Continuação dos comentários à Liturgia do dia de finados
Um “negócio” com as almas do Purgatório
Esta piedosa prática
nos permite fazer amizade com aqueles que, por causa de nossas preces, saem do
Purgatório e são admitidos no Céu, onde adquirem um poder de audiência colossal
junto a Deus. Decerto, a gratidão deles nos beneficiará. Se nesta Terra somos
agradecidos aos nossos benfeitores, quanto mais as almas que entram na glória
saberão interceder em favor de quem por elas rezou.
Nesse sentido, bem
cabe aqui a aplicação da parábola do administrador infiel (cf. Le 16, 1-8).
Este homem, ao perceber que perderia o emprego devido à má gestão nos negócios
de seu senhor, travou amizade com todos os devedores deste a fim de ser
sustentado por eles na hora da amargura e da necessidade, já que, por sua
avançada idade, carecia de forças para trabalhar. E, uma vez despedido, foi ele
amparado por todos aqueles de quem fraudulentamente aliviara a dívida. Nosso
Senhor não elogia o roubo do administrador, mas louva, isto sim, sua esperteza.
Hoje é, então, o dia
da esperteza! Devemos pedir por todos os que se encontram no Purgatório,
sobretudo os mais ligados a nós. Este ato de caridade nos renderá bons amigos,
que retribuirão em qualidade e quantidade o favor recebido e, por conseguinte,
muito nos ajudarão na hora da dificuldade.
III - DEVEMOS EVITAR A TODO CUSTO A PASSAGEM PELO PURGATÓRIO
Esta comemoração
também traz consigo um ensinamento de grande proveito espiritual, no qual
deitaremos a atenção, sem nos determos demasiado no amplo leque de leituras que
a Liturgia oferece neste dia.
A tragédia da morte
Todos nós somos
obrigados a enfrentar dificuldades e dores nesta vida, pois ninguém está isento
delas. O sofrimento suportado com resignação cristã tem um papel purificador,
corretivo, que faz dele como que um oitavo sacramento.21 Entre as muitas tribulações
há uma que, embora seja mera possibilidade quanto à data, de si é uma certeza
absoluta para todos: a morte. Com efeito, estamos na Terra apenas de passagem,
e nossa meta final é o Céu. Todavia, por ser esta uma verdade tão dura, custa-nos
mantê-la diante dos olhos, pois gostaríamos de transpor os umbrais da
eternidade sem suportar o trágico transe em que a alma se separa do corpo.
Com o intuito de
manter viva na mente dos fiéis tal realidade, Santo Afonso Maria de Ligório 22
recomendava que se representasse na imaginação o cadáver de um recém-falecido, e
se meditasse sobre o processo que se segue à morte: como o corpo é comido pelos
vermes, e até mesmo os ossos, com o tempo, se esfarelam e se convertem em pó. E
a situação, quanto ao corpo, de quem partiu deste mundo. Mas quantos já
“viajaram” e ainda não alcançaram a felicidade eterna, e estão penando no fogo
do Purgatório! É o que pode acontecer a qualquer um de nós hoje, amanhã ou mais
tarde: perde as forças, dá os últimos suspiros, percebe que a alma vai
abandonar o corpo, vê-lo-á como se fosse o de um terceiro, imóvel, inerte,
gelando... A seguir vem o juízo. Depois, para onde irá? Não sabemos. Para nós
mesmos é impossível, nesta vida, prever se vamos para o Purgatório ou não...
A seriedade do Purgatório
Ora, não pensemos
que, pelo fato de termos praticado este ou aquele ato bom ao longo da
existência, na hora do julgamento particular poderemos evitar o Purgatório com
um sorriso dirigido ao Juiz — o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo! —, que O
enternece e, esquecendo todas as nossas faltas, nos introduz na glória... Não é
o que Ele afirmou no Evangelho e está registrado nas Escrituras Sagradas, como,
por exemplo, no Livro da Sabedoria, em que encontramos inúmeras comparações
entre a morte do justo e a do ímpio (cf. Sb 3, 1-19; 4,16-20; 5, 14-15).
Portanto, se estamos
convictos da obrigação de orar pelas almas do Purgatório, mais ainda — segundo
reza o conhecido adágio popular: “a caridade começa pela própria casa” — necessitamos
nos convencer de que não basta temer apenas o inferno, pois é preciso temer
também o Purgatório. Para isto devemos, antes de tudo, eliminar a ideia de
irrelevância do pecado venial e tomá-lo a sério como Deus o toma, não só
esforçando-nos por manter o estado de graça, mas procurando a santidade com uma
perseverança cheia de vigilância, de amor e de receio de se aproximar das
ocasiões de pecado. Se uma amizade, certa situação ou programa de televisão me fazem
escorregar, hei de fugir, preferindo mortificar-me aqui a ter de padecer no
Purgatório. Quanto tempo, em meio a tormentos tremendos, poderá custar-me a
recusa de uma hora de sacrifício na Terra?
Alimentando nossa
alma pela fé, rumo à eternidade, esforcemo-nos para levar uma vida íntegra e
santa, de maneira a merecer ir direto para o Céu. Se, pelo contrário, não nos compenetrarmos
da perfeição que Deus exige de nós, quando morrermos — queira Deus que na sua
graça! — teremos de nos purificar no Purgatório.
A exigência da vigilância
Ao contar a parábola
das dez virgens — uma das opções de Evangelho que a Liturgia propõe para este
dia (Mt 25, 1-13) —, Nosso Senhor quis nos mostrar o quanto é preciso estar
preparado para a morte, pois ela vem na hora mais inesperada. Naquele tempo o
ato principal das festas de casamento era o ingresso da esposa na casa do
esposo. Rodeada de certo número de virgens suas amigas, aguardava ela o noivo,
que vinha com os amigos, para juntos iniciarem o solene cortejo até sua nova
moradia, em geral depois do pôr do Sol, à luz de lâmpadas e tochas, cantando e
tocando alegremente. Na narração evangélica as virgens prudentes, prevendo uma
eventual demora do noivo, guardaram uma provisão de azeite a fim de estarem com
as lâmpadas acesas à chegada deste; as outras, porém, gastaram todo o azeite e
suas lâmpadas estavam prestes a apagar-se quando o noivo foi anunciado, pelo que
suplicaram às primeiras lhes cedessem um pouco do que tinham. Mas as prudentes,
receando não ser suficiente para todas, negaram-no às companheiras. Eis uma
imagem a respeito da morte, face à qual cada um terá de arcar com sua própria
“provisão” de méritos, não podendo confiar na alheia. Ante Deus há uma responsabilidade
pessoal intransferível, da qual teremos de prestar contas. Se não agirmos como
devemos, poderemos escutar a terrível sentença do Juiz: “Não vos conheço!” (Mt
25, 12). E se Lhe perguntarmos o porquê dessas duras palavras, Ele nos
responderá: “Porque não vivestes de acordo com os meus princípios, a minha
mentalidade e os meus Mandamentos”.
A mesma mensagem nos
é transmitida em outra das leituras evangélicas para esta comemoração (Lc 12,
35-40): a parábola dos servos que aguardam a chegada do senhor. Jesus inicia
suas palavras recomendando: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas
acesas” (Lc 12, 35). A expressão “rins cingidos” é sinônimo de disponibilidade
para o serviço, já que, naquela época, os orientais recolhiam suas longas
túnicas não só para andar, mas também para servir à mesa. Em nosso caso,
trata-se de estarmos prontos para a prática da virtude da caridade. Quanto às
“lâmpadas acesas”, significa, mais uma vez, a importância de termos a atenção
muito viva e atilada para evitar as ocasiões próximas de pecado, bem como de
nos mantermos em espírito de oração. Permaneçamos como as virgens prudentes ou
como estes homens à espera do regresso do senhor de urna festa de casamento,
com a lamparina cheia de azeite, ou seja, sempre vigilantes, evitando tudo o
que possa nos conduzir ao Purgatório. “Vós também, ficai preparados! Porque o
Filho do Homem vai chegar na hora em que menos O esperardes” (Lc 12, 40).
IV - AO MESMO TEMPO, ESPERANÇA
Não devemos encarar a
morte como algo estritamente trágico, um drama para o qual não há solução, mas,
de acordo com a visualização da Igreja, como uma necessidade. A maneira da semente
que, segundo a expressão do Apóstolo, “não recobra vida, sem antes morrer” (I
Cor 15, 36), é preciso que em determinado momento o corpo repouse, à espera da
ressurreição. Se Jesus mesmo não tivesse morrido, o que seria de nós?
Os efeitos da Redenção
São Paulo, quiçá
tendo recebido uma revelação de Nosso Senhor, escreveu: “toda a criação geme e
sofre como que em dores de parto até o presente dia” (Rm 8, 22) para ser
“libertada do cativeiro da corrupção” (Rm 8, 21), através dos benefícios da Paixão
e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. De fato, a natureza foi marcada pelo
pecado de Adão e ainda não teve acesso, inteiramente, aos efeitos da Redenção,
porque estes estão retidos à espera do Juízo Final. Os teólogos, em especial
São Tomás de Aquino,23 comentam que no dia do Julgamento, depois da ressurreição
dos corpos, as mãos de Deus se abrirão e toda a natureza se rejubilará pelos
frutos da Redenção. Por exemplo, a Lua vai brilhar com mais claridade do que
antes do pecado original, e o Sol adquirirá maior fulgor, deitando sobre a Terra
uma luminosidade especial. Dado que a criatura humana é um microcosmos, a razão
mais profunda desta restauração está no fato de se encontrarem reunidos em
Jesus-Homem todos os planos da criação, como verdadeira síntese do universo,
n’Ele elevada a um grau altíssimo. E preciso, pois, que a matéria que Ele
assumiu, ao se encarnar, seja glorificada.
Esperança da ressurreição
Se a própria natureza
está gemendo à espera desse dia, porque não devemos gemer também nós? Pois,
embora já gozemos, por meio dos Sacramentos, de uma parcela dos efeitos da
Redenção que é a vida sobrenatural — “as primícias do Espírito” (Rm 8, 23a) de
que nos fala o Apóstolo —, aguardamos “a adoção, a redenção do nosso corpo” (Rm
8, 23b). Peregrinos neste vale de lágrimas, longe da pátria verdadeira, a todo momento
nos sobrevém a tentação, a provação e a angústia, e muitas vezes nos
perguntamos: “Quando iremos?”. Sabemos que, da mesma forma que a alma, nosso
corpo foi plasmado por Deus com vistas a durar eternamente, livre das contingências
— doenças, sono, fome, limitações — que nosso atual estado comporta, conforme
reza o Prefácio para os Fiéis Defuntos: “desfeito o nosso corpo mortal, nos é
dado, nos Céus, um corpo imperecível” 24
Em uma das numerosas
leituras a serem escolhidas para esta comemoração, São Paulo usa uma imagem
muito realista, comparando o corpo a uma tenda (cf. II Cor 5, 1.6-10), como as
que tinha de fabricar para seu próprio sustento (cf. At 18, 3). Exorta a não
nos preocuparmos se esta for destruída, porque Deus nos dará outra muito melhor
(cf. II Cor 5, 1). Como incansável apóstolo da Ressurreição, escreve também em
sua Primeira Carta aos Coríntios: “Semeado na corrupção, o corpo ressuscita
incorruptível; semeado no desprezo, ressuscita glorioso; semeado na fraqueza,
ressuscita vigoroso; semeado corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (I Cor
15, 42-44).
Com efeito, o corpo
glorioso gozará de quatro qualidades, a saber: claridade, impassibilidade,
agilidade e sutileza.25 E-nos permitido conjecturar que, graças a elas, o corpo
poderá fazer-se imperceptível no lugar em que quiser, passar através das substâncias
sólidas, deslocar-se como lhe aprouver à velocidade do pensamento... Além
disso, não necessitará do concurso de um alfaiate para se vestir, pois a roupa
será trabalhada pela própria imaginação, que terá equilíbrio perfeito, sem as
loucuras decorrentes do pecado.
A esperança de
recuperar o corpo deve alimentar nossa existência, dando-nos forças para
abandonar um prazer fugaz e ilícito, para evitar o pecado e praticar a virtude,
porque seremos altamente recompensados no dia da ressurreição da carne. Então
assistiremos, com estes mesmos olhos com que agora vemos, ao esplendor da
criação renovada.
Assim, embora o Dia de
Finados seja marcado com uma nota de tristeza pela ausência de quem já partiu,
é com alegria que rezamos por eles, se nos pusermos diante da perspectiva apresentada
pela Igreja: atravessados os trágicos umbrais da morte, todos nos encontraremos
no outro lado, num convívio de intimidade e júbilo extraordinários, até
retomarmos o corpo em estado de glória, com a ressurreição.
Peçamos a Nossa Senhora
da Boa Morte, bem como aos Santos e aos Anjos, que nos ajudem e obtenham o
favor de morrer na plenitude da graça que nos cabe, na plenitude do cumprimento
da nossa missão e na plenitude da nossa perfeição de alma e de vida espiritual,
de modo a nem sequer conhecer o Purgatório.
1) Cf. Dz 1672.
2) Cf. SAO TOMÁS DE
AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.87, a.1.
3) PAULO VI.
Indulgentiarum doctrina, n.2.
4) Cf. SAO TOMAS DE
AQUINO, op. cit., III, q.86, a.4, ad 3.
5) Cf.
GARRIGOULAGP.JJGE OP, Réginald. L ‘éternelle vie et la profondeur de l’âme. Paris:
Desclée de Brouwer, 1953, p.95.
6) PAULO VI,op. cit., n.8.
7) SAO TOMAS DE
AQUINO. Super Sent. LIV,
ap.l, a.2, ad 2.
8) Cf. Idem, a.1.
9) PAULO VI, op.
cit., 11.3.
10) Cf. LOUVET. Le Purgatoire d’après les révélations
des saints. 3.ed. Albi: Apprentis-orphelins, 1899, p.130-131.
11) Cf.
GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., p.232-233.
12) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO. Super Sent.
L.IV, ap.1, a.5.
13) Cf. Idem, a.2.
14) SANTO AGOSTINHO. Enarratio
in psalmum XXXVII, n.3. In: Obras. Madrid: BAC, 1964, v.XIX, p.654.
15) SAO TOMAS DE
AQUINO. Super Sent. L.IV, ap.I, a.3.
16) Cf. ROSSIGNOLI,
SJ, Grégoire. Les merveilles divines dans les âmes du Purgatoire. 2.ed.
Bordeaux: Barets, 1870, v.11, p.51-53.
17) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO. Super Sent.
L.IV, ap.1, a.4.
18) BENTO XV.
Incruentum altaris, de 10/8/1915.
19) Cf. SANTO
AGOSTINHO. De cura pro mortuis gerenda, XVIII, 22. In: Obras. Madrid: BAC,
1995, v.XL, p.473-474.
20) Cf. PÆNTTENTIARIA
APOSTOLICA Enchiridjon indulgentiarum. Concessiones 29. Pro fidelibus
defunctis, §1, 12e 2.
21) Cf. FABER, apud
CHAUTARD, OCSO, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: FTD, 1962,
p.112.
22) Cf. SANTO AFONSO
MARIA DE LIGORIO. Máximas eternas. Porto: Fonseca, 1946, p.7-8.
23) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO. Suma Teológica. Suppi., q.91, a l.
24) RITO DA MISSA.
Oração Eucarística: Prefácio dos Fiéis Defuntos, I. In: MISSAL ROMANO. Trad.
Portuguesa da 2a. edição típica para o Brasil realizada e publicada pela CNBB
com acréscimos aprovados pela Sé Apostólica. 9.ed. São Paulo: Paulus, 2004,
p.462.
25) Cf. SÃO TOMÁS DE
AQUINO. In SymbolumApostolorum. Art.11.
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