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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano – C 2013 Lc 9, 18-24

Conclusão dos Comentários ao Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano –  C 2013 – Lc 9, 18-24
Christianus alter Christus
23 Depois Jesus disse a todos: ‘Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. 24 Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará”.
Voltando-se para a multidão, que até esse momento estivera guardando uma respeitosa distância do pequeno grupo, Nosso Senhor também lhe dirige a palavra. O ensinamento desses versículos nasce do ousado anúncio de seus padecimentos, e indica que, embora não fosse o momento de falar publicamente da Paixão, Ele considera oportuno instruir seus seguidores sobre o verdadeiro discipulado e a adequação dos espíritos à realidade da cruz.
Se alguém me quer seguir...”. O convite é explícito, respeitando, contudo, o livre-arbítrio, sem impor-se a ninguém à força. E preciso que os bons tenham o mérito da liberdade bem empregada, e sua adesão ao Divino Mestre deve se fundamentar no enlevo, nunca na coação. As pessoas congregadas ali em grande número não foram obrigadas a acompanhar Jesus até Cesareia de Filipe. E os Apóstolos também abandonaram as redes e os labores devido a um livre assentimento pessoal.
Pois bem, para levar à plenitude a adesão a Nosso Senhor, são indispensáveis novas renúncias, que sempre devem ser feitas por meio de um generoso sim da parte de cada um. A maior delas, sem lugar a dúvida, é a que diz respeito a si próprio, e por isso mais custa ao homem. Privado do dom de integridade, em razão do pecado original, ele vive num desequilibrio que gera um apreço desmesurado por sua própria pessoa, levando-o, quando não é santo, a amar-se e a enaltecerse de maneira pecaminosa. Ora, o perfeito amor a Deus não se atinge por meio da condescendência com essa má inclinação, mas pela entrega total do próprio ser Aquele que nos criou. A renúncia a si mesmo em benefício da glória de Deus torna-se uma exigência da fidelidade a Ele.
Abraçar a cruz significa assumir com radicalidade o cumprimento da vocação específica, recebida desde o Batismo. E fácil aceder ao chamado divino quando esse convite desponta em nosso interior soprado pelo vento favorável das consolações. Com o início das dificuldades de cada dia, em meio à aridez, aos padecimentos físicos ou morais, à perseguição ou aos atractivos do mundo, faz-se necessário abraçar o ideal e segui-lo por amor, tal como o exemplo de Nosso Senhor ao carregar a cruz com alegria, apesar de estar imerso num oceano de amargura. E suas dores foram incomparavelmente maiores do que as nossas, pois Jesus não nos pede nada que Ele mesmo não tenha padecido antes, em grau superlativo.
Têm sido extensos os comentários dos teólogos a respeito da interpretação desse impressionante versículo 24, onde se torna claro como o valor da vida eterna sobrepuja o da terrena, merecendo, inclusive, o alto preço do martírio. Entretanto, podemos ressaltar que “ganhar a vida” significa também ter uma existência pautada pelos Mandamentos, visando como objectivo a santidade. Em nossa época, na qual os homens pagam qualquer tributo para trilhar uma carreira brilhante e construir um nome de prestígio, lucraria muito quem meditasse nessa passagem, pois no afã de se obter um êxito mundano pode-se rumar para o inferno.
A CRUZ, FONTE DE FELICIDADE
Em suma, o Evangelho deste 12º Domingo do Tempo Comum nos proporciona elementos para um exame de consciência: qual tem sido nossa postura perante a cruz com que Nosso Senhor Jesus Cristo passa diante de nós e nos convida a segui-Lo? Temos grandeza de alma para integrar número de seus seguidores que têm espírito consequente, ou, mesmo nos deixando maravilhar pela sublimidade de seu ensinamento, somos iludidos pela atração das coisas pecaminosas, a exemplo dos filhos das trevas? Seremos contados no número dos que procuram a terceira posição, harmonizando o bem com o mal, numa união ilegítima?

A Liturgia de hoje nos aponta a solução para um dos maiores males do angustiante século em que vivemos, no qual a humanidade se utiliza de todos os meios tecnológicos, médicos e sociais para evitar a dor, e padece, como nunca, de angústias inenarráveis. A primeira vista, parece um mistério o fato de nunca terem existido tantas possibilidades de bem-estar e, simultaneamente, sermos flagelados por toda espécie de catástrofes. Isto se deve a que fugimos da cruz por desconhecermos a imensa felicidade oferecida por eia quando é abraçada com alegria. A medida que adequamos todo o nosso modo de ser, perspectivas, visualizações, desejos, pensamento, dinamismo, atividade e tempo em função de Nosso Senhor, somos invadidos por uma paz interior que a nada pode ser comparada. Descem as bênçãos do Alto e operam-se as maravilhas da graça. Com razão afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “A graça do enlevo pelas coisas celestes, pelas coisas de Deus, proporciona a uma pessoa coragem para que ela carregue grandes cruzes como se fossem pequenas. Quer dizer, esse amor latente por Deus, por Nossa Senhora, pelas grandezas do Céu age com tal profundidade no homem que, por um ato de consentimento livre, consciente — e ao mesmo tempo subconsciente, o que parece paradoxal, porém verdadeiro —, ele se deixa transformar. E o amor à Cruz é o sintoma dessa mudança de mentalidade”.17 Assim, conformados com o Divino Redentor, estaremos aptos não só a reconhecê-Lo como o verdadeiro Messias, confessando com São Pedro: “Tu és o Cristo de Deus”, mas diremos também com o chefe da Igreja, desta vez com um timbre de autenticidade que somente a cruz é capaz de oferecer: “Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 21, 17). 
1) SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, apud ABAD, SJ, Camilo María. Introducción General, c.VI, n.32. In: Obras de San Luis María Grignion de Montfort. Madrid: BAC, 1954, p.66.
2) SÃO LUÍS MARTA GRIGNION DE MONTFORT. Carta circular a los Amigos de la Cruz, n.15. In: Obras de San Luis María Grignion de Montfort, op. cit., p.236- 237.
3) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.11, p.269.
4 Cf. Lc 3, 21; 5 9, 18; 10, 21; 11, 1; 22, 31-32; 22, 3, 46.
5) SÃO CIRILO DE ALEXANDRIA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.IX, v.18-22.
6) CORNELIO A LÁPIDE. Lib. I de Orat., apud BARBIER, SJ, Jean-André (Org.). Les trésors de Cornelius a Lapide. 6.ed. Paris: Ch. Poussielgue, 1876, v.I’vÇ p.147.
7) BENTO XVI. Jesús de Nazaret. Desde el Bautismo a la Transfiguración. Bogotá: Planeta, 2007, p.341.
8) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XIX, nl. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (1-29). 2.ed. Madrid: Ciudad Nueva, 2001, p.241.
9) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Matthæum. C.16, lect.2.
10) SAO CIRILO DE ALEXANDRIA. Comentario al Evangelio de Lucas, 9, 18,apud ODEN, Thomas C.; JUST, Arthur A. La Biblia comentada por los Padres de la Iglesia.Evangelio según San Lucas. Madrid: Ciudad Nueva, 2006, vIII, p.224.
11) Cf. SAO TOMAS DE AQUINO, Super Matthæum, op. cit.
12) FILLION, op. cit., p.272.
13) BENETTI, Santos. Caminando por el desierto. Ciclo C. Madrid: Paulinas, 1985,p.70.
14) VEUILLOT, Louis. Vida de Jesus. São Paulo: Jornal dos livros, [s.d.], v.11, p.131.
15) SANTO ANIBRÓSIO. Tratado sobre el Evangelio de San Lucas. LVI, n.100. In: Obras. Madrid: BAC, 1966, v.1, p.338.
16) LAGRANGE, OP, Marie-Joseph. Évangile selon Saint Luc. 4.ed. Paris: J. Gabalda, 1927, p.266.
17) CORREA DE OLIVEIRA, Plinio. A “Carta Circular aos amigos da Cruz” — I. Enlevo e holocausto. In: Dr Plinio. São Paulo. Ano X. N.112 (Jul., 2007); p.12.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano – C 2013 Lc 9, 18-24

Continuação dos Comentários ao Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano –  C 2013 – Lc 9, 18-24
Espera de um falso Messias
Os Apóstolos, como todos em Israel, aguardavam com sofreguidão o advento do Messias prometido por Deus e anunciado pelos profetas. Uma santa expectativa norteava a vida de cada judeu, fazendo convergir para esse personagem mitificado todos os seus anseios de felicidade. Em si mesmo, tal impulso deve ser tido não somente como legítimo, mas também como uma reação salutar à paganização da sociedade daquele tempo e sinal de fidelidade às promessas da Escritura. Caso não procedessem assim, dariam os hebreus mostras de uma reprovável tibieza. Era Deus que, em sua admirável Providência, os vinha preparando para a chegada de seu ungido. Haviam passado mais de quatro séculos da morte de Malaquias, e depois dele nenhum outro profeta erguera a voz entre os filhos de Abraão. Esse silêncio, acrescido às vicissitudes históricas que tiveram como palco a Palestina, nesse extenso período, concorria para compenetrá-los da importância e necessidade de tal varão.
Entretanto, uma deformação se estabelecera na mentalidade do povo eleito — e, por conseguinte, na dos Apóstolos — a respeito da índole da missão desse enviado. O Messias, o Cristo de Deus, não era para eles senão aquele que viria estabelecer a dominação dos judeus sobre os outros povos, resolver todos os problemas políticos, sociais e, sobretudo, financeiros do país; traria ele, antes de mais nada, uma felicidade humana. Ou seja, seria a súmula de uma espécie de super Moisés, de super Davi e de super Salomão, personagens que tinham levado a nação israelita a um auge de glória e fizeram tremer os estrangeiros. Ao lado de tão formidável poderio, pensavam eles, o Messias também seria um homem justo, cumpridor da Lei e temente a Deus, tal como os maiores expoentes do judaísmo. Coadunaria uma religiosidade exemplar com o despotismo dos césares, o respeito à Torá com o desrespeito aos gentios: numa palavra, seria o imperador da terceira posição. Com esse Messias haveria alguém que, por fim, traria todos os benefícios e extirparia todos os males de Israel. Que imensa vitória! Por isso, Nosso Senhor faz aos Apóstolos uma nova revelação, logo após a declaração de Pedro, para todos inesperada. Primeiro Ele determina sigilo sobre sua origem, como se dissesse: “Não queirais jamais ensinar que Eu sou esse Messias que estais pensando. Sim, sou o Messias, mas não o que vós sentis e pretendeis. O Cristo que havereis de anunciar é o que Eu mesmo vos revelarei”.13 Depois, para extirpar o erro e educá-los adequadamente, Jesus, no dizer de Louis Veuillot, “sem lhes deixar formar qualquer ideia agradável da glória que os esperava, rasgou o véu do porvir, e mostrou-lhes o Calvário”.14
Sofrimento: a marca do Salvador
22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos ancios, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”.
“Tanto quanto o céu domina a Terra, tanto é superior à vossa a minha conduta e meus pensamentos ultrapassam os vossos” (Is 55, 9). Enquanto o povo esperava um Messias terreno, Nosso Senhor vinha trazendo o resgate da dívida infinita contraída com o Pai pelo pecado, o que nenhum homem, por mais santo e perfeito que fosse, poderia fazer. Não há termo de comparação para exprimir a superioridade da Redenção perante o mais esplendoroso dos impérios humanos, e, portanto, do que o Messias trazia aos judeus, comparado com o reino material que eles aguardavam.
Não obstante, para o pleno cumprimento de tão alta missão, era necessária a expiação na Cruz, a imolação do Filho de Deus. E essa declaração — que contradiz de forma contundente os sonhos de olhos abertos dos Apóstolos — é feita por Jesus com todo o seu realismo. Santo Ambrósio reconhece a dificuldade dos Doze em admitir o prenúncio da Paixão e comenta: “Quiçá porque sabia o Senhor que era difícil acreditar no mistério da Paixão e Ressurreição, mesmo tratando-se de seus discípulos, quis ser Ele mesmo o anunciador”.15 Já os vaticínios dos profetas do Antigo Testamento apontavam para um Messias padecente, fato de que ninguém queria se lembrar. Nosso Senhor, despertando-os de uma profunda letargia, mostra que seria desprezado pelo poder vigente, por aqueles sem cuja aprovação — ponderavam os Apóstolos — não se estabeleceria o reinado messiânico. Ele quebra, desse modo, o apoio psicológico depositado em homens de falsa sabedoria, indicando serem precisamente estes os que tramariam a sua morte.

Então Jesus, o Mestre, seria morto! Sim, “é preciso estabelecer para sempre a verdadeira natureza da salvação trazida por Cristo; ela é operada pelos seus sofrimentos e pela sua morte”.16 A impressão produzida foi tão forte que os Apóstolos parecem não prestar atenção no anúncio da ressurreição ao terceiro dia. Quiçá tenha sido esse pasmo que os fez omitir novas perguntas sobre como se daria tal holocausto. Sem embargo, era chegado o momento de conhecerem o plano de Deus ao enviar o Filho Unigênito, uma vez que o Pai desejava conferir-Lhe toda honra e toda a glória e eles estavam a poucos meses desse acontecimento pinacular. 

terça-feira, 18 de junho de 2013

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano – C 2013 Lc 9, 18-24

Jesus interroga os discípulos sobre sua Pessoa
18b Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” 19 Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”.
Voltando-se para os Apóstolos, Nosso Senhor os interroga a respeito do que ouvem dizer sobre Ele. A pergunta possui claramente uma finalidade didática, dando a entender a antecipação de outra mais importante. Podemos imaginar Jesus ouvindo com interesse as mais variadas e calorosas narrações da repercussão de suas obras oferecidas pelos Doze, os quais, no contato direto com as multidões, puderam recolher todo tipo de impressões, para oferecer ao Mestre um substancioso relato dos comentários populares. Sem necessitar de tal testemunho — que já conhecia desde toda a eternidade —, Ele procedeu desse modo para trazer à tona a opinião geral, antes de fixar a verdadeira, que de muito a ultrapassava. Ficaria patente aos olhos dos discípulos, portanto, a insuficiência das afirmações admitidas e a necessidade de possuírem a seu respeito uma visão perfeita.
Tudo indica haver sido essa conversa mais extensa do que a sintética narração dos evangelistas, os quais, na afirmação de São João Crisóstomo, “costumam resumir fatos e palavras, movidos pelo desejo de ser breves e sucintos”.8 Terão aflorado opiniões diversas, mais ou menos acertadas. Sintetizando o parecer dos judeus quando faziam um paralelo entre Jesus e as figuras de João Batista, Elias e Jeremias (cf. Mt 16, 14), 05 Apóstolos transmitem o que era a voz corrente. Não obstante, Jesus era incomparavelmente mais: a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Deus feito Homem, que viera para operar curas corpóreas, sanar as almas e, mediante o sacrifício cruento do Calvário, extirpar a chaga do pecado e abrir as portas do Céu. Por fim, chegara o momento dessa altíssima revelação!
A confissão de Pedro
20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém.
Depois de ouvir com atenção o que os Apóstolos tinham a dizer, Nosso Senhor os interroga, por sua vez, sobre essa mesma questão. Agora importa saber o pensamento deles, já que estão em privilegiadas condições para emitir um juízo. Não veem Jesus apenas ao longe, nas praças ou no Templo, mas acompanham-No todos os dias; entregaram-se a seu serviço e são os depositários de sua máxima confiança. Seria cabível opinarem o mesmo que o povo, posto que vissem e soubessem muito mais? “Aqui” — dirá São Tomás de Aquino — “a fé dos discípulos é examinada”.9 Ao formular a pergunta, separando-os do resto das pessoas — “e vós?” —, deixa o Mestre entrever que espera de seus seguidores uma resposta diferente, por não corresponderem os comentários do povo à plena verdade. Por isso, ensina São Cirilo: “Quão discreto é esse ‘vós’! Distingue-os dos outros para que também fujam de suas opiniões e assim não tenham uma ideia indigna d’Ele”.10
Sobre a didática empregada por Nosso Senhor ao incitá-los a um parecer, ensina o Doutor Angélico que Ele atuou dessa forma por desejar dar-lhes o mérito da fé.’1 Caberia a Pedro, o Apóstolo veemente, decidido e loquaz, a gloria de ser o primeiro a proclamar que Jesus era o Filho de Deus encarnado, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sua percepção, todavia, não poderia ser atribuIda à sua mera perspicácia natural, mas sim a uma graça especial para apreender aquilo que a inteligência não alcançava, por se tratar de um dos principais mistérios de nossa fé: “Quando Jesus lhes perguntou qual era o parecer do povo, todos falaram; no momento em que deseja conhecer a opinião pessoal deles, Pedro se adianta a todos e exclama: ‘Tu és o Cristo”.12 Tão solene confissão foi ditada por uma elevada inspiração no interior de Pedro, conforme reconhece o Salvador: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17). Um magnífico passo rumo à exaltação de Nosso Senhor está dado partindo de seus mais próximos.

A seguir houve a instituição do papado, episódio que faz vibrar a alma católica, apesar de omitido na versão de São Lucas (cf. Mt 16, 18-19). Está dito, no entanto, que Jesus proibiu severamente transmitir a terceiros o que acabava de ser dito, impedindo com divina autoridade que extravasasse daquele âmbito uma declaração de tamanha gravidade. Não é difícil intuir que ali pairava uma graça favorecendo a entusiasmada aceitação da verdade. Além disso, é natural prever a explosão de cólera que esse ato de fé causaria, caso chegasse aos ouvidos das autoridades religiosas de Israel. Havia outro motivo — como analisaremos logo abaixo — para desaconselhar, por ora, a difusão da verdadeira identidade do Senhor.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano – C 2013 Lc 9, 18-24

Continuação dos Comentários ao Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano –  C 2013 – Lc 9, 18-24
O EXEMPLO DO SALVADOR
A passagem apresentada neste domingo situa-se no período áureo da vida pública de Jesus, quando sua fama no mundo hebraico caminhava para o apogeu e se celebravam seus feitos por toda parte. A notícia dos milagres realizados já se espalhara por Israel, e não havia um só recanto onde não se comentasse a trajetória ascensional daquele Mestre cheio de influência e poderes sobrenaturais. Fillion comenta a importância do momento histórico e das afirmações de Cristo ora contemplados: “Chegamos a palavras e acontecimentos de altíssima importância. [...] eis aqui acontecimentos extraordinários, inclusive dentro de uma vida tão extraordinária como foi a de Nosso Senhor. Essa vida, de si tão sublime, vai subir a regiões ainda mais elevadas antes de descer ao que muito justamente se chamou de vale profundo da dor e da humilhação. Se daqui em diante Jesus se ocupa menos em instruir o povo e o vemos mais raramente em contato com ele, consagra, em troca, mais atenção ao pequeno grupo de seus Apóstolos, aos quais revelará os segredos de sua origem e missão. Assim iremos penetrando cada vez mais no coração do Evangelho”.3
De fato, o episódio deste domingo é tido como um dos pontos auges do convívio do Salvador com os discípulos, e marco importante da instituição da Igreja docente. Os evangelistas São Mateus e São Marcos relatam encontrar-Se Jesus, nesse dia, nas proximidades de Cesareia de Filipe, cidade situada em território pagão, incrustada numa região isolada e de grandiosa beleza. São Lucas, embora não ofereça maiores especificações geográficas, registra um precioso pormenor que antecedeu a confissão de Pedro e o primeiro anúncio da Paixão: o Mestre estava orando.
A oração do Homem-Deus
Certo dia, 18a Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele.
A oração de Jesus constitui um apaixonante mistério mencionado em diversas ocasiões ao longo dos Evangelhos. Dentre os quatro evangelistas, São Lucas mostra-se mais atento a esse detalhe, referindo-o com certa frequência. Os grandes episódios da vida de Cristo são precedidos por períodos de prece. O Evangelista menciona onze ocasiões em que Jesus reza ao Pai, embora nem sempre se detenha no conteúdo de tais colóquios.4
Dessa vez Nosso Senhor procura um lugar ermo e, sem despedir os que O seguiam, afasta-Se um pouco deles e entrega-Se a uma recolhida oração. Nossa piedade, estimulada pela grandeza do ato — o qual, de si, já bastaria para redimir a humanidade —, nos conduz à formulação de algumas perguntas: se Ele é Deus, a quem rezava? E Ele o destinatário da prece e, ao mesmo tempo, quem reza? A pluma dos teólogos torna-se débil para expressar a excelsitude do fato. Sendo Deus e Homem, e possuindo, por tal razão, duas naturezas distintas unidas na Pessoa Divina do Verbo, em Cristo encontra-se onipotência unida à humanidade, sem que esta última perca uma só de suas característitas, tais como inteligência, vontade, sensibilidade, memória, imaginação e demais faculdades.Sua prece, portanto, parte da natureza humana  dirige-se à Trindade, cuja Segunda Pessoa é Ele mesmo, sendo a  expressão da vontade de humana de Jesus, deliberada e absoluta, intercessão perfeita que deve ser atendida. Quão insondável e profunda é a oração do Mestre! Nunca conheceremos nesta vida — tão  só no Céu — a força impetratória de um pedido d’Ele, como na comovedora frase “eu roguei por ti” (Lc 22, 32), pela qual perseverou não apenas São Pedro, mas também cada um de nós.
A excelência da oração e do recolhimento
Grande é o apreço de Nosso Senhor pela oração, tanto que quis servir-Se dela para derramar graças sobre o mundo. O que podia conceder diretamente como Deus, preferiu pedir enquanto Homem, indicando à humanidade um caminho infalível e harmônico com os desIgnios divinos. Agindo dessa maneira, ensina São Cirilo de Alexandria, “constituía-se em modelo de seus discípulos”.5
Cornélio a Lápide, por sua vez, tece as seguintes considerações a propósito do valor e dos efeitos da oração: “Não há lugar nem tempo em que não devamos rezar. A oração é a coluna das virtudes, a escada da divindade, das graças e dos Anjos para descer à Terra, e dos homens para subir à montanha eterna. A oração é a irmã dos Anjos, o fundamento da fé, a coroa das almas [...]. A oração é uma corrente de ouro que liga o homem a Deus, Deus ao homem, a Terra ao Céu; ela fecha o inferno, encadeia os demônios; previne os crimes e os apaga... A oração é a arma mais forte; ela oferece uma inquebrantável segurança, é o maior tesouro; ela é o porto seguro da salvação; é o verdadeiro lugar de refúgio”.6 Com efeito, a oração faz do homem um ser mais espiritualizado, no qual prevalece a graça de Deus e aquietam-se as paixões desregradas.
O Salvador ainda nos oferece outro tocante exemplo nessa cena. Ao retirar-Se para rezar, ensina a não nos limitarmos unicamente à oração comunitária, como a participação na Eucaristia ou outros atos litúrgicos. Sem menosprezar a prece coletiva, à qual está ligada a promessa da sua presença — “onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18, 20) —, Ele mostra ser muito benfazejo rezar a sós, longe das aglomerações.

Ao contar que estava acompanhado de perto apenas pelos discípulos — pormenor que, no parecer de Bento XVI, denota o quanto eles “estão incluIdos nesse estar só, em seu reservadíssimo estar com o Pai”  —, quis o Evangelista mostrar a relação entre a oração do Divino Mestre e o elevado tema tratado por Ele a seguir.

sábado, 15 de junho de 2013

Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano – C 2013 Lc 9, 18-24

Comentários ao Evangelho XII Domingo do Tempo Comum – Ano –  C 2013 – Lc 9, 18-24
Certo dia, 18 Jesus estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” ‘ Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. 20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. 23 Depois jesus disse a todos: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me. 24 Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 18-24).
A cruz, quando inteiramente abraçada, nos configura com Cristo
No auge da fama e da popularidade de Nosso Senhor, todos esperam para breve sua aclamação como um líder político sem precedentes. Jesus, porém, desfaz essa errônea expectativa com o anúncio de sua Paixão.
A TENTACÃO DA TERCEIRA POSIÇÃO
É dificil para o homem, no relacionamento com o próximo ou comrDeus, agir segundo as exigências de sua consciência, da moral e da verdade. Tomar uma atitude decidida e definitiva constitui uma escolha árdua, pois, por um lado, no interior da alma, clama a voz das más inclinações decorrentes do pecado e, por outro, o convite à retidão, à perfeição e à santidade feito pela graça. Optar por uma dessas solicitações acarreta sérias consequências, surgindo a partir daí uma luta que continua durante toda a vida até o momento do juízo particular, fato que explica a conhecida afirmação de Jó: “a vida do homem sobre a Terra é uma luta” (7, 1). Não há uma idade a partir da qual seja possível considerá-la encerrada; pelo contrário, as batalhas espirituais tornam-se cada vez mais impetuosas com o passar do tempo. Comprova-o a hagiografia, ao mostrar a luta presente na trajetória terrena dos santos, até o último suspiro deles. Célebre é a exclamação de São Luís Grignion de Montfort, na hora da morte, indicativa de seu constante esforço para se manter fiel à Lei divina, da qual se julgava cumpridor muito imperfeito: “Cheguei ao termo de minha carreira: não pecarei mais!”1
Contudo, quando não é justo, o homem esmorece nesse combate ascético e procura encontrar um meio de descansar, desejando alcançar a recompensa eterna sem fazer esforço. Tal é a razão pela qual não existe uma corrente com maior quantidade de adeptos quanto a chamada terceira posição. Trata-se do partido mais numeroso existente no mundo, desde a saída de Adão e Eva do Paraíso, porque a tendência do homem não é ceder ao mal enquanto mal — pois ser mau é incômodo e implica também em lutar, exige agrede, ou seja, capacidade de luta —, mas sim fugir da dor. Nossa existência acarreta sempre padecimentos, pois é impossível viver sem sofrer, ainda quando se é inocente. Nem a Inocência em Si mesma, Nosso Senhor, nem a Inocente por excelência, Nossa Senhora, ficaram livres da dor, sendo inconcebível uma existência, por mais excelsa que seja, isenta de adversidades.

São Luís Grignion de Montfort, em sua Carta circular aos Amigos da Cruz, tratou dessa luta interior ao mostrar o glorioso caminho dos eleitos: “O conhecimento experimental do mistério da Cruz é dado a conhecer a muito poucos. Para que um homem suba até o Calvário e se deixe crucificar com Jesus, em meio a seu próprio povo, necessita ser um valente, um herói, um homem determinado e unido a Deus; que escarneça do mundo e do inferno, de seu corpo e de sua própria vontade; um homem resolvido a sacrificar tudo, a realizar tudo e a padecer tudo por Jesus Cristo. Sabei, queridos Amigos da Cruz, que aqueles que dentre vós não se encontrem com esta disposição, estes andam com um pé só, voam apenas com uma asa e não merecem estar convosco, porque não merecem ser chamados Amigos da Cruz, a qual devemos amar com Jesus Cristo, corde magno et animo volenti — com largueza de coração e ânimo generoso (cf. II Mac 1, 3).2 Não existe um terceiro caminho no qual juntemos as vantagens e as glórias da obediência a Deus com o gozo e as fruições do pecado. A batalha de nossa vida espiritual, portanto, cifra-se em tomarmos fervorosamente a primeira posição, sem nos deixarmos enganar pela falsidade da terceira. Como abrir, então, nossas almas à árdua via do sofrimento, única forma de atender ao chamado do Divino Mestre? E o que nos ensina Nosso Senhor neste Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

EVANGELHO XI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM  Lc 7,  36-50; 8 1-3
O juízo preconceituoso do fariseu
A segurança parecia retornar ao coração de Simão, o fariseu, ao assistir a tão escandalosa cena: “Se este fosse profeta, com certeza saberia de que espécie é a mulher que O toca: uma pecadora” . Seu juízo é apressado e infundado. Assim como não teve fé e amor para enlevar-se com o Mestre, faltou-lhe também o discernimento para, na ex-pecadora, ver e interpretar os sinais de um arrependimento perfeito, pois são notórios os efeitos do vício ou da virtude estampados na face (Eclo 13, 31). O orgulho de ser um rigoroso e sábio legista levou-o a uma conclusão aparentemente lógica, mas em realidade temerária, contra o Médico e contra a enferma. Além do mais, manifestou sua falsidade, pois, se concebeu no seu interior a convicção de estar diante de um homem comum e aguardou sua saída para provavelmente comentar com satisfação o aparente horror daquele escândalo, por que chamá-Lo de Mestre? A esse respeito, comenta com muita propriedade São Gregório Magno: “O Médico se encontrava entre dois enfermos; um tinha a febre dos sentidos, e o outro havia perdido o sentido da razão: aquela mulher chorava o que havia feito, mas o fariseu, orgulhoso pela sua falsa justiça, exagerava a força de sua saúde” (8).
Além não ter tido tino ou virtude para perceber na pecadora a enorme graça de que havia sido objeto, faltava ao fariseu humildade fé e amor para ver em Jesus o Filho de Deus. Entretanto, a prova de quanto Jesus é profeta foi dada a Simão logo a seguir, no estilo tão apreciado naqueles tempos, através da parábola dos dois devedores. É notório o caráter universal das palavras do Salvador contidas nesse trecho, mas não podemos negligenciar a realidade concreta a desdobrar-se diante de seus olhos de Juiz Supremo.
Ali estavam dois réus. Ambos haviam ofendido a Deus em graus diferentes e necessitavam, portanto, do perdão. A pecadora estava tomada por um arrependimento perfeito e foram-lhe “perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou”. Quanto ao fariseu, o Senhor lhe externa sua disposição em perdoá-lo, mas seria necessário, da parte dele, fé e maior amor (vv. 47 e 50). Indispensável era ao fariseu reconhecer seu débito para com Deus e pedir-Lhe perdão, mas ele assim não procedeu, por ser orgulhoso.
É fácil compreender a sentença final do Divino Juiz: a pecadora é oficial e publicamente perdoada; quanto ao fariseu, na melhor das hipóteses — se chegasse a arrepender-se e vencer seu orgulho — caberia, talvez, o decreto de Nosso Senhor: “os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21, 31).
É preciso ter pecado para crescer no amor?
É importante respondermos a uma questão: em face do Evangelho de hoje, é necessário a pessoa ter praticado um grande número de pecados para, ao ser perdoada, amar mais?
Se assim fosse, Maria Imaculada — não só pela sua puríssima concepção, mas também por sua ilibada vida — seria a criatura que menos amou a Deus. Ora, sabemos com emocionado júbilo ser a Santíssima Virgem a mais amada e a mais perfeita amante, entre todos os seres saídos das mãos do Criador. Porém, a Ela também cabia rezar: “Perdoai as nossas dívidas”, como se pedia antigamente no Pai Nosso, pois Ela Lhe deve o ser, a predestinação à maternidade divina, a plenitude de graças, a concepção imaculada, a vida isenta de qualquer mancha de pecado, enfim, todos os dons, virtudes e privilégios que Lhe foram concedidos no mais alto grau.
Ela mesma externou esse reconhecimento, ao pronunciar o Magnificat, em casa de sua prima Santa Isabel (Lc 1, 46-55):”A minha alma glorifica o Senhor; e o meu espírito exulta de alegria em Deus meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. Portanto, eis que, de hoje em diante, todas as gerações Me chamarão ditosa, porque o Todo-Poderoso fez em Mim grandes coisas” (Lc 1, 46-49).
A gratidão que se manifestava perfeita na pecadora, não estava presente em Simão, o fariseu. Com independência das faltas cometidas, nós todos somos devedores diante da incomensurável bondade de Deus, pois Ele nos escolheu entre infinitos outros seres passíveis de serem criados, sobre os quais não incidiu seu ato criador.
Mas, aos orgulhosos não ocorrem esses pensamentos.
Debaixo desse prisma, Maria Santíssima é a maior devedora, pois Ela sozinha recebeu de Deus muito mais que a soma dos Anjos e dos Bem-Aventurados, no seu conjunto. Compreendemos agora melhor o Evangelho: a pecadora recebeu de Jesus dez vezes mais do que Simão, o fariseu. Ela amou o Redentor na mesma proporção, penetrada de gratidão. O outro, não. Por seu orgulho, ele não se reconhecia devedor e, portanto, não entendia nem desejava a remissão que Jesus lhe oferecia.
Abraçar a via do amor e da gratidão
“Eis que este Menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel e para ser sinal de contradição” (Lc 2, 34).
Diante de Jesus, ou estamos com o amor e gratidão da pecadora; ou, melhor ainda, com disposições de alma semelhantes às da Santíssima Virgem; ou seguindo as desordens do fariseu Simão.
Se abraçarmos a via do amor agradecido — quer na inocência, quer no arrependimento — a nós se aplicará a sentença de São Tomás: “O menino, inclusive o não- batizado, se tem a idade do uso da razão e ama eficazmente o bem mais do que a si mesmo, está justificado pelo batismo de desejo, porque esse amor, que já é o amor eficaz a Deus, não é possível no estado atual da humanidade sem a graça regeneradora” (9).

Pelo contrário, se assumirmos a soberba do fariseu, sentiremos em nós o quanto “o orgulho é impaciente e malévolo; invejoso, arrogante, ambicioso, busca só os seus próprios interesses, pervadido de irritações e de ressentimentos pelo mal sofrido”. Provaremos no fundo de nossa alma “o regozijo com a injustiça e a tristeza com a verdade”, porque o orgulho “nada desculpa, de tudo desconfia, nada espera e nada suporta” (parafraseando São Paulo, I Cor 13, 4 a 7).
1) Nat. Hist. 2, 33. 2) Ver I Mac 2, 19-27. 3) Ver Mt 15, 7; 16, 4; 22, 18; 23, 13-33; e Mc 7, 6. 4) Luís Vives, De anima et Vita - I, 3: De superbia [Basilea 1555] f. 592. 5 ) Ver Lc 7, 41-55; Mc 5, 3542. 6 ) C.M. Franzero, The memoirs of Pontius Pilate, trad. Portuguesa de Morais Cabral, Lisboa, p. 215. 7 ) São João Crisóstomo, apud Catena Áurea in Lc VII, 36-50. 8 ) Apud Catena Áurea, in Lc VII, 36-50. 9 ) Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, El Salvador y su amor por nosotros, Rialp, Madrid, 1977, p. 34, comentando ST, I, II, q. 109, a. 3

segunda-feira, 10 de junho de 2013

EVANGELHO XI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C - 2013

CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO 11º DOMINGO DO TEMPO COMUM  Lc 7, 36-50; 8 1-3 
Uma pecadora que admirava a virtude
As mesas de refeição daqueles tempos costumavam ser em forma de um longo “u”. O anfitrião e o principal convidado sentavam-se lado a lado, bem ao centro.
Nessas ocasiões, as mulheres eram excluídas dos salões. Portanto, a entrada de uma dama naquele recinto, mesmo sendo de alta reputação, chocaria fortemente todos os comensais; mais ainda se fosse ela conhecida por seus maus costumes. Foi o que se passou.
Há muito que Maria Madalena havia provado o vazio e a mentira do pecado. Sua alma delicada, ansiava uma oportunidade para mudar de vida, mas as circunstâncias a impediam de realizar esse bom intento. Por pura fraqueza caíra naqueles horrores. Mas, em seu coração feminino, guardava uma grande admiração pela virtude e — por incrível que pareça — em especial pela pureza. Sua sensibilidade física a arrastava às enganosas delícias da carne e, portanto, à ofensa grave a Deus; mas a espiritual a convidava à paz de consciência, ao amor ao Criador.
No auge desse dilema, depois de muito implorar socorro ao Céu, ouviu falar do surgimento de um grande profeta em Israel, taumaturgo em altíssimo grau: os paralíticos andavam, os cegos enxergavam, os surdos ouviam, os mudos falavam e até os mortos ressuscitavam. Afinal, pensou ela, chegara o remédio para todos os males que atormentavam seu espírito tão carregado de recriminadoras aflições. Ela se considerava monstruosa e não via a hora em que pudesse sentir-se purificada de suas manchas. Por debaixo daquela lama imunda havia uma pele de arminho que ardia de anseios de limpeza.
As primeiríssimas reações de sua alma em relação a Jesus foram da mais entranhada simpatia. Desde o início, ela O amou mais do que a si própria e anelava pela oportunidade de se aproximar d’Ele. Assim, “quando soube que estava à mesa em casa do fariseu”, decidiu enfrentar os rigorismos sociais e entrar na sala da ceia. Para chegar onde estava o Divino Mestre, deu a volta pelo lado externo da mesa e “colocando-se a seus pés, por detrás d’Ele, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-os com os cabelos da sua cabeça, beijava-os, e os ungia com o perfume”, que trouxera num frasco de alabastro.

Antes, por sua concupiscência, andava irrequieta a atrair a atenção de todos para si; agora se ajoelha para servir. Os olhos com os quais ofendera a Deus por sua curiosidade irrefreada, choravam de dor pelo passado. Seus cabelos, outrora vaidosamente penteados, ela os utilizava nesse momento como fino linho para enxugar os pés do Senhor. Os lábios que tanto proferiram palavras de insensatez consagravamse em beijar aqueles divinos pés. Por fim, elevava à categoria de instrumento de louvor o perfume usado em outras eras para açular sua vaidade. “Assim, esta mulher pecadora tornou-se mais honesta que as virgens, depois de se consagrar à penitência e se dedicar a amar a Deus. E tudo quanto dela se disse [no versículo 38] passava-se exteriormente, mas o que movia sua intenção, e só Deus via, era muito mais cheio de fervor” (7).
Continua no próximo post.