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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Evangelho 15º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 10, 25-37

Continuação dos comentários ao Evangelho – XV Domingo do Tempo Comum - Lc 10, 25-37- Ano C - 2013  
A parábola: Quem é, afinal, o meu próximo?
30 Jesus, retomando a palavra, disse: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto.”
Quantas escolas e cursos de didática se multiplicam por todo o orbe! Entretanto, é impossível superar aquela empregada pelo Divino Mestre em sua vida pública. A criação da figura do Bom Samaritano é simplesmente genial. A própria descrição das circunstâncias geográficas nas quais o caso se verifica é de um colorido tão real que por pouco não julgamos tratar-se de um fato histórico.
Jerusalém dista de Jericó, aproximadamente, trinta quilômetros e, entretanto, a diferença de altitude entre uma e outra cidade quase atinge seus mil metros. Ao empreender-se o caminho partindo de Jerusalém, depois de percorrer uns três quilômetros, chega-se a Betânia, após a qual termina a vegetação e uma região bem rochosa se evidencia por longa extensão. A certa altura, nos dias de hoje, encontra-se uma hospedaria com o nome de “Bom Samaritano”, ao que parece, para fazer jus à parábola. Tudo leva a crer que de fato deve ter sido esse o local descrito pelo Senhor, pois ao longo dos séculos multiplicaram-se ali os assaltos, e não só à noite, mas em plena luz do dia. Ademais, existem ainda, não muito distante desse albergue, as ruínas de uma fortaleza, prova evidente do quanto devia ser perigoso o local.
O Evangelho sempre procura ser sintético, motivo pelo qual muitos aspectos, talvez secundários, de suas narrações não passam para a História. Por isso, não é exagero imaginarmos o quanto os detalhes psicológicos e geográficos foram cuidadosamente elaborados pelo Senhor.
Por esse caminho descia supostamente um judeu, pois, não tendo sido mencionada sua raça, por exclusão só podia tratar-se de um co-nacional do levita e do sacerdote que o sucederiam após o assalto. Entretanto, como veremos, essa imprecisão tem sua razão de ser. Das cavernas, ou de trás das rochas, surgem uns assaltantes que despojam o pobre homem e, certamente por ter ele reagido, aplicam-lhe severos golpes, abandonando-o quase sem vida em meio ao seu próprio sangue, impedido, portanto, de seguir seu curso normal.
Uma vez delineada a dramática situação desse homem e a fuga dos bandidos, a cena se enriquece com três personagens mais: um sacerdote, um levita e o samaritano.
O sacerdote e o levita violam a Lei, por terem o coração endurecido
31 Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um sacerdote que, quando o viu, passou de largo. 32 Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar e vendo-o, passou adiante.
A nacionalidade judaica e a respectiva religião eram os mais elevados pressupostos de honra de todo o povo eleito. Ora, aquele ferido possuía essas características essenciais, e vê-se claramente qual foi a intenção do Divino Mestre ao ideá-lo como vítima, pois o sacerdote ao se aproximar apenas o verá e passará adiante. Deduz-se que ele havia terminado seu serviço no Templo e retornava a Jericó onde residiam muitos dos de sua categoria. Não podia ser mais providencial esse encontro fortuito. A Lei determinava como obrigação grave socorrer qualquer acidentado, sobretudo em estado pré-agônico.
Religião, nacionalidade, desamparo, nada moveu aquele duro coração de um ministro de Deus chamado ao heroísmo da caridade. Não é difícil imaginarmos os raciocínios que provavelmente elaborou a partir de então e ao longo do caminho, para tranquilizar sua atormentada consciência: “É um homem qualquer! Um desconhecido, sem títulos. É melhor nem me deter, para não rebaixar minha condição”. Eram as razões ditadas pelo orgulho mal combatido, e não tão raro, naqueles que tinham por vocação a missão de extirpar esse mesmo vício nos outros e em si próprios. Ademais, se a humildade fosse sua companheira, nada lhe custaria, ainda que por puras palavras, procurar confortar aquele pobre hebreu. Um pequeno desvio, sem muito deter-se, foi todo o seu esforço. “Assueta vilescunt”, diz-se em latim; ele estava calcinado por uma rotina entibiada de suas funções litúrgicas no Templo, como também intoxicado pela hipocrisia dos escribas e fariseus.
Não lhe devia ser estranho um certo cálculo dos gastos a serem efetuados, caso ele se propusesse socorrer aquela vítima roubada, despojada e ensanguentada. Nem sequer poderia contar com uma recompensa e, menos ainda, com a recuperação do dinheiro empregado. Nada poderia esperar em retribuição aquele ministro pela perda de tempo, incomodidade, prejuízo, etc. Manifestou-se robusto seu caráter interesseiro de um vil pragmatismo diante daquele drama.
No extremo oposto da bondade, encontramos ao longo da História corações duros, cruéis e difíceis de se deixarem enternecer pelos necessitados. Nada os move à compaixão. Ali “por acaso, descia” um exemplo vivo dessa empedernida insensibilidade.
Aquela cena, entrecortada por gemidos que imploravam socorro e misericórdia, mais inspirava repulsa e náusea do que pena, naquele coração pervadido de amor próprio.
Porém, a Lei era explicitamente contrária aos seus sentimentos de egoísmo (cf. Ex 23, 5), e ele não podia ter abandonado seu irmão, sobretudo naquelas circunstâncias. As mesmas considerações serviriam para caracterizar a atitude idêntica do levita que, logo a seguir, também passou por ali. Ambos provavelmente haviam deixado o Templo após o término de seu expediente e desciam para Jericó, cidade que abrigava a metade dos servidores religiosos.
Misericórdia do samaritano
33 Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou perto dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se dele, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse-lhe: “Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar”.
Bem diferente foi a reação do samaritano. Sem levar em conta o ódio racial que violentamente os separava, apesar de se tratar de um inimigo seu, sua religiosa incompatibilidade se transformou, no mesmo instante, em comiseração. O Evangelho recolhe os maravilhosos detalhes da divina parábola elaborada por Jesus para o doutor da Lei: o samaritano se manifesta um herói da caridade desde o descer de sua montaria, aplicando in loco todos os cuidados cabíveis naqueles tempos, conduzindo a vítima a uma pousada, até o contrair uma dívida com o estalajadeiro, a fim de que este dispensasse todos os cuidados ao pobre judeu. Percebe-se, pelo contrato proposto e aceito, ser ele um mercador de confiança e muito estimado pelo dono da estalagem.
 36 Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? 37 Ele respondeu: “O que usou de misericórdia com ele.” Então Jesus disse-lhe: “Vai e faze tu o mesmo.”
Novamente, Jesus responde ao doutor da Lei com outra pergunta, parecendo à primeira vista desejoso de desviar-se um tanto da substância da temática proposta pelo consulente. Esse aparente desvio da questão, intencionalmente levado a cabo pelo Divino Mestre, é uma quimera que atrai a atenção da maioria dos comentaristas, dando-lhes ocasião para levantar as mais variadas hipóteses. Trazemos à tona a mais sábia e lúcida delas:
No meu entender, Cristo pretende demonstrar de modo geral que todo homem é nosso próximo; mas o faz de modo adaptado àquele doutor com quem estava tratando. Pensava este que só os justos, ou só os amigos, ou ao menos só os judeus, eram seus próximos. E das próprias palavras da Lei teve ocasião de errar, porque no hebraico próximo significa o mesmo que amigo e companheiro. Quis, pois, Cristo tirá-lo desse erro e obrigá-lo a reconhecer e confessar que próximo não era só o judeu para o judeu, mas também o samaritano para o judeu, isto é, o inimigo para o inimigo. E se o próprio inimigo era próximo para o inimigo, todo homem deve se considerar próximo em relação ao outro. Demonstrou isso com a melhor e mais eficaz argumentação, ou seja, pelo efeito, fazendo ver que o inimigo tinha sido próximo para o inimigo, isto é, o samaritano para o judeu, pois fez o que é característico do próximo, que é ajudar. Por isso Cristo propôs a parábola com o exemplo de um samaritano” (8).
No mesmo sentido, opina um conhecido comentarista moderno:
“A pergunta de Cristo foi feita com intenção especial. Perguntou-Lhe o doutor da Lei quem era o ‘próximo’ para ele. E Cristo [por sua vez], perguntou: Quem agiu como ‘próximo’? Desse modo, com um exemplo prático, fez ver que cada homem é ‘próximo’ para todos os homens. Motivo pelo qual deve estar ‘próximo’ a ele em todas as suas necessidades. É o paradoxo oriental servindo de máxima pedagogia. Tal foi a lição magisterial de Cristo” (9).
Tem toda razão Maldonado ao expressar essa análise, pois não era tão explícito para um judeu o conceito de próximo, por várias razões. Por sua história e por sua lei, antes de tudo. Sempre que os judeus se misturavam com outros povos, acabavam caindo na idolatria. Por outro lado, basta considerar o quanto a Terra Prometida se localizava entre mar, desertos e montanhas, separando o povo judeu, geograficamente, dos demais. Daí ser muito restrito para eles o verdadeiro significado de “próximo”. E entre si julgavam-se irmãos, mas, com os outros, viviam numa antipatia instintiva levada, não raras vezes, até ao ódio.
Por cima dessas circunstâncias, o povo judeu possuía uma missão universal. A ele havia sido confiado o tesouro espiritual do qual deveria ser alimentada toda a humanidade.
Assim se explica essa belíssima parábola composta pelo Divino Mestre, que foge um tanto da morfologia das outras, nas quais o simbolismo se espraia por todos os substantivos e adjetivos. Ela constitui um exemplo efetivo e afetivo de amor a Deus, sem o qual não existe Religião, e de amor ao próximo, sem o qual não há amor a Deus.
Quem diz amar a Deus, mas não ama seu próximo, além de mentir, desobedece à Lei divina e se esquece de seu Preciosíssimo Sangue derramado no Calvário.
Esse amor deve ser universal e não podemos nos apoiar em pretextos, aparentemente legítimos, para não praticá-lo, como o fizeram o sacerdote e o levita da parábola. Eles certamente estavam encarregados de missões boas e delas retornavam para suas casas, entretanto, procederam mal com o necessitado.

Não poucos autores aplicam a parábola ao próprio Jesus Cristo, com muita piedade. Não será de mau gosto fazermos uma aplicação a nós, perguntando-nos quais têm sido, em geral, nossas atitudes e reações face aos necessitados de qualquer espécie.
1) Apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
2) Pe. Juan de Maldonado SJ, Comentários a los Cuatro Evangelios, BAC, Madrid, 1951, p. 545.
3) Apud São Tomás de Aquino, Catena Aurea.
4) Pe. Juan de Maldonado SJ, op. cit., p. 546.
5) Id., ibid.
6) Santo Ambrósio, op. cit. – id.
7) São Cirilo, op. cit. – ibid.
8) Pe. Juan de Maldonado SJ, op. cit., pág. 548.
9) Pe. Manuel de Tuya OP, Biblia Comentada, BAC, 1964, p. 839.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Evangelho 15º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 10, 25-37

Continuação dos comentários ao Evangelho – XV Domingo do Tempo Comum - Lc 10, 25-37- Ano C - 2013   
Até os fariseus se preocupavam com a vida eterna... E hoje?
26 Jesus respondeu-lhe: “O que é que está escrito na Lei? Como lês tu?” 27 Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo.”
Em Marcos encontramos idêntica pergunta feita pelo moço rico, à qual Jesus responde com um elenco sintético das virtudes obrigatórias para todos (cf. 10, 17ss). No caso presente, o doutor da Lei não obtém d’Ele senão uma outra interrogação como resposta. O Divino Mestre lhe propicia a prática da virtude da humildade, remetendo-o ao primeiro Mandamento da Lei de Deus, fato desagradável para um teólogo de fama: o ter de retornar ao Catecismo. Esse procedimento de Jesus não poderia ser melhor, pois desse modo facilitava ao seu interlocutor um passo a mais na sua vida espiritual: o verse na contingência de repetir a frase que todo judeu recitava duas vezes ao dia: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças” (Dt 6, 5). E como não lhe ficaria bem dizer tão pouco, ele resolve acrescentar um complemento para, talvez, fazer assim notar diante dos outros sua erudição: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 15, 18). Com sabedoria comenta este versículo o famoso Maldonado: “Com admirável prudência, Cristo remete para a Lei aquele doutor que fingia ignorância e pretendia explorar sua doutrina. Costumava assim proceder quando Lhe faziam perguntas capciosas, para atenuar o efeito desagradável de sua resposta. Remetia, pois, para a Lei, e era esta que condenava quem dela se vangloriava” (2).
Se fôssemos nos deter na consideração de cada uma das palavras do Deuteronômio (6, 5) espaço não haveria. Basta-nos saber que o verbo empregado nas versões latinas, não é amare mas diligere. Este termo diz respeito ao amor sentido que resulta da soma da vontade espiritual e do sentimento.
Apesar do lamentável estado moral e espiritual do povo naquelas circunstâncias históricas, as pessoas se colocavam diante da problemática da salvação eterna: “... que devo fazer para possuir a vida eterna?” Muito diferentemente de nossos dias, pois quem hoje se preocupa com seu destino após a morte? Atualmente, o empenho por conservar não só a saúde, como também a beleza, uma bem sucedida situação financeira, etc., absorve todas as atenções; o nosso futuro após ultrapassarmos as barreiras do tempo é matéria de total desinteresse. Assim, os patrões não zelam pela formação espiritual de seus empregados; os pais, pela de seus filhos; os professores, pela de seus alunos; etc. Rompem com o gravíssimo dever imposto a eles por Deus de serem mestres junto a outros...
São Basílio, atendendo às aspirações dos fiéis de seu tempo, deixounos uma belíssima interpretação a respeito do amor a Deus: “Se alguém nos perguntar como se pode adquirir o amor divino, responderemos que não se aprende este amor. Não aprendemos de outrem a nos alegrarmos com a presença da luz, nem a amar a vida, nem a amar nossos pais ou nossos amigos; nem, muito menos, podemos aprender as regras do amor divino; mas há em nós um sentimento íntimo, o qual tem suas causas intrínsecas e nos predispõe a amar a Deus. E quem obedece a esse sentimento põe em prática a doutrina dos preceitos divinos e atinge a perfeição da divina graça. Amamos naturalmente o bem; amamos também nossos próximos e parentes; ademais, damos espontaneamente aos benfeitores todo o nosso afeto. Se, pois, o Senhor é bom, e todos desejam o bom, aquilo que se aperfeiçoa por nossa vontade reside naturalmente em nós. A Ele, embora não O conheçamos por sua bondade, no simples fato de que d’Ele procedemos, temos obrigação de amá-Lo sobre todas as coisas, como sendo o nosso princípio. É também maior benfeitor do que todos os que se amam naturalmente. Por conseguinte, o primeiro e principal mandamento é o de amar a Deus” (3).
Quem mais próximo do que Jesus?
28 Jesus disse-lhe: “Respondeste bem: faze isso e viverás.” 29 Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”
O pobre doutor da Lei se via numa situação de inferioridade — muito útil, aliás, para a sua vida espiritual — e procurou justificar-se, pois nada pior do que o silêncio diante do público que o circundava. Qualquer bobagem cairia melhor. O próprio Pilatos, em circunstâncias análogas, também optou por perguntar : “O que é a verdade?”
Finge, pois, o doutor que não está perguntando uma coisa tão vulgar e conhecida de todos, mas sim um ponto difícil e discutido entre os mais insignes doutores (...). Por outro lado, Santo Ambrósio, Teofilato, Eutímio e (segundo São Tomás) São Cirilo opinam que ele propôs formalmente essa questão por pensar que próximos eram só os justos com respeito a ele, que se considerava justo” (4).
Em síntese, o seu desejo de demonstrar ter inteiro cabimento sua primeira pergunta o leva a enunciar esta outra que, nos dias atuais, com facilidade qualquer criança de Catecismo responderia. Entretanto, naquela quadra histórica constituía uma questão inextricável. As origens familiares, as classes sociais, o regionalismo, a nacionalidade, a raça, eram fatores de separações estanques. Não nos esqueçamos de mencionar a terrível discriminação da escravidão, consagrada em todas as legislações da época. Ora, o povo mais afetado por esse espírito de separatismo era o judeu. Basta correr os olhos pelo Talmud para comprovar os extremos a que chegou contra os goyim, ou seja, todos os nãojudeus. Muito comum era o juízo de que só os do povo eleito eram chamados à salvação eterna. Ademais, baseados no Levítico: “não guardarás rancor contra os filhos de teu povo” (Lv 19,18), não concebiam que a amizade pudesse transpor os limites da nacionalidade.
Porém, “daí não se segue que ele tenha feito a pergunta com sinceridade e desejo de aprender, porque, embora ignorando, estava convencido de que sabia” (5) e a tal ponto que a Escritura não deixava margem a dúvida de como tratar ao não-judeu: “Se algum estrangeiro habitar na vossa Há em nós um sentimento íntimo que terra, e morar entre vós, não o impropereis; mas esteja entre vós como um natural; e amai-o como a vós mesmos; porque também vós fostes estrangeiros na terra do Egito” (Lv 19, 33-34).
Por outro lado, vemos esse doutor numa situação paradoxal: “Naquele mesmo instante se encontrava um próximo extraordinariamente especial, ou seja, o próprio Deus! Por isso, ao fazer essa pergunta, deixa claro (...) que não conhecia seu próximo, porque não acreditava em Cristo, e quem não conhece Cristo desconhece a Lei; porque, ignorando a verdade, como pode conhecer a Lei que anuncia a verdade?” (6).
Talvez a isso o tivesse levado seu orgulho pouco ou nada combatido. “Elogiado pelo Salvador, por ter respondido bem, o doutor da Lei encheu-se de soberba, não acreditando existir alguém que pudesse ser seu próximo, como se não houvesse quem fosse capaz de equiparar-se a ele em justiça. Por isso diz: ‘Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?’ Assediavam-no, por assim dizer, alternativamente, os vícios: após a falácia com que fizera a pergunta, tentando, cai na arrogância. Ao perguntar: ‘Quem é o meu próximo?’, já se mostra vazio do amor ao próximo e, em consequência, revela-se vazio do amor divino, pois, não amando o irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê” (7).

Os escribas e fariseus — que alimentavam entre si, dia-a-dia, sua indignação contra os gentios, como até mesmo à própria plebe judaica — iriam ouvir do Mestre uma clara e irrefutável lição, cheia de calor, de como se deve tratar o próximo...

domingo, 7 de julho de 2013

Evangelho 15º Domingo do Tempo Comum - Ano C - 2013 - Lc 10, 25-37

Comentário ao Evangelho – XV Domingo do Tempo Comum - Lc 10, 25-37- Ano C - 2013   

O Evangelho Lc 10, 25-37
Então, levantou-se um doutor da Lei, que Lhe disse para O experimentar: “Mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna?” 26 Jesus respondeu-lhe: “O que é que está escrito na Lei? Como lês tu?” 27 Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo.” 28 Jesus disse-lhe: “Respondeste bem: faze isso e viverás.” 29 Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”. 30 Jesus, retomando a palavra, disse: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos ladrões que o despojaram, o espancaram e retiraram-se, deixando-o meio morto. 31 Ora aconteceu que descia pelo mesmo caminho um sacerdote que, quando o viu, passou de largo. 32 Igualmente um levita, chegando perto daquele lugar e vendo-o, passou adiante. 33 Um samaritano, porém, que ia de viagem, chegou perto dele e, quando o viu, encheu-se de compaixão. 34 Aproximou-se dele, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu jumento, levou-o a uma estalagem e cuidou dele. 35 No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse-lhe: “Cuida dele; quanto gastares a mais, eu to pagarei quando voltar. 36 Qual destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões? 37 Ele respondeu: “O que usou de misericórdia com ele.” Então Jesus disse-lhe: “Vai e faze tu o mesmo.” (Lc 10, 25-37)
Quem é o meu próximo?
A Lei mandava amar o próximo como a si mesmo. Os judeus, porém, limitavam o conceito de próximo, de forma a restringir essa importante obrigação. Jesus vem dar o verdadeiro sentido à Lei.
O principal objeto do pensamento, ontem e hoje
“Falhou o motor do carro, acabou a energia elétrica, os bancos entraram em greve, foi lançado um novo tipo de software, afinal a ciência encontrou a substância preventiva contra o câncer”... e, se tempo e espaço houvesse, poderíamos encher páginas e páginas com os assuntos que no mundo atual absorvem exageradamente a atenção da humanidade. Deus deixou de ser a preocupação principal de quase todas as pessoas para dar lugar a um desenfreado egocentrismo. A agitação passou a ser a nota tônica do dia-a-dia em toda a face da terra, o relacionamento humano e a própria estrutura da vida social já não mais facilitam a elevação do pensamento a Deus.
A esse respeito, a situação do gênero humano era bem diversa na época da Jesus; apesar da grande decadência na qual estava ele mergulhado, o empenho em conhecer idéias era mais notório. No povo judeu, em concreto, a apetência por explicitações doutrinárias, sobretudo quando estreitamente ligadas com a religião, era robusta e contagiante. Um exemplo característico deste estado de espírito ocorre com o legista que, no Evangelho de hoje, se levanta para fazer uma pergunta a Nosso Senhor. Por mais que seu intento não fosse inteiramente isento de segundas intenções, o questionamento exposto por ele deixa transparecer qual era o teor dos assuntos tratados nas conversas comuns daquele período histórico.
Contexto do diálogo entre Jesus e o doutor da Lei
Esse fato narrado por Lucas deve ter-se passado por volta do mês de outubro do ano 29, portanto no último da vida pública de Jesus, um pouco antes da festa dos Tabernáculos. Recém terminara o treinamento dos setenta e dois discípulos pelas aldeias da Peréia, região calma e um tanto recolhida, na qual não chegava a acontecer nada semelhante às hostilidades características da Judéia. Jesus escolhera com divina sabedoria a região onde eles deveriam realizar suas primeiras aventuras apostólicas. Ademais, por ali, os Apóstolos e discípulos não tinham nenhum laço de amizade ou de parentesco com os seus beneficiados, como na Galiléia, tornando assim mais fácil sua ação. Provavelmente, os fatos do Evangelho de hoje se verificaram em Jericó e se inserem na atmosfera de alegria reinante entre todos, pelas excelentes novidades transmitidas por eles e comentadas pelo Divino Mestre, pois “até os demônios se nos submetem em teu nome!” (Lc 10, 17). Aqueles simples pescadores, que haviam abandonado o comércio de peixes para lançar as redes no mar das almas, foram eleitos não para prever, nem somente para comprovar, mas para serem os anfitriões de uma nova era.

É nesse quadro histórico que se desdobra o diálogo contido no Evangelho de hoje.
Malévolas intenções dos doutores da lei e dos fariseus
25 Então, levantou-se um doutor da Lei, que Lhe disse para O experimentar: “Mestre, que devo eu fazer para alcançar a vida eterna?”
A pergunta feita pelo doutor da Lei é praticamente a mesma relatada tanto por São Mateus (22, 35), como por São Marcos (12, 28). Porém, ao lermos os três Evangelhos, damo-nos conta de serem cenas diferentes. Esta de São Lucas (da Liturgia de hoje), como foi dito anteriormente, deve ter-se passado em Jericó e, levando em conta o consagrado costume durante as exposições e pregações realizadas nas sinagogas — ou seja, todos os assistentes participavam sentados e, ao surgir uma pergunta, esta deveria ser pronunciada de pé — tudo indica ter-se dado no interior desse ambiente.
O anseio mal disfarçado desse doutor da Lei de apanhar Jesus em algum lapso, transparece na essência e na forma da pergunta. Se alcançasse êxito em seu intento, teria satisfeito seu amor próprio. Provavelmente se tratava de um fariseu ainda não penetrado das malévolas intenções daqueles que, mais tarde, procurariam pretexto para matá-Lo. São Cirilo é categórico em afirmar que “certos charlatães percorriam todo o território judaico lançando acusações contra Cristo e dizendo que Ele qualificava de inútil a Lei de Moisés e ensinava doutrinas novas. Querendo, pois, aquele doutor da Lei induzir Jesus a dizer algo contra a Lei de Moisés, apresenta-se tentando-O, chamando-O de Mestre, não suportando ser ensinado. E como costumava o Senhor falar da vida eterna a todos quantos vinham a Ele, o doutor da Lei servia-se de suas próprias palavras; e como O tenta com astúcia, não ouve outra coisa a não ser o que Moisés tinha ensinado. Por isso, Jesus respondeu-lhe: ‘O que é que está escrito na Lei? Como lês tu?’” (1). O objetivo desse doutor da Lei era de pôr à prova os conhecimentos de Jesus e estabelecer com Ele uma polêmica da qual, sendo doutor, sairia triunfante. Esta suposição se deduz da segunda pergunta feita pelo mesmo personagem a Jesus. O fato de este encaminhar a conversa para um ponto muito discutido entre os rabinos deixa claro esse seu intuito.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

EVANGELHO XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 10, 1-12.17-20

CONCLUSÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C 2013 Lc 10, l-12.17-20
A vocação, dom mais precioso que o poder
 19 “Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal’.
Os Atos dos Apóstolos apresentam um fato ilustrativo da efetividade de tal poder ao narrar o ocorrido com São Paulo durante uma de suas incursões na bacia do Mediterrâneo, para difundir o Evangelho: picado por uma víbora, não sofreu nenhum mal, deixando estupefatos os nativos da região (cf. At 28, 3-6).
No entanto, muito mais amplo é o significado da promessa feita pelo Mestre. Segundo um conceituado exegeta moderno, as mordidas e veneno desses animais peçonhentos “sintetizavam, no mundo antigo, os perigos da morte, e são símbolo do ‘poder do inimigo”,20 ao qual Cristo Se refere. Nosso Senhor confirma, portanto, estarem os discípulos imbuídos de força sobrenatural para enfrentar os assaltos do demônio. Essa proteção divina nunca falta aos que se encontram no exercício das atividades próprias à sua vocação específica, e havia sido especialmente comprovada pelos 72 durante o período da missão.
20 “Contudo, no vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu”.
Os excelentes resultados da evangelização, na qual os discípulos haviam manifestado em abundância os dons recebidos da Providência para o benefício das almas, atraíam os aplausos da opinião pública, como sói acontecer. Se tais homenagens não fossem restituídas a Deus, convencendo-se eles de que eram mero instrumento para a ação da graça, o bom êxito do aposto lado poderia constituir perigoso obstáculo para a vida espiritual de cada um. Pouco a pouco, de modo quase imperceptível para eles, o desejo inicial de glorificar a Deus seria substituído pelo egoísmo pretensioso, ávido de receber honras pessoais. Por isso, o Salvador afasta a primeira jactância e a corta pela raiz, pois dela nasce o desejo de vanglória; corta-a com rapidez, imitando os melhores agricultores que, no mesmo momento em que veem brotar uma praga no jardim ou entre as hortaliças, arrancam-na pela raiz”.21 Em seguida, com grandeza e simplicidade infinitas, Jesus lhes revela a mais sublime dádiva por Ele concedida, muito superior ao domínio sobre a natureza e as potências infernais, e pela qual realmente deveriam exultar de contentamento. Por cumprirem com perfeição sua finalidade nesta Terra, devotam a Deus a glória que Lhe era devida, a cada um deles estava garantida a verdadeira e eterna felicidade: seus nomes estavam escritos no Céu”.
CHAMADOS AO REINO DA VERDADEIRA FELICIDADE
O conjunto dos ensinamentos contidos no Evangelho deste 14º Domingo do Tempo Comum nos leva a uma importante conclusão. A ilusão óptica é uma das numerosas impressões enganosas captadas por nossos sentidos, os quais, por esse motivo, devem ser submetidos aos sensatos juízos da razão. Entretanto, se muitas das percepções transmitidas pela sensibilidade podem ser falsas, nada é causa de tantas ilusões — desde os primórdios da História, a começar por Adão e Eva, no Paraíso — como o modo de se obter a felicidade. Esse é o primordial desejo do homem, procurado com ardor insaciável durante toda a vida. No mundo atual, muitos a confundirão com as inovações da técnica ou da ciência; outros, com os ditames da moda e do culto à saúde; outros ainda, com os lucros financeiros, o bom êxito nos negócios, o relacionamento social, a realização profissional, os sonhos românticos, etc. Além de não saciarem a sede de felicidade natural, essas ilusões do mundo não poucas vezes colocam em risco também a felicidade eterna, por conduzirem ao pecado, o qual, sendo uma desordem do homem em relação a seu fim, que é Deus, traz como consequência inevitável, após uma satisfação passageira, a frustração e a tristeza.
À missão dos setenta e dois discípulos escolhidos por Jesus bem caberia o título de evangelização cia felicidade, sob dois aspectos. Primeiro quanto aos discípulos, porque se davam por inteiro em benefício do próximo, movidos pelo amor a Deus, experimentando em si mesmos como “há mais alegria em dar do que em receber” (At 20, 35). Depois quanto às almas favorecidas pela pregação, porque lhes era oferecida a possibilidade de cumprirem os desígnios de Deus, transformando a vida terrena em preparação para o Céu.

Também a todos nós, batizados, o Mestre chama à verdadeira felicidade, fruto da boa consciência e da fidelidade à vocação individual outorgada por Ele próprio, quer se desenvolva esta no estado sacerdotal, quer no religioso ou no leigo. Tal felicidade terá como essência a evangelização, ou seja, fazer o bem às almas, apresentando-lhes as belezas do sobrenatural e instruindo-as na verdade trazida por Cristo ao mundo. Em suma, hoje o Salvador nos convoca a transmitir a todos os homens a alegria de glorificar a Deus, trabalhando para que a vontade d’Ele seja efetiva na Terra assim como o é no Céu.
1) SÃO BOAVENTURA. In I Sent. d.44, a.1, q.3. In: Opera Omnia. Florença: Ad Claras Aquas (Quaracchi), 1883, tI, p.786.
2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.44, a.4.
3) ROYO MARIN, OP, Antonio. Teología Moral para seglares. Madrid: BAC, 1996, v.1, p.29.
4) Idem, p.3 8.
5) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os gentios. L.1II, c.24.
6) A esse respeito, ver FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.11; LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. L ‘Evangile de Jésus-Christ avec la synopse évangélique. Paris: Lecoffre — J. Gabalda, 1954.
7) PEIRÓ, SJ, Francisco Xavier. Evangelio comentado. Madrid: Sapientia, 1954, v.1, p.807.
8) Já no século g Santo Agostinho recomendava em sua regra: “Quando sairdes de casa, ide juntos; quando chegardes aonde fordes, permanecei também juntos” (SANTO AGOSTINHO. Regula ad Servos Dei, IV, 2. In: Obras. Madrid: BAC, 1995, v.XL, p.570).
9) SANTO AMBRÓSIO. Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. LVII, n.46. In: Obras. Madrid: BAC, 1966, v.1, p.367.
10) SAO CIRILO DE ALEXANDRIA. Comentario al Evangelio de Lucas, 61, apud ODEN, Thomas C.; JUST, Arthur A. La Biblia comentada por los Padres de Ia Iglesia. Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, v.111, p.246. 199
11) Cf. LAGRANGE, op. cit., p.213.
12) SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in Evangelia. LI, horn. 17, n.5. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p.602.
13) Cf. CARRILLO ALDAY, Salvador. El Evangelio según San Lucas. Estella: Verbo Divino, 2009, p.217.
14) Cf. SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. LXIX, c.13, n.1. In: Obras. Madrid:BAC, 1958, v.X VI-X VII, p.13 98.
15) SÃO GREGÓRIO NAZL’NZENO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.X, v.3-4.
16) TEOFILATO, apud SAO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit., v.5-12.
17) PEIRO, op. cit., p.810.
18) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit., v.3-4.
19) LAGRANGE, op. cit., p.158.
20) CARRILLO ALDAY, op. cit., p.219.
21) SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA. Comentario al Evangelio de Lucas, 64, apud ODEN; JUS1 op. cit., p.251.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

EVANGELHO XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 10, 1-12.17-20

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C 2013 Lc 10, l-12.17-20
Instruções aos enviados
Depois desses precedentes, Nosso Senhor passa a instruir os discípulos sobre a conduta a ser seguida na evangelização. Pressuposto fundamental para bem considerarmos os próximos versículos é termos em vista que Jesus falava de acordo com os costumes do tempo, muito diferentes dos hábitos da atualidade. Todavia, como a palavra de Deus “permanece eternamente” (Is 40, 8), tais determinações continuam válidas em nossos dias, bastando saber interpretá-las. Passemos, portanto, a analisar essas normas, registradas por São Lucas à maneira de um diretório de apostolado, um autêntico vade-mécum de quem é chamado a evangelizar.
“Não leveis bolsa nem sacola nem sandálias...’
Devido aos contratempos próprios a um deslocamento a pé, um par extra de sandálias era acessório indispensável a qual quer viajante, bem como a bolsa e a sacola. Esta última servia para transportar, além de outros pertences, alimentos frugais em geral, frutos secos, como tâmaras e figos —, para repor as energias pelo caminho.” O dinheiro era guardado na bolsa. Diante da real necessidade de tais apetrechos numa viagem, parece um tanto estranha a recomendação do Divino Mestre. No entanto, ela visava imunizar os discípulos contra o mundanismo, vício que leva a pessoa a colocar sua primeira atenção nos bens materiais, buscando neles a própria segurança. De acordo com essa errônea visualização, os utensílios mencionados por Nosso Senhor tinham certo valor simbólico, pois indicavam as condições financeiras de seu proprietário e, enquanto tais, eram usados com a intenção de angariar prestígio junto à opinião pública. Mas, procedendo-se do modo indicado por Jesus, exigia-se dos discípulos o inteiro abandono à Providência, como ensina São Gregório Magno: “Tal deve ser a confiança do pregador em Deus que, mesmo não estando munido das coisas necessárias para a vida, deve estar persuadido de que elas não lhe faltarão. Não aconteça que, enquanto se ocupa de prover-se das coisas temporais, deixe de procurar, para os outros, as eternas”.12
Vigilância no relacionamento humano
4b “… não cumprimenteis ninguém pelo caminho!”
Os costumes sociais judaicos seguidos naquele tempo não permitiam cumprimentos rápidos e simplificados, como os adotados no mundo hodierno, no qual as normas da educação, já reduzidas ao essencial, tornam-se cada vez mais carentes de gentileza e distinção. As interjeições monossilábicas pronunciadas por duas pessoas quando se encontram hoje em dia correspondiam outrora cerimoniosas e prolongadas saudações, e entre os orientais elas eram acrescidas de uma razoável conversa, trocando-se notícias a respeito dos familiares, dos negócios e da saúde, entre outros assuntos. 13 Além de adiar a realização dos deveres de evangelização — sobretudo nas estradas palestinas, onde sempre havia intensa circulação de viajantes —, tais cumprimentos podiam ser uma temeridade para o missionário, devido às más influências às quais se expunha, relacionando-se com pessoas que, grosso modo, viviam de acordo com máximas do mundo. Além disso, não eram os transeuntes o alvo da missão, e sim as populações dos locais indicados por Jesus. Com isso, Nosso Senhor ensinava não só aos que O ouviam no momento, mas a todos os seus futuros seguidores, o quanto a falta de vigilância no convívio com pessoas cuja vida não está pautada pela boa doutrina pode levar ao esmorecimento das convicções religiosas. E ressaltava a importância de nunca colocarmos em risco nossa própria salvação sob o pretexto de fazer o bem aos outros.
A palavra, instrumento da graça
5“Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós”.
Nesses dois versículos, o Mestre assinala como à voz do discípulo está vinculada a ação da graça, e confere aos seus enviados o poder de estabelecer a paz nas almas dóceis à intervenção de Deus. Ora, segundo a clássica definição de Santo Agostinho, a paz é a tranquilidade da ordem.14 Portanto, os seguidores de Jesus — em especial os chamados a exercer o ministério sagrado — devem estar compenetrados de que suas palavras são revestidas de particular expressividade, unção e força de persuasão para ordenar as almas rumo ao cumprimento de sua finalidade, ou seja, à santidade e à glória de Deus. E tal é a sublimidade da vocação que o apóstolo se beneficia inclusive quando a pregação é rejeitada ou recebida com indiferença, pois os esforços por ele empregados nesses casos não são frustrados, redundando em graças para seu próprio progresso espiritual.
O sustento material
7a“Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário”.
Renunciando à possibilidade de obter lucros profissionais, como o comum das pessoas, o missionário consome toda a sua existência no exercício da missão, cabendo aos beneficiários dela a responsabilidade de lhe prover sustento e hospedagem, como argumenta São Paulo: “Se entre vós semeamos bens espirituais, será, porventura, demasiada exigência colhermos de vossos bens materiais?” (I Cor 9, 11). Como consequência do auxílio prestado aos discípulos, os doadores participam de maneira mais profunda das graças concedidas pela Providência àquela missão específica e, no momento de prestar contas a Deus, no Juízo após a morte, tal assistência se transformará em elemento de misericórdia, segundo a promessa do Salvador: “Quem vos der de beber um copo de água porque sois de Cristo, digo-vos em verdade: não perderá a sua recompensa” (Mc 9, 41).
7b “Não passeis de casa em casa”.
Nesta ordem, Jesus pede dos enviados a virtude que tanto se identifica com a alma generosa de um apóstolo: a abnegação. Nunca se atendo às próprias comodidades, nem exigindo regalias, devem adaptar-se com facilidade às circunstâncias adversas, sabendo viver na penúria e também na abundância (cf. F14, 12). Como aponta São Gregório Nazianzeno, “em resumo, eles devem ser tão virtuosos que o Evangelho se propague mais pelo modelo de sua vida do que por sua palavra”.15
Fator de salvação ou de condenação
8“Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, “curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós”.
Além de reiterar a norma contida no versículo anterior, Nosso Senhor ordena aos discípulos que sanem as enfermidades — sobretudo as espirituais, causadas pelo pecado — e, procurando livrar as almas das preocupações terrenas para elevá-las às considerações sobrenaturais, anunciem-lhes a proximidade do Reino de Deus. Teofilato relaciona os dois aspectos: “Quando são curados na alma, aproxima-se deles o Reino de Deus, que está longe daquele em quem domina o pecado”.’6
10 “Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei:11 ‘Até a poeira de vossa cidade que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós’. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo! 12 Eu vos digo que, naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”.
Diante da rejeição daqueles a quem o apóstolo quis fazer o bem, a atitude indicada por Nosso Senhor é uma forma de incentivar o temor a Deus, “um apelo à consciência”.’7 Mesmo quando repudiado, o pregador não deve calar-se sobre as verdades da Fé, conforme o conselho dado a Isaías: “Clama em alta voz, sem constrangimento; faze soar a tua voz como a corneta. Denuncia a meu povo suas faltas” (Is 58, 1). E acrescenta o Salvador que, no dia do Juízo, a consideração dada à palavra dos representantes de Deus será fator de salvação ou de condenação para cada um dos que a ouviram.
Regresso dos discípulos
17 Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”.18 Jesus respondeu: Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago”.
O sucesso obtido nesta primeira missão “indício manifesto do grande triunfo”18 da Igreja no de correr da História, como observa São João Crisóstomo — é sublinhado por São Lucas ao descrever o estado de ânimo geral dos setenta e dois: voltaram cheios de alegria, pois haviam atingido o objetivo para o qual Jesus os enviara, além de terem com provado a força d’Ele, a cujo nome os próprios demônios obedeciam.

Fazendo alusão à queda de satanás precipitado no  inferno ainda antes da criação do homem, Nosso Senhor dava mais uma prova de divindade, declarando sua eternidade, e anunciava que, com a expansão da pregação evangélica, o demônio, dominador do mundo desde o pecado original, começava a ser definitivamente derrotado: “Se Jesus persegue tanto os demônios, [...] é que Deus age n’Ele com império e seu reino já começou”.19

segunda-feira, 1 de julho de 2013

EVANGELHO XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 10, 1-12.17-20

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 14º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C 2013 Lc 10, l-12.17-20
Enviados dois a dois
Naquele tempo, 1 o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir.
Já no primeiro versículo, São Lucas mostra o objetivo fundamental da missão: predispor as almas para receber o próprio Mestre. Essa preparação, atraindo ao bem mediante o apostolado de um discípulo, é muito importante — e não poucas vezes imprescindível — para que, no momento do encontro com o Bem em Pessoa, a alma esteja aberta à ação da graça e não levante obstáculos, entregando-se sem reservas.
Por outro lado, percebe-se o divino zelo de Cristo por seus seguidores, constituindo duplas de discípulos antes de enviá-los à pregação. Com efeito, tendo de atuar no mundo, o enviado necessita de um especial apoio colateral para não sucumbir às investidas do demônio, como ensina o Eclesiastes: “Se é possível dominar o homem que está sozinho, dois podem resistir ao agressor” (Ecl 4, 12). Por isso, “deviam ir de forma que um sustentasse o outro”.7 Estava instituído o método de ação a ser obedecido, ao longo dos séculos, por inúmeras ordens religiosas, cujas regras prescrevem aos seus membros andarem sempre acompanhados por um irmão de vocação ao desempenhar atividades em ambientes alheios à vida comunitária.8
A necessidade de operários
2 E dizia-lhes: ‘A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita”.
A vida cotidiana dos habitantes da Palestina, região com terras férteis e bem cultivadas, era muito marcada pela agricultura. A imagem da seara madura, além de bastante acessível, despertava com facilidade nos ouvintes de Jesus a relação de semelhança que Ele desejava provocar ao empregá-la. Em geral, a semeadura era feita pelo proprietário sozinho, exigindo, contudo, a contratação de numerosos ceifadores para o momento de recolher a safra. Referindo-se à falta de “trabalhadores para a colheita”, Nosso Senhor deixava claro ser obra de Deus a distribuição da semente da graça nas almas e sua germinação, operando as conversões, restando ao homem tão só a tarefa de colher os frutos. A esse respeito, o Salvador já havia ensinado, à beira do poço de Jacó: “Um é o que semeia, outro é o que ceifa. Enviei-vos a ceifar onde não tendes trabalhado” (Jo 4, 37-38). O concurso humano, embora não seja necessário ao Onipotente, é por Ele desejado como meio de estimular a caridade fraterna, cuja essência se cifra no empenho de conduzir o próximo a amar e servir o Senhor da messe.
Além disso, essa passagem põe em destaque um dos insondáveis mistérios da Providência: a desproporção entre o número de missionários e as almas a serem evangelizadas. Tal situação é uma constante na História da Igreja, inclusive quando há generoso florescimento de vocações religiosas. E o Divino Mestre faz depender de nossa oração o aumento do número desses trabalhadores, indicando a necessidade de rezar não apenas pela conversão do mundo, como também para que a Providência se digne enviar almas particularmente chamadas ao apostolado, cheias de amor a Deus e de zelo pela salvação dos homens.
Cordeiros entre lobos
“Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos”.
Devido à forte ligação existente entre a atividade pastoril e o cotidiano judaico, torna-se muito viva essa outra metáfora usada por Jesus para significar as dificuldades com as quais os discípulos se deparariam ao anunciar o Reino de Deus, conforme diria Ele mesmo mais tarde: “O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir” (Jo 15, 20). Determinava, assim, como deveriam reagir em tais situações: à semelhança do cordeiro, animal reconhecido pela manifesta mansidão ao ser levado ao matadouro, deveriam suportar com espírito sereno as perseguições, não se deixando tomar pelas apreensões causadas pelos ataques.
Colocando-os na perspectiva de estarem constante risco ante a evangelização, do mesmo modo que o cordeiro em uma alcateia de lobos, o Bom Pastor pedia aos discípulos a confiança em sua protecção. Não obstante, a mesma afirmação soava como uma admoestação à vigilância em relação aos adversários incitando os discípulos à sagacidade no exercício da missão, pois eram “enviados não como presas, mas como distribuidores da graça”,9 explica Santo Ambrósio.
Curiosamente, as próprias perseguições comprovam o constante amparo de Nosso Senhor a seu rebanho, como ressaltam as palavras que São Cirilo de Alexandria põe nos lábios de Deus: “Eu farei dos perseguidores uma ajuda para os perseguidos. Farei com que os que humilham meus ministros colaborem com a boa vontade destes”.’° De fato, ao investir contra os discípulos de Jesus, os inimigos criam excelentes circunstâncias para a prática de muitas virtudes, tais como a humildade e a resignação diante das afrontas e maus tratos, e o robustecimento da fé e da confiança na Providência. Sobretudo propiciam a purificação do amor a Deus. Desse modo incide sobre eles a promessa relativa à bem-aventurança de padecer perseguição por causa da justiça, tornando-os merecedores de grande recompensa no Céu (cf. Mt 5, 10). Se a hostilidade chega ao extremo do martírio, a violência se transforma em glória para os cristãos, permitindo-lhes receber o prêmio da fé, na vida eterna. E dali, intercedendo junto a Deus pelos fiéis que permanecem na Terra, estreitam os vínculos entre a Igreja triunfante e a Igreja militante, fortalecendo o Corpo Místico de Cristo.

Não raras vezes, porém, sucede algo diferente. A força da graça conferida pelo Salvador à sua grei é tal que muitos “lobos” acabam sendo convertidos em “cordeiros”... Exemplo supremo é o de Saulo, fariseu que “só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (At 9, 1), o qual veio a tornar-se o Apóstolo por excelência.
Continua no próximo post.

domingo, 30 de junho de 2013

EVANGELHO XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013 - Lc 10, 1-12.17-20

EVANGELHO 14 DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO C 2013 Lc 10, l-12.17-20
Naquele tempo, o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por Isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita.  Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos.  Não leveis bolsa nem sacola nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós.  Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa.
8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’. 10 Mas, quando entrardes numa cidade e não fordes bem recebidos, saindo pelas ruas, dizei: ‘‘‘Até a poeira de vossa cidade que se apegou aos nossos pés, sacudimos contra vós’. No entanto, sabei que o Reino de Deus está próximo! 2 Eu vos digo que naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade”. Os setenta e dois voltaram muito contentes, dizendo: “Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome”.18 Jesus respondeu: “Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago. ‘‘ Eu vos dei o poder de pisar em cima de cobras e escorpiões e sobre toda a força do inimigo. E nada vos poderá fazer mal. 20 Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu” (Lc 10, 1-12.17-20).
 Comentários ao Evangelho do XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM
O vade-mécum do apóstolo
Válidas para todas as épocas históricas, as normas dadas pelo Divino Mestre aos setenta e dois discípulos delineiam o perfil de um auténtico evangelizador e constituem precioso guia para conduzir os homens à verdadeira felicidade.
Como alcançar a felicidade?
Pródigo em irradiar a luz e o calor, o Astro Rei anuncia  o início e o término de cada dia com fulgores sempre novos, oferecendo a quem quiser contemplá-lo, no alvorecer ou no ocaso, um belo espetáculo que proclama a grandeza de Deus. Algo semelhante pode ser observado em todos os seres materiais, pois o Criador os dispôs, um a um, conforme os desígnios de sua sabedoria, e “tudo tende regularmente para a sua finalidade” (Edo 43, 28). As árvores frutíferas, por exemplo, dão em alimento aos homens e aos animais a abundância de seus frutos, com a diversidade de sabores, perfumes, formatos e colorações que caracteriza a riqueza de sua vitalidade. E, quer em meio às águas, quer nas alturas do firmamento, sobre a Terra ou até nas profundezas dela, o reino animal manifesta com profusão ainda maior as infinitas perfeições do Autor da vida. Guiados por instintos inerrantes, os animais movem-se com impressionante acerto para obter o seu sustento, e algumas espécies constroem abrigos tão engenhosos, como é o caso das abelhas, que causam admiração à própria inteligência humana. A respeito de tão eloquente harmonia da criação, afirma São Boaventura: “O universo é semelhante a um canto magnífico que desenrola suas maravilhosas consonâncias; suas partes se sucedem até que todas as coisas sejam ordenadas em vista de seu fim”.1 Este fim último e absoluto de todas as criaturas consiste em dar glória a seu Criador, pois o mundo foi por Ele tirado do nada, não por uma necessidade, mas como manifestação de uma bondade infinita, conforme ensina São Tomás.2
Da parte dos seres irracionais, esse louvor é tributado pelo simples fato de existirem e trazerem em si reflexos do Criador, como canta o Eclesiástico: “A obra do Senhor está cheia de sua glória” (42, 16). Entretanto, o dever de tal glorificação cabe em especial às criaturas inteligentes e livres — Anjos e homens, por serem capazes de honrar a Deus por amor, de modo consciente, livre e voluntário. O renomado teólogo Frei Royo Marín, OP, pondera: “Ao homem, principalmente, por ser composto de espírito e matéria, corresponde recolher o clamor inteiro da criação, que suspira pela glória de Deus (cf. Rm 8, 18-23), e oferecê-la ao Criador, como um hino grandioso em união com sua própria adoração”.3
Na sua misericórdia, a Providência faz coincidir essa glorificação com a felicidade do ser humano, procurada com incansável ardor ao longo da vida terrena: ‘Alcançando sua própria felicidade, o homem glorifica a Deus e, glorificando-O, encontra sua própria felicidade. São dois fins que se confundem realmente, embora haja entre eles uma diferença de razão. A suprema glorificação de Deus coincide plenamente com a nossa suprema felicidade”,4 conclui o teólogo dominicano. Apesar de tal plenitude ser atingida apenas ao se entrar na bem-aventurança eterna, é possível ao homem gozar de certa felicidade verdadeira ainda nesta vida. Desfrutam-na todos os que orientam a existência rumo à finalidade suma, conhecendo, amando e servindo a Deus, trilogia que se sintetiza na prática da virtude e no empenho em promover a glória d’Ele na Terra.
Ora, como “o bem, enquanto tal, é difusivo; e quanto melhor algo é, tanto mais difunde sua bondade às coisas mais distantes”, as almas possuidoras de tal alegria não a limitam à satisfação pessoal, pois anseiam transmiti-la a todos os semelhantes. Surge, então, o corolário da verdadeira felicidade, sobre o qual o Evangelho deste 14 Domingo do Tempo Comum nos oferece preciosos ensinamentos: fazer o bem ao próximo, levando-o a participar das alegrias da virtude, nesta Terra, rumo às eternas alegrias do Céu.
O VADE-MECUM DO APÓSTOLO
Conquanto não seja possível saber com precisão a ordem cronológica dos fatos ocorridos na fase da vida de Nosso Senhor contemplada no Evangelho de hoje, muitos comentaristas concordam em reunir, como concernentes a uma única viagem, o relato de São João sobre a ida de Jesus a Jerusalém, para a Festa dos Tabernáculos (cf. Jo 7, l-53), e o de São Lucas, ao registrar que o Salvador resolvera dirigir-Se à Cidade Santa porque o tempo da Paixão se aproximava (cf. Lc 9, 51).6
Segundo essa interpretação e e de acordo com a narração do terceiro Evangelista, foi durante essa viagem que Tiago e João perguntaram ao Mestre se poderiam fazer vir fogo do céu sobre os inospitaleiros samaritanos, sendo repreendidos com a belíssima afirmação acerca da missão do Redentor: “O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las” (Lc 9, 56). Em seguida, o Evangelista registra três diálogos entre Jesus e algumas pessoas com vocação para segui-Lo. Os conselhos dados por Nosso Senhor deixam evidenciada a seriedade do chamado para ser Apóstolo e a necessidade imposta pela vocação de romper os laços com o mundo (cf. Lc 9, 57-62).
Situando a escolha dos setenta e dois discípulos logo a seguir, São Lucas compõe um quadro bastante expressivo a respeito da impostação de espírito e da conduta que deve caracterizar os convocados a propagar o Reino de Deus. Provavelmente foi após o término das comemorações religiosas mencionadas por São João que Jesus, visando à evangelização da vasta região da Judeia, instituiu o novo método de ação apostólica considerado no trecho do Evangelho deste domingo.