1232, apud CIC 797.
2PAULO VI. Unitatis redintegratio, n.2.
3Cf. SAURAS, OP, Emilio. El Cuerpo Místico de Cristo. 2.ed. Madrid: BAC, 1956, p.811-814.
4ROYO MARÍN, OP, Antonio. Somos hijos de Dios. Madrid: BAC, 1977, p.48.
5GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Barcelona: Casulleras, 1930, v.IV, p.196.
6Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I-II, q.18, a.4, ad.3; q.19, a.6, ad.1; q.71, a.5, ad.1; II-II, q.79, a.3, ad.4.
7CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Consagração a Nossa Senhora e a graça divina. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano VIII. N.89 (Ago., 2005); p.24.
8SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS. Histoire d’une âme. Bar-le-Duc: St. Paul, 1939, p.183.
9CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium, n.40.
10CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 5.ed. São Paulo: Retornarei, 2002, p.44.
11LACORDAIRE, OP, HenriDominique. Conférences de Notre-Dame de Paris. Paris: J. de Gigord, 1921, v.IV, p.312.
12ROYO MARÍN, OP, Antonio. Teologia de la Perfección Cristiana. 5.ed. Madrid: BAC, 1968, p.475.
13GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. Les trois ages de la vie intérieure. Montréal: Lévrier, 1955, v.I, p.67.
14SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica, I, 25, a.6, ad.4: “A humanidade de Cristo, pelo fato de estar unida a Deus; a Bem-Aventurança criada, por ser o deleitar-se em Deus; e a Bem-Aventurada Virgem, por ser a Mãe de Deus, têm até certo ponto infinita dignidade, provinda do bem infinito que é Deus. Sob este aspecto, nada pode ser feito melhor do que eles, como nada pode ser melhor do que Deus”.

15JOURDAIN, Zèphy-Clément. Somme des Grandeurs de Marie. 2.ed. Paris: Hippolyte Walzer, 1900, v.I, p.694.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Comentário ao Evangelho – VI Domingo da Páscoa – Ano A – Jo 14, 15-21

Continuação dos comentários ao Evangelho – VI Domingo da Páscoa – Ano A – Jo 14, 15-21

III – Preparação para a descida do Espírito Santo
15b “...e Eu rogarei ao Pai, 16 e Ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco:”
O termo Defensor — Paráclito, tradução do original grego Parakletos — significa etimologicamente “chamado a auxiliar”, como o vocábulo latino Advocatus. Quando Se refere ao Espírito Santo como Defensor, Nosso Senhor emprega essa palavra no sentido de Advogado. Cabe ao advogado a função de defender em juízo a causa de seus clientes, apresentando todos os argumentos e provas para que estes não sejam condenados.
Ora, dada a contingência humana, todos nós cometemos faltas. Como afirma São João, com exceção apenas de Nossa Senhora e do próprio Jesus Cristo, Homem Deus, quem diz que não tem pecado é um mentiroso (cf. I Jo 1, 8).
Assim, todos somos réus e, com razão, tememos a justiça divina. Como nos apresentaremos diante do Juiz com essas lacunas, sem termos a integridade de que nos fala o versículo anterior? Por essa razão, o Divino Pastor nos promete enviar o Defensor para nos auxiliar na prática da Lei.
De fato, quando agimos bem, devemos ter certeza absoluta de que nossa boa ação não é fruto de nossa pobre natureza decaída, mas sim do indispensável auxílio da graça divina. Santa Teresinha experimentava claramente esta insuficiência ao escrever: “Sentimos que, sem o socorro divino, fazer o bem é tão impossível como trazer de volta o Sol ao nosso hemisfério durante a noite”.8
Esse Defensor, afirma ainda Nosso Senhor, permanecerá para sempre conosco. Ou seja, estará agindo sem cessar, protegendo e consolando, embora não na mesma intensidade, e por vezes de modo imperceptível. Cabe-nos, assim, ouvirmos o que Ele nos diz no fundo da alma, seguindo os princípios e os ditames de nossa consciência. Para isso também, temos necessidade de uma graça divina.
Se formos fiéis a essas inspirações, teremos um Advogado contra as acusações apresentadas por nossa consciência e aquelas que o demônio fará a cada um de nós, no Juízo Particular. Oposição entre o Espírito Santo e o mundo
17a “o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não O vê nem O conhece”.
O que leva o mundo a não ver nem conhecer o Espírito da Verdade?
Quem resolve seguir princípios contrários à Lei de Deus, procura deformar e aquietar a sua consciência, para não ouvir a voz do Espírito Santo que está sempre a indicar-lhe as retas vias da virtude e da santidade à qual todos — sem qualquer exceção — são chamados, conforme a doutrina bem explicitada pelo Concílio Vaticano II: “Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: ‘Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5, 48) [...] É, pois, claro a todos que os cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade”.9
Participar do relacionamento entre as três Pessoas divinas
17b “Vós O conheceis, porque Ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. 18 Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. 19 Pouco tempo ainda, e o mundo não mais Me verá, mas vós Me vereis, porque Eu vivo e vós vivereis. 20 Naquele dia sabereis que Eu estou no meu Pai e vós em Mim e Eu em vós”.
A cena é emocionante. Nesse discurso de despedida, Nosso Senhor quer deixar patente que cada um de nós, batizados, faz parte desse relacionamento de familiaridade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como o Pai está no Filho, a Trindade estará em mim, se eu amar a Deus e cumprir a Lei. O Espírito Santo estará em mim, e serei templo vivo d’Ele.
Como devemos, pois, cuidar desse templo, desse tabernáculo que somos nós mesmos, nunca permitindo que nele entre a desordem do pecado!
Não existe amor sem humildade
21a “Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse Me ama”.
Aqui o Divino Mestre retoma a ideia do início do Evangelho deste domingo: amar a Deus sobre todas as coisas significa praticar os Mandamentos. Nisto consiste a prova do verdadeiro amor.
Ora, podemos dizer que a base fundamental para acolher os Mandamentos da Lei de Deus se chama humildade. O orgulhoso confia em si, julga-se capaz de tudo e, por isso, não verá necessidade de crer num Deus onipotente. Para acolher os Mandamentos, deve-se rejeitar aquilo a que a natureza humana decaída aspira: ser considerada deus. A partir do momento em que a pessoa se inclina ao pecado, começa a ceder em matéria de orgulho ou de sensualidade, e se não receber uma proteção muito especial da graça, ela irá até o último limite do mal.
Observa a este propósito o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Como os cataclismos, as más paixões têm uma força imensa, mas para destruir. Essa força já tem potencialmente, no primeiro instante de suas grandes explosões, toda a virulência que se patenteará mais tarde nos seus piores excessos”.10
O perigo das concessões
De fato, as concessões ao pecado comparam-se a uma pequena bola de neve que se desprende do alto do monte, vai crescendo à medida que desce e acaba provocando uma avalanche. Aparentemente insignificantes no princípio, se não forem combatidas, podem levar a alma ao extremo desta absurda pretensão: “Hei de subir até o céu e meu trono colocar bem acima das estrelas divinas, hei de sentar-me no alto das montanhas pelas bandas do norte, onde os deuses se reúnem! Vou subir acima das nuvens, tornando-me igual ao Altíssimo” (Is 14, 13-14).
O delírio de querer ser Deus está incrustado em todo defeito consentido. Ilustra bem isso a tentação proposta a Eva pelo demônio, incitando- a a comer do fruto proibido: “No dia em que dele comerdes [...] sereis como deuses” (Gn 3, 5). Comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal era a única proibição que havia no Paraíso! Contudo, Adão caiu, e seu pecado produziu, segundo Lacordaire, “efeitos desastrosos, tais como o obscurecimento do espírito, o enfraquecimento da vontade, o predomínio do corpo sobre a alma e dos sentidos sobre a razão, consequências lamentáveis que nos são por demais reveladas pela experiência que fazemos, em nós mesmos, do império do pecado”.11
Até hoje a humanidade inteira padece as consequências dessa primeira transgressão a uma ordem de Deus, cometida no Paraíso. E Nosso Senhor Jesus Cristo teve de encarnar-Se e voluntariamente derramar todo o seu sangue para repará-la. Por aí se mede quanto precisamos de vida interior, de oração e de vigilância para cortarmos logo no início tudo quanto possa nos conduzir ao pecado.

O contrário desta situação nos é dado pelo maravilhoso convite do versículo seguinte.
Continua no próximo post.