Comentários ao Evangelho da Missa da vigília do Natal do Senhor
Mons João Clá Dias
Evangelho Mt 1, 1-15
Livro da origem de Jesus Cristo, filho de
Davi, filho de Abraão, 2Abraão gerou lsaac; Isaac gerou Jacó; Jacó gerou Judá e
seus irmãos. Judá gerou Farés e Zara,
cuja mãe era Tamar. Farés gerou Esrom; Esrom gerou Aram; 4Aram gerou Aminadab;
Aminadab gerou Naasson; Naasson gerou Salmon;
Salmon gerou Booz, cuja mãe era Raab. Booz gerou Jobed, cuja mãe era
Rute. Jobed gerou Jessé. 6 Jessé gerou o rei Davi.
Davi gerou Salomão, daquela que tinha
sido mulher de Urias. Salomão gerou
Roboão; Roboão gerou Abias; Abias gerou Asa; 8Asa gerou Josafá; Josafá gerou
Jorão. Jorão gerou Ozias; 9Ozias gerou Jotão; Jotão gerou Acaz; Acaz gerou
Ezequias; 10Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon; Amon gerou Josias.
11Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia.
12 Depois do exílio na Babilônia,
Jeconias gerou Salatiel; Salatiel gerou Zorobabel; 13Zorobabel gerou Abiud;
Abiud gerou Eliaquim; Eliaquim gerou Azor; 14Azor gerou Sadoc; Sadoc gerou
Aquim; Aquim gerou Eliud; 15 Eliud gerou Eleazar; Eleazar gerou Matã; Matã
gerou Jacó. 16 Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado
o Cristo. 17Assim, as gerações desde Abraão até Davi são quatorze; de Davi até
o exílio na Babilônia, quatorze; e do exílio na Babilônia até Cristo, quatorze.
18 A origem de Jesus Cristo foi assim:
Maria, sua Mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem
juntos, Ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo.
19 José, seu marido, era justo e, não
querendo denunciá-I.a, resolveu abandonar Maria,em segredo. 20 Enquanto José
pensava nisso, eis que o Anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse:
“José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque
Ela concebeu pela ação do Espírito Santo. 21 Ela dará à luz um Filho e tu lhe
darás o nome de Jesus, pois Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”.
22 Tudo isso aconteceu para se cumprir o
que o Senhor havia dito pelo profeta: 23 “Eis que uma Virgem conceberá e dará à
luz um Filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está
conosco”. 24 Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado:
e aceitou sua esposa. 25 E sem ter relações com Ela, Maria deu à luz um Filho.
E José deu ao Menino o nome de Jesus (Mt I, I -25).
A PREPARAÇÃO IMEDIATA PARA O NASCIMENTO DE
DEUS
Depois
do período das quatro semanas do Advento, a Missa da véspera do Natal do Senhor
propicia que, na perspectiva da comemoração da chegada do Menino Jesus à
meia-noite, as graças já comecem a se fazer sentir, enchendo de alegria os
nossos corações. Estas graças, distribuídas no mundo inteiro em torno do altar,
quando Ele vem até nós todos os dias na Eucaristia, tornam-se mais intensas
nesta grande Solenidade na qual celebramos, litúrgica e misticamente, o Verbo que
se fez carne entre nós, jubiloso acontecimento que nos é anunciado pelo cântico
dos Anjos.
Devemos,
portanto, arder do desejo de que o Divino Infante venha não apenas ao Presépio
da Gruta de Belém, mas ao nosso interior para aí estabelecer sua morada, e que Ele
também possa nascer, o quanto antes e de maneira eficaz, no fundo da alma de
cada um dos habitantes da Terra, realizando o que Ele próprio nos ensinou a
pedir na oração perfeita, repetida pela Igreja ao longo de dois mil anos: “venha
a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”
(Mt 6, 10).
UM DEUS
DE ASCENDÊNCIA HUMANA
Qual o
momento histórico escolhido por Deus para Se encarnar?
Segundo
São Tomás de Aquino,1 não convinha que o Salvador viesse logo depois da queda de
Adão e Eva no Paraíso. Uma vez que a raiz do pecado foi a soberba, era mister
que o homem, humilhado diante do espetáculo de sua miséria, reconhecesse a necessidade
de um libertador, porque se recebesse de imediato o remédio teria desprezado o
Criador, ignorando sua enfermidade. Acrescenta ainda o Doutor Angélico2 que
também não seria adequado adiar a Encarnação até o fim do mundo, para não
desaparecer totalmente da face da Terra o conhecimento e a reverência devida a
Deus, bem como a honestidade dos costumes.
A plenitude dos tempos
Concluímos
então que, como “Deus tudo definiu segundo sua sabedoria”,3 Cristo nasceu na
“plenitude dos tempos” (Gal 4, 4), no auge da História, na época reservada para
Ele por ser a mais oportuna e a mais necessitada. E, pois, em função d’Ele, e
não apenas observando um critério cronológico, què se dividem as eras e tudo se
organiza e se ajusta. Dado que o agir da Providência sobre o mundo se cifra em
governar tendo em vista sua própria glória e a salvação dos homens, o papel de
Nosso Senhor, enquanto Salvador, O põe mais ainda no centro dos acontecimentos.
Esta
missão de Jesus, exercida numa determinada quadra histórica, é posta em
especial destaque pela primeira parte do Evangelho — irrelevante na aparência —
que a Santa Igreja propõe à nossa consideração nesta Vigília. Tendo já
explicado em detalhe os versículos 18-25 desta passagem no artigo precedente a
este,4 limitar-nos-emos a comentar os versículos 1-17.
Deus e Homem numa só Pessoa
1a Livro da origem de Jesus Cristo...
Um dos
principais mistérios da nossa Fé é a união da natureza divina com a humana na
Pessoa única do Verbo. Jesus é verdadeiramente Homem, com inteligência, vontade
e sensibilidade, além de ter assumido um corpo padecente; e é plenamente Deus,
Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Em virtude da união hipostática, foi
comunicada à humanidade de Cristo, tanto à Alma quanto ao Corpo, a santidade
menada, substancial e infinita do Filho de Deus, como ensina o Apóstolo: “Nele
habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col 2, 9). Por essa graça
de união, seu Corpo é adorável, e até mesmo os ossos, os cabelos ou as unhas
d’Ele, tudo é divino!
Ora,
parece desnecessário expor toda a ancestralidade de Nosso Senhor Jesus Cristo desde
Abraão, enumerada com cuidado exímio pelo Evangelista, se já sabemos quem Ele
é. Para que considerar a natureza humana do Messias, uma vez que o princípio
ativo de sua concepção no seio de Maria é o próprio Espírito Santo5 e que,
portanto, sua geração é obra divina? Porque incluir esta relação dos antepassados
de Jesus, semelhante a um registro de tabelião? Tudo na Sagrada Escritura tem
sua razão de sabedoria e foi o Espírito Santo quem inspirou São Mateus a assim
escrever, como também São Lucas, o qual, ao contrário do método usado pelo
primeiro, parte de São José e remonta até Adão (cf. Lc 3, 23-38).
Quando
a Igreja Católica começou a se expandir pela pregação dos Apóstolos, ao ensinar
a doutrina era indispensável preparar muito bem os neófitos. Enquanto hoje as
verdades da Religião nos são apresentadas com toda naturalidade, naquele tempo,
defender certos conceitos parecia um absurdo. A alguns era fácil admitir que o
Salvador fosse Homem; enquanto a outros, como os judeus convertidos, a fé os
levava a receber prontamente o dogma da divindade de Nosso Senhor. O grande
problema estava em aceitar que Ele fosse Homem e Deus ao mesmo tempo! E
surgiam, nos primeiros séculos, questões profundas a esse respeito e objeções
contra a Pessoa de Jesus que perturbavam aquela gente, a quem os Apóstolos
tinham de instruir: “Será Homem?”; “Onde nasceu Ele?”; “De quem é Filho?”;
“Como pode Deus ser Filho de uma mulher?”; “De onde Lhe advém tanta força?”.
A
intenção de São Mateus foi, pois, mostrar, sublinhar e ressaltar a humanidade
de Cristo, provando por essas quarenta e duas gerações que Ele é Homem, nascido
de mulher. Homem com genealogia, Homem filho de Adão e de Eva, possuindo a natureza
humana íntegra, concebido na carne, mas por mão de Deus, de modo completamente milagroso
e inefável. Desta forma, Nossa Senhora, mera criatura, por ter dado seu
consentimento e ter fornecido a matéria para a formação do Corpo de Jesus, é
Mãe de Deus.
O simbolismo dos números
O
número quarenta e dois é simbólico, pois, na verdade, estas gerações abrangem
uma enorme faixa de tempo — em torno de uns 2130 anos, segundo Fillion6 — e
devem ter sido muito mais. O Evangelista as divide em três conjuntos de
quatorze: a partir de Abraão até Davi, de Davi até o exílio da Babilônia, e
deste até o Messias. “Os judeus gostavam de dividir suas genealogias em grupos
mais ou menos fictícios, conforme cifras místicas fixadas de antemão”.7 Neste
caso, se explica a escolha de quatorze pelo fato de ser duas vezes sete, número
tido na literatura judaica como o algarismo simbólico de multiplicidade, de
universalidade e de perfeição. Assim, o número perfeito duplicado se repete
três vezes, porque três é também um número de perfeição.8 A este respeito é
interessante a aplicação de São Remígio: “Dividiu as gerações em séries de
quatorze cada uma, porque o número dez significa o Decálogo, e o número quaternário
os quatro livros do Evangelho, mostrando nisto a conformidade da Lei com o Evangelho,
e repetiu três vezes o número quatorze para nos ensinar que a perfeição da Lei,
da profecia e da graça consiste em crer na Trindade Santa”.9
Outra
interpretação proposta pelos exegetas baseia-se no intuito que animava o primeiro
Evangelista de provar a ascendência davídica de Jesus, pois, “o número quatorze
tinha a vantagem de encerrar eminentemente o sete, número sagrado, e de
representar o valor numérico do nome de Davi, verdadeira fonte desta
genealogia” 10 Com efeito, “dado que as letras hebraicas têm, além do
significado verbal, outro numérico, resulta que o nome das letras de Davi em
algarismos é o seguinte: Davi = 4+6+4, cuja soma dá quatorze”.11
O depositário da promessa feita a
Abraão
1b …filho de Davi, filho de Abraão.
2aAbraão gerou Isaac; Isaac gerou Jacó,..
Tendo
Deus amaldiçoado a serpente logo após a queda de Adão e Eva, prometeu-lhes
enviar um Salvador (cf. Gn 3, 15), sem ainda fazer uma aliança concreta com
eles. Expulsos do Paraíso, durante sua longa existência nossos primeiros pais
viram o drama se estabelecer na face da Terra, a partir do fratricídio
perpetrado por Caim contra seu irmão Abel, bem como todas as desgraças que
depois se abateram sobre a humanidade, decorrentes de um mal de que eles mesmos
eram os culpados: o pecado!
Somente
mais tarde firmará Deus uma aliança com Abraão, anunciando-lhe uma descendência
mais numerosa que as estrelas do céu e as areias do mar (cf. Gn 15, 18; 22,
17). A primeira vista, pareceria tratar-se aqui de uma posteridade quanto ao
sangue, mas, na realidade, ao fazer tal juramento, Deus prometia a Abraão
sobretudo filhos na linha sobrenatural, pois de sua estirpe nasceria um Varão
extraordinário, o Salvador esperado. Por isso, ao descrever a ascendência de
Jesus, São Mateus começa, muito a propósito, no santo patriarca e conclui dizendo:
16Jacó gerou José, o esposo de Maria, da
qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo.
Cristo
era justamente o Desejado, vindo para redimir. Excogitar um Deus que se faz
Homem supera de tal modo qualquer inteligência — até angélica — que se não
fosse a revelação feita pelo próprio Nosso Senhor, nem sequer entraria na
especulação dos judeus. Todavia, este insólito acontecimento veio a suceder.
Quatro mulheres estrangeiras
2b…Jacó gerou Judá e seus irmãos. 3a Judá
gerou Farés e Zara, cuja mae era Tamar.[…] 5ª Salmon gerou Booz, cuja mãe era
Raab. Booz gerou lobed, cuja mãe era Rute. […]6b Davi gerou Salomão, daquela
que tinha sido mulher de Urias.
Em
contraposição à destacada referência a Abraão, patriarca do povo eleito, chama
a atenção o fato de São Mateus inserir quatro mulheres estrangeiras dentro
dessas quarenta e duas gerações: Tamar, que provavelmente era cananeia; Raab, também
cananeia; Rute, a moabita; e Betsabeia, mulher do hitita Urias, a qual tudo
indica que fosse da mesma origem do marido. Conforme a opinião do padre Manuel
de Tuya,12 o intuito do Evangelista era sugerir, de maneira indireta, o caráter
universal da Encarnação e da Redenção, e de toda a obra messiânica, não
circunscrita aos judeus, mas que abarcava as nações pagãs.
Uma genealogia de pecadores
Torna-se
praticamente impossível comentar no reduzido espaço de um artigo a genealogia
completa. Escolhamos, portanto, um aspecto para maior proveito de nossa vida
espiritual. Dentro desta sequência surpreende um ponto, que vai contra um
perfeccionismo mal entendido. Segundo este, a linha gem de Nosso Senhor deveria
ser a mais elevada e mais excelente em matéria de virtude. Porém, ao analisar
alguns nomes à luz da História Sagrada, o número e a gravidade dos seus pecados
nos arrepiam.
Um patriarca dominado pela inveja
2b …Jacó gerou Judá e seus irmãos. 3a
Judá gerou Farés e Zara, cuja mãe era Tamar.
Judá,
um dos doze filhos do patriarca Jacó, deu origem à principal tribo do povo hebreu
e é um dos mais ilustres ancestrais de Jesus. Ora, foi por inveja de seu jovem
irmão José que ele cometeu um grande crime. Urdiu com todos os outros irmãos a
trama para fazer desaparecer o inocente José. Judá apenas defendeu a vida do
menino, mas não sua liberdade; pelo contrário, teve inclusive a ideia de
vendê-lo como escravo a mercadores ismaelitas (cf. Gn 37, 26-27).
Também,
é conhecido o desagradável episódio ocorrido entre ele e sua nora Tamar, a qual,
por meios fraudulentos, lhe deu dois filhos, Farés e Zara (cf. Gn 38, 13-30),
nomeados igualmente no Evangelho de hoje.
Uma mulher de maus costumes
5a Salmon gerou Booz, cuja mãe era Raab.
O mesmo
observamos no caso de Salmon, príncipe dos judeus, casado com a cananeia Raab,
mulher de péssimos costumes dos tempos de Josué (cf. Js 2, 1-21). Para tomar
posse da Terra Prometida era imprescindível aos israelitas a conquista da cidade
de Jericó, considerada inexpugnável. De fato, eles não podiam negligenciar esta
fortaleza e seguir adiante, porque seriam atacados pela retaguarda. Josué,
então, mandou dois espiões para examinar as possibilidades de dominar a cidade.
Estes foram protegidos e bem informados por essa mulher, que habitava numa casa
sobre as muralhas, com a condição de ser salva junto com toda sua família
quando os judeus assaltassem Jericó.
Tendo
chegado à residência de Raab emissários do rei de Jericó à procura dos
exploradores que lá se hospedavam, ela os escondeu em meio às palhas de linho
que tinha no terraço e os fez descer pela janela, servindo-se de uma corda. Por
esta razão, quando o Senhor entregou Jericó nas mãos de Josué, a mulher e seus
parentes foram poupados da morte e ela passou a morar no seio de Israel (cf. J5
6, 25). “Justificada pelas obras” (Tg 2, 25), Raab, embora estrangeira, abraçou
a verdadeira Religião e desposou Salmon, de quem nasceu Booz, bisavô do rei Davi.
Dois pecados terríveis reunidos
num rei santo
6b Davi gerou Salomão, daquela que tinha
sido mulher de Urias.
A
Sagrada Escritura ressalta que o rei Davi gerou Salomão, daquela que foi mulher
de Urias: Betsabeia. Urias era um famoso general dos exércitos de Davi.
Enquanto ele se achava em campanha, o rei, que ficara em Jerusalém, cometeu
adultério com Betsabeia, a qual concebeu um filho. Tendo chamado o militar à
Cidade Santa, para que sua presença justificasse os fatos, e não sendo bem sucedido
em seu intento, o rei enviou, então, uma carta ao comando militar, ordenando
que pusessem Urias no lugar mais arriscado do combate, a fim de que fosse
ferido e viesse a morrer. Executada sua determinação, Urias tombou heroicamente
na batalha, como era de se prever, e Davi, avisado do ocorrido, acolheu
Betsabeia como esposa. O profeta Natã repreendeu o soberano, anunciando-lhe que
o menino nascido daquele pecado morreria, e foi o que sucedeu. Contudo, Davi
teve com ela um segundo filho, ao qual chamou Salomão (cf. TI Sm 11—12, 1-24). É
verdade que este não foi o fruto do crime, mas Deus poderia evitar que um
antepassado de Jesus fosse filho de Betsabeia, reservando tal honra a outra
mulher. Não! Ele permitiu essa infidelidade de um rei santo e quis que o Messias
proviesse da descendência dela.
Uma sequência de reis
prevaricadores
7a Salomão gerou Roboão; […] 9b Jotão gerou
Acaz; Acaz gerou Ezequias; 10a Ezequias gerou Manassés; Manassés gerou Amon.,,
O rei
Salomão, galardoado por Deus com o dom da sabedoria, decaiu a ponto de se
relacionar com numerosas mulheres pagãs, até acabar, em certo momento, ele
mesmo entregue à idolatria (cf. I Re 11, 4-10). Uma de suas esposas, Naama, de origem
amonita (cf. I Re 14, 21), deu-lhe Roboão por filho, o qual herdou o reino.
Este
jovem monarca “abandonou a Lei do Senhor” (II Cr 12, 1), e durante seu reinado
o povo de Judá edificou “para si lugares altos, estelas e ídolos Asserás sobre
todas as colinas e debaixo de tudo que fosse árvore verde” (I Re 14, 23), para lhes
oferecer culto. Igual procedimento seguiram a maior parte dos reis de Judá que
lhe sucederam.
Acaz,
por exemplo, chegou a fazer passar seu filho pelo fogo numa cerimônia em honra
a Moloc, “segundo o abominável costume dos povos que o Senhor tinha expulsado
diante dos filhos de Israel” (II Re 16, 3). Também ousou confiscar os bens e
objetos sagrados do Templo para dá-los de presente ao rei da Assíria e
substituiu o altar de bronze por outro, mandado construir conforme o modelo do
altar de Damasco.
Manassés,
neto de Acaz, foi ainda pior que todos os seus antecessores, pois, além de
adorar as divindades dos pagãos e decair em horrorosos pecados de impureza e de
magia, “derramou também tanto sangue inocente, que inundou Jerusalém de uma extremidade
a outra” (II Re 21, 16).
Amon,
seu filho, seguiu as pegadas do pai, prostrando-se diante dos falsos deuses
(cf. II Re 21, 21) e mantendo, inclusive, pessoas de má vida dentro do próprio
Templo de Jerusalém, as quais não apenas exerciam execráveis funções, mas teciam
vestes para o ídolo Asserá (cf. II Re 23, 7).
A lista
de pecados cometidos por estes reis infiéis poderia ser muito alongada. Não
obstante, parecem suficientes os fatos acima descritos para compreendermos a
“qualidade” de alguns dos ancestrais de Nosso Senhor Jesus Cristo, que São
Mateus não julgou dever deixar de lado na genealogia, e, por inspiração do
Espírito Santo, mencionou explicitamente.
FEZ-SE HOMEM PARA NOS DIVINIZAR
Ao
constatar todas essas abominações ficamos impressionados e logo nos perguntamos
qual a razão de Deus as haver tolerado. Por que teria o Salvador consentido e
querido que na sua linhagem constasse gente de vida dissoluta? Ele conhecia
esses horrores desde toda a eternidade e podia eliminá-los num instante.
Ele veio reparar e salvar
No
entanto, não os eliminou e permitiu sua realização para tornar mais clara a
ação da Providência: Jesus, nascendo de uma Virgem concebida sem pecado
original, sob os cuidados de São José, varão santíssimo, veio reparar as
iniquidades de Adão e Eva, de todos os seus antepassados e da humanidade
inteira. Ele veio, sobretudo, para salvar os pecadores e, admitindo-os na sua
ancestralidade, quis dar a entender o quanto Deus não aceita só os inocentes,
como também os que incorrem em faltas.
“Ele
veio à Terra” — diz São João Crisóstomo — “não para fugir de nossas ignominias,
senão para tomá-las sobre Si. [...]Não só é justo que nos maravilhemos de que
Ele assumisse a carne e Se fizesse Homem, mas de que Se dignasse ter tais parentes,
sem em nada envergonhar-Se de nossas misérias. Desde o berço, pois, proclamou
que não Se envergonha de nada do que é nosso”.13
Assim,
Ele põe um ponto final nesse encadeamento de misérias com uma glória extraordinária,
porque se os homens fossem perfeitos não se justificaria a Redenção, conforme
canta a Igreja na Liturgia da Páscoa: “Ó pecado de Adão indispensável, pois o
Cristo o dissolve em seu amor; ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um
tão grande Redentor!”.14
Para ser perdoado, é mister
reconhecer as próprias miserias
Entre
esses pecadores está Davi, que por meio de um sublime arrependimento mereceu
passar para a História como o penitente.
Portanto,
da nossa parte o que é preciso? Humildade, reconhecimento dos próprios defeitos,
pedido de perdão e penitência. Devemos confiar na bondade infinita e no desejo
de perdoar de Nosso Senhor, pois nisso Ele Se alegra. Nunca desesperemos caso o
pecado venha a tisnar nossa vida, porque, ainda que tenhamos errado, se
soubermos implorar misericórdia e reparar a ofensa, daí sairão maravilhas, tal
como da ascendência de Jesus nasceu Deus! Se formos inteiramente inocentes,
estejamos certos de que esta inocência provém da graça; se cairmos em alguma
falta, lembremo-nos de que Nossa Senhora pode nos purificar, cobrindo-nos com seu
manto e tornando-nos capazes de obras grandiosas.
Quantos
Padres e Doutores 15 comentam o mistério de Deus Se
ter feito Homem a fim de nos fazer deuses! Com efeito, é o que se dá no
instante em que as águas do Batismo são derramadas sobre nossa cabeça: a
natureza divina é infundida em nós.
Nosso coração, gruta inóspita na
qual Deus quer nascer
O Natal
do Menino Jesus, máximo acontecimento em toda a História da criação, vem
penetrado pelo pensamento da misericórdia, da bondade e do perdão concedido a
quem pede. A Missa da Vigília, que dá início à Solenidade, traz este ponto à
nossa lembrança, apresentando-nos uma genealogia na qual encontramos a marca do
insuperável amor de Deus para com a humanidade. Por isso permaneçamos na
expectativa de sua chegada que se verificará nesta noite santa. Ele nascerá
liturgicamente, mas descerá também ao coração de cada um de nós. Entretanto,
nós não podemos dizer-Lhe: “Vinde agora, Senhor, nascer dentro do palácio de meu
coração!...”. Antes, para que Ele possa vir com todo esplendor, é preciso que
nossa alma se reconheça como é: uma gruta fria, inóspita, oferecendo-Lhe apenas
uma pobre manjedoura cheia de palha, símbolo de nossa miséria e de nossas
deficiências, escolhidas por Ele para ser recebido e que tanto deseja
transformar!
1) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO. Suma Teológica. III, q.1, a.5.
2) Cf. Idem, a.6.
3) Idem, a.5.
4) Cf. CLA DIAS, EP, João
Scognamiglio. Dois silêncios que mudaram a História. In: Arautos do Evangelho.
São Paulo. N.108 (Dez., 2010); p.10-17; Comentário ao Evangelho do IV Domingo
do Advento — Ano A, neste mesmo volume.
5) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO, op. cit., q.32, a.2; a.3, ad 1.
6)Cf. FILLION,
Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Infancia y Bautismo. Madrid:
Rialp, 2000, v.1, p.172.
7) Idem, p.173.
8) Cf. TUYA, OF, Manuel
de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.418; 878; SCHUSTER,
Ignacio; HOLZAMMER, Juan B. Historia Bíblica. Antiguo Testamento. Barcelona:
Litúrgica Española, 1934, tI, p.88-89; 586-587, nota 7; TUYA, OP, Manuel de;
SALGUERO, OP, José. Introducción a Ia Biblia. Madrid: BAC, 1967, v.11, p.37-38.
9) SÃO REMÍGIO, apud SÃO
TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Matthæum, cI, v.17.
10) LE CAMUS, Emile. La
vita di N S. Gesù Cristo. 3.ed. Brescia: Vescovile Queriniana, 1908, v.1,
p.130.
11) TUYA; SALGUERO, op.
cit., p.38. No alfabeto hebraico antigo não havia registro de vogais, além de
receber cada letra um valor numérico. E sendo o nome David — nr — escrito em
hebraico com as letras dalet (7) e waw (i), respectivamente com o valor de 4 e
6, somavam o simbólico resultado de 14.
12)
Cf. TUYA, op. cit., p.24.
13) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO.
Homilía III, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, vI, p.42.
14) VIGÍLIA PASCAL.
Proclamação da Páscoa. In: MISSAL ROMANO. Trad. Portuguesa da 2a. edição típica
para o Brasil realizada e publicada pela CNBB com acréscimos aprovados pela Sé
Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.275.
15) Cf. SANTO AGOSTINHO.
Sermo CXCII. In Natali Domini, IX, c.1, nl; SAO LEAO MAGNO. Sermo XXVI. In
Nativitate Domini, VI, c.2; SANTO IRINEU DE LYON. Contra hæreses. L.III, c.19,
n.1; SANTO ATANASIO DE ALEXANDRIA. Oratio De Incamatione Verbi, 54; SAO
CIPRIANO DE CARTAGO. Quod idola dii non Sint, 11; SANTO HILARIO DE POITIERS. De
Trinitate. L.IX, n.3; SAO GREGORIO NAZIANZENO. Oratio XL. In Sanctum Baptisma,
n.45; SAOCIRILO DE ALEXANDRIA. Thesaurus de Sancta et consubstantiali
Trinitate. Assertio XXIV; SAO TOMAS DE AQUINO. Officium Co1poris Christi
“Sacerdos’ Vesp. I, lect.1.