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terça-feira, 19 de abril de 2011

As sete palavras de Jesus

Jesus é a Caridade. A perfeição dessa virtude, nós a encontramos nas “Sete Palavras”. As três primeiras têm em vista os outros (inimigos, amigos e familiares); as demais, a Si próprio.
1ª Palavra: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34)
Pai — É o mais suave título de Deus. Nessa hora extrema, Jesus bem poderia invocá-Lo chamando-O Deus. Percebe-se, entretanto, claramente a intenção do Redentor: quis afastar, dos fautores daquele crime, a divina severidade do Juiz Supremo, interpondo a misericórdia de sua paternalidade. Chega-se a entrever a força de seu argumento: se o Filho, vítima do crime, perdoa, por que não o fazeis também Vós?
É a primeira “palavra” que os divinos lábios d’Ele pronunciam na cruz, e nela já encontramos o perdão. Perdão pelos que Lhe infligiram diretamente seu martírio. Perdão que abarca também todos os outros culpados: os pecadores. Nesse momento, portanto, Jesus pediu ao Pai também por mim.
 Embora não houvesse  fundamento para escusar o desvario e ingratidão do povo, a sanha dos algozes, a inveja e ódio dos príncipes e dos sacerdotes, etc., tão infinita foi a Caridade de Jesus que Ele argumenta com o Pai: “porque não sabem o que fazem”.
A ausência absoluta de ressentimento faz descer do alto da cruz a luminosidade harmoniosa e até afetuosa do amor ao próximo como a si mesmo. Ouvindo essa súplica, chegamos a entender quanta isenção de ânimo havia em Jesus, na ocasião em que expulsou os vendilhões do Templo: era, de fato, o puro zelo pela casa de seu Pai.
2ª Palavra: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43)
A cena não podia ser mais pungente. Jesus se encontra entre dois ladrões. Um deles faz jus à afirmação da Escritura: “Um abismo atrai outro abismo” (Sl 41, 8). Blasfema contra Jesus, dizendo: “Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e salva-nos a nós” (Lc 23, 39).
 Enquanto esse ladrão ofende, o outro louva Jesus e admoesta seu companheiro, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum” (Lc 23, 40-41).
São palavras inspiradas, nas quais transparecem a santa correção fraterna, o reconhecimento da inocência de Cristo, a confissão arrependida dos crimes cometidos. São virtudes que lhe preparam a alma para uma ousada súplica: “Senhor, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!” (Lc 23, 42).
Ao referir-se a Jesus enquanto “Senhor”, o bom ladrão professa sua condição de escravo e reconhece-O como Redentor. O “lembra-te de mim” é afirmativo, não tem nenhum sentido condicional, pois sua confiança é plena e inabalável. Compreende a superioridade da vida eterna sobre a terrena, por isso não pede aquilo que, para o mau ladrão, constitui um delírio: o afastamento da morte, a recuperação da saúde e da integridade.
 O bom ladrão confessa publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, ao contrário até mesmo de São Pedro, que havia três vezes negado o Senhor. Tal gesto lhe fez merecer de Jesus este prêmio: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).
Jesus torna solene a primeira canonização da história: “Em verdade...”
A promessa é categórica até quanto à data: hoje. São Cipriano e Santo Agostinho chegam a afirmar ter recebido o bom ladrão a palma do martírio, pelo fato de, por livre e espontânea vontade, haver confessado publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.
3ª Palavra: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleófas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 25-27).
Com essas palavras, Jesus finaliza sua comunicação oficial com os homens antes da morte (as quatro outras serão de sua intimidade com Deus). Quem as ouve são Maria Madalena, representando a via da penitência; Maria, mulher de Cleófas, a dos que vão progredindo na vida espiritual; Maria Santíssima e São João, a da perfeição.
Consideremos um breve comentário de Santo Ambrósio sobre este trecho: “São João escreveu o que os outros calaram: [pouco depois de] conceder o reino dos céus ao bom ladrão, Jesus, cravado na cruz, considerado vencedor da morte, chamou sua Mãe e tributou a Ela a reverência de seu amor filial. E, se perdoar o ladrão é um ato de piedade, muito mais é homenagear a Mãe com tanto carinho... Cristo, do alto da cruz, fazia seu testamento, distribuindo entre sua Mãe e seu discípulo os deveres de seu carinho” (in S. Tomás de Aquino, Catena Aurea).
É arrebatador constatar como Jesus, numa atitude de grandioso afeto e nobreza, encerrou oficialmente seu relacionamento com a humanidade, na qual se encarnara para redimi-la. Do auge da dor, expressou o carinho de um Deus por sua Mãe Santíssima, e concedeu o prêmio para o discípulo que abandonara seus próprios pais para segui-Lo: o cêntuplo nesta terra (Mt 19, 29).
É perfeita e exemplar a presteza com que São João assume a herança deixada pelo Divino Mestre: “E dessa hora em diante, o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 27). São João desce do Calvário protegendo, mas sobretudo protegido pela Rainha do céu e da terra. É o prêmio de quem procura adorar Jesus no extremo de seu martírio.
4ª Palavra: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 45)
Jesus clama em alta voz. Seu brado fende não somente os ares daquele instante, mas os céus da história. Nossos ouvidos são duros, era indispensável falar com força. Jesus não profere uma queixa, nem faz uma acusação. Deseja, por amor a nós, fazer-nos entender a terrível atrocidade de seus tormentos. Assim mais facilmente adquiriremos clara noção de quanto pesam nossos pecados e de quanto devemos ser agradecidos pela Redenção.
Como entender esse abandono? Não rompeu-se — e é impossível — a união natural e eterna entre as pessoas do Pai e do Filho. Nem sequer separaram-se as naturezas humana e divina. Jamais se interrompeu a união entre a graça e a vontade de Jesus. Tampouco perdeu sua alma a visão beatífica.
Perdeu Jesus, isto sim, e temporariamente, a união de proteção à qual Ele faz menção no Evangelho: “Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho” (Jo 8, 29). O Pai bem poderia protegê-Lo nessa hora (cfr. Mc 14, 36; Mt 26, 53; Lc 22, 43). O próprio Filho poderia proteger seu Corpo (Jo 10, 18; 18, 6), ou conferir-lhe o dom de incorruptibilidade e de impassibilidade, uma vez que sua alma estava na visão beatífica.
Mas assim determinou a Santíssima Trindade: a debilidade da natureza humana em Jesus deveria prevalecer por um certo período, a fim de que se cumprisse o que estava escrito. Por isso Jesus não se dirige ao Pai como em geral procedia, mas usa da invocação “meu Deus”.
A ordem do universo criado é coesa com a ordem moral. Ambas procedem de uma mesma e única causa. Se a primeira não se levanta para se vingar daqueles que dilaceram os princípios morais por meio de seus pecados, é porque Deus lhe retém o ímpeto natural. Se assim não fosse, os céus, os mares e os ventos se ergueriam contra toda e qualquer ofensa feita a Deus. Mas como frear a natureza diante do deicídio? Por isso, na hora daquele crime supremo, “cobriu-se toda a terra de trevas”... (Mt 27, 45).
5ª Palavra: “Tenho sede.” (Jo 19, 28)

Assinala o evangelista que Jesus dissera tais palavras por saber “que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura”. Vendo um vaso cheio de vinagre que havia por ali, os soldados embeberam uma esponja, “e fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca” (Jo 19, 28-29).
Cumpria-se assim o versículo 22 do salmo 68: “Puseram fel no meu alimento; na minha sede deram-me vinagre para beber”.
Qual a razão mais profunda desse episódio? É um verdadeiro mistério.
Jesus derramara boa quantidade de seu preciosíssimo Sangue durante a flagelação. As chagas, em via de cicatrização, foram reabertas ao longo do caminho e ainda mais quando Lhe arrancaram as roupas para crucificá-Lo. O pouco sangue que Lhe restava escorria pelo sagrado lenho. Por isso, a sede tornou-se ardentíssima. Além desse sentido físico, a sede de Jesus significava algo mais: o Divino Redentor tinha sede da glória de Deus e da salvação das almas.
 E o que lhe oferecem? Um soldado lhe apresenta, na ponta de uma vara, uma esponja empapada de vinagre. Era a bebida dos condenados.
Podemos de alguma maneira aliviar pelo menos esse tormento de Jesus? Sim! Antes de tudo, compadecendo-nos d’Ele com amor e verdadeira piedade, e apresentando-Lhe um coração arrependido e humilhado.
Devemos querer ter parte nessa sede de Cristo, almejando acima de tudo à nossa própria santificação e salvação, com redobrado esforço, de modo a não pensar, desejar ou praticar algo que a Ele não nos conduza. Para Ele será uma água fresca e cristalina nossa fuga vigilante das ocasiões próximas de pecado. Compadeçamo-nos também dos que vivem no pecado ou nele caem, e trabalhemos por sua salvação. Em suma, apliquemo-nos com ânimo na tarefa de apressar o triunfo do Imaculado Coração de Maria.
O Salvador clama a nós do alto da cruz que defendamos, mais ainda que o bom ladrão, a honra de Deus, procurando conduzir a opinião pública para a verdadeira Igreja. É nosso dever buscar entusiasmadamente a glória de Cristo, “que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.” (Ef 5, 2).
6ª Palavra: “Tudo está consumado.” (Jo 19, 30)
A Sagrada Paixão terminara e, com ela, a pregação. Todas as profecias haviam se cumprido, conforme interpreta Santo Agostinho: a concepção virginal (Is 7, 14); o nascimento em Belém (Mq 5, 1); a adoração dos Reis (Sl 71, 10); a pregação e os milagres (Is 61, 1; 35, 5-6); a gloriosa entrada em Jerusalém no dia de Ramos (Zc 9,9) e toda a Paixão (Isaías e Jeremias).
Na Cruz foi vencida a guerra contra o demônio: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). No paraíso terrestre, o demônio adquirira de modo fraudulento a posse deste mundo, com o pecado de nossos primeiros pais. Jesus a recuperou como legítimo herdeiro.
Consumado também estava o edifício da Igreja. Este iniciou-se com o batismo no Jordão, onde foi ouvida a voz do Pai indicando seu Filho muito amado, e se concluiu na cruz, na qual Jesus comprou todas as graças que serão distribuídas até o fim do mundo através dos sacramentos.
Para que o preciosíssimo Sangue do Salvador ponha fim ao império do demônio em nossas almas, é preciso que crucifiquemos nossa carne com seus caprichos e delírios, combatendo também o respeito humano e a soberba. Jesus nos abriu um caminho que, aliás, todos os santos trilharam.
7ª Palavra: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (Lc 23, 46)
Estabeleceu-se na Igreja, desde os primórdios, o costume de encomendar as almas dos fiéis defuntos, a fim de que a luz perpétua os ilumine.
Jesus, porém, não tinha necessidade de encomendar sua alma ao Pai, pois ela havia sido criada no pleno gozo da visão beatífica. Desde o primeiro instante de sua existência, encontrava-se unida à natureza divina na pessoa do Verbo. Portanto, ao abandonar o corpo sagrado, sairia vitoriosa e triunfante. “Meu espírito”, e não alma, provavelmente aqui significaria a vida corporal de Jesus.
Mas Jesus aguardava sua ressurreição para logo. Ao entregar ao Pai a vida que d’Ele recebera, sabia que ela Lhe seria restituída no tempo devido. Com reverência tomou o Pai Eterno em suas mãos a vida de seu Filho unigênito, e com infinito comprazimento a devolveu, no ato da ressurreição, a um corpo imortal, impassível e glorioso. Abriu-se, assim, o caminho para a nossa ressurreição, ficando-nos a lição de que ela não pode ser atingida senão pelo calvário e pela cruz. AVE CRUX, SPES UNICA.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Aos que amam!

I — PREPARANDO A PARTIDA DESTE MUNDO

“Partir c’est toujours mourir un peu!” Partir é sempre morrer um pouco, dizem os franceses. Assim — apesar de vivermos na era do avanço total das comunicações, na qual as distâncias quase já não existem — a despedida de um ente querido sempre dói no coração. Muito mais ainda naqueles tempos do Império Romano, nos quais as viagens eram demoradas, não havia telégrafo, telefone nem internet. Acrescente-se a esses dados o fato de o destino para o qual ia o Divino Mestre não ser outra cidade ou país, mas sim a eternidade.
Por isso mesmo, Jesus se esmera em preparar de maneira exímia seus seguidores para as conseqüências resultantes de sua ida definitiva para o Pai.
“Não se perturbe o vosso coração ...”, era o empenho zeloso e cheio de benquerença da parte de Jesus por seus discípulos. E ... “nem se assuste”.Ele é carinhoso em extremo e quer consolá-los o quanto pode, fazendo-os compreender, “antes que aconteça”, as enormes vantagens oriundas de sua partida deste mundo.
Necessidade do afastamento de Jesus
Com efeito, os discípulos, após longo tempo de íntimo e diário convívio com Jesus, guardavam uma figura ainda muito humana do Redentor. E por isso tornava-se necessária sua Ascensão ao Céu, entre outras razões, para o Espírito Santo infundir-lhes a verdadeira imagem a respeito do Filho de Deus.
A esse propósito nos diz Santo Agostinho: “Se Ele não se afastasse corporalmente, veríamos sempre seu corpo através de olhos carnais e não chegaríamos a crer espiritualmente; e esta fé é necessária para que, justificados e beatificados por ela e tendo o coração limpo, merecêssemos contemplar esse mesmo Verbo de Deus em Deus” (1).
E em outra obra, ainda dirá o mesmo Bispo de Hipona: “Bem conhecia Ele o que lhes era conveniente, porque era muito melhor a visão interior com que lhes havia de consolar o Espírito Santo, não estando em corpo visível aos olhos humanos, senão infundindo-se Ele mesmo no peito dos crentes” (2).
É diante da perspectiva de Jesus deixar os seus discípulos que a Liturgia de hoje aborda as mais belas promessas por Ele feitas.
II — O PRÊMIO DO AMOR: “E FAREMOS NELE A NOSSA MORADA”
 “Se alguém Me ama...”
O amor ocupa um lugar proeminente em nossas relações com Deus. O próprio Jesus no-lo diz: “Amai ao Senhor vosso Deus com todo vosso coração, com toda vossa alma e com todo vosso espírito. Este é o maior e o primeiro dos mandamentos” (Mt 22, 37-38).
Em várias outras passagens, as Escrituras Sagradas insistem sobre essa lei do amor a Deus: “Amai com todas as vossas forças Àquele que vos criou” (Ecli 7, 32). “Amai ao vosso Deus toda vossa vida e invocai-O para que vos salve” (Ecli 13, 18). “O amor é o pleno cumprimento da Lei” (Rm 13, 10).
Podemos amar a Deus de uma forma imperfeita, procurando agradar-Lhe com o objetivo de recebermos o prêmio da glória eterna. Mas este amor é incompleto e fruto mais especificamente da virtude da esperança, do que da caridade.
Para receber as dádivas prometidas por Jesus no Evangelho de hoje, é preciso amar a Deus em razão de ser Ele quem é, e não apenas com vistas a obter a recompensa reservada aos bons.
“... guardará a minha palavra ...”

Com divina capacidade de síntese, deduz o Salvador, logo a seguir, uma primeira conseqüência desse amor: a submissão à voz de Deus.
Afirma Santa Teresinha: “Para o amor, nada é impossível”. O fogo da caridade nos habilita, com efeito, para toda e qualquer ação, tornando fácil a virtude da obediência, praticada pelo próprio Jesus de forma tão exemplar.
Ele, durante os primeiros trinta anos de sua existência, foi modelarmente submisso a Maria e José (cfr. Lc 2, 51). E é comovedor acompanhar passo a passo as relações entre o Filho e o Pai, ao longo da vida pública de Jesus. Não há uma só referência da parte d’Este na qual não transpareça sua absoluta submissão: “O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou e realizar sua obra”(Jo 4, 34). “Desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas sim a d’Aquele que me enviou” (Jo 6, 38). O Verbo se fez carne, entre outras razões, para nos ensinar o valor incomensurável da obediência.
Do Gênesis ao Apocalipse, reluzem os exemplos da prática dessa virtude. Ora um Samuel admoesta ao rei Saul: “Acaso o Senhor se compraz tanto nos holocaustos e sacrifícios como na obediência à sua voz? A obediência é melhor que o sacrifício, e a submissão vale mais que a gordura dos carneiros” (I Sam 15, 22). Ora aconselhará São Paulo aos Hebreus: “Obedecei aos vossos pastores e sede-lhes sujeitos”(13, 17). Ou lembrará em sua Epístola a Tito que “sejam sujeitos aos magistrados e às autoridades; que lhes obedeçam, que estejam prontos para fazer o bem” (3, 1). Ou mesmo um Abraão inteiramente disposto a imolar seu único filho Isaac, a fim de cumprir um mandato divino (cfr. Gen 22, 1-12). E o que dizer de um Jó, de um Tobias ou da própria mãe dos Macabeus? E de Maria Santíssima em seu “fiat”?
A obediência é, portanto, uma das virtudes mais agradáveis a Deus, e em conseqüência, uma das mais necessárias. São Bernardo e Santo Agostinho dizem ser ela indispensável até para a prática da castidade, pois quem não se submete às ordens e desejos do superior, não conseguirá reprimir a concupiscência da carne. Para sermos fiéis aos Mandamentos da Lei de Deus, necessário é termos flexibilidade de espírito em relação à vontade de nossos superiores.
“... e meu Pai o amará ...”
Entretanto, esse amor a Jesus não confere a quem o possui somente a fidelidade aos divinos ensinamentos. Dele se origina um fruto muito mais precioso: “e meu Pai o amará”.
Se o amor a Deus nos traz tão grande benefício, que se poderá dizer do fato de ser alguém objeto de seu amor?
São Tomás explica-nos, como sempre com magistral lucidez, quão grande é a capacidade de difusão do bem, por sua própria natureza. Quanto maior é a perfeição, mais tende ela a comunicar-se plenamente. Desde os seres mais simples, como os minerais, até o sobrenatural, há uma verdadeira sinfonia do dar-se em toda a ordem da criação.
Correm caudalosos os rios em busca dos oceanos, fertilizando a terra por onde passam. E tanto as águas doces dos lagos e rios, quanto as salgadas do mar, fornecem ao homem alimento em profusão. O sol não cessa de fazer incidir seus calorosos e essenciais raios sobre todo o orbe, dando brilho e vitalidade a tudo quanto diante dele se apresenta. Os vegetais com suas substâncias, folhas, flores e frutos, embelezam os panoramas, perfumam os bosques e jardins, oferecem-nos seu oxigênio e nos agradam com seus sabores. As laboriosas abelhas produzem seu mel para alimento e alegria dos homens. Os animais se multiplicam e tornam aprazíveis nossas refeições e nossos entretenimentos. E a nota predominante dessa grande sinfonia é sempre a superabundância.
No plano da humanidade, o grau de comunicatividade do bem é ainda maior. Os pensadores, ou os artistas, desejam invariavelmente dar amplo conhecimento de tudo que surge de suas mentes ou de suas mãos. Uma alma, quanto mais se eleva nas vias da virtude, mais cresce no empenho em fazer bem aos outros.
Ora, Deus é o Bem por excelência, o Bem substancial, e por isso convém a Ele o comunicar-Se às criaturas em grau também excelente e pleno. Eis o mais elevado aspecto do mistério da Encarnação, ou seja, em Jesus, sua privilegiada e santíssima alma e seu sagrado corpo constituem uma só Pessoa com o Verbo Eterno. N’Ele estão as propriedades humanas e toda a essência divina. N’Ele, o amor do Pai chegou aos limites infinitos. E, através da fé, colocou ao alcance dos homens a plenitude do Bem, que é o próprio Deus, conforme os ensinamentos de Jesus a Nicodemos: “De fato, Aquele a Quem Deus enviou fala palavras de Deus, porque Deus lhe dá o espírito sem medida. O pai ama o Filho e pôs todas as coisas em sua mão. Quem acredita no Filho tem a vida eterna” (Jo 3, 34-36). Mais tarde Jesus acrescentará: “A vontade de meu Pai que me enviou é que todo o que vê o Filho e crê n’Ele, tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 40).
E logo após Jesus, na ordem do ser, e juntamente com Ele no plano divino e eterno da criação, encontra-se no mais alto grau de santidade, enquanto objeto desse amor eficaz de Deus, a Virgem Maria. Ela foi eleita para ser a Mãe do Verbo Encarnado, por estar penetrada do mais excelente amor a Deus na ordem das puras criaturas e por ser a mais amada pela Trindade Divina.
“... e Nós viremos a ele, e faremos nele a nossa morada.”
No Antigo Testamento não se havia chegado a uma clara noção da existência e da atuação das três Pessoas Divinas. De forma transparente e sem margem de dúvidas, esse mistério nos é revelado por Nosso Senhor Jesus Cristo e reafirmado em formulações distintas pelos Apóstolos.
 O Redentor faz menção mais uma vez a este admirável mistério ao utilizar a palavra “Nós”. E promete, ao mesmo tempo, estar presente na alma daquele que O ama e cumpre seus preceitos. Assim, dirá São João em sua primeira Epístola: “Deus é caridade, e o que vive na caridade permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4, 16); e São Paulo aos Coríntios: “Vós sois o templo de Deus vivo” (2Cor 6, 16). Como pôde Jesus prometer essa vinda sobre aqueles que O amam e guardam a sua palavra, quando na realidade Deus já se encontra presente em todas as suas criaturas?
O Criador, explica-nos São Tomás, “está presente em todas as coisas e no mais íntimo delas (et intime)” (6). Ou mais especificamente: “Deus está presente em todas as coisas por potência, porque tudo está submetido ao seu poder. Está por presença, porque tudo está patente e descoberto a seus olhos. E está por essência, porque atua em todos como causa de seu ser” (7). Em face disso, como entender essa promessa de Jesus?
Nada difícil!
A dependência de todos os seres criados em relação a Deus é absoluta, pois, além de receberem d’Ele a existência, nela são constantemente sustentados em sua natureza. Deus cria e conserva tudo quanto existe, inclusive o demônio, assim como o próprio inferno. Ora, onde age um puro espírito, ali está ele presente. Portanto, Deus está presente em toda parte.
 Não é, porém, a essa presença que Jesus faz referência neste versículo, mas sim a uma outra muito superior, exclusiva aos filhos de Deus, e que supõe sempre a graça santificante (estado de graça).
Note-se bem tratar-se aqui de uma presença permanente, pois Jesus fala em estabelecer a morada da Santíssima Trindade na alma que O ama e guarda sua palavra. É uma vinda do Pai e do Filho — e, inseparáveis que são do Espírito Santo, também d’Este — espiritual e íntima, como nos ensina Santo Agostinho: “Vem com seu auxílio, nós com a obediência; vem iluminando-nos, nós contemplando-O; vem enchendo-nos de graças, nós recebendo-as, para que sua visão não seja para nós algo exterior, mas interno, e o tempo de sua morada em nós não seja transitório, mas eterno”.
Presença íntima de Deus, como Pai e como Amigo
Com muita clareza e precisão teológica, o grande teólogo Pe. Antonio Royo Marin, OP, resume a essência dessa inabitação da Santíssima Trindade na alma do justo, afirmada por Jesus neste versículo: “Presença íntima de Deus, uno e trino, como Pai e como Amigo. Este é o fato colossal que constitui a própria essência da inabitação da Santíssima Trindade na alma justificada pela graça santificante e pela caridade sobrenatural.
“No cristão, a inabitação equivale à união hipostática na pessoa de Cristo, se bem que não seja ela, mas sim a graça santificante, a que nos constitui formalmente filhos adotivos de Deus. A graça santificante penetra e embebe formalmente nossa alma, divinizando-a. Mas a divina inabitação é como a encarnação em nossas almas do absolutamente divino: do próprio ser de Deus tal como é em si mesmo, uno em essência e trino em pessoas”.
Estas são as maravilhas do universo sobrenatural que nos fazem, através das virtudes teologais, acompanhar frutuosamente as revelações trazidas à terra pelo Verbo Encarnado: “para que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, para que também eles, sejam um em Nós (...) Eu neles e Tu em mim, para que a sua unidade seja perfeita “ (Jo 17, 21 e 23).
Depois de haver ensinado a grande importância do amor a Deus, ou seja, da perfeita caridade, nos versículos posteriores, Jesus estimula os discípulos à prática das duas outras virtudes teologais: a da Fé e a da Esperança.
III — CONCLUSÃO
A essa impostação de espírito nos convida o Evangelho de hoje. Jesus não está visível entre nós, pois, há dois milênios, subiu ao Céu. Entretanto, pelo sacramento do Batismo e pela ação do Espírito Santo, sua figura se encontra delineada em nossas almas, convidando-nos a amá-Lo com exclusividade. As graças nos amparam nesse caminho. Toda a nossa existência gira em torno de dois únicos amores, pois não há um terceiro: o amor a Deus levado até o esquecimento de si mesmo, ou o amor a si próprio levado ao esquecimento de Deus. Qual desses amores é praticado por nossa era histórica, e quais as conseqüências correspondentes? Eis uma boa questão para se considerar com toda seriedade por ocasião da Ascensão do Senhor ao Céu, de onde virá julgar os vivos e os mortos, ou seja, os que amaram e os que se recusaram a amar.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A ressurreição de Lázaro

O grande amor de Jesus àquela família de Betânia tornava incompreensível sua aparente indiferença perante a enfermidade de Lázaro. Mas quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância.
O retorno de Jesus a Betânia (vv. 1-16)

Para tornar bem claro quem era o enfermo em questão, São João o apresenta como sendo o irmão de Marta e Maria. Ressalta a figura desta última por se tratar de uma pessoa muito conhecida e comentada em toda Israel, devido à sua impressionante conversão e seu belíssimo ato de arrependimento em casa de Simão, o fariseu (3). É interessante notar o acerto do nome “Lázaro” que significa: “ajudado”, ou, “Deus socorreu”.
Fazia muito que Jesus pregava na região da Peréia, à distância de uma jornada de Betânia. Com enorme solicitude e carinho por Lázaro, tal qual costumam ser as irmãs quando de boa índole, Marta e Maria enviam um mensageiro para avisá-lo do estado de saúde do irmão.
Transparece na atitude de ambas um profundo espírito de fé na onipotência do Salvador e, ao mesmo tempo, uma nobre e fraternal dedicação. Tanto mais que a mensagem não era só informativa mas, com enorme polidez, ela continha uma súplica. A fórmula empregada nada tem a ver com a lógica argumentação do centurião romano para obter a cura de seu servo; mais se aproxima ela, em sua essência, da atitude da Virgem Maria nas Bodas de Caná: “Senhor, aquele que amas está doente” (v. 3). Segundo Santo Agostinho, esta simples frase contém uma profunda verdade de fé: Deus jamais abandona aquele a quem ama. Elas não imploram nem pedem explicitamente a cura, quer pudesse ser ela operada de perto, ou de longe; era-Lhe suficiente conhecer o estado de seu amado para, por um simples desejo seu, tornar efetivo o milagre.
E realmente assim teria sido se Jesus não tivesse querido se aproveitar do pretexto da morte de seu amigo “para a glória de Deus, a fim de que o Filho do Homem seja glorificado” (v. 4), conforme Ele próprio o afirma.
Grande perplexidade devem ter tido ambas, ao receberem a resposta do Senhor, dois dias depois do falecimento de Lázaro: “Esta doença não é de morte...” (v. 4). Maior aflição ainda deveu-se ao fato de Jesus não se ter movido para se encontrar com o amigo nem com suas irmãs.
Essa é bem a provação pela qual passam as almas aflitas que imploram a intervenção de Deus e julgam não serem atendidas, devido à demora ou a uma aparente inércia da parte do Céu. Quão benfazeja é esta passagem para nos convencer a jamais descrermos da onipotência da oração perfeita! Quando Deus tarda em intervir é por razões mais altas e porque certamente nos dará com superabundância. E aí está o procedimento de Jesus para com aqueles aos quais ama: “Jesus amava Marta, sua irmã Maria e Lázaro” (v. 5). O grande amor de Jesus àquela família tornava ainda mais incompreensível sua como que indiferença, pois, “tendo ouvido que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde se encontrava” (v. 6).
Que grande vôo de espírito era necessário para seguir o Divino Mestre diante da incompreensibilidade de suas atitudes! Nenhum dos dois lados chegava a atinar com o alcance da meta política do Salvador. As irmãs deviam estar desmontadas em suas esperanças, acompanhando do lado de fora do sepulcro a lenta mas progressiva decomposição do corpo de seu irmão. Os Apóstolos, por sua vez, não podiam entender o porquê da ida de Nosso Senhor à Judéia. Já havia curado tantos necessitados à distância, qual a razão de penetrar numa terra onde era perseguido de morte? E só por causa de um enfermo? “Mestre, ainda há pouco os judeus Te quiseram apedrejar, e Tu vais novamente para lá?” (v. 8), diziam eles. Não seria melhor operar o milagre à distância?
Ora, os princípios pelos quais Deus se move sempre são infinitamente superiores aos atinentes às meras criaturas, por isso nada melhor do que nos abandonarmos aos desígnios e ao beneplácito de sua vontade, nunc et semper.
Vê-se pela narração o quanto os próprios Apóstolos estavam sendo formados na fé, passo a passo, através dos milagres, conforme Ele mesmo afirma: “para que acrediteis” (v. 15). Jesus iria selar o término de sua vida pública — os últimos momentos das doze horas do dia — com o mais portentoso milagre. Ele a iniciara com a transformação da água no melhor dos vinhos, em Caná, e agora, antes do anoitecer, traria à vida um morto já em franca decomposição.
Encontro com Marta e Maria (vv. 17-37)
Maria permaneceu em silêncio, como era costume na época, por não ter idéia da chegada de Jesus à aldeia, enquanto Marta foi ao seu encontro (v. 20) a fim de Lhe noticiar todo o ocorrido. Uma vez mais os fatos nos revelam as características próprias a cada uma das duas irmãs. Marta é mais dada à administração, às relações sociais, etc., e Maria mais ao fervor amoroso. Por isso Marta não avisa sua irmã, pois seria impossível retê-la junto às visitas enquanto se desenrolasse seu diálogo com o Mestre. Aliás, esse diálogo não poderia ter transcorrido com maior ternura e delicadeza. Não há a menor sombra de queixa da parte de Marta ao afirmar: “Senhor, se estivesses cá, meu irmão não teria morrido” (v. 21), pelo contrário, trata-se da manifestação de um pesaroso sentimento feito de confiança no poder de Jesus.
Entretanto, a fé de uma e outra ainda não havia atingido sua plenitude, pois não podiam imaginar o grande milagre que iria ser operado por Jesus. Marta não tem noção do poder absoluto de Jesus, e daí o condicionar as ações do Divino Mestre aos pedidos que Ele faça a Deus (v. 22): “Tudo o que pedires a Deus, Deus to concederá”.
Marta externa sua firme crença na ressurreição final e nessa ocasião espera rever seu irmão em corpo e alma (v. 24), sem jamais imaginar a possibilidade de reencontrá-lo naquele mesmo dia. Jesus, o Divino Didata, vê chegado o momento de proferir uma das mais belas afirmações do Evangelho. Em outros trechos Ele terá revelado: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6); “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12); “Eu sou o pão da vida” (Jo 6, 35), mas nenhuma atinge a altura teológica desta, em questão: “Eu sou a Ressurreição e a Vida; aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá eternamente” (vv. 25-26). E com uma paternalidade comovedora pergunta a Marta: “Crês nisto?”, para movê-la a um ato explícito de fé e fazê-la crescer em méritos.
O diálogo dera seus melhores frutos, era necessário consolar a outra irmã. Marta a avisa “em segredo” (v. 28) que o Mestre chegara. Conforme seu temperamento arrojado, saiu a toda pressa para encontrá-Lo. Seu gesto levou todos os visitantes a imitá-la; imaginando que ela iria chorar junto ao túmulo, seguiram-na (vv. 29-31).
Especialmente digna de nota é a cena de seu encontro com Jesus. Marta era mais controlada em suas emoções, determinada em seus objetivos e, portanto, capaz de expor em palavras todos os seus sentimentos. Maria, bem diferente de sua irmã, tem arroubos de fervor sensível pelo Mestre, seu amor não conhece fronteiras e nem permite ser freado em suas manifestações, sua alma realmente seráfica a leva a lançar-se aos pés de Jesus, e o máximo que consegue exprimir é sua dor, em breves termos. De resto era chorar, soluçar, e com tal substância que todos se viram tocados por sua reação, acompanhando-a no pranto (vv. 32-33).
Maria era tão carismática em sua fé, no ardor de seus desejos e na comunicação de sua benquerença por Jesus, que Ele próprio “comoveu-Se profundamente e perturbou-Se” (v. 33). Bem dizia Lacordaire: “L´intelligence ne fait que parler; c´est l´amour qui chante!” Nossas palavras podem convencer, mas nosso amor poderá até mesmo tocar o Sagrado Coração de Jesus. Quão humano, sem deixar de ser divino, Ele se mostra nessa ocasião, sobretudo ao derramar, também Ele, suas preciosíssimas lágrimas, santificando, assim, as lágrimas roladas de todos os corações sofredores por amor a Deus, ou arrependidos de suas faltas.
Era essa a maior prova de amor externada pelo Salvador, até aquele instante, em relação ao seu amigo Lázaro.
Ressurreição de Lázaro (vv. 38-45)
Diferentemente de outros túmulos, este de Lázaro era escavado em rocha não no sentido horizontal, mas sim, no chão e verticalmente. Para se chegar ao local onde haviam depositado o corpo de Lázaro, precisava-se descer um bom número de degraus. Ao redor do sepulcro, estavam todos em forte expectativa, pois os antecedentes prognosticavam um portentoso acontecimento.
Com magna autoridade, Jesus ordena, para espanto dos circunstantes: “Tirai a pedra” . Marta, sempre criteriosa, não resiste em ponderar que o cadáver já estaria em decomposição depois de quatro dias. “Senhor, ele já cheira mal...” (v. 39). Magistral a resposta de Jesus: “Não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” (v. 40).
Belíssima oração de Nosso Senhor, com o túmulo já aberto, o mau odor ferindo as narinas dos presentes, a atenção não poderia ser mais intensa. Ele reza não por necessidade, “mas falei assim por causa do povo que está em volta de Mim, para que acreditem que Tu me enviaste” (vv. 41-42).
Por um simples desejo seu, a lápide teria voltado ao nada e Lázaro surgiria à porta do sepulcro, rejuvenescido, limpíssimo e perfumado. Era, porém, conveniente constar aos olhos de todos a potência de suas ordens: “bradou em voz forte: “Lázaro, sai para fora!”
Dois portentosos milagres se operam, não só o da pura ressurreição. Lázaro estava atado da cabeça aos pés, impedido de caminhar; entretanto, subiu pela escada que dava acesso à entrada do túmulo, estando até mesmo com um sudário ao rosto. Imaginemos a impressionante cena de um defunto subindo degrau por degrau, sem liberdade de movimentos e sem enxergar, mas já respirando com visíveis sinais de vida.
“Desligai-o e deixai-o ir” (v. 44) é a última voz de comando do Divino Taumaturgo.
Nada mais relata o Evangelista; nenhuma palavra a respeito de Lázaro ou das manifestações de alegria de suas irmãs; somente a conversão de “muitos dos judeus que tinham ido visitar Maria e Marta” (v. 45).
UM CONVITE À CONFIANÇA
Aí está o poder de Cristo manifestado em pleno esplendor para alimentar-nos em nossa fé. Esta Liturgia nos convida a uma confiança maior que a do centurião romano; ou seja, é preciso crer em Jesus com um ardor Marial. Se a Santíssima Virgem estivesse ao lado das irmãs, certamente — além de lhes aconselhar a aguardarem com paz de alma a chegada de seu Divino Filho — recomendaria a ambas que procurassem fazer “tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). Por maior que sejam os dramas ou aflições em nossa existência, sigamos o exemplo e a orientação de Maria, crendo na onipotência de Jesus, compenetrados das palavras de São Paulo: “Todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que, segundo o seu desígnio, foram chamados” (Rm 8, 28).

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Amor e castigo se excluem?

“Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém” (Jo 2, 13).
O episódio se passou no início da vida pública do Senhor, pouco depois de seu primeiro milagre em Caná da Galiléia.
Pela Lei, os israelitas de todas as nações eram obrigados a se dirigir ao Templo por ocasião da Páscoa, o que levava uma grande multidão a se concentrar na Cidade Santa. Para lá seguiu também o Divino Mestre, sempre cioso em dar o exemplo de perfeita obediência à Lei, embora a ela não estivesse submetido.
Deplorável situação do Templo
Ao chegar ao Templo, Jesus deparou-se com um quadro desolador. Não constituiu uma surpresa para Ele o estado de desordem e profanação instalado na Casa de seu Pai. Havia muito que nela se praticavam abusos, e não era por falta de uma legislação clara. Na verdade, existiam proibições formais sobre o uso indevido do edifício sagrado, como, por exemplo, não poder-se atravessar o Templo para encurtar o caminho, usando-o como simples atalho.
As piores transgressões, porém, eram resultado do espírito de ganância. Recordemos as “justificativas” para a situação. Segundo as determinações mosaicas (Lv 5, 7; 15, 14-29; 17, 3; etc.), por ocasião da Páscoa, além dos sacrifícios votivos, os pobres deveriam ofertar uma pomba e os ricos, um boi ou uma ovelha. Ademais, todo judeu maior de 20 anos devia pagar anualmente meio siclo (Ne 10, 33-35; Mt 17, 23 e 24), na moeda em uso no Templo (Ex 30,13). Ora, a grande maioria dos peregrinos chegava de boa distância, sendo-lhes, portanto, muito incômodo transportar na viagem as oferendas, e por isso preferiam comprá-las em Jerusalém. Lucrando não pouco com esse comércio, os sacerdotes o permitiram, baseados em razões práticas.
“Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas” (Jo 2, 14).
Ocupando o pátio do Templo, aqueles variados rebanhos misturavam a cacofonia de seus mugidos e balidos às discussões, vozerio e gritaria dos comerciantes e fregueses. Eis, em síntese, a triste cena presenciada por Jesus ao entrar na Casa de Deus, convertida, assim, em um verdadeiro mercado oriental.
Divino açoite
“Fez ele um chicote de cordas” (Jo 2, 15).
O Homem-Deus — Aquele a cuja voz os mares e os ventos obedeceriam, pela qual a lepra, a cegueira, a surdez, a paralisia desapareceriam; Aquele que com o brado: “Lázaro, saia fora!”, ressuscitaria um morto de quatro dias; Aquele que veio nos trazer a Vida — põe-se a tecer um chicote de cordas.
Um simples ato de sua vontade onipotente seria suficiente para aniquilar todas aquelas criaturas: homens, animais e dinheiro. Por que desejou Ele empunhar um látego?
Como somos compostos de corpo e alma, não nos bastam as abstrações do raciocínio. Nossos sentidos corporais pedem figuras palpáveis, que nos auxiliem a compreender a verdade de modo profundo. Temos necessidade das asas dos símbolos para voar até Deus.
Um chicote saído das mãos de Jesus!
Na sua vida pública — recém-iniciada —, quantas vezes não dirá Ele aos pecadores arrependidos: “Vai, teus pecados estão perdoados!” Sua misericórdia constituirá um enorme escândalo para os fariseus.
Mas agora, aquelas divinas mãos sedentas de abençoar, curar, perdoar e salvar teceram um flagelo... para castigar os infratores da Lei.
Movido por um zelo ardente
“... expulsou todos do templo” (Jo 2, 15).
A ação de Jesus com o açoite em punho se inseria entre outras atitudes motivadas por seu zelo ardente pela santidade da Casa de Deus. Por um trecho de São Marcos, podemos ver a preocupação do Senhor em conservar, até nas minúcias, a sacralidade daquele lugar santo: “Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo” (Mc 11, 16). Este versículo é prova cabal de que a dramática expulsão dos vendilhões não foi uma atitude intempestiva. Reforçando esta idéia, o evangelista acrescenta: “[Jesus] ensinava-lhes nestes termos: ‘Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações’ (Is 56, 7)? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões” (Mc 11, 17).
Quem ama, corrige e castiga
Não bastaria o mero ensinamento para inculcar nas mentes a maneira digna de se portar no Templo? Ainda mais se levarmos em consideração que o Mestre era o próprio Deus? Por que aplicar uma correção tão forte?
São perguntas que facilmente surgem devido ao definhamento, na sociedade atual, da noção de um prêmio e de um castigo por nossa conduta moral. Como lamentável conseqüência disso, vem se esvaecendo a compreensão dos benefícios da correção. Sim, lamentável, como se pode deduzir desta afirmação do livro dos Provérbios: “Perecerá por falta de correção e se desviará pelo excesso de sua loucura” (5, 23).
Quanto se prega hoje em dia contra a disciplina, a ponto de se deformar o verdadeiro conceito de liberdade! Uma concepção errada, baseada nas idéias de Rousseau — de que todo homem é bom, e por isso deve ser deixado entregue à sua natureza — penetrou em muitos ambientes, inculcando uma máxima que poderia ser expressa assim: “Todo homem é bom, a correção é que o torna mau.”
Entretanto, o ensinamento da Escritura não deixa margem a dúvida. Os autores sagrados discordam desse ponto de vista tão comum em nossos dias, como por exemplo, nesta passagem: “A loucura está ligada ao coração do menino, mas a vara da disciplina a afugentará” (Pv 22, 15). E mais adiante: “Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá, castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos” (Pv 29, 13-14). E ainda: “Aquele que poupa a vara quer mal ao seu filho, mas o que o ama, corrige-o continuamente” (Pv 13, 24).
Essas palavras talvez sejam duras para os ouvidos de hoje, todavia foram inspiradas pelo próprio Espírito Santo e devem ser recebidas com amor.
Mas, e a bondade?
A bondade do Homem-Deus é infinita, e portanto inesgotável. Mas Jesus não é exclusivamente Bondade. Ele é também Justiça. Apesar de serem extremos opostos, castigo e bondade constituem contrários harmônicos. Por esse motivo, numa educação sábia e virtuosa, assim como jamais podem faltar a bondade, o afeto, a misericórdia, também não pode ser desprezada a disciplina: “A vara e a correção dão sabedoria; o menino, porém, abandonado à sua vontade é a vergonha de sua mãe” (Pv 29, 15). Nesta matéria tão delicada, nota-se uma perfeita continuidade entre o ensinamento moral do Antigo e o do Novo Testamento.
Benéficos efeitos da correção
O Apóstolo, ele próprio objeto de uma repreensão e castigo do Senhor, após ter sido derrubado do cavalo e ter ouvido uma voz de timbre a um tempo ameaçador e bondoso, inquirindo-o por sua injusta perseguição, não tardou em exclamar: “Senhor, o que queres que eu faça?” Converteu-se no mesmo ato. Foi ele quem anos mais tarde escreveria aos hebreus estas belas palavras: “Estais esquecidos da palavra de animação que vos é dirigida como a filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3, 11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de paz. Levantai, pois, vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos (Is 35, 3). Dirigi os vossos passos pelo caminho certo. Os que claudicam tornem ao bom caminho e não se desviem” (Hb 12, 5-13).
Torna-se assim evidente quanto o castigo nos auxilia a crescer no temor a Deus, que é o princípio da Sabedoria (Sl 110, 10), faz-nos abençoados por Deus (Sl 113, 13), torna ouvidas nossas orações e assegura nossa salvação (Sl 144, 19).
“Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68, 10)” (Jo 2, 17). Este é um dos efeitos do castigo sobre os bons: produz uma admiração amorosa e faz desabrochar a estima pela Sabedoria.
Os maus detestam ser corrigidos
Mas fixemos agora nossa atenção na atitude dos maus.
“Perguntaram-lhe os judeus: Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?” (Jo 2, 18).
O homem mau não aceita a correção, porque não ama a lei de Deus. Ao contrário do homem sábio, que ama quem o repreende (Pv 9, 9), eles detestavam a correção, por não buscarem a Sabedoria; sentiam horror ao castigo, por não quererem emendar-se de suas faltas.
 “Respondeu-lhes Jesus: Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias” (Jo 2, 19).
 Jesus não põe em dúvida o direito de os sacerdotes exigirem uma prova de sua autoridade. Por ser a Sabedoria Eterna, aceitou o desafio, fazendo-lhes uma proposta enigmática. Eles, interpretando-a literalmente, como se Jesus estivesse se referindo ao edifício material, responderam ironicamente: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!” Mas o evangelista acrescenta: Jesus se referia ao “templo de seu corpo”, santuário vivo da divindade, que Ele ressuscitaria três dias após a crucifixão no Calvário. Jesus costumava exprimir-se assim, de modo velado, quando se encontrava diante de um público hostil.
Como reagiu Jerusalém em face de Jesus
“Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia” (Jo 2 ,23).
Esse trecho do Evangelho nos coloca em alerta contra um defeito muito perigoso. Nosso Senhor, enquanto a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, discerne o mais íntimo de suas criaturas desde toda a eternidade. Assim, sabe Ele avaliar tanto a devoção desinteressada de uma alma nobre quanto a sanha apropriativa daqueles que se entregam aos pendores do pecado original: “Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2, 24-25).
O Divino Mestre, penetrando naqueles corações, notava que apenas queriam d’Ele se servir. Sim, não é suficiente impressionar-nos com milagres e, por isso, crer no nome de Jesus. Nosso Redentor deseja de nós um amor feito de reciprocidade. “A fé sem as obras é morta”, diz São Tiago (2, 26). Diante do Homem-Deus é necessário deixar-se arrebatar de enlevo e veneração, entregar a alma sem obstáculos nem reservas, e pautar a própria vida por seus ensinamentos.
                                                                                                                                                                                      
Duas lições podem ser tiradas do Evangelho narrado por São João. Ele nos exorta a extrair de nossos corações o pragmatismo, o egoísmo de querermos nos servir de Jesus, das graças e da Religião apenas para nosso proveito pessoal, crendo em seu nome, mas não mudando de vida e de costumes. É correto conservarmos nossa maneira de viver e nossos costumes, desde que não sejam ilícitos. Indispensável é, porém, ter a alma enlevada e submissa à Moral e Religião ensinadas por Nosso Senhor, adorando-O em todos os aspectos de suas virtudes. Entusiasmados por sua Misericórdia e também por sua Justiça, como Jesus mostrou no episódio dos vendilhões do Templo. Ele quer ser adorado por nós e adorado na sua totalidade.

 Elejamos Maria — insuperável modelo desse amor a Jesus na sua integridade — como nossa mestra e guia da entrega sem limites que devemos fazer a Ele, adorando-O na harmonia de suas virtudes aparentemente contraditórias.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O prêmio dos bemaventurados

Continuando a meditação sobre o dia do Juízo Final, ouçamos a palavra de Deus:

Então o Rei dirá aos que estão à direita: — Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo”.
 A essência do prêmio será a visão beatífica, quer dizer, a contemplação de Deus face a face. Pela força da graça nos será possível contemplar a própria essência de Deus, em vez de apenas discerni-Lo por seu reflexo nas criaturas: “Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido” (1 Cor 13,12).
Por nossa natureza, temos uma sede insaciável de felicidade, de um amor sem medida que nenhuma criatura conseguirá aplacar e só pode ser atendida pelo próprio Deus. O famoso teólogo Réginald Garrigou Lagrange, O.P., na obra La vie éternelle et la profondeur de l’âme, explica: “A profundidade de nossa vontade é tal, que só Deus pode preenchê-la e atraí-la irresistivelmente.”
A este propósito, exclama Santo Agostinho: “Infeliz quem conhece todas essas coisas [terrenas] e não Vos conhece, ó meu Deus! Feliz quem Vos conhece, embora ignore todo o resto. Quanto a quem Vos conhece e conhece também as coisas terrenas, não é mais feliz por conhecê-las, mas é unicamente o conhecimento que tem de Vós que o faz feliz, contanto que, conhecendo-Vos como Deus, glorifique-Vos também como Deus e Vos dê graças por vossos dons, e não se perca na vaidade de seus próprios pensamentos.”
Assim, após a morte, livre de tudo aquilo que a cercava na terra, a alma tem uma avidez veemente de voar para Deus, a fim de contemplá-lo face a face, conforme escreve o mesmo santo: “Fizestes-nos, Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto até que repouse em Vós”(Confissões, 1.1).
Além da visão de Deus, os bem-aventurados receberão no Céu outros prêmios, infinitamente menores, mas mesmo assim valiosíssimos e incomparáveis com as coisas da terra.
Em primeiro lugar, terão corpos gloriosos. Lemos na primeira Epístola aos Coríntios: “Semeado na corrupção, o corpo ressuscita incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza, ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (1 Cor 15,42-44).
Ademais terão a inimaginável alegria de poderem contemplar Nosso Senhor Jesus Cristo, Nossa Senhora e os Santos, bem como as maravilhas do mundo já então renovado. Sim, pois o universo passará por uma inteira renovação, pela qual conservará apenas aquilo de mais belo que contiver, e será livre de toda matéria corruptível ou vulgar.
Como se não bastasse, os bemaventurados terão como morada o Céu empíreo, a respeito do qual escreve Garrigou-Lagrange:
“O Céu é o lugar e, melhor ainda, o estado da suprema bem-aventurança. Se Deus não tivesse criado nenhum corpo, mas apenas puros espíritos, o Céu não seria um lugar, porém tão-só o estado dos anjos que gozam da posse de Deus. Mas o Céu é também um lugar, no qual estão a Humanidade de Jesus, a Bem-Aventurada Virgem Maria, os anjos e as almas dos Santos. Embora não possamos dizer com certeza onde se encontra esse lugar em relação ao conjunto do Universo, a Revelação não permite duvidar de sua existência.
Grandes teólogos católicos afirmam ser o Céu empíreo um lugar concreto, entre eles o célebre jesuíta flamengo Cornélio a Lapide. Para este, o Céu é constituído de materiais nobres, com “palácios construídos de pérolas e pedras preciosas, como também prados, jardins e bosques ameníssimos”. Levado uma vez até ali, São Paulo viu algo tão esplendoroso que não encontrou palavras para o descrever, limitandose a exclamar: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9).
O castigo dos condenados
Lancemos, agora, nosso olhar para aquela porção da humanidade que deverá ouvir a terrível sentença:
“Afastai-vos de mim, malditos!”.
O próprio Criador rejeita, para sempre, seres que Ele criou. Que castigo espantoso! Trata-se da chamada pena de “dano”, palavra derivada do latim damnum, “perda”, pois esse tormento consiste na perda da posse de Deus, nosso fim último.
Enquanto está na vida presente, a alma não consegue avaliar a imensidão dessa perda. Os bens sensíveis não param de lhe atrair a atenção; a todo momento recebe notícias domésticas ou profissionais, ou dos fatos nacionais e internacionais; tem preocupações e necessidades de alimentação, asseio, saúde, lazer; entrega-se a prazeres; acaricia ambições e projetos para a carreira e para a família, e está cercado de parentes, amigos, enfim, de tudo o que constitui seu mundo.
Mas quando a alma se separa do corpo, todo esse ruído cessa de repente, todos os interesses que a prendem na terra perdem seu valor. Ela se vê completamente só, e então aí... “toma consciência de sua profundidade sem medida, que só Deus, visto face a face, pode satisfazer; e vê também que esse vazio jamais será preenchido... [Se tiver morrido em pecado] ela se vê na noite do vazio, expulsa, repudiada, maldita” (GarrigouLagrange).
Por ser infinitamente verdadeiro, bom e belo, Deus é infinitamente atraente. Os condenados, por sua natureza, são atraídos por essa Beleza suprema, única capaz de satisfazer sua necessidade insaciável de amor. Mas Deus os repele por completo, e eles, em delírios de furor infernal, não fazem senão detestá-Lo, maldizê-Lo, blasfemar contra Ele. É o tormento de um coração apaixonado e roído de ódio. É o sofrimento atroz do amor contrariado, desprezado, transformado em fúria, posto continuamente num extremo de ódio e desespero.
“Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o demônio e para os seus anjos!”.
 Comparada com o horror da pena de dano, a pena dos sentidos pode até parecer suave... Contudo, por si só é tremenda.
O agente desse castigo é o fogo: “Qual de vós poderá habitar em um fogo devorador?” — pergunta com pavor o profeta Isaías (33,14). O Inferno é um abismo de fogo, um “tanque ardente de fogo e enxofre” (Ap 21,8). E não nos iludamos, pensando que a expressão “fogo do Inferno” seja apenas uma metáfora, uma imagem para se referir ao remorso da consciência.
É doutrina universalmente aceita na Igreja, baseada na Sagrada Escritura e no consenso dos Padres, que se trata de um fogo real, eterno e inextinguível, que tortura os espíritos e queimará os corpos sem os destruir.
Uma resolução inadiável
Ao nos revelar esse mistério, Jesus demonstra sua infinita bondade para conosco. Seu objetivo, ao nos alertar de modo tão veemente, é evitar para nós a desgraça eterna, e levar-nos para junto d’Ele, na felicidade do Paraíso.
Profundamente gratos, tomemos sem demora a firme resolução de Lhe rogar as graças necessárias para reprimirmos nossas más paixões, evitar o pecado e praticar a virtude. De tal modo que possamos ouvir de seus lábios adoráveis este celestial convite: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo”. !

domingo, 3 de abril de 2011

A segunda vinda de Jesus
“Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante d’Ele...”.

Assim Nosso Senhor inicia a descrição dos instantes finais dos homens nesta terra. Meditemos sobre isso, seguindo o categórico conselho do Eclesiástico: “Em todas as tuas obras, medita nos teus novíssimos e não pecarás eternamente” (7,40). “Novíssimo” é um termo vindo do latim novus, e quer dizer também “último”. É com esse significado que a Escritura o utiliza, para indicar os últimos acontecimentos de nossa vida: morte, juízo, Céu ou Inferno. De início, reparemos na linguagem empregada agora pelo Divino Mestre. Não se exprime mais por comparação nem metáfora (“O reino dos céus é semelhante..”), mas fala diretamente: “Quando o Filho do Homem voltar na sua glória...”. Não nos deixa dúvida quanto à realização do Juízo Universal, verdade, aliás, anunciada outras vezes por Ele mesmo: “Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! (...) No dia do juízo, haverá menos rigor para Tiro e para Sidônia que para vós!” (Mt 11,21-22). “No dia do juízo, os ninivitas se levantarão contra esta raça e a condenarão, porque fizeram penitência à voz de Jonas. Ora, aqui está quem é mais do que Jonas” (Mt 12,41).
O tribunal
“Todas as nações se reunirão diante dele”, diz o Senhor. Quer dizer, nenhum homem, por mais poderoso que tiver sido, poderá subtrair-se a essa convocação. Não haverá espaço para exceções, tergiversações, adiamentos. A ordem é peremptória. Também os anjos deverão comparecer, afirma Jesus: “...e todos os anjos com ele”. Ora, se os homens é que serão julgados, qual a razão dessa presença angélica? Segundo explica a Suma Teológica, o Juízo Final “relaciona-se de algum modo com os anjos, na medida em que eles interferiram nos atos dos homens”. Assim, o principal papel das criaturas angélicas será o de servir de testemunhas. Mas, de alguma maneira, os anjos serão também julgados: “Não sabeis que julgaremos os anjos?”, pergunta São Paulo (1 Cor 6,3). E São Pedro afirma o mesmo a respeito dos demônios: “Pois se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno onde os reserva para o julgamento” (2 Pe 2,4). Os anjos de Deus terão um prêmio, que será a grande alegria em vista da salvação de seus protegidos, enquanto os demônios terão um acréscimo de tormento, ao “multiplicar-se a ruína dos maus que por eles foram induzidos ao pecado” (Suma, Suplem. 89,8). Ainda no concernente à constituição do tribunal, certos homens terão um papel importante: serão co-juízes com Nosso Senhor. Isto é afirmado, entre outros, por São Paulo: “Não sabeis que os santos julgarão o mundo?” (1 Cor. 6,2). Segundo a Suma, esses co-juízes, “varões perfeitos”, julgarão por comparação com si mesmos, porque “trazem gravados em si os decretos da justiça divina” (Suplem. 89,1).
Separação dos julgados: o fim dos relativismos
Voltemos às palavras do Senhor no Evangelho: “... e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda”. Na vida nesta terra, a alma humana, por uma espécie de instinto espiritual, procura incessantemente a verdade, o bem e o belo. Mesmo quando comete pecado, esses instintos espirituais continuam a atuar. Além disso, todo homem tem como que estampados na alma os Dez Mandamentos. Por tudo isso, ninguém consegue praticar o mal pelo mal, professar o erro pelo erro, admirar o horrendo pelo horrendo. Assim, se os pensamentos, desejos e atos de um indivíduo começam a fugir habitualmente das leis de Deus, sente ele a necessidade imperiosa de os justificar, racionalizando-os, isto é, buscando para eles explicações racionais, por mais absurdas que estas sejam. E a saída consiste geralmente em procurar uma conciliação entre a verdade e o erro, o bem e o mal, o belo e o horrendo. Tudo aquilo que antes era para ele de uma luminosidade cristalina, torna-se de uma indefinição nebulosa e pardacenta. E ele afunda no relativismo, funesto defeito moral, tão comum ao longo da história, causa de tantos erros doutrinários que afastaram da Igreja Católica e do caminho da virtude milhões e milhões de almas. No Evangelho aqui comentado desaparece todo capricho e devaneio a respeito da conciliação entre esses valores irreconciliáveis. “Non datur tertius” — não há uma terceira solução possível no dia do Juízo. Nosso destino será o Céu ou o Inferno. Será a mais fulgurante e universal manifestação do Absoluto na ordem da criação.
O julgamento
Uma interrogação que pode ter passado pelo espírito de vários leitores: a maior parte dos homens já terá sido julgada logo após sua morte (excetuam-se aqueles que estiverem vivos, quando chegar a hora do fim do mundo), por que, então, passar de novo por um juízo? A Suma Teológica (Suppl 88, I ad 1), bem como o Catecismo Romano, fazem compreender melhor a razão desses dois tribunais. De fato, no Juízo particular, cada homem é julgado privadamente por Deus, permanecendo o seu foro íntimo, bem como todas as conseqüências de seus peca dos, ocultos aos outros homens. Para a plena glorificação da justiça divina é indispensável que haja um outro juízo, público e universal, no qual fiquem patentes aos olhos de todos a inocência dos bons e a torpeza dos maus. Nenhum ato de virtude e nenhuma falta, por menores que sejam, serão omitidos. Assegura São Paulo que em Deus “vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17, 28), portanto nada pode escapar a seu divino conhecimento e a seu absoluto julgamento. Assim, no dia do Juízo “Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau” (Ecl 12,14). A este propósito assevera São Paulo: “Porque teremos de comparecer diante do tribunal de Cristo. Ali cada um receberá o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito enquanto estava no corpo” (2 Cor 5,10). “Por isso” — diz ainda São Paulo — “não julgueis antes do tempo; esperai que venha o Senhor. Ele porá às claras o que se acha escondido nas trevas. Ele manifestará as intenções dos corações. Então cada um receberá de Deus o louvor que merece” (1 Cor 4,5). Dessa forma, todos os nossos pensamentos virão à tona. Igualmente não estarão isentas de prêmio ou castigo nossas palavras: “Eu vos digo: no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12,36). O Redentor nos atribuirá méritos ou penas por nossas obras: “Retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Rm 2,6). Também pedirá contas por nossas omissões: “Aquele que souber fazer o bem, e não o faz, peca” (Tg 4,17). Nossa consciência, portanto, por um auxílio divino poderoso, far-nos-á relembrar com claríssima memória todas as nossas ações, boas e más, e até as que deviam ter sido praticadas e não o foram por nossa culpa. Da mesma forma, nos recordará nossos pensamentos e desejos. Não somente, pois, os pecados graves, mas também os leves e até as imperfeições. Essa tão exata e minuciosa recordação já de si constituirá uma sentença inapelável. Nesta terra, quando queremos permanecer no mau caminho, abafamos nossa consciência. Porém, no dia do Juízo, ela se imporá às nossas veleidades.

E o prêmio dos bons? Como será?
Leia no próximo post

quinta-feira, 31 de março de 2011

Transfiguração


No post anterior, Mons João Clá Dias comenta um dos principais mistérios de nossa fé: a união da natureza Divina à humana na segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Agora Mons João explicará o sentido da Transfiguração. 
Nesse contexto, como situar a Transfiguração?

Um ensino puramente doutrinário não é capaz de, por si só, mover o homem a transformar sua vida. Um antigo adágio ilustra esta verdade de modo lapidar: “As palavras comovem, os exemplos arrastam”. Sobretudo quando o exemplo é íntegro e esplendoroso na verdade e no bem, tem ele uma força tal que age sobre as tendências da alma, convidando a um certo caminho — e às vezes impondo-o.
Ademais, há outro fator indispensável para arrebatar qualquer coração, e mantê-lo firme na reforma iniciada: a clareza do fim. Se este não estiver claro, o ânimo arrefecerá quando surgirem os primeiros lampejos das dificuldades e dos dramas, tão comuns em toda mudança de vida.
Ao tratar da Transfiguração de Jesus, assim se exprime São Tomás de Aquino sobre essa necessidade muito própria à criatura humana: “Para trilharmos bem um caminho, é necessário termos um conhecimento prévio do fim. Assim, o arqueiro não lança com acerto a seta, senão mirando primeiro o alvo que deve alcançar. (...) E isso sobretudo é necessário, quando o caminho é difícil e áspero, a jornada laboriosa, mas belo o fim” (3, q.45, a.1, c).
 Ora, para efetivar a Redenção com a morte na Cruz, e para formar a Igreja, Nosso Senhor Jesus Cristo ia submeter os apóstolos a provas duríssimas. Era muito conveniente, portanto, que fizesse conhecer experimentalmente, pelo menos a três deles, os fulgores de sua glória. Desse modo, não só se sentiriam robustecidos para enfrentar os traumas de sua Paixão, como também mais facilmente ajudariam seus irmãos a solidificar a Santa Igreja, e fortaleceriam os fiéis ao longo dos tempos.
Fulgor no Tabor, para suportar as agruras do Calvário
No mesmo tópico acima citado, São Tomás de Aquino continua a esclarecer, com sua genialidade habitual e sapiencial clareza:
“O Senhor, depois de haver anunciado a sua Paixão aos discípulos, convidou-os a lhe imitarem o exemplo. (...) Ora, o fim de Cristo, na sua Paixão, era alcançar não somente a glória da alma, que tinha desde o princípio da sua concepção, mas também a do corpo (...). E a essa glória também conduz os que imitam seu exemplo da Paixão, segundo diz a Escritura: Por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus. Por isso era conveniente que manifestasse aos seus discípulos a sua claridade luminosa; e tal é a Transfiguração, que também concederá aos seus, segundo diz o Apóstolo (São Paulo): Reformará o nosso corpo abatido para o fazer conforme o seu corpo glorioso. Donde dizer (São) Beda: foi conseqüência de uma pia providência que, tendo gozado por breve tempo da contemplação da felicidade eterna, tolerassem mais fortemente as adversidades” (3, q. 45, a. 1, c).
Já muito anteriormente a São Tomás, o Papa São Leão Magno comentara: “Para que os apóstolos concebessem com toda a sua alma essa ditosa fortaleza, não tremessem ante a aspereza da cruz, não se envergonhassem de Cristo e não tivessem por degradante o padecer... manifestou-lhes o esplendor de sua glória, porque, embora cressem na majestade de Deus, ignoravam o poder do corpo sob o qual a divindade se ocultava... Pois, estando ainda revestidos da carne mortal, não podiam ver e compreender, de modo algum, a inefável e inacessível divindade, visão reservada na vida eterna para os limpos de coração” (Sermão 51).
 E continuando o mencionado sermão, São Leão Magno afirma: “Cada membro [do Corpo Místico de Cristo] pode almejar a participação na glória que, com antecipação, resplandeceu na cabeça. O que já antes havia sido previsto pelo Senhor, quando falava da majestade de sua vinda: então os justos brilharão como um sol no Reino de seu Pai (Mt 3, 33).”
 A Transfiguração do Senhor foi uma excepcional graça mística concedida aos três apóstolos escolhidos, no alto do Tabor. Sua recordação ficou como uma fonte de sólida confiança, que lhes permitiu suportar os maiores sofrimentos, pois, assistindo a ela, tiveram um vislumbre da luz plena e refulgente da eternidade.
“Per crucem, ad lucem”
Deus deseja conferir-nos eternamente sua própria felicidade, fazendo-nos partícipes de sua natureza no esplendor da glória. É fundamental para nós pensarmos, com constância, na glória eterna, como um prêmio imensamente grande a nós oferecido. Nada há de melhor do que essa meditação para enfrentarmos as dificuldades e as cruzes do dia-a-dia.
Muitas são as ofertas de uma felicidade passageira que encontramos hoje em dia, apresentando fórmulas “mágicas”... fora do único caminho que é Jesus Cristo e sua Igreja. Tudo não passa de pura ilusão. Fomos criados para o Céu! Eis o que nos dá ânimo, resolução e alegria. “Per crucem, ad lucem” — “Pela cruz, chegaremos à luz”.
Aqui está uma observação importante a ser feita: muitos há que nos mostram a cruz do Senhor, e isto é ótimo e digno de todo louvor! Todavia, não basta. O objetivo de nossa existência não é a dor, nem o sacrifício. Não podemos nos esquecer da luz, nosso verdadeiro destino. A cruz não é o ponto final de nosso processo humano: é apenas o caminho.
Graças místicas
A Transfiguração de Jesus fortificou as virtudes da fé e da caridade nos Apóstolos.
Enquanto a fé nos faz crer na divindade de Cristo e em suas promessas, a caridade nos conduz a uma entranhada união com Deus. São duas virtudes extremamente interdependentes. Sem a fé na esplendorosa vida eterna que nos espera, a caridade tende a desaparecer.
 Mas, se a fé e a caridade dos apóstolos tanto lucraram com a Transfiguração do Senhor, não haverá algo, nessa mesma linha, que poderá auxiliar a vida espiritual de cada um de nós?
 A resposta é inteiramente positiva. Deus derrama graças místicas sobre todos os que trilham as vias da salvação, em intensidade maior ou menor, segundo o caso. Mas ninguém está excluído de recebê-las. Quem no-lo afirma é o famoso teólogo dominicano, Pe. Réginald Garrigou-Lagrange:

 “Para esses autores, a vida mística não é coisa extraordinária, como as visões e revelações, mas algo eminente na via normal da santidade. Consideram eles que isso é comum para as almas chamadas a se santificar na vida ativa, como São Vicente de Paulo. Absolutamente não duvidam que os Santos de vida ativa tenham tido normalmente a contemplação infusa bastante freqüente dos mistérios da Encarnação redentora, da Missa, do Corpo Místico de Jesus Cristo, do preço da vida eterna, se bem que esses Santos diferem dos puramente contemplativos, no sentido de que neles essa contemplação infusa é mais imediatamente dirigida à ação.”  
É claro que tais graças místicas não isentam ninguém de realizar os esforços próprios à prática das virtudes, tal como no-lo refere em outro trecho o mesmo autor:
 “Conforme o que acabamos de dizer, vê-se que a ascética está ordenada à mística. “Acrescentemos por fim que, para todos os autores católicos, a mística que não pressupõe uma ascese séria é uma falsa mística: foi a dos quietistas.”

Um “Tabor” em nossos corações
É fora de dúvida, pois, que Deus concede “Tabores”, ou seja, graças místicas, a cada um de nós.
 Quem não terá sentido, alguma vez, uma alegria interior, um palpitar do coração, uma emoção calma mas profunda, ao assistir a uma bela cerimônia? Ao apreciar o canto gregoriano, por exemplo? Ou ao contemplar alguma imagem? Quiçá ao ver um lindo vitral banhado de luz, dentro de uma igreja silenciosa, que deixa lá fora os ruídos do mundo? São mil ocasiões em que a graça sensível nos visita, e nos concede contemplações interiores, pré-degustações da felicidade perfeita que nos espera no Céu.
 Dois Doutores da Igreja, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, mestres da vida espiritual, dizem que a Providência costuma conceder aos principiantes graças místicas que depois irão experimentar novamente só no fim de suas vidas. Tal proceder divino visa fortalecer essas almas para atravessarem os períodos de aridez. É um modo comum de Deus agir: dá-nos consolações — o Tabor — para, quando vier a hora do Getsêmani, termos forças, sabendo que o fim será mais cheio de alegria e esperança.
São graças que nos animam a enfrentar os sacrifícios desta vida. Trata-se de experiências místicas que nos tornam patente quanto Jesus nos ama e quer nossa eterna glória.
Assim, ao longo de nossa existência terrena, já iremos experimentando um pouco das delícias eternas, e as tendas tão desejadas por São Pedro sobre o monte da transfiguração, Jesus as irá levantando no “Tabor” de nossos corações. Para tal, Ele exige de nós apenas uma condição: que não Lhe coloquemos obstáculos.