CONTINUAÇÃO DOS COMENTÁRIOS AO EVANGELHO Mt 16, 13-20 - XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO A
Eles esperavam um Messias temporal
Não devemos esquecer
que a classe mais alta da sociedade judaica era Constituída pelos saduceus e
fariseus, dois influentes partidos religiosos que se digladiavam. Enquanto os
primeiros, acomodados aos privilégios de que gozavam, pouco se preocupavam com
a vinda do Messias, os fariseus incutiam uma ideia equivocada no povo — de si muito
propenso a aceitá-la —, segundo a qual o principal objetivo do Salvador seria o
de promover a supremacia político-social e econômica de Israel sobre todas as
outras nações da Terra.
Ora, diversas
características apresentadas por Nosso Senhor não coincidiam com tal anseio.
Se, sob certo aspecto, Jesus superava as expectativas messiânicas, também é
verdade que várias vezes a opinião pública mostrava-se chocada em relação a Ele.
Quando — depois da multiplicação dos pães e de ter caminhado sobre as águas —
anunciou a Eucaristia, declarando: “Eu sou o pão vivo que
desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. Eo pão, que Eu hei de
dar, é a minha Carne para a salvação do mundo” (Jo 6, 51), os judeus se
escandalizaram, pois interpretaram suas palavras no sentido de canibalismo. Inclusive,
“desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com Ele”
(Jo 6, 66).
Nesta mesma ocasião o
Mestre perguntou aos Doze: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6, 67), como a
dizer: “a opinião pública abandonou-Me; não quereis segui-la?”. E São Pedro Lhe
respondeu: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo
6, 68). Tal reação indica que na mentalidade dos Apóstolos começava a se
configurar uma ideia mais acertada a respeito do Messias, graças à virtude da
fé que lhes estava alargando os horizontes interiores, pois, sem este auxilio
sobrenatural, as verdades reveladas — sobretudo as atinentes aos mais altos
mistérios de nossa Fé — não podem ser atingidas pela razão humana.
Bem outra, contudo,
foi a atitude dos fariseus e saduceus. Como não quiseram aceitar Nosso Senhor,
chegaram a acusá-Lo de exorcizar “por Beelzebul, chefe dos demônios” (Mt 12,
24), e terminaram por planejar a sua morte.
É nesta perspectiva
que analisaremos o episódio narrado por São Mateus, ocorrido por volta de uma
semana antes da Transfiguração de Jesus, no Monte Tabor (cf. Mt 17, 1; Mc 9, 2;
Lc 9, 28). A Paixão estava próxima e era preciso separar definitivamente os
Apóstolos da sinagoga — da qual eram membros fervorosos —, deixando-lhes claro
que a instituição que Ele vinha fundar levaria aquela à plenitude e seria a realização
de todas as profecias da Antiga Lei.
II - A PROMESSA DA FUNDAÇÃO DA IGREJA
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e
ali perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”
Partindo de Betsaida,
onde havia curado um cego (cf. Mc 8, 22-26), Nosso Senhor Se dirigiu com os
discípulos a Cesareia de Filipe, cidade situada a uns 50 km de
distância, num território de exuberante beleza natural, situado ao norte da
Palestina. Herodes — chamado o Grande — havia ali edificado um templo destinado
ao culto de César Augusto, e mais tarde, quando Filipe se tornou tetrarca da
região, deu à localidade o nome de Cesareia, para angariar as simpatias do
imperador.2 E provável que a cena descrita nesses versículos tenha se dado à
vista daquele edifício pagão, o qual se erguia no alto de um rochedo, dominando
o panorama.3
Um método para formar os Apóstolos
Na pergunta formulada
pelo Divino Mestre podemos entrever o interessante método empregado para formar
os Apóstolos. Estes foram comprovando por si, ao ouvirem as pregações e
presenciarem os milagres, o quanto Ele era um Mestre incomum. Entretanto, se
não houvesse uma revelação eles jamais cogitariam ser Jesus o próprio Deus! Nem
sequer os Anjos, no estado de prova, chegariam a esta conclusão por si mesmos,
pois o mistério da união hipostática é algo que escapa completamente não só à
inteligência humana, como também à angélica.4 Os demônios não tinham, por isso,
uma noção clara a respeito da divindade de Cristo.5
Ademais, ao Se encarnar
no seio puríssimo de Maria, Nosso Senhor fez o milagre negativo de assumir um
corpo padecente. Do contrário, este seria glorioso, em inteira consonância com
sua Alma, a qual gozava da visão beatífica desde o primeiro instante de sua
criação. Deste modo, velava aos olhos dos homens os fulgores de sua divindade,
não permitindo que eles percebessem com clareza quem Ele era: a Segunda Pessoa
da Santíssima Trindade, igual ao Pai e ao Espírito Santo. A tal ponto que, na
Ultima Ceia, São Filipe ainda pede a Jesus para lhes mostrar o Pai, e recebe
d’Ele esta resposta: “Há tanto tempo que estou convoco e não Me conheceste,
Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai” (Jo 14, 9).
Sendo Ele a Humildade
e a Prudência, nada disse a esse respeito desde o início, ao convocar os
discípulos a segui-Lo. Agora, porém, uma vez que eles estavam
impregnados e pervadidos de provas, o Salvador quer levá-los a conhecer este
mistério. Era o momento de introduzir os Apóstolos na perspectiva da divindade d’Ele.
E interessante notar que, ao questioná-los sobre o parecer popular, Jesus não
usa expressões como “de Mim” ou “de minha Pessoa”, e sim “do Filho do Homem”.
Por quê? Porque o povo tinha uma opinião sobre o Filho do Homem e não a
respeito d’Ele, que é Deus, da Pessoa d’Ele, que é divina. Por conseguinte,
Nosso Senhor quer chamar a atenção dos Apóstolos para a consideração que o povo
dava à sua natureza humana, a fim de demovê-los desse juízo errado e
manifestar-lhes quem Ele é.
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